quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

De fora a fora, um punhal na egotrip

domingo, 28 de dezembro de 2008

Férias até dia 02/01/2009

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Automóveis?

Realmente não entendo quando os jornais dizem que o governo vai ajudar a indústria automobilística a sair do sufoco injetando bilhões. É mais ou menos com dizer: "O verão deste ano vai bater os 40 graus no Rio, e o governo continua injetando milhões na indústria de lã, incentivando o carioca a usar cachecol na praia". A meu ver a questão não é salvar uma Fiat, uma Volks. A questão é entender que o carro, para o fim que foi dado, pelo menos nas grandes metrópoles, não cumpre mais o seu papel.  Se a função é deslocar-se pra lá e pra cá numa velocidade incrivelmente maior a que alcançamos andando, já era, porque na hora do rush, é bem possível que a pé, você chegue antes em casa. Como continuar a incentivar uma indústria que já saturou? Que não faz mais sentido? Seis milhões de veículos em São Paulo. Parou! Travou! Colapso! Por que não usar toda esta grana para pensar numa maneira gradativa de remanejar os trabalhadores do setor? Usar todo este aço em metrô, plataformas, a borracha do pneu no asfalto. Achar com urgência alternativas para o transporte público? Colocar na cabeça que a era do automóvel, da maneira como se dá, acabou. Simplesmente porque o planeta não comporta mais. Bom, mas e o status? Que todo mundo quer ter o seu carrinho para tirar uma chinfra isto é fato. Mas acredito que mesmo o tempo tratará de enferrujar o desejo de se ter um. Basta olhar, numa avenida como a Av. Rebouças, na hora do rush, a cara de banana dos motoristas enquanto avançam 2,3 km por hora. Alguns fumam, falam ao celular, coçam o saco, mas a maioria encosta o braço na janela e olha pro teto, com cara de cu, pagando 60 parcelas de R$ 600,00 + impostos para ficar parado. Bela compra! Quitou seu apartamento?
Por mais que injetem grana, uma hora a população percebe que a coisa degringolou e precisa de mudança. Por mais preciso que os comerciais sejam na sua lavagem cerebral. Claro. Se a Globo fizer uma campanha nacional de uso de cachecol no verão, vai ter carioca achando lindo aquela coisa de lã enrolada no pescoço para entrar no mar de Ipanema. Caetano pode até fazer outra versão de Menino do rio. Mas logo todo mundo tira e troca pela canga, boné, fio dental. O mesmo acontece com o carro. Ele vai começar a ficar na garagem, as bicicletas vão sair, e ninguém mais vai querer ficar no frenesi de trocar por um zero KM todo ano. Já pensou se trocássemos o status do carro pelo culto ao corpo saudável. Que as mulheres olhassem não para um carrão, mas para o cara bem dormido, boa postura, bebendo seu suco de acerola no parque, sorriso lago, bicicleta ao lado. Grande mudança de paradigma. Não aconteceu com o cigarro? Fumar não era chique? A questão é como mudar. Milhões de trabalhadores do setor vão se foder? Vão. Talvez se eu fosse um deles não estaria escrevendo este texto. Mas o que adianta alguém dizer: Caminhe até o precipício e pule, eu pago suas contas até você chegar lá.   Mais ou menos o que acontece com os metalúrgicos do ABC. Eles querem seus postos a qualquer preço, mas produzindo cachecol para o verão carioca.
Sustentabilidade com responsabilidade socioambiental. Etanol. Dar de beber a uma frota com sede. Parada com o motor ligado. O que adianta foder com a Amazônia, avançar a fronteira agrícola produzindo biocombustível para fazer lã no verão. A gente só tira o cachecol quando o frio aperta. Use a mesma lógica na sua garagem.
A indústria de automóveis parace um grande ditador que perde a guerra. Manda as tropas avançarem até o último homem, e quando tudo está perdido, mete um balaço na cabeça.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caixa de Bombons

 Lúcia não queria casar tão cedo e continuava a morar com os pais. Dizia que a idade boa pra isso é 34, 35 anos. Não menos. As amigas achavam que ela estava maluca. Que nesta idade já se tem filho grandinho na escola. Mas ela se defendia. Dizia que esperaria pelo homem ideal, que seus poucos namorados não deram prova alguma de merecimento do cargo, que ela não entraria, como muitas, no desespero. 

  Lúcia se achava uma mulher interessante. E, dentro do possível, realmente o era. Mergulhada nas suas convicções, gostava mesmo é de tirar sarro do desespero das amigas. Elas faziam de tudo pelos homens, disputavam às unhadas quem macho passasse na linha de tiro. Lúcia dizia a si mesmo: "Fracas, dependentes, tudo em nome da carência".

  Verdade seja dita, Lúcia não se importava muito de ficar sozinha. Tinha lá os seus consolos pra segurar a barra. Guardava seus brinquedinhos de borracha, réplica perfeita do verdadeiro, numa caixa metálica de bombons franceses, toda decorada de carrosséis. Nunca desconfiariam que atrás de alguns livros da estante do quarto, toda manhã, antes mesmo do café, retirava cuidadosamente aquele Grandes Sertões: Veredas pra apanhar sua caixa. Com cuidado, levava até a cabeceira, fechava as cortinas e deixava só a luz do abajur sossegar. Eram 20 minutos de deleite em gemidos contidos. A gaveta do criado-mudo sempre cheia de pilhas duracell e uma lixa de unha que servia pra raspar no aparelho, os contatos sempre oxidados pelas baterias. Então voltava a cochilar mais 1 hora, leve como pluma, antes de finalmente levantar. E que café da manhã. Aquele seu ritual na cama fazia ela esquecer de tudo, de todos e abria seu apetite como se numa longa noite de amor. Gostava de mel, fritava dois ovos.

  Bom, o tempo foi passando e Lúcia percebendo que as coisas não mudavam - pelo menos não enquanto ela não mudasse. Sua teoria era de que com o tempo toda sua auto-suficiência serviria de isca pros homens. Que eles sentiriam nela uma aura de integridade, e que ficariam perdidamente apaixonados por aquela sua personalidade forte. E Lúcia freqüentava bares descolados, livrarias tchapitchuras, mas nada de aparecer alguém com uma cantada que fizesse jus ao seu alento. Então voltava pra casa e mergulhava num banho seguido de boa leitura na cama. Lia vinte páginas e não vinha o sono. Então levantava atrás da sua caixa de bombons franceses. Muitas vezes, depois de guardar a caixa atrás dos livros, já saciada, esboçava um choro contido, batia uma aflição que lhe esquentava o corpo, se olhava no espelho, abria a janela, sentia o mundo correr sem ela e muitas vezes culpava a caixa de bombons por tudo aquilo. Noites de insônia.

  Lúcia decidiu mudar. Como dizem por aí, fazer uma mudança radical. Pintou cabelo, fez luzes e resolveu se dar um banho de loja. Foi numa daquelas tendas indianas, feiras descoladas de sábado, e comprou uma calça estampada de elefantes. Tecido leve, dessas folgadas na perna, mas que no andar ao vento, deflagram a qualidade e formato do derrière. Apesar de ter os traços fortes, e de não se achar bonita, sabia dos seus potenciais, como toda mulher. As amigas já notavam a diferença e começaram a especular o porquê daquela sensível transformação. Lúcia, antes tão recatada, dos trajes opacos, sem mostrar o corpo, agora trazia um tom sobre tom casual, cores suaves, tudo de muito bom gosto.

  Mas justamente por este seu temperamento forte que ela não dava o braço a torcer. Não iria, de forma alguma, flertar descaradamente. No máximo uma olhadela, uma espera pelo interesse, nunca digladiar olhares numa paquera. A calça indiana até que chamava a atenção, mas não era o suficiente pra levar ao bote. Sua calça indiana era roupa de primeira comunhão pros jovens de hoje.

  As conversas com as amigas já tinham outro tom. Se antes Lúcia achava o maior besteirol ficar falando de homem, agora ela já estava antenada nas histórias. As solteiras contavam o desempenho dos casinhos; as casadas de como eles engordam. E toda vez que Lúcia voltava pra casa, tirava sua calça indiana, tomava sua ducha e afastava os dois livros atrás da sua caixinha de bombons. Era sua morfina. Ali ela tirava um pouco da culpa por não encontrar, que fosse, um cafajeste qualquer, e alimentava sua procura pelo cara ideal.

  Mas o tempo salivava. Sete, oito meses e nada de encontrar o prometido. As amigas a sentiam meio abatida, sempre em casa lendo, sozinha, e acabou por uma delas, Sheila, perguntar a quanto tempo ela não fazia. Lúcia ficou vermelha, pensou mentir, mas acabou por contar que logo mais completaria um ano de estiagem. Pasmaram. Todas ali eram bem resolvidas, uma semana sem já era preocupante, e de repente Lúcia se revela. Sheila, a mais burrinha de todas, pra lá de insensível, falou que aquilo era o mesmo que ficar um ano com prisão de ventre. Ajudou. Kátia, mais esclarecida, disse que ela deveria sair mais, procurar as pessoas, que via um embrutecimento muito grande causado por traumas de paixões antigas e que não iria ajudar em nada ficar daquele jeito; ela tinha de se abrir, estar aberta para novas oportunidades. Lúcia, pra se proteger, manteve o discurso de que trabalhava muito, que não tinha tempo pra namorar, que ela queria crescer profissionalmente e que um relacionamento, agora, iria prejudicar a atenção dada ao lavoro.
Mas os meses iam se passando, e cada vez mais Lúcia era convidada pro cerimonial de alguma amiga. Agora o grande mal era acompanhar um casamento. Antes, a maioria namorava, no máximo morava junto. Mas de um tempo pra cá suas amigas de faculdade, de colégio, vinham casando, uma atrás da outra. Às vezes ela era convocada pra ser madrinha, noutras simplesmente participava da cerimônia. E a cada casamento, a cada benção do padre, a cada dedo na aliança, sentia suas mãos suarem e vinha um medo abissal, algo que tomava sua mente com os dizeres "Vai ficar pra tia, vai ficar pra titia". Lúcia começou a lutar pelos buquês que as amigas lançavam. Chegava a se jogar no chão com as outras desesperadas, e sempre ficava de olho em algum solteirão dando sopa nas festas depois da igreja. Foi numa dessas baladas, em plena pista de dança, que Lúcia cruzou olhares com Raul. Ela já meio bebinha das suas cinco, seis taças de champagne, misturou com vinho branco e já não podia, como antes, conter seus olhares. O desespero por alguém fez do álcool o fim das rédeas. Lúcia agora estava dada ao galope. Raul, do cavanhaque George Michael, sentindo a vulnerabilidade da moça, aproveitou para fitá-la sem descanso. Quando percebeu a constante recíproca, veio como quem não quer nada e puxou logo papo. Frivolidades. Lúcia era só sorrisos. As amigas se cutucavam umas as outras pra não deixar passar em branco o grande acontecimento, talvez até maior que o próprio casamento do dia: Lúcia estava sendo cortejada. 

  Mas no tempo de falar alguma coisa no ouvido, Raul avançou e tentou um beijo no pescoço, um lance meio precipitado. Lúcia, em meio ao seu longo período de ferrugem, assustou, e pediu que ele se afastasse. Ela então saiu da pista, talvez um pouco raivosa, e Raul veio, às mil desculpas, tentando a pegar pelas mãos - neste momento havia quase meia festa acompanhando o caso. 

  Já no canto do salão, Raul se declarou. Que ela era linda, que ele não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, mas que era real, era amor e papapapapapá, popopopopopó, toda uma ladainha, famigerado xaveco. Lúcia, ainda que pra completar um ano sem, desdenhou. Disse que ele não fazia seu tipo, que ele tinha cara de cafa, que sabia do seu passado negro quando agarrou duas primas ao mesmo tempo numa festa no Jardim Botânico e que não estava a fim de homem galinha. Raul não esperava que ela soubesse de tanto e ficou sem palavras. Foi o ponto final. Gaguejou, fraquejou e consentiu no silêncio toda a verdade da história. Ela pegou sua bolsa, algumas flores e se foi com o último bonde pra casa. 

  Raul, desesperado, interrompeu a dança de Sheila com o noivo para pedir o telefone de Lúcia. Anotou num guardanapo. 

  Manhã seguinte, na ressaca, Lúcia se desesperou. Percebeu que tinha desperdiçado uma chance. Fechava os olhos e via Raul, o roçar daquele cavanhaque. Sentiu novamente aquela sensação ruim de carência, de querer abraçar alguém e num acesso de fúria, ao fim de mais uma sessão com a caixa de bombons, arremessou-a, sem pensar, pela janela. A caixa, ainda no ar, se abriu e foi tampa pra lá, brinquedo pra cá, até que se estatelaram no paralelepípedo da rua. O brinquedo de borracha ainda quicou duas vezes. Fez-se aquela roda de gente. Lúcia, ainda ofegante, fechou a janela e agachou quietinha, para que ninguém a visse, nem de onde tinha voado todo aquele aparato. Neste instante tocou o telefone. Lúcia disse a si mesmo que não atenderia, continuou agachada. O telefone insistiu, insistiu, até que alguém atendeu da sala. Logo ela escutou sua mãe na porta do quarto, era um moço na linha. Ainda agachada, engatinhando para fugir da janela, puxou do gancho. Era Raul. Lúcia o tratou com toda a delicadeza desse mundo.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Boa estória bem contada

por Robert Mckee - Story - editora arte & letra

Uma estória bem contada significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir. O que dizer você terá que descobrir sozinho. Ela começa com talento. Você precisa nascer com o poder criativo para juntar idéias de uma maneira que ninguém nunca sonhou. Depois, você precisa trazer ao trabalho uma visão dirigida por um novo panorama sobre a natureza humana e a sociedade, acasalada com um profundo conhecimento de seus personagens e seu mundo.

Você deve escrever e suportar a solidão. Sua meta deve ser uma boa estória bem contada.

Assim como um compositor deve atingir excelência nos princípios da composição musical, você também precisa dominar os princípios correspondentes da composição da estória. Essa arte não é mecânica  nem macete. É um concerto de técnicas pelas quais criamos uma intriga de interesses entre nós e o público. A arte é a soma final de todos os meios pelos quais deixamos o público profundamente envolvidos, mantemos este envolvimento e, finalmente, recompensamo-nos com uma experiência comovente e significativa.

Sem a perícia na arte, o melhor que um escritor pode fazer é apanhar a primeira idéia que vem em sua cabeça, e daí sentar desamparado em frente ao próprio trabalho, sem poder responder `as terríveis questões: "está bom? Ou está um lixo? E se está um lixo, o que eu faço?" O lado consciente da mente, fixada nessas terríveis questões, bloqueia o subconsciente. Mas quando o consciente é posto para trabalhar na tarefa objetiva de executar a arte, o espontâneo emerge. A perícia na arte libera o subconsciente.

Qual é o ritmo do dia de um escritor? Primeiro, você entra no seu mundo imaginário. Enquanto as personagens falam e atuam, você escreve. Qual é a próxima coisa a fazer? Você sai de sua fantasia e lê o que escreveu. E o que você faz quando lê? Analisa. "Isto é bom? Isso funciona? Por que não? Devo cortar? Adiciona? Reordenar?" Você escreve, você lê; cria, critica; impulso, lógica; cérebro direito, esquerdo; re-imagina, reescreve. E a qualidade de sua escrita, a possibilidade de perfeição, depende de seu comando da arte que lhe guia para corrigir a imperfeição. Um artista nunca deve estar `a mercê dos caprichos do impulso; ele voluntarialmente exercita sua arte para criar harmonias de instinto e idéia.

O escritor deve ganhar a vida escrevendo

Escrever enquanto se trabalha quarenta horas por semana é possível. Milhares já o fizeram. Mas com o tempo, vem a exaustão, a concentração vai embora, a criatividade se desintegra e você é tentado a desistir. Antes que isso aconteça, você precisa descobrir uma maneira de fazer da escrita seu ganha-pão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Queria eu poder

Para que lado correr? Não tem mais por onde.
Um rato no labirinto de acrílico. Saídas A, B, C e D.
Ele sai na D. Errou. Choque do Cientista. Luz da lanterna dilata as pupilas.
De volta ao lar. Uma pequena caixa com ração e um chumaço de palha.
Peso de 2 kg em cada mão, ele se vê no espelho do quarto e um, dois, três, - com raiva - na tentativa equivocada de privar o tempo que se acelera cada vez mais com a angústia e engraxa olheiras, salpica caspas - é natal - nos ombros curvados. Não adianta rir de manhã, nem ir comprar pão como se nada tivesse acontecido. As pessoas percebem. Muitas delas passaram por isso.
Por um tempo a realidade fora arquivada num ritual prazeiroso.
As doses cada vez maiores – cavalares - do torpor gozo, chorando o leite derramado nos lençóis da tia, no travesseiro da prima, no tapete de borracha do carro.
Um serial de picadas de najas e cascavéis, víboras em geral, paralisia, a sensação do veneno nas entranhas trava as articulações, espasmos nas falanges. Olhos virados, boca seca, abdomén contraído. Sentir. Nada melhor do que se blindar consumindo prazer incessantemente, sem dar brechas para a dor.
O prazer encontra a ladeira e desce skate slide pegando um landau no cruzamento. O céu azul naquela posição, ralado no asfalto, perde propriedades. Hora de pensar. Menino pode se divertir, você não meu velho. Não existe mais lugar para o tal menino que você é e deseja permanecer sendo. Game is Over. Its over, baby. Um tapinha no ombro não melhora as coisas, te faz coitado isto sim. E passa uma BMW. Como ele conseguiu?
Queria ter tido a exata noção do meu caminho aos 20 anos, não com 30 no desespero.
Teria sido muito mais fácil. Um pendrive na medula pisca como todas estas informações, só que dez anos atrás. E tem quem tenha, aos quinze. 32 GB.
Amadurecer jovem, com tempo para maturar escolhas, sem sofrer tanto para chegar onde elas estão. O caminho no cangaço. Cavalo sem cela, mandacaru por todo lado. O podre começa a feder.
Não ter que errar tanto. A ponto quase de desistir.
Agora é tarde. Pela primeira vez me bate a idéia da idade, envelhecer. Aos meus olhos mudar me parece uma manobra gigantesca.
Talvez não exista saída, por mais que se tente.
A única chance não é tentar, e sim conseguir.
Fracassar é morrer. E se não vem a coragem de se matar
Vegetar com a vergonha do fracasso é morrer lentamente.
A água bateu na bunda.
A bunda na água.
A cabeça no teto.
Nem um copo d’água.
Nem um cafuné.
Melhor que seja agora.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Menino do Rio

Leandro. O típico garoto classe média de Ipanema dos anos 1990. Forjado a danoninho e televisão a cabo pelos pais numa incessante preocupação de emplacar o filho como um adulto capaz de se estabelecer dentro dos interesses da elite carioca, o garoto tem uma infância e adolescência provida de todo conforto. Frequenta a melhor escola da zona sul, surfa no arpoador em dia de semana, fuma baseado nas pedras no tempo de cabular a aula de inglês, garimpa com os amigos cheirosas na danceteria, se embebeda de férias e viagens ao exterior pagas pelos pais. Da grana fácil na mão para um cinema, restaurante, o carro do pai, tanque cheio, sempre, Leandro fica cada vez mais distante de uma noção de luta pela sobrevivência. O quarto dele, refrigerado pelo consul 10.000 btus, é forrado de fotos da galera na praia, na cachoeira, pôr do sol alucinante, na praça de alimentação do shopping, na Disney show de fogos abraçado ao Mickey e Pateta, os adesivos de marca na janela, roupas de grife no armário, dobradas cuidadosamente, coleção de miniaturas de carro na estante, entre os gibis, Playboys e Fluir, da pasta de dente Crest e perfume francês no banheiro, gameboy, os oito pares de nike e pumas, a carteira da Oskley, os Cds de rock fácil, Leandro vive a redoma e não enxerga um palmo fora da bolha que lhe foi dada e cuidadosamente soprada para flutuar assim. Uma visão esteotipada e elitista conforta e assegura seus interesses, o que exclui qualquer possibilidade de entrada de estranhos, pretos e mulatos aos serviços de alto padrão do gueto.
Leandro cresceu, virou um garotão bonito que gosta de academia, do açaí no fim do dia, da corrente prata no pulso direito, da sua tatuagem de albatroz no dorso. Tudo como manda o figurino.
Mas o mundo dá voltas e surpreende a todo instante, sem distinção de raça, classe, cor, credo. Quebra regras, dilascera paradigmas, fode esquemas. No exato instante em que Leandro termina o terceiro colegial, que se prepara folgado pra curtir um ano de praia antes de optar por uma carreira, seu pai, Luís, investidor da bolsa de valores e dono de uma revenda de automóveis, aparece em casa com péssimas notícias. As ações com a crise viraram pó e as vendas de carro zero não cobrem os custos com pessoal e peças. O pai quebrou e com medo de abalar a o ego da família sustentou a mentira até o limite, queimando as reservas para manter o patamar de vida. Foi a centelha da bala na agulha. A realidade conseguiu sua brecha e inoculou a redoma de desgraça. Leandro muito rapidamente percebe que toda aquela segurança se espatifou como um vaso de porcelana no espelho de casa, tudo rachou, inclusive sua imagem de mundo, das pessoas.
Os planos de passar um ano com os pés para o ar são definitivamente suspensos. Leandro entra no desespero de procurar um emprego que lhe garanta um pacote mínimo de conforto compatível com seu antigo status quo. Resolve prestar concurso público, na busca por um emprego seguro. Sabe da dificuldade da prova e resolve estudar como nunca. Ele tem a seu favor o medo do abismo. A possibilidade de fracassar e viver uma vida contada, sem todo o anteparo que sorvia na adolescência, é a força motor que o impulsiona a sentar doze horas por dia decorando leis e cláusulas. Não adianta alguém chamar para uma praia ou aquele chope no boteco. Leandro só levanta ao final do dia para ir `a academia, onde malha, puxa o supino em séries de 15 com força, numa tentativa de anular a dor das perdas com peitos e braços marombados.
Em meio `as tentativas da família de colar os cacos, Leandro faz a prova e passa. Vira auditor fiscal do Ministério do Trabalho. O grande orgulho da família. Apesar do bom salário ele, que nunca teve que ajudar ninguém, pelo contrário, só recebeu, passa a colaborar com as despesas da casa, quantia que morde bonito seu olerite. Mas o pacote é maior. A manobra do titanic fica cada vez mais difícil. A namorada que antes só exigia o sorvete, o sushi, agora cobra um noivado, a possibilidade de casar, encarar um aluguel, filhos. Leandro não aguenta a pressão da noiva, que beira os trinta anos e está louca por um filho. A verdade é que ele não sabe muito bem se é a mulher certa, principalmente porque ela foi a primeira, o grande amor, e agora com uma autonomia de grana, sua vontade é curtir, conhecer outras mulheres, antes de decidir se ela realmente é a tal.
O trabalho no Ministério é tranquilo. Leandro não bate ponto, trabalha por pontuação, pelo número de empresas visitadas e autuadas num mês. Logo vem a rotina, o marasmo, a falta de motivação. Época de questinamentos, se ele não deveria ter aceito a oferta do amigo para ser corretor de imóveis de luxo no Leblon e São Conrado, ganhando mais, fazendo o que gosta. Agora é tarde.
Surge a possibilidade de entrar numa viagem do grupo móvel do Ministério do Trabalho. Consiste numa equipe de auditores, que junto com um procurador do ministério público sob a escolta da Polícia federal, dá flagrante em fazendas com trabalho escravo. Para Leandro aquilo soa aventura, mais do que qualquer outra coisa. Um misto de Armação Ilimitada com Robin Hood, a chance de sair daquele marasmo das visitas nas empresas da baixada fluminense. Ele aceita e se candidata a voluntário.
A primeira viagem é para Mato Grosso, onde as usinas de cana, em época de queima, recrutam hordas de famintos pelo nordeste e norte do país prometendo trabalho. Os trabalhadores chegam ao campo através do gato, homem que um dia já foi cortador de cana e subiu na vida. Ele faz o transporte dos homens, contrata e supervisiona o trabalho, sem que o fazendeiro arque com as responsabilidades pelas condições dos cortadores. Chega uma denúncia anônima ao Ministério de que em algumas usinas, o trabalho é degradante, e as condições de segurança, precárias. Leandro é chamado. Lá se vai o garoto de praia mergulhar no abismo social, cego como um cachorro com glaucoma.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Abertas as inscrições para “É Tudo Verdade”

Estão abertas as inscrições para o É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. A 14ª edição do festival, que acontecerá de 25 de março a 6 de abril em São Paulo e no Rio de Janeiro, recebe inscrições de filmes nacionais até o dia 4 de dezembro e de internacionais até o dia 7 de dezembro. Serão aceitas produções finalizadas a partir de junho de 2007 em filmes de 16mm e 35mm, vídeo Betacam (NTSC) e Dvcam.
Fonte: Tela Viva, 27/10, nota

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Modo de andar revela histórico de orgasmos da mulher, diz estudo

da Folha Online e Bangalô News

Um estudo realizado por pesquisadores da Escócia e da Bélgica indica que o modo de andar dá indicações sobre o histórico de orgasmos de uma mulher. A pesquisa, publicada na revista "Journal of Sexual Medicine", indica que especialistas em sexualidade podem fazer a análise desses orgasmos apenas ao ver as mulheres andando.
O estudo foi realizado pela University of the West of Scotland, em colaboração com especialistas da Bélgica.
De acordo com o blog especializado em ciência Scientificblogging.com, a pesquisa analisou 16 estudantes universitárias, que preencheram um questionário sobre sua vida sexual e foram filmadas à distância andando em locais públicos.
As fitas foram vistas por quatro especialistas, que não tinham visto o questionário das universitárias. No final, a pesquisa detectou que os especialistas conseguiam deduzir o orgasmo das mulheres apenas ao ver as imagens, com 80% de acerto. O estudo também indica que a soma de passos largos e rotação da vértebra facilitava o orgasmo das mulheres.
Entre as explicações para o fenômeno estão características anatômicas, a confiança que mulheres demonstram ao andar ou a saúde mental delas.
Para os autores, o estudo mostra indícios da ligação entre bloqueios musculares e a atividade sexual. Eles dizem que isso mostra a importância de tratamentos que envolvam movimentos e atividades musculares para tratar a disfunção sexual.
Já para o Dr. Wallace Large Umbrella, da Universidade do Congo, membro do conselho Long Cock Institute, mestrado em Biodança e Heinch, os bloqueios musculares são causados pela incompetência dos machos durante a cópula. Todas as alunas que fizeram intercâmbio na faculdade em que Dr Wallace leciona, voltaram com vigorosa postura corporal. O coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que esteve no Congo a convite de Umbrella, acredita que os homens africanos sejam fundamentais para a manutenção da vida sexual das mulheres.

Homens detectam traição melhor do que mulheres, diz estudo

da Bangalô News


Um estudo realizado por pesquisadores norte-americanos sugere que homens detectam a traição com mais facilidade do que as mulheres. A equipe, da Virginia Commonwealth University, na Virgínia, afirma ainda que os homens são mais desconfiados da infidelidade, mesmo quando não estão sendo traídos.
O pesquisador Paul Andrews e uma equipe de especialistas entrevistaram 203 casais heterossexuais com questionários confidenciais. Eles perguntaram aos voluntários se eles já haviam sido infiéis e se suspeitavam ou sabiam que haviam sido traídos. Entre os homens, 29% admitiram já ter traído. Entre as mulheres, o índice foi de 18,5%.
O estudo, reproduzido pela revista científica "New Scientist", concluiu que, além de trair mais, os homens também são mais espertos para captar sinais de infidelidade.
Eles detectaram 75% dos casos de traição, enquanto as mulheres identificaram apenas 41%. Além disso, eles também apresentaram uma tendência maior de desconfiar das parceiras, mesmo quando elas não eram infiéis.
Para Paul Andrews, esse comportamento tem uma explicação evolutiva, já que, ao contrário das mulheres, os homens nunca podem ter 100% de certeza sobre a paternidade de seus filhos. "Quando a mulher é infiel, o homem pode perder a oportunidade de reproduzir, e acabar investindo seus recursos para criar uma prole de outro homem", diz o pesquisador.
Em entrevista à "New Scientist", David Buss, da Universidade do Texas, diz que o estudo contribui para a teoria de que os homens desenvolveram defesas para detectar a traição, "o que os leva a ser mais cautelosos ao superestimar a infidelidade de suas parceiras".
Já para Hadad Ulkmanien, indiano com mestrado em Técnicas de Pompoarismo pela Loads Cum University, quando a mulher detecta e escolhe o provedor, ela entra em hipnosis fidelis, sendo remota a possibilidade de traição. É exatamente nesta instância que o provedor sente que prendeu a fêmea, que a prole com ela está garantida, e passa a se aventurar com outras.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Saga da Pétala de Ouro (primeira parte)


Corria o boato que na região de Serra Pelada o ouro voltou a aparecer. Passada aquela febre de mundos e fundos dos anos 1980, em que um formigueiro de 60 mil homens conseguiu extrair na unha 13 toneladas do metal ao ano, o lugar entrou em franca decadência, deixando `as moscas uma horda faminta de garimpeiros. Nas cidades fantasmas, os que ficaram sem ter como voltar pra casa passaram a viver de biscates, trambiques e algumas gramas de ouro achadas aqui acolá, o suficiente pra comprar óleo de cozinha, sabonete e, num momento de estravagância, nacos de charque. A cratera escavada encheu d’água, restou o silêncio melancólico, o céu dos urubus em círculo sobre algum boi morto atolado, as carcaças das bombas de sucção enferrujadas, fiação descascada, cobre retorcido, frascos e mais frascos de remédios amostra grátis, antibióticos, misturados na folhagem rasteira junto a palha de milho, espigas secas, galinhas depenadas, cachorros pêlo falho com a costela aparente, tudo ao som estridente das cigarras, que agarradas nas poucas castanheiras de uma floresta em pó, anunciam o fim das chuvas tropicais, sem se tocar que a exuberância verde se foi, restando o vazio ocre desenhado por aquele que se diz superior, sensível, polegar-opositor.

Eu morava em São Paulo, na labuta prazer grau zero de dois empregos, sem nenhuma perspectiva em vista. Meu bacharelado em Ciências Sociais nunca rendeu porras de nada. Me formei mais pela aflição de ter um canudo e ver alguma felicidade no rosto do meu pai. A cada aula um martírio, entrevistas e mais entrevistas, mandei meu curriculum para milhares de empresas, nada. O máximo que consegui foi passar por uma seleção e cair numa dinâmica de grupo. Catástrofe. Me levantei e fui embora quando a psicóloga do RH anunciou que o grupo deveria fazer um círculo e jogar escravos de jó. E assim fui, como a garrafa ao mar que morre na praia, levado, até por não me aprofundar na carreira (o que garantiria uma bela mamada na teta do Estado como professor ou bolsista), a ser barman durante a noite num night club ajeitado e durante a tarde, com o sono atrasado, administrava a academia de um conhecido meu, dono do cartório do bairro, vendo boy marombado. Ainda assim tinha forças para tirar um troco dando aulas de inglês, iniciantes e intermediários. Survival.

De início achei que fossem bicos temporários, mas a inépcia e crítica ácida aos trabalhos oferecidos fizeram-me perecer num patamar muito aquém das minhas faculdades. Parece que as classes mais abastadas conseguem fazer do pobre um eterno mergulhador na merda. Não existe a menor chance. Todas as possibilidades ficam na mão dos bacanas, dos filhos de doutor, da blindada teia de contatos que a elite monta para deixar os sem sobrenome fora da lista do banquete. O pobre, que não tem nenhum conhecido quente, advogado, médico, publicitário, e só conhece o dono do boteco com bilhar, para se infiltrar nessas, só com muita sorte, estudo e algum interesse de quem manda. Acredito que meu grande problema sempre foi pensar demais e agir de menos. Talvez tenha sido um erro fazer a faculdade e me interessar pelos livros, por literatura. Se fosse como os outros, que executam ordens sem grandes sonhos, resolvidos na alienação e mediocridade, a dor fosse menor. Infelizmente tive acesso aos estudos, meu pai foi grande leitor de clássicos, boas músicas, e apesar do dinheiro curto, conseguiu que eu frequentasse as aulas até o fim. Mas nada disso garantiu crescimento. Muito pelo contrário. Paralizou.

Sentado na praça do bairro, sete da noite, calor infernal, reconheci de longe um primo meu. As pombas abriram seu caminho no momento em que a catedral badalou a hora da missa, a brisa varreu folhas e desfez o jato de água do chafariz. Não recebia notícias dele há tempos, talvez dois anos, sabia apenas que tinha voltado do Pará, no tal do boato do ouro nas redondezas de Serra Pelada. Coisa que desprezei, como tudo que foge aos meus olhos, `as minhas metas. No banco da praça, olhando o convés das meninas, o movimento em volta do pipoqueiro, o primo me contou das novas. O ouro acabou em Serra Pelada? Sim. Mas no entorno, procurando bem, a chance era grande. As pepitas saiam limpas, inteiras da mistura de lama com raiz e se nesse meio tempo nenhum virado no capeta te metesse bala nas costas, dava pra tirar, no mês, a grana que se ganha em ano como escravo de bacana. As crianças brincavam na praça, meninas já risonhas aos meninos das bicicletas novas, reparei no primo de relógio novo, roupa de marca, moto 250 zerada, namorada princesa cheirosa. Por mais que simulasse calma, aquilo foi me dando uma azia, remoendo meu estômago. Ele sempre foi o cara pra quem eu ensinava as coisas da vida, gabando do meu intelecto acadêmico corrigia seu português e sua preguiçosa ausência de plural. Mas sempre grande companheiro de rua, farreamos muito, paguei muita cerveja como irmão mais velho, e perceber agora que o jogo se inverteu, ele a bola da vez, me causou forte sensação de fracasso, derrota naquilo que entendia ser. Esse moleque não podia. Muito menos ter mais grana. A minha certeza não dava margem pra erros tão grandes de trajetória. O tempo nem as circunstâncias podiam aprontar uma dessas.

Fui dormir com a angústia em forma de solda cuspindo fogo, um gavião real que fustiga o rim exposto na estrada. O sono profundo não vinha, um primo andando de moto nova pela cidade, reencontrando o pessoal, contar vantagem, acordava sucessivas vezes e o coração acelerado. Achava que era sonho, mas nas primeiras sinapses percebia o real. Meu primo conseguiu. Me deixou pra trás. Enquanto caminhava na toada burro de carga, sem grandes progressos, sem participar do banquete, ele foi adelante, ariscou e trouxe seu peixe grande na linhada fina. E se até então me convenci que levando um dia após o outro talvez a vida passasse mais depressa, na presença do primo a história foi outra. Senti o sangue nos olhos, vontade de crescer, fazer o meu, ganhar dinheiro. Posso lhes garantir que o dia seguinte ao encontro na praça foi o pior da minha vida. Chegar ao trabalho e receber ordens, carregar peso, executar tarefas inúteis, sabendo da mais-valia, grana no bolso do patrão, quase nada no meu causou uma perda irreparável. Com aquele salário miserável pelo resto da vida, talvez algumas bonificações de fim de ano, não tinha mais por onde respirar tranquilamente. Era tudo muito pior que ressaca de campary e anis sem gelo num bote, uma trepada sem camisinha num brega barato em pleno carnaval.

Encontrei o primo na praça dias depois determinado a pedir algumas dicas dos melhores locais de garimpo no Pará. Tudo muito discreto pra não parecer favor ou conselho. Queria grana rápida pra montar meu próprio negócio, mais do que isso, manter certa distância dele, da prosperidade, só teria coragem de voltar se minha condição fosse melhor, se o status de dono do pedaço voltasse a vigorar.

Passada a época das secas na Amazônia, embarquei num ônibus convencional para Marabá, Pará. Pedi demissão dos dois empregos alegando boas propostas de trabalho na companhia Vale do Rio Doce, Serra dos Carajá. Tudo mentira. Partiria para a saga do ouro em busca de uma alternativa rápida pra enriquecer sem ficar na mão de um bando de mercenários. Nem teria meu primo cutucando meus vespeiros com vara curta.

Já no ônibus, a realidade passou a dar pontapés na porta. Olhei por entre o vão das poltronas. Balançava muito nos buracos da estrada e meu campo de visão oscilava. Viajavam duas fileiras pra trás um grupo de cinco homens. Bebiam cachaça na garrafa pet verde em largas goladas e a cada parada, compravam cinco latas de cerveja cada um. Falavam alto e quanto mais a pinga subia, mais o celibato de meses sem uma conferida cobrava seu descarrego. Começaram a incomodar as moças, sem distinção, casadas ou não, gordas, velhas, com a missão cega da cópula. Posso dizer que as chances de pipocar bala no ônibus não foram poucas. Quando o marido de uma delas, que até então dormia com a cabeça no vidro acordou, o caldo só não engrossou porque ele se viu em desvantagem contra os cinco. Trocou de lugar com a mulher, sentando no corredor.

Chegada a minha vez de dar uma mijada naquela imundície, as latas de cerveja misturadas aos biscoitos de polvilho pisoteados, aproveitei para observar os caboclos com mais atenção. Um deles se adiantou oferecendo um gole da cachaça, a garrafa pet estalando com a pressão dos dedos, o sorriso sem os da frente, os olhos vermelhos lacrimejados, óculos escuros na testa, o rosto esturricado do sol da testa rabiscada, mais parecendo pescador de jangada no mar. Perguntei de onde vinha, pra onde vai. Contou-me que ele e alguns conhecidos saíram do Paraná há nove meses em busca de trabalho. A primeira parada foi em Mato Grosso. A família ficou pra trás, esperando sorte e trocados para o arroz e feijão. As geadas e chuvas no sul arruinaram suas plantações e se viram endividados com as terras arrendadas e os financiamentos do banco. A chance estava na soja, notícia que corre rápido. Mas em Mato Grosso encontraram talvez a pior das experiências reservadas aos cães, quem dirá aos humanos. Sobram vagas aos que se sujeitam por obrigação. O abismo. Eram catadores de tocos. Explico: A Floresta é posta a baixo e toda a madeira de lei retirada é vendida. Depois os tratores entram em duplas, ligados por correntes pesadas e arrastam, colocando tudo no chão. O fogo arde durante dias naqueles nacos moribundos de madeira de lei, arbustos, flores, ninhos de araras, filhotes de macacos, até que a floresta amanheça morta e negra, em brasa, num sol laranja e omisso, por conta da fumaça. Para que a máquina comece a preparar a terra das sementes, não pode sobrar nada que embole nas engrenagens e danifique o maquinário. Entram em ação os catadores de toco numa terra quente de brasa, a cara de fuligem, calor de 40 graus, fumaça, agachados sem qualquer tipo de instrumento de segurança para arrancar um a um todos os pequenos tocos de madeira, pedras, raízes que encontram pela frente. Imagine como um cara desses fica depois de um mês nesta nobre função? Vai se despindo até que dignidade nenhuma lhe reste. E então a baba branca no canto da boca dele não foi suficiente pra negar uma oferta. Nos olhos um do outro, sentindo sua dor, compartilhei de dois generosos goles da marvada. O destino dos cinco era o meu: garimpo. A saída desesperada para uma realidade que se armou num cerco bem feito de desgraça. Logo eu, universitário, leitor de Dostoievski, da Piauí, bilíngue, das mãos de poucos calos, perdido no Pará em busca de ouro. Que os deuses possam me ouvir. Ouro.

Cheguei em Marabá ao meio dia de uma terça feira de chuva forte. Alguns trechos de floresta me davam uma vaga noção do que um dia foi tudo aquilo. Do asfalto vapor, e o Tocantins, talvez o maior rio que já vi, siriricava gotas grossas da chuva de verão. O combinado seria ligar de um orelhão e esperar por um tal de Branco, no posto de gasolina da cidade. O garimpo ficava a duas horas dali se a estrada de barro estivesse boa, coisa rara nesta época do ano.

Branco chegou numa caminhonete cabine dupla com uns oito caboclos na carroceria. Ele no volante no ar-condicionado e um grisalho, de chapéu e camisa pólo vermelha de co-piloto. Joguei a mala no meio de uns galões de gasolina e me ajeitei como pude. Os caboclos me olhavam de bombordo, analisando meu tipo. Por mais simples que fossem, com certeza passaram o pente fino vendo que eu tive mais chances na vida. Talvez o tanto de sol que o couro tomou, a proporção cabeça tronco e membros, os dentes brancos, o olhar de alguma esperança. Depois de anos trabalhando por comida, o caboclo não pensa em mais nada. Trabalhar – comer - apagar. Se o dinheiro curto sobrasse para além dessa tríade, talvez ele tivesse tempo pra pensar em como é explorado, e criaria problemas ao empregador. Mantendo ele no limite da fome, fica mais fácil manipular, é a maneira mais cruel de domesticação. Fica nítido na expressão de rosto, no caminhar, no tom de voz.

Na chegada ao garimpo me impressionou a precariedade dos alojamentos, as condições absurdas da falta de segurança. Mas isso tudo é luxo e supérfluo quando o foco de todos está no ouro encontrado, independente da malária que se pegue, do risco que se tenha, da fome e saudade que se sinta. Saudade sim, de buceta, do carinho da mulher, dos filhos, da infância. Agora me lancei numa sobrevivência louca, Vietnã Malvinas, Congo Bagdá Angola, e por mais que tudo isso pareça loucura, quando lembro do meu primo com grana e dos meus empreguinhos bunda, a faculdade, bate um nervoso, pânico, e é aí que encontro a força motriz que faz seguir, se jogar naquela lama atrás de ouro. Um corte profundo na perna, febre, sede, diarréia, coisas corriqueiras. A condição sina qua é que do chão não passo.

Muito rapidamente entendi as leis do garimpo. O buraco onde se escava tem o tamanho de três piscinas olímpicas e cada doze metros quadrados são distribuídos entre grupos de dez garimpeiros. 60% do que é encontrado é dividido entre os dez, enquanto os 40% restantes fica pro tal do Branco e seu sócio. Na vendinha se consegue pinga, farinha, carne de porco, roupa e desodorante. Moeda é ouro. Tudo superfaturado pelo dono, Branco. Duas vezes por mês chega ao garimpo um ônibus escolar velho trazendo engradados de caninha, cigarros contrabandeados e meninas, geralmente menores, pra refrescar a mente do caboclo. Duas gramas de ouro por uma bimbada rápida no alojamento de taipa. E é bom se adiantar pra ser um dos primeiros porque a fila é grande.

No terceiro mês de garimpo, passaria reto pela minha mãe sem que ela me reconhecesse. Se chegasse em casa assim, minhas irmãs dariam queixa `a polícia. Um reflexo de espelho era tão raro que já projetava minha face pelo tato, lembranças, pela reação dos outros ao me observar. Minhas pernas cheias de inquilinos devendo condomínio. Bernes e picadas infeccionadas, arranhões. A tarefa de colocar uma calça e meter as botas já era em si, o grande feito do dia. O jeans subia espocando as feridas e a lama seca misturada cuidava de aumentar o estrago infeccionando ainda mais o que me restava de carne fresca. Perdi todos os pruridos e noções de higiene. Quando a coisa ficava preta, cachaça nas feridas. Andar cagado virou coisa corriqueira. Mesmo assim, ouro me colocava de pé todas as manhãs.

Foi numa quinta feira de muita chuva, em que poucos os homens se aventuravam a escavar lama diante do sério risco de soterramento, que acordei numa caganeira das bravas. Tinha certeza que fora a carne de porco dos dias em que a única geladeira a gás pifou, kaput. Pontadas, dores no abdomen, só podia ser. A mandioca é que não. Corri desesperado por um descampado atrás do alojamento, as calças arriadas, as perebas abertas, a chuva descendo pelas sobrancelhas, a respiração ofegante, quase nada me restava, fui despido de civilização na marra. Olhava para os lados, o céu, as costelas aceleradas e enquanto, no meio de um riacho, aliviava as entranhas do pesadelo numa posição nada grata, comecei a pensar na possível desistência. No garimpo não é o trabalho que liberta. A idéia de que a sorte aparece quando o trabalho duro encontra sua oportunidade parecia cada vez mais distante. Nos meus quatro meses de garimpo acumulei experiências interessantes ao meu curriculum como cientista social. Quem sabe alguma multinacional queira me contratar. Minha pós em malária, tentativas de ser currado e poucas gramas de ouro. Não aguentaria por muito tempo.

Finalizado o serviço, subi as calças cuidadosamente, evitando cada chupão de mosca. Ao tentar dar o primeiro passo percebi que estava preso na lama, as botas fizeram vácuo, e que quanto mais me movimentasse, mais elas afundariam. Por mais que me esforçasse em ir para frente ou para trás, o esforço era em vão. Então agachei para desamarrar a bota, sem enxergar nada na lama, e com cuidado fui desfazendo os lances de cadarço. Neste momento senti uma coisa raspando minhas costas e bunda, como se deslizasse. Imaginei um toco, um cipó, me dera fosse a bunda macia da nega velha, mas o movimento não me parecia ser morto ou vegetal. Em outra situação talvez fosse o caso de entrar em desespero, mas o tempo de garimpo serve pra vacinar o caboclo, tudo é possível, o grau de tolerância aumenta muito.
Continuei meu trabalho com as botas. A chuva prosseguia e se intensificava, arrastando ainda mais tocos de encontro aos meus joelhos. O barranco da margem, por onde a água corria ligeira, ia aos poucos cedendo, e cada vez mais abria minha distância com relação as margens. Também aumentava a profundidade do riacho com as botas afundando e o volume de água subindo. Mas uma vez agachei para livrar o pé da primeira bota, a lama no meio do cadarço dificultava o trabalho, comecei a engolir água, os tocos desciam e agora se chocavam contra meu braço, perna, baço. Intensifiquei o trabalho, não adiantava gritar aos outros, o barulho do gerador da bomba deixava todo mundo surdo. Mas uma vez senti como uma massa pesada passando pelas minhas costas, quase ao ponto de me desequilibrar, até que algo mais rápido que um mestre de capoeira laçou meus pés derrubou-me de bruços no riacho. Enquanto tentava escorar no fundo de lama, evitando que as mãos também afundassem como os pés, uma porção gorda de carne escura me abraçou as pernas e consegui ver rabo, um dorso, a cabeça da sucuri gigante. Filha da puta. Só me faltava essa. Sensação de morte. Eu era o tal do bezerro do National Geographic, preso pela sucuri. Enquanto meus braços permaneciam livres, esmurrava pra que ela soltasse as pernas, mas a força do bicho era tamanha que na pressão do seu dorso meu corpo se soltou da lama e fomos arrastados, embolando riacho abaixo. Pescoço, tronco, minha única meta naquele instante era não deixar que ela me desse o abraço mortal. Com os tocos e pedras que encontrava nas beiras do rio, socava a filha da puta, que de filha de puta não tinha nada. O puto ali era eu, que não tinha nada de estar ali cagando no riacho dela, atrapalhando a hora do jantar. Continuamos descendo cada vez mais rápido até que uma árvore deitada sobre a água me deu suporte e flutuação. Com a pedra afiada. Golpeei a sucuri na cabeça e na parte mais grossa e musculosa, até senti ela ceder e parar de comprimir. Arrastei metade do corpo pelo tronco da árvore, continuando com os golpes certeiros na cabeça da puta, até que ela perdeu a consciência e se enlaçou no tronco em espasmos, sem mais saber o que era o quê. Levantei com raiva, sem as calças, sem as botas, pernas sangrando das feridas, e com o corpo coberto de lama apanhei uma pedra ainda mais afiada. Atravessei a sucuri drenando toda a raiva que sentia dela, do garimpo, da situação até que a pedra encontrou o barro do outro lado e as tripas dela apareceram escorrendo pro lado. Bati mais vezes, respiração acelerada, a saliva grossa me escorrendo da boca até que vi o impossível, o inacreditável, a cena que imediatamente me trouxe de volta a máxima: No garimpo não é o trabalho que liberta, mas a sorte. No meio da barrigada da sucuri, uma pepita de aproximadamente um quilo de ouro, senão mais, saia do meio da tripa, toda babada, o organismo da cobra tratou de digerir o barro e deixou a pedra pura, um quilo de ouro. Naquele momento a chuva parou, só o barulho irritado do riacho, a cobra aberta, o sangue das feridas me encorrendo pelas pernas, inacreditável, um quilo de ouro. Mother fucker!! Takes four loads of cum!! O equivalente a 50 mil reais. Arranquei a camiseta fazendo um calção medieval, alojei a pedra no saco, na altura do períneo e voltei ao alojamento. Deveria deixar aquele lugar o mais rápido possível, antes que os outros ganhassem no meu olhar a sorte grande, coisa que qualquer ali conseguia fazer muito bem, no meio da merda, todo mundo percebe quando sopra a brisa.

Na manhã seguinte peguei meus trapos e voltei no mesmo ônibus que trouxe as meninas e os engradados de caninha. Até perguntaram o porquê da minha saída. De pronto respondi que ia voltar pra minha cidade, cuidar das feridas, que logo voltaria em busca de ouro. Como já tinha fama de boy, de alemão, acharam que era o fresco que não segurou. A história passou como verdadeira.

De volta a Marabá, a primeira coisa que fiz foi comprar uma roupa fiado. Deixei minha identidade com o vendedor da Vest’s e peguei uma bermuda dois número acima e regata cáqui. No centro da cidade, local em que as transações de ouro acontecem, naquela loucura de feira com camelô, dvd pirata, chamei um táxi e pedi que me esperasse na porta. O ouro era da melhor qualidade, pouca quantidade de paládio, puro, a sucuri tinha feito um belo trabalho, não fosse pelo abraço apertado, teria dado um desconto a ela.

Com o dinheiro dividido pelo corpo, entrei no mesmo táxi e mandei seguir até Belém, 300 km de Marabá. Se você fica muito tempo dando bandeira corre o boato, até mesmo pelo cara que comprou o ouro e te pegam numa esquina atrás da grana. O certo é sumir do mapa na mesma hora.

Cinema 26/10 - Bilhete na garrafa

ACONTECE:
Brasil assina novo acordo cinematográfico com Itália
Selton Mello ganha prêmio de melhor ator
Co-produções são sinais de prestígio do cinema brasileiro, diz "LA Times"
Gianecchini e Paola Oliveira estrelam filme rodado em motel
Minissérie “Maysa” pode ganhar versão para o cinema
Ator que estreou em “Última Parada 174” será Lula nos cinemas

NO AR:
"Última Parada 174" estréia em meio à comoção do caso Eloá
Comédia romântica lidera arrecadação de bilheterias no Brasi
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CONVERGÊNCIA DIGITAL:
Filme com Andréa Beltrão é destaque na Mostra de SP
"Ensaio sobre a Cegueira" é premiado na Espanha
Dia Internacional da Animação terá exibições simultâneas em 150 cidades
Em cartaz na Mostra de SP, “Mataram a irmã Dorothy” é convite à indignação
Filme sobre a Amazônia é destaque na Mostra de SP
Festival no Amazonas recebe Claude Lelouch
32ª Mostra de SP: Festival exibe filme filipino de oito horas

sábado, 25 de outubro de 2008

Onde estará o cavalo certo?

Pensou a terapeuta ao fim da sessão: A angústia passeia e não deixa os pensamentos dela em paz. Por mais que se atenha a uma conversa, um livro, nada fura o bloqueio de um fluxo de consciência permanente que cava, cava, cava cada vez mais fundo. A dor é proporcional a profundidade, o dente que dói o canal. Fato é que existe um embate. O momento em que toda a vontade de fazer alguma coisa passa. E tudo parece distante de uma solução. Ela não quer chão, onde se apoiar. Prefere ver onde a dor pode levar. Quanto mais profundo cava, a dor aumenta, está aí a chance da trajetória mudar, retorcer-se. O que a fez buscar a rota mais difícil na vida? Claro, ela buscou a mais fácil, sem grandes desafios, e acabou encontrando as maiores dificuldades pela frente.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Edital Rio de janeiro

Inscreva seu projeto até 13/11/2008 :
http://www.cultura.rj.gov.br/detalhe_noticia.asp?ident=594

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Amor na Cama de Outro

A viagem fora marcada com antecedência. Mariano, completamente apaixonado por Isabela, não imaginava outra pessoa no mundo ao seu lado e queria fazer tudo por ela, pelos dois. Achou que caixa de bombom, flores, jantar, além de clichê, seria pouco, nada.
Entrou no site da agência de viagens, pipocou um banner no canto esquerdo da tela: “Itacaré, pousada pé na areia, imperdível”. Deu o número do cartão. 12x sem juros, sete noites com translado e café da manhã. Finalizou a compra feliz da vida, olhando as fotos do site. Imaginou os dois naquele quarto cheiro madeira de lei com limão siciliano, ventilador de teto no médio, mosquiteiro amarelo claro com um ou outro mosquito morto preso, cortina de algoodão cru na brisa fresca da maré baixa com lua cheia, cervejas, dois chokitos no frigobar; Isabela nua, já marcada do biquíni, morenaça cor do pecado, depilada na virilha, gramado serrado no meio, salgada de suor e sal marinho, a calcinha preferida do catálogo, branca transparente na frente, cavada no fundo com lacinho no cóxix, óleo de amêndoa já no final, um bloco de notas, divagações inacabadas, a revista Piauí respingada no chão do banheiro, o xampú de chá verde no box.
Meses se passaram e Mariano nem se lembrava mais da viagem. Deletou. Só se tocou quando chegou o extrato do cartão: “Cumshottravels 11/12 – R$ 328,00”. Era a penúltima parcela.
Acontece que de lá pra cá muita coisa mudou. Muita. Quando Mariano comprou o pacote, os dois viviam o tal do momento em que todo o resto não existe. Em que tudo é sugado pelo buraco negro, até Stephen Hawking, e a massa deixa a matéria. A paixão no auge da forma, fim de semana fechados no quarto, o lençol amarrotado, mancha de suor, secreção, sangue, óleos, pêlos, um travesseiro em cima do outro, pacotes de camisinha abertos no dente, saindo de lá só quando a fome aperta, pra comer peito de perú com geléia de laranja, mel, damasco, uma golada de suco, castanha do pará. O telefone fora do gancho, celular no silence, velas derretidas pela garrafa de vinho argentino, abridor com a rolha última da noite e os amigos cobrando a amizade momentaneamente esquecida, sabendo que nada segura a trepação, que por um bom tempo, o amigo antes presente nas baladas, no chope de sexta, vai passar longe, trabalhando o abdomen, secando na madeira virando os olhos, até que a vontade de explodir supere o suposto limite da força, da oxigenação.
Mas tudo mudou ao longo do tempo. A inexorável passagem. Um ano de convívio fez cair por terra boa parte das idealizações e os punhados de arroz não eram mais jogados ao alto nem a noite tinha mais aquele cheiro fresco nem a Av. Rebouças no rush funcionava pro beijo faminto a cada engasgada do trânsito. Por mais que se gostassem, dormir e acordar na mesma cama, acostumar-se com o corpo do outro, decifrar as fraquezas nos momentos de angústia, um egoísmo que aflora com a intimidade, parecia mesmo que desafetos brindavam o fim, que o lado negativo pesava mais na balança. Mariano percebera que a relação, da forma como se estabelece de início, não se sustenta`a longo prazo, por mais que se queira. Não existia mais aquela fome ancestral de virar um só, e as outras mulheres, antes só bonitinhas, lhe pareciam cada vez mais interessantes. Muito deste seu interesse – pensava ele - vinha do seu ganho de repertório ao longo do namoro, o mestrado e doutorado adquiridos na intimidade do casal. Como se ele descobrisse as mulheres ao decifrar os códigos da sua, e encontrasse a beleza de cada uma no olhar, no cheiro, na essência.
Mas quando Mariano pensava num fim, batia o pavor. Por um lado ele sabia que naquele momento, não poderia corresponder `as expectativas de Isabela. Um filho? Não dava. Não agora. A grana ainda era pouca, cobria com alguma folga as contas, mas nada que desse pra bancar a criança da maneira merecida. Pra vir ao mundo passar perrengue, melhor não vir. Pensou também naquela fórmula: se tivesse um filho, correria mais atrás de trabalho, de uma formação mais sólida. Mesmo assim, com os poucos meses de terapia, sabia muito bem que sua índole macunaíma não se abalaria o suficiente com maiores responsabilidades a ponto de correr atrás. Tudo a seu tempo. Se ela quisesse mesmo ter um filho, teria de cuspir a pílula em dia fértil, preparar a bolsa de água quente e mandar bala. Mas não fazia o seu tipo. Por mais que os 32 anos nas costas pesasse contra Isabela, que a maior parte das amigas já estivessem pensando num segundo, pra ela incomodava muito engravidar sem uma aprovação clara do macho. Pra ela seria muito importante um pai presente, não queria produção independente. E assim foram postergando, esperando do outro a reação, a tomada de decisão. Mas não vinha de nenhum dos dois. E muito das desavenças surgia desta discrença com o futuro da relação. Isabela com planos de fazer família. Mariano sem querer perder sua liberdade. E ao invés dos dois conversarem sobre seus temores, a coisa foi degringolando, e quanto mais longe se sentiam do que realmente tinha que ser dito, mais o tesão e a intimidade iam pro beleléu. Isabela tinha raiva por Mariano não corresponder aos seus anseios, e o diálogo, cada vez mais breve, resumia os fatos corriqueiros, nada em profundidade, nada que ajudasse a revigorar a relação. A viagem seria uma espécie de last chance. Mariano acreditou que lá, no mar esverdeado da Bahia, as disavenças pudessem se dissolver e aquela sensação boa do começo do namoro voltasse.

Embarcaram pra Salvador num dois de fevereiro, dia de Iemanjá. De lá pegaram um carro pra Itacaré. O clima não era dos melhores. E por mais que a viagem tivesse cara de despedida, havia uma esperança, não custava tentar. Em último caso, de chorar as pitangas, que fosse na Bahia, na beira do mar.

Vai aí uma passagem do Kama Sutra:

"Se por compaixão aos sentimentos dela,
você não faz qualquer avanço,
ela vai julgá-lo um néscio,
irremediável tolo, incapaz
de compreender como é a mente dela.

Se, por outro lado, você não se empenhar
em cortejá-la, aos sentimentos pisoteando,
em pressa estouvada para seus desejos saciar,
medo e ira há de causar,
entre os dois gerando ódio frio.

Se sua esposa sinais de amor não encontrar,
de amargura há de encher,
vindo depois hostilidade, rebeldia,
a repulsa pelo sexo; você a força
a buscar o amor nas camas de outros homens"

Mallanaga Vatsyayana, séc IV

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Texto de Cesar Benjamin sobre o colapso financeiro.


O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas

AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Hora que Acaba


















foto: Robert Capa

Magda já não sabia muito bem se queria o cara ou não. E nessas ficou por meses a fio, sem tocar no assunto.

Costumavam jantar juntos, em casa, e enquanto ralava queijo parmesão ou picava a cebola do molho, pensava nas mil possibilidades do fim. Sabia que o cara estava totalmente na dela, morando juntos, planos de uma vida em comum, mas alguma coisa em algum momento produziu a centelha da bancarrota. O gás foi vazando e impregnando todos os ambientes onde antes flanava a paixão, agora completamente retorcida e envenenada por uma explosão seca e devastadora. Por mais que ela se esforçasse em voltar atrás, uma voz interna, onipresente, dizia que ele não era mais seu homem, talvez, com muito esforço, só um amigo. Até existia o momento em que a carência apertava, geralmente na TPM, ou quando sentia que o trabalho como produtora (agilizando aluguel de câmera, água pra equipe, radinhos motorola, tudo pro diretor punhetar em cima de algum storyboard), engolia qualquer possibilidade de uma vida pessoal saudável. Mas ainda assim, por mais visceral que fosse a carência por colo e chocolates, ela conseguia descartar ele como porto seguro.
Qualquer detalhe incomodava: sua voz, o formato da barriga por sobre o elástico do shorts, o peido silencioso no edredon, a erudição superficial, a combinação das roupas, o bafo, o jeito de andar, os mesmos argumentos de sempre, o timbre da risada, o desleixo com as coisas, as compras inúteis com eletrônicos, as conversinhas no msn, a relação dele com os pais, o cheiro do carro, o corte de cabelo, a forma da bunda na calça jeans de bolso caído, os pêlos isolados que nasciam nas costas e ele pedia pra arrancar, a escova de dente com salsinha grudada, os pentelhos no sabonete glicerina de rosto dela, a marca de dedo no pote de cream cheese, os sites pornôs no histórico do explorer, as tampas de caneta bic com cêra de ouvido, cuecas freiadas pra fora do cesto, tv ligada sem assistir, projetos sem finalização, amigos empalhados no tempo com camisa do Pink Floyd, e o pior deles, talvez o definitivo: O cara não tinha a menor ambição de se posicionar na relação. O cara não tinha opinião própria, sem pulso e pra qualquer mulher isto é mortal. Bater o pau na mesa é vital. E ele, pelo contrário, deixava tudo pra ela resolver.
- Vamos ao cinema? Vamos. Que filme? Não sei, pensa aí, qualquer um tá bom pra mim.
Não rola. Qualquer uma perde o tesão. E Magda foi percebendo que tesão ela sentia por homem que trata mal e bem, efeito montanha russa. Que fala uma grosseria, mas rebate com uma declaração. Que pega com força, chupa, faz gozar e vai pelado na geladeira traçar meia picanha acebolada fria pingando no chão. Que deixa ela com frio, se cobrindo com a ponta do edredom, e depois aparece quentinho, abraça, beija, encaixa. Homem que fala pouco ao telefone, que diz a verdade, que lambe faca, e que na hora certa aparece com flores, sai pra dançar, propõe uma viagem, paga o cinema e leva pra jantar.
Foi num domingo clássico de inverno, daqueles que as pombas em vôo se fundem ao concreto das catedrais, ao cobertor do mendigo na fuligem, no céu cinzento e frio, que ela acordou decidida a jogar a toalha. Focada, tomou um banho quente de porta trancada, coisa que não costumava fazer, secou os cabelos com o secador turbo, passou hidratante nas coxas dez anos de jazz, secou a virilha e a xoxota depilada, desvirou o sutiã, destravou a porta e foi, junto com o bafo de vapor em linha reta pela sala até o quarto, como um trem que não pára na estação, e disparou a primeira certeira, pensada e arquitetada durante os últimos três meses de silêncio:
- Marcos, precisamos conversar...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Segunda na Neura















Praia Mole esta manhã foto: João Pavese

Depois de uma noite de sono atormentada (sonhei que fui preso por vadiagem, por não ter emprego fixo, os presos desenhavam nas paredes, e no banho de sol, olhando o lado de fora, não me conformava com a situação, eles não me davam o direito a telefonemas e nenhum parente vinha me visitar, um medo de ser currado e por ai vai), acordei e me deparei com uma realidade bem longe daquela que meu inconsciente me presenteou na longa madrugada. Floripa, estou em Floripa. Ainda vazia, sem a turistada louca pelo frenesi alimentar=esportes, trepadas e gastanças. O sonho me atormentou um pouco. Claramente um indicador da vida que levo. Esta coisa de ser profissional liberal, sem emprego fixo, atormenta. Por mais que saiba que já é sem volta, que nunca vou conseguir trabalhar pra outra pessoa, executar o que ela pensou e protagonizar a mais valia explícita( a não ser que venha a fome), passar uma segundona na praia, sabendo que os outros estão na labuta, incomoda. Como me dou ao luxo de? Talvez seja a minha síndrome de índio. Explico. Toda vez que faço um trabalho e levo uma bolada, tiro férias. Ao invés de continuar me esfalfando pra acumular mais e mais, sem descanso, penso que aquela grana dá pra viver por um tempo, e que parte deste tempo deve ser gasto com as coisas que gosto, que me dão prazer. MAis ou menos como o índio que mata uma anta. Ele não sai pra caçar até que a anta acabe. Vai ficar caçando e acumulando carne de anta pra quê. Estraga. Adoro ler um livro todo. Aquela leitura intensa de três dias que você mergulha na coisa, sem distrações. Adoro um banho de mar, tomar sol, uma boa noite de sono, a cerveja, o carinho num peitinho médio macio, dormir junto, ventilador de teto, e perder isso, seria mortal. Bom, mas aí tem aquela propaganda do Ford Fusion - "Pra quem fez por merecer" (algo que o valha). Quer dizer que devo trabalhar como um porco no cio até juntar o máximo que der, e aí, depois de um exame de próstata, constato um câncer, uma disfunção eréctil, entro no meu Fusion pra dar um passeio de ray ban com o visa platinium na carteira. Não rola. Vou comprar esta briga. Trabalhar sim, se esfalfar não. Tem que haver uma saída, a medida. Vou atrás de mecanismos que garantam uma grana razoável, sem entrar na loucura, na competição por mais e mais, afinal, pega um catálogo de pousada chique no sul da Bahia e perceba que as boas coisas na vida são as simples: uma rede, um coco gelado, canga, livro, boa companhia. Pra que mais?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cana pela Culatra















Foto: João Pavese

Voltei de Mato Grosso com boas histórias pra contar e uma profunda sensação de perda com relação `a condição humana. Gostaria de deixar aqui um breve relato do que vi e senti.

Mato Grosso é uma cloaca. O cu do mundo. Pra mim, a síntese do que o homem é capaz de fazer de mais degradante consigo mesmo. O agronegócio conseguiu liquidar em menos de três décadas simplesmente toda a floresta e serrado que cobria o estado. Os rios estão contaminados com agrotóxicos e a paisagem foi completamente transformada e sumariamente executada. Cana, cana, soja, gado, árvores retorcidas, poeira, caminhonetes de luxo, caminhões carregados de toras de lei, usinas de cana, tratores, som sertanejo dos carros, rodeios, santinho de políticos por todo lado, gordos comedores de picanha e um calor nefasto fruto do desmatamento. Em Cuiabá, que mais parece um Largo da Batata extendido, conversei com algumas pessoas na rua, no supermercado, que reclamavam do calor excessivo neste inverno seco, de umidade beirando os 10%. Todas diziam não entender como pode estar tão quente, que nunca viram coisa igual. É de deixar perplexo qualquer ser minimamente esclarecido. Ninguém consegue associar o calor com a brusca alteração do bioma local. As pessoas querem progresso, muitas delas chamam a floresta de sujeira, que o mato deve ser limpo pra dar lugar as plantações, e não percebem que a cobertura vegetal é um regulador natural do clima, do solo, que muito em breve o tal progresso vai virar pó, areia, deserto, e aí elas vão buscar outro lugar pra ocupar, destruir e repetir o erro.
Talvez eu esteja sendo duro demais com o termo cloaca, até porque eu moro numa: São Paulo. Mas penso que numa cidade como a nossa, a destruição já foi tamanha, o rio morto, o trânsito constipado, que temos alguns anos-luz na frente pra refletir sobre qual caminho tomar. É só parar um pouco pra pensar no absurdo.

Mato Grosso é mar aberto de cana pura. Ainda mais quando bate o vento. Os cortadores de cana com certeza estão no substrato mais rasteiro da cadeia alimentar. Vivem na merda. Eles são tão escravos como foram seus antigos. Vivem no limite do ter o que comer e não lhes resta tempo pra pensar em nada que não seja cortar, cortar e se refazer do fastio com uma ração pobre e um colchão duro. Quando escrevo estas palavras, me pergunto: bom João, grande novidade seu nerd, isto todo mundo já sabia, Helloooo!!! Mas a questão é que quando você vê de perto, a coisa entranha na sua carne. Você primeiro empina o nariz e diz: - Nossa, como minha vida é boa, ainda bem que eu não estou nessa, coitada dessa gente sofrida! Até perceber que, seguindo a ordem natural das coisas, isto não vai ficar barato. Se eles estão na merda, e nós bem de vida, significa que cedo ou tarde o caldo entorna e a merda começa a subir. O cortador de cana sem nenhuma perspectiva vai ser expulso do campo quando as máquinas passarem a cortar ( uma máquina corta o equivalente a 400 homens) e aí eles vão pegar o primeiro ônibus que passar com o dinheiro que lhes resta e desembarcar nas grandes cidades, uma delas, pode ter certeza, a sua. E por mais que este trabalhador seja de boa índole, a hora que a fome apertar e que o filho dele chorar, não tenha a menor dúvida que ele vai bater com o cano do .38 no vidro fumê do seu honda civic flex, tanque cheio de álccol baratinho R$1,17 o litro, você indo ao cinema ver um filminho cult com a gata, e cobrar pela cana que ele cortou de quase graça. Aí não venha me perguntar: Mas por quê eu? Tarde demais, Luciano Huck, passa o rolex pra cá!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ressaca no Trailer












Steve acordou com o calor do trailer numa ressaca da pior. A cama e o travesseiro vomitados, só bílis. Um ou outro milho numa poça densa perto do colchão. Abriu os olhos e fez a retrospectiva do fim da noite. Não se lembrava de nada. Flashes de vômito, música alta, fusão serial de rostos de fêmeas decotadas. Pensou na carteira, nos documentos, onde os havia deixado. Memória em branco. A última coisa de que se lembra era uma roda de amigos falando putaria. Uma menina contando que trepava com o namorado todos os dias, durante os seis últimos anos. Ninguém acreditou. Até porque ela era uma broaca, e se trepava ou deixasse de trepar não faria a menor diferença.
Tentou levantar do travesseiro, ou pelo menos posicionar a cabeça na nesga de fronha que sobrou limpa, mas o enjôo era tremendo. O trailer não chegava a rodar, mas era com se estivessem injetado clorofórmio na aorta. E por mais que o mal estar imobilizasse Steve na cama, o fato da noite ter sido uma merda, o fez reagir. Queria saber dos documentos. Contou até vinte olhando para os rebites do teto de metal do trailer e ergueu a carcaça encharcada de álcool. Enquanto envergava o tronco, sentiu o fígado cobrando o castigo, uma dor logo abaixo das costelas, aguda. A primeira impressão naquela posição semi-erectus foi de que seria impossível se refazer. A ânsia veio, untou de saliva o palato, e então Steve correu pro vaso, onde tentou em vão, colocar alguma coisa pra fora. Achou um pano no canto do chuveiro, ainda úmido do banho de ontem, e meio que rastejando voltou `a cama. Esfregou no vômito pra tirar o grosso e atirou o pano longe.
Acordou depois de alguns minutos de sono leve, o enjôo estava lá. O estômago completamente vazio, mas não sentia fome, nem conseguia pensar em nada gorduroso, doce. No máximo tentaria um copo d'água com limão, uma maçã. Alguns flashes na memória seletiva. Lembrou de uma conversa com uma loira, já na sexta dose de vodka, e que ela convidou pra ir ao banheiro dar uns tecos e otras cositas más. Lembrou que preferiu não ir, a luz do bar escancarava uma pele mal cuidada da loira e Steve, por livre associação e alguma experiência, achou que ela era grupo de risco total. Se entrasse naquele banheiro a loira ia dar dois teco e abocanhar seu pau. Aí seria tarde pra uma camisinha. Mas que ela era uma puta gostosa era.
Na ressaca, levantou a cabeça mais uma vez pra ver o dia lá fora pela janela do trailer. Sol `a pino, deserto de Mojave, Barstow a 18 milhas dalí. Sua vontade era ligar pra mamãe pedindo ajuda, um carinho, uma sopa, mas naquela altura do campeonato, mamãe e papai não passavam de polaroids desbotados na caixa vazia de Cohiba. Steve, sozinho no mundo, não tinha a quem recorrer senão a si mesmo. Lembranças ruins não ajudavam em nada, bastava a ressaca. Desembrulhou o pau pra fora e ali mesmo, no silêncio do deserto, descascou pensando na loira. Melhor comê-la assim, na fábula, do que consumar e se foder com uma Aids. Gozar trouxe pelo menos algum prazer pra situação desoladora. O coração acelerado.
Passava do meio dia quando Steve finalmente conseguiu levantar. Bebeu meio litro d’água e meteu o dedo na goela. Repetiu três vezes. Começou a se sentir gente. A calça jeans na cadeira, as barras cheias de lama, respingos de vômito, conferiu no bolso de trás a carteira. Menos mal, estava lá.
E se na ressaca a cabeça estava ocupada com as maneiras de curá-la, quando melhorou, as angústias tomaram o lugar. Por conta delas a bebedeira atingia este estado. A falta de perspectivas. Com a grana como leão de chácara de uma boate, conseguia comer e beber, morar no trailer. Talvez o melhor seria ganhar um pouco menos, no limite da fome, aí sim não teria tempo pra conjecturar, estaria dia e noite pensando no que comer, como, onde. Mas com uns cents a mais de reserva, as angústias conseguiam penetrar e estabelecer as sinapses necessárias pra causar estragos. Fuck!
Uma águia careca sobrevôa o trailer aproveitando a corrente de ar. Numa das asas faltam duas penas importantes pra estabilidade do vôo. Steve se concentra na águia, na maneira como ela se apropria do vento, sem nenhum esforço, pra ganhar altitute. A vida podia ser assim. Uma corrente de ar, você leve, planando, sem grandes preocupações. Mas pra ele era como se as asas estivessem depenadas e não soprasse vento algum. Como se precisasse bater asas o tempo todo pra não cair e mesmo assim, vivia se estatelando no chão. Um redemoinho de areia se arma na soleira, junto de uns engradados de budweiser. Steve bebe mais um gole d’água, passa o dedo no suor da garrafa. Não consegue mais esperar. Achava que alguma coisa boa pudesse aparecer sem que precisasse se esforçar tanto, que alguém muito generoso apontasse na sua direção e dissesse: este cara é genial! Mas percebeu que o massacre é proporcional ao descaso. Quanto mais longe de uma ação concreta, mais a vida lhe janta pelas bordas. O grande lance é que ele tinha total consciência das suas fraquezas, da sua auto-sabotagem, mas nem por isso tinha forças, ferramentas pra lutar contra. Chegar aos 42 anos como leão de Chácara de uma boate de estrada, limpando banheiro, tomando esporro de patrão, não era lá a melhor das sensações de sucesso na vida. Alguns amigos de escola montaram uma fábrica de fraldas descartáveis, outro fazia atum enlatado, coisas que Steve, na época, desprezou, considerando que os amigos tinham se vendido ao sistema. Não submeteria a isso. Ainda mais ele, sujeito que sempre gostou de ler, que devorou meia centena de clássicos, e achou que assim, poderia ser melhor que os outros. Mas a erudição não quer dizer nada na América. O Make Wild Money não quer saber se você leu Edgar Allan Poe. Quer mesmo é que você entenda o funcionamento da coisa, onde está a grana, quantos bebês cagam em quantas fraldas, quantos sanduíches de atum comem uma gorda nas férias em Key West, que você tenha a blindagem pra vender a alma ao diabo, que navegue e domine a imbecilidade humana, sem filtros, sempre na pose de caçador com as botas sobre a cabeça do búfalo. Não interessa se você pensa, se orgulha disso, e não se sujeita a máquina de moer. Fora dela, você não é moído, é esfacelado. E é assim desde o início da vida. Quando papai jorra o líquido seminal em mamãe, o jogo está lançado. Nadamos desesperadamente em direção ao óvulo, batemos a cabeça no útero, tropeçamos nos irmãos girinos, e alguém ali vai chegar antes e ganhar o jogo. E no caso de Steve, perdido no deserto nesse trailer capenga, é mais ou menos como se papai tivesse feito o coito interrompido e melasse o sofá. Suas chances de chegar lá não existem. A ressaca. Tomar todas pra esquecer. Não faz acontecer. Hora de mudar, ninguém vai fazer por você.

The important thing: find me the french man

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pedágio das seis



















(foto tirada no momento em que pensava - acervo João Pavese)

Apesar de estar dormindo bem, indo pra cama meia noite acordando às 8, sem despertador, invariavelmente, lá pras 6 da manhã, desperto do nada no meio de um sonho. Dificilmente um pesadelo, mas claramente uma mensagem do inconsciente. O sonho vai certeiro nas minhas lacunas, neuroses, e acaba por incomodar. Raramente é erótico, raramente um vôo entre peladas numa casa da Grécia, o mar azul, pedras roliças na praia, vestido branco molhando as pontas na água. O sonho me cerca nas minhas fraquezas. O mau uso dos meus potenciais, os recalques, a falta de amadurecimento - tardio -, como se eu fosse uma peça obsoleta que gira em falso, em que os dentes da engrenagem não se encaixam nas outras, e ficam mais ou menos como uma marcha ré mal engatada, grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Como encaixar? Fui lapidado por traumas e alegrias, gens e arquétipos, cipós e maracas, e agora? Agora talvez seja tarde pra mudanças profundas que me tirem do atoleiro onde só caminhões maiores passam com segurança. Bom, pelo menos nestas acordadas das 6 pra refletir sobre sonhos, consigo aos poucos entender minha loucura, e a dos outros.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Scan Disk














foto acervo  João Pavese


Crise?  Não, nada a ver com ela. A idade bate na porta e pede mais, muito mais do que tenho ou tive até agora. O breque de mão puxado não me leva a lugar nenhum. Pelo contrário, roda em falso na lama. Não bastasse, uma névoa preenche o vale ensolarado. Primeiro vai o sol, o frio aumenta, tudo fica cinza. Quanto tempo dura a névoa? O tempo que precisar. Depende das correntes, coisas boas que leve a uruca pra longe. Quero lua cheia. Freud? Fixação em que fase? Poderia ser mais fácil, as coisas poderiam se encaixar com mais naturalidade, sem tanta minúcia. Paciência, acontece assim. O tempo passa e cada vez mais o scan disk fareja minhas neuroses. Preciso, até os quarenta, entender o funcionamento da máquina, suas engrenagens, ciente, câmera ângulo oposto, em quadro aquele que fui, sou, flashes de espelhos e fotos do passado, serei.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O sol na vela da jangada

Ele não via a hora de voltar pro sul da Bahia. Esteve por lá com seus pais, viagem família, meados da década de 90. Agora seria diferente. Sozinho, o que ele queria é pisar numa areia fina, tomar suas cervejas beliscando um peixe frito, um banho de mar naquelas piscinas naturais de pedras cheias de alga verde limão, ver as sombras crescerem deitado numa rede de varanda, escutar os coqueiros se pegarem. E quanto mais tempo em São Paulo, mas salivava por uma praia. Seu desespero foi perceber o tempo que perdemos nas grandes cidades. Enquanto o sol se põe na vela da jangada, as marés sobem, a lua de cheia mingua, você perde tendo de sobreviver num aglomerado de 16 milhões de outros seres, um querendo ser melhor que o outro em alguma coisa, custe o que custar. 
Ele até que digeria a tal da dialética, vendo a coisa de um outro ângulo. Talvez aquele que mais conforte os paulistas: O negócio é trabalhar, juntar uma bela grana numa aplicação segura de renda fixa, e aí sim, conhecer todos estes lugares maravilhosos com classe. Se não fosse na selvageria da megalópole, não se teria esta chance. Você estaria servindo caipirinha ou tocando maracas na tal praia paradisíaca e não aguentaria mais olhar pra aquele mar em dia de semana nublado, louco por um feriado abarrotado de turistas que pudessem gerar um trocado a mais. Muito bem, por este lado, existem lá sua vantagens. Você cosmopolita, cheio da grana depois de trabalhar trinta anos numa rotina de trânsito, bebedeiras, filhos, pensões alimentícias, talvez lhe reste uma carcaça, e aí, por que não, largá-la a beira mar. 
Mas ele tinha a clara impressão de que não aguentaria esperar por este dia.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Volta ao Divã

Pensando esta noite: Ontem, depois de quase dois anos longe do divã, voltei a deitar olhando pro teto. Ela perguntou: E ai? Conte-me. E enquanto pensava o que e como, fiquei me perguntando qual a importância de uma psicanalista na sua vida, sua vida, sua e não dela. Será que posso encontrar uma solução pros meus problemas? Será que ela não passa de uma cartomante de luxo equipada com formação acadêmica mestrado-doutorado, duas línguas fluentes, bagagem cultural das viagens piegas pela Europa, pratos degustados, casamentos colapsados pelo desgaste inexorável do tempo em convívio, e acaba assim, como qualquer mortal que com o passar do tempo acaba mesmo entendendo seus semelhantes? Porque não sou exatamente o tipo do cara que guarda muito segredo. Costumo fazer uma faxina sempre que dá, gosto de conversar com mãe, pai, amigos sobre minhas questões internas, até como forma de dreno. Então, penso, será mesmo que preciso gastar esta grana pra ficar deitado contando as coisas que poderia contar num bar, em casa, na praia, detalhe, de graça? Devo realmente levar em consideração as coisas que minha analista diz simplesmente por ela ser quem é? Não estou sujeito a uma análise susceptível ao que ela acredita e construiu pra si? Que a transferência paciente - profissional esteja maculada pelas suas idiossincrasias, seus traumas, carência? Bom, só me resta tentar, vou continuar indo nas sessões de teto e olhar perdido nas lembranças, afinal, falar deixa a gente mais leve.