quinta-feira, 27 de março de 2008

Cheiro de Avon - puteiro Tchelas


















Estava na outra linha quando Silas me ligou.

- Fala Silas, te ligo em 5, pode ser?

Discutia com Raquel sobre o fim do relacionamento. Não bastasse levar a cama, meus discos e todos os talheres, queria que eu entregasse as fotos, aquelas do ínicio, ela pelada na casinha da praia da Almada com um baseado na boca. Queria os negativos, que as fotos eram dela. Como o negócio era me livrar do pepino, disse que deixaria os envelopes na portaria. Claro que fiz um backup das fotos pra mim. O mais engraçado é que os dois gatos que ela ganhou da mãe quando nossa relação começou a encrespar continuam aqui, o melado e a mel fodendo meu sofá cama com as unhas, a área de serviço fedendo, minha roupa cheia de pêlo. Paciência.

Apesar de achar difícil a vida de solteiro naquela primeira semana free, o simples fato de saber que o problema maior fora resolvido já me dava um certo alívio. Raquel se aproximava dos 30 e queria um filho de qualquer maneira. Dizia que tomava pílula, mas era só acompanhar a cartela esquecida na gaveta junto com o gelol pra saber que não. Algum tempo atrás ela sempre pedia pra não gozar dentro. Mergulhada na crise dos 30 passou a tratar minha porra como ouro derretido, sem disperdiçar uma gota sequer. E verdade seja dita, eu não tinha planos de me amarrar pro resto dos meus dias com ela. Certamente Raquel queria me manter por perto, nada melhor do que engravidar.

Naquela noite eu precisava de alguém. Por pior que a relação fique, no casamento você garante pelo menos um mamas and the papas twice a week. Solteiro a fome aperta.

Silas me convenceu da idéia de que casamento enferruja o cabra, e a melhor maneira de pegar no tranco é descer ao inferno e abraçar o capeta. 

Sentamos num bar da Vila Madalena. A maioria das mulheres jovens, lindinhas, frenéticas no celular e cabelo. Mas não foi difícil perceber que o negócio delas, definitivamente, era outro. Minha barriga dobrava o cinto e marcava o umbigo. Quando veio o bolinho de arroz e o garçom tirou meu sexto chope, arrotei de boca fechada concluindo que aquelas gazelas queriam mesmo é ser pegas por um guepardo. O bugio aqui estava condenado a bater uma com DVD de banca. Silas até que se empolgou arrastando a cadeira pra mesa de um grupinho, mas com aquele cavanhaque ensebado emoldurando um nariz adunco cravejado de cravos espanados e preto no meio, as meninas no mínimo, evitavam olhar pra não ter ânsia. Fora o hálito. Silas fuma três maços de derby/dia e gosta de torresmo.

O relógio marcava duas da manhã quando chegamos no Tchelas, puteiro da rua Augusta. O neon falhava no T, o rosa da fachada contrastava com o céu carregado de nuvens banhadas do âmbar da cidade. Carros no sobe e desce, buzinas, moças seminuas debruçadas nas janelas de monzas, santanas, kadetts, carro de quem tem algum extra no bolso, o suficiente pra gastar numa fudeca e ainda ter o que comer. Silas pisou na porta do Tchelas como se estivesse no Kodak Theatre. Entrou já abraçando duas. Parecia feliz, como se naquele ambiente fosse o grande astro da noite, duas indicações, e que aquelas moças tivessem mesmo admiração por ele. Mas pra quem via de fora e conhecia o cara, tudo ficava muito claro: Silas foi deixado pela mulher, pegou Fátima aos gritos com um estudante nigeriano e tinha uma vida afetiva estraçalhada, não engatava nenhum relacionamento, sempre no simulacro com profissionais, esquecendo que pagava por aqueles afagos.

O lugar fedia a mijo, gelo seco e buça mal lavada. Uma mulher parecida com a cantora Joelma, da banda Calypso, dançava num palco de fundo roçando no cano enquanto alguns desesperados alcançavam com as mãos uma ponta de bunda ou peito. Um espelho velho, já fosco, percorria de ponta a ponta o ambiente. Quem tivesse vendo peitos e quisesse checar bundas, recorria ao espelho. 

Deixei Silas se achando Sean Penn e encostei no bar. Uma menina dos seus 19 anos veio por trás e massageou minhas costas, perguntou meu nome. Pedi uma cerveja. Ela até gostosinha, coxuda, bunduda, peitinhos. Dei mais um gole e fiquei olhando. Um biquíni branco com saia preta de renda por cima. A luz negra realçava o biquininho entrando na bunda. Cheiro ruim, Avon, Revlon, algum crème de quinta pra baixar o cabelo ondulado. Ela deve ter achado que eu apreciava, talvez pelo tempo de pouso do olhar, cada parte do seu corpo, mas a verdade é que eu construía em mente um possível paradeiro pra ela. Deve ser do oeste catarinense, Xanxerê, Chapecó, alguma prima ligou pra ela aqui de São Paulo dizendo que dançava num clube e descolava mais grana que cuidando das galinhas. Sentou no meu colo e deu pequenos solavancos que casavam com a batida da música. Continuou nos solavancos e me puxou pela nuca pra perto. Beijei seu pescoço e avancei pra boca, mas ela forçou contra, argumentando que não podia beijar clientes, que se fosse pra rolar alguma coisa, 70 reais, toalhas e subimos pro quarto. Pedi um whisky com flashpower e um keep cooler pra ela. 

No quarto, já pelados, tomamos um banhinho. Tentei sair do protocolo e puxar um papo menos pega estica e enfia. Mas ela era lisa como um lontra, não entrava em detalhes, nada de trânsito afetivo, queria mesmo é que eu gozasse o mais rápido possível pra fazer cushkiiiiiim no caixa. Meti meia bomba escorando o pau pela base. Camisinha, claro. Enquanto ela chafurdava a cara no lençol e fingia prazer, levantei a cabeça pra me ver em ação no espelho. Que situação. Como os filmes fazem a cabeça da gente. Quanta pornochanchada e sexytime arquivados no cerebelo me fazem acreditar que estar neste quarto é absolutamente normal, sendo que eu não sinto prazer de nenhuma espécie no ritual. E quanto mais pensava nessas e noutras coisas, a a cópula perdia força. Foi a brecha pra baterem na porta. O leão de chácara perguntando se era crédito ou débito. Sacou uma máquineta de visa electron e pediu meu cartão. Fui até a calça, amarrotada no chão, e tirei a carteira. Pelado, no corredor do puteiro, digitei a senha e peguei o comprovante.