quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ressaca no Trailer












Steve acordou com o calor do trailer numa ressaca da pior. A cama e o travesseiro vomitados, só bílis. Um ou outro milho numa poça densa perto do colchão. Abriu os olhos e fez a retrospectiva do fim da noite. Não se lembrava de nada. Flashes de vômito, música alta, fusão serial de rostos de fêmeas decotadas. Pensou na carteira, nos documentos, onde os havia deixado. Memória em branco. A última coisa de que se lembra era uma roda de amigos falando putaria. Uma menina contando que trepava com o namorado todos os dias, durante os seis últimos anos. Ninguém acreditou. Até porque ela era uma broaca, e se trepava ou deixasse de trepar não faria a menor diferença.
Tentou levantar do travesseiro, ou pelo menos posicionar a cabeça na nesga de fronha que sobrou limpa, mas o enjôo era tremendo. O trailer não chegava a rodar, mas era com se estivessem injetado clorofórmio na aorta. E por mais que o mal estar imobilizasse Steve na cama, o fato da noite ter sido uma merda, o fez reagir. Queria saber dos documentos. Contou até vinte olhando para os rebites do teto de metal do trailer e ergueu a carcaça encharcada de álcool. Enquanto envergava o tronco, sentiu o fígado cobrando o castigo, uma dor logo abaixo das costelas, aguda. A primeira impressão naquela posição semi-erectus foi de que seria impossível se refazer. A ânsia veio, untou de saliva o palato, e então Steve correu pro vaso, onde tentou em vão, colocar alguma coisa pra fora. Achou um pano no canto do chuveiro, ainda úmido do banho de ontem, e meio que rastejando voltou `a cama. Esfregou no vômito pra tirar o grosso e atirou o pano longe.
Acordou depois de alguns minutos de sono leve, o enjôo estava lá. O estômago completamente vazio, mas não sentia fome, nem conseguia pensar em nada gorduroso, doce. No máximo tentaria um copo d'água com limão, uma maçã. Alguns flashes na memória seletiva. Lembrou de uma conversa com uma loira, já na sexta dose de vodka, e que ela convidou pra ir ao banheiro dar uns tecos e otras cositas más. Lembrou que preferiu não ir, a luz do bar escancarava uma pele mal cuidada da loira e Steve, por livre associação e alguma experiência, achou que ela era grupo de risco total. Se entrasse naquele banheiro a loira ia dar dois teco e abocanhar seu pau. Aí seria tarde pra uma camisinha. Mas que ela era uma puta gostosa era.
Na ressaca, levantou a cabeça mais uma vez pra ver o dia lá fora pela janela do trailer. Sol `a pino, deserto de Mojave, Barstow a 18 milhas dalí. Sua vontade era ligar pra mamãe pedindo ajuda, um carinho, uma sopa, mas naquela altura do campeonato, mamãe e papai não passavam de polaroids desbotados na caixa vazia de Cohiba. Steve, sozinho no mundo, não tinha a quem recorrer senão a si mesmo. Lembranças ruins não ajudavam em nada, bastava a ressaca. Desembrulhou o pau pra fora e ali mesmo, no silêncio do deserto, descascou pensando na loira. Melhor comê-la assim, na fábula, do que consumar e se foder com uma Aids. Gozar trouxe pelo menos algum prazer pra situação desoladora. O coração acelerado.
Passava do meio dia quando Steve finalmente conseguiu levantar. Bebeu meio litro d’água e meteu o dedo na goela. Repetiu três vezes. Começou a se sentir gente. A calça jeans na cadeira, as barras cheias de lama, respingos de vômito, conferiu no bolso de trás a carteira. Menos mal, estava lá.
E se na ressaca a cabeça estava ocupada com as maneiras de curá-la, quando melhorou, as angústias tomaram o lugar. Por conta delas a bebedeira atingia este estado. A falta de perspectivas. Com a grana como leão de chácara de uma boate, conseguia comer e beber, morar no trailer. Talvez o melhor seria ganhar um pouco menos, no limite da fome, aí sim não teria tempo pra conjecturar, estaria dia e noite pensando no que comer, como, onde. Mas com uns cents a mais de reserva, as angústias conseguiam penetrar e estabelecer as sinapses necessárias pra causar estragos. Fuck!
Uma águia careca sobrevôa o trailer aproveitando a corrente de ar. Numa das asas faltam duas penas importantes pra estabilidade do vôo. Steve se concentra na águia, na maneira como ela se apropria do vento, sem nenhum esforço, pra ganhar altitute. A vida podia ser assim. Uma corrente de ar, você leve, planando, sem grandes preocupações. Mas pra ele era como se as asas estivessem depenadas e não soprasse vento algum. Como se precisasse bater asas o tempo todo pra não cair e mesmo assim, vivia se estatelando no chão. Um redemoinho de areia se arma na soleira, junto de uns engradados de budweiser. Steve bebe mais um gole d’água, passa o dedo no suor da garrafa. Não consegue mais esperar. Achava que alguma coisa boa pudesse aparecer sem que precisasse se esforçar tanto, que alguém muito generoso apontasse na sua direção e dissesse: este cara é genial! Mas percebeu que o massacre é proporcional ao descaso. Quanto mais longe de uma ação concreta, mais a vida lhe janta pelas bordas. O grande lance é que ele tinha total consciência das suas fraquezas, da sua auto-sabotagem, mas nem por isso tinha forças, ferramentas pra lutar contra. Chegar aos 42 anos como leão de Chácara de uma boate de estrada, limpando banheiro, tomando esporro de patrão, não era lá a melhor das sensações de sucesso na vida. Alguns amigos de escola montaram uma fábrica de fraldas descartáveis, outro fazia atum enlatado, coisas que Steve, na época, desprezou, considerando que os amigos tinham se vendido ao sistema. Não submeteria a isso. Ainda mais ele, sujeito que sempre gostou de ler, que devorou meia centena de clássicos, e achou que assim, poderia ser melhor que os outros. Mas a erudição não quer dizer nada na América. O Make Wild Money não quer saber se você leu Edgar Allan Poe. Quer mesmo é que você entenda o funcionamento da coisa, onde está a grana, quantos bebês cagam em quantas fraldas, quantos sanduíches de atum comem uma gorda nas férias em Key West, que você tenha a blindagem pra vender a alma ao diabo, que navegue e domine a imbecilidade humana, sem filtros, sempre na pose de caçador com as botas sobre a cabeça do búfalo. Não interessa se você pensa, se orgulha disso, e não se sujeita a máquina de moer. Fora dela, você não é moído, é esfacelado. E é assim desde o início da vida. Quando papai jorra o líquido seminal em mamãe, o jogo está lançado. Nadamos desesperadamente em direção ao óvulo, batemos a cabeça no útero, tropeçamos nos irmãos girinos, e alguém ali vai chegar antes e ganhar o jogo. E no caso de Steve, perdido no deserto nesse trailer capenga, é mais ou menos como se papai tivesse feito o coito interrompido e melasse o sofá. Suas chances de chegar lá não existem. A ressaca. Tomar todas pra esquecer. Não faz acontecer. Hora de mudar, ninguém vai fazer por você.

The important thing: find me the french man

2 comentários:

Anónimo disse...

Who knows where to download XRumer 5.0 Palladium?
Help, please. All recommend this program to effectively advertise on the Internet, this is the best program!

Anónimo disse...

[url=http://sexrolikov.net.ua/tags/%C0%ED%E0%F2%EE%EB%FC%E5%E2%ED%E0/]Анатольевна[/url] Online porno : [url=http://sexrolikov.net.ua/tags/mobstar/]mobstar[/url] , все это смотреть