quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Modo de andar revela histórico de orgasmos da mulher, diz estudo

da Folha Online e Bangalô News

Um estudo realizado por pesquisadores da Escócia e da Bélgica indica que o modo de andar dá indicações sobre o histórico de orgasmos de uma mulher. A pesquisa, publicada na revista "Journal of Sexual Medicine", indica que especialistas em sexualidade podem fazer a análise desses orgasmos apenas ao ver as mulheres andando.
O estudo foi realizado pela University of the West of Scotland, em colaboração com especialistas da Bélgica.
De acordo com o blog especializado em ciência Scientificblogging.com, a pesquisa analisou 16 estudantes universitárias, que preencheram um questionário sobre sua vida sexual e foram filmadas à distância andando em locais públicos.
As fitas foram vistas por quatro especialistas, que não tinham visto o questionário das universitárias. No final, a pesquisa detectou que os especialistas conseguiam deduzir o orgasmo das mulheres apenas ao ver as imagens, com 80% de acerto. O estudo também indica que a soma de passos largos e rotação da vértebra facilitava o orgasmo das mulheres.
Entre as explicações para o fenômeno estão características anatômicas, a confiança que mulheres demonstram ao andar ou a saúde mental delas.
Para os autores, o estudo mostra indícios da ligação entre bloqueios musculares e a atividade sexual. Eles dizem que isso mostra a importância de tratamentos que envolvam movimentos e atividades musculares para tratar a disfunção sexual.
Já para o Dr. Wallace Large Umbrella, da Universidade do Congo, membro do conselho Long Cock Institute, mestrado em Biodança e Heinch, os bloqueios musculares são causados pela incompetência dos machos durante a cópula. Todas as alunas que fizeram intercâmbio na faculdade em que Dr Wallace leciona, voltaram com vigorosa postura corporal. O coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que esteve no Congo a convite de Umbrella, acredita que os homens africanos sejam fundamentais para a manutenção da vida sexual das mulheres.

Homens detectam traição melhor do que mulheres, diz estudo

da Bangalô News


Um estudo realizado por pesquisadores norte-americanos sugere que homens detectam a traição com mais facilidade do que as mulheres. A equipe, da Virginia Commonwealth University, na Virgínia, afirma ainda que os homens são mais desconfiados da infidelidade, mesmo quando não estão sendo traídos.
O pesquisador Paul Andrews e uma equipe de especialistas entrevistaram 203 casais heterossexuais com questionários confidenciais. Eles perguntaram aos voluntários se eles já haviam sido infiéis e se suspeitavam ou sabiam que haviam sido traídos. Entre os homens, 29% admitiram já ter traído. Entre as mulheres, o índice foi de 18,5%.
O estudo, reproduzido pela revista científica "New Scientist", concluiu que, além de trair mais, os homens também são mais espertos para captar sinais de infidelidade.
Eles detectaram 75% dos casos de traição, enquanto as mulheres identificaram apenas 41%. Além disso, eles também apresentaram uma tendência maior de desconfiar das parceiras, mesmo quando elas não eram infiéis.
Para Paul Andrews, esse comportamento tem uma explicação evolutiva, já que, ao contrário das mulheres, os homens nunca podem ter 100% de certeza sobre a paternidade de seus filhos. "Quando a mulher é infiel, o homem pode perder a oportunidade de reproduzir, e acabar investindo seus recursos para criar uma prole de outro homem", diz o pesquisador.
Em entrevista à "New Scientist", David Buss, da Universidade do Texas, diz que o estudo contribui para a teoria de que os homens desenvolveram defesas para detectar a traição, "o que os leva a ser mais cautelosos ao superestimar a infidelidade de suas parceiras".
Já para Hadad Ulkmanien, indiano com mestrado em Técnicas de Pompoarismo pela Loads Cum University, quando a mulher detecta e escolhe o provedor, ela entra em hipnosis fidelis, sendo remota a possibilidade de traição. É exatamente nesta instância que o provedor sente que prendeu a fêmea, que a prole com ela está garantida, e passa a se aventurar com outras.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Saga da Pétala de Ouro (primeira parte)


Corria o boato que na região de Serra Pelada o ouro voltou a aparecer. Passada aquela febre de mundos e fundos dos anos 1980, em que um formigueiro de 60 mil homens conseguiu extrair na unha 13 toneladas do metal ao ano, o lugar entrou em franca decadência, deixando `as moscas uma horda faminta de garimpeiros. Nas cidades fantasmas, os que ficaram sem ter como voltar pra casa passaram a viver de biscates, trambiques e algumas gramas de ouro achadas aqui acolá, o suficiente pra comprar óleo de cozinha, sabonete e, num momento de estravagância, nacos de charque. A cratera escavada encheu d’água, restou o silêncio melancólico, o céu dos urubus em círculo sobre algum boi morto atolado, as carcaças das bombas de sucção enferrujadas, fiação descascada, cobre retorcido, frascos e mais frascos de remédios amostra grátis, antibióticos, misturados na folhagem rasteira junto a palha de milho, espigas secas, galinhas depenadas, cachorros pêlo falho com a costela aparente, tudo ao som estridente das cigarras, que agarradas nas poucas castanheiras de uma floresta em pó, anunciam o fim das chuvas tropicais, sem se tocar que a exuberância verde se foi, restando o vazio ocre desenhado por aquele que se diz superior, sensível, polegar-opositor.

Eu morava em São Paulo, na labuta prazer grau zero de dois empregos, sem nenhuma perspectiva em vista. Meu bacharelado em Ciências Sociais nunca rendeu porras de nada. Me formei mais pela aflição de ter um canudo e ver alguma felicidade no rosto do meu pai. A cada aula um martírio, entrevistas e mais entrevistas, mandei meu curriculum para milhares de empresas, nada. O máximo que consegui foi passar por uma seleção e cair numa dinâmica de grupo. Catástrofe. Me levantei e fui embora quando a psicóloga do RH anunciou que o grupo deveria fazer um círculo e jogar escravos de jó. E assim fui, como a garrafa ao mar que morre na praia, levado, até por não me aprofundar na carreira (o que garantiria uma bela mamada na teta do Estado como professor ou bolsista), a ser barman durante a noite num night club ajeitado e durante a tarde, com o sono atrasado, administrava a academia de um conhecido meu, dono do cartório do bairro, vendo boy marombado. Ainda assim tinha forças para tirar um troco dando aulas de inglês, iniciantes e intermediários. Survival.

De início achei que fossem bicos temporários, mas a inépcia e crítica ácida aos trabalhos oferecidos fizeram-me perecer num patamar muito aquém das minhas faculdades. Parece que as classes mais abastadas conseguem fazer do pobre um eterno mergulhador na merda. Não existe a menor chance. Todas as possibilidades ficam na mão dos bacanas, dos filhos de doutor, da blindada teia de contatos que a elite monta para deixar os sem sobrenome fora da lista do banquete. O pobre, que não tem nenhum conhecido quente, advogado, médico, publicitário, e só conhece o dono do boteco com bilhar, para se infiltrar nessas, só com muita sorte, estudo e algum interesse de quem manda. Acredito que meu grande problema sempre foi pensar demais e agir de menos. Talvez tenha sido um erro fazer a faculdade e me interessar pelos livros, por literatura. Se fosse como os outros, que executam ordens sem grandes sonhos, resolvidos na alienação e mediocridade, a dor fosse menor. Infelizmente tive acesso aos estudos, meu pai foi grande leitor de clássicos, boas músicas, e apesar do dinheiro curto, conseguiu que eu frequentasse as aulas até o fim. Mas nada disso garantiu crescimento. Muito pelo contrário. Paralizou.

Sentado na praça do bairro, sete da noite, calor infernal, reconheci de longe um primo meu. As pombas abriram seu caminho no momento em que a catedral badalou a hora da missa, a brisa varreu folhas e desfez o jato de água do chafariz. Não recebia notícias dele há tempos, talvez dois anos, sabia apenas que tinha voltado do Pará, no tal do boato do ouro nas redondezas de Serra Pelada. Coisa que desprezei, como tudo que foge aos meus olhos, `as minhas metas. No banco da praça, olhando o convés das meninas, o movimento em volta do pipoqueiro, o primo me contou das novas. O ouro acabou em Serra Pelada? Sim. Mas no entorno, procurando bem, a chance era grande. As pepitas saiam limpas, inteiras da mistura de lama com raiz e se nesse meio tempo nenhum virado no capeta te metesse bala nas costas, dava pra tirar, no mês, a grana que se ganha em ano como escravo de bacana. As crianças brincavam na praça, meninas já risonhas aos meninos das bicicletas novas, reparei no primo de relógio novo, roupa de marca, moto 250 zerada, namorada princesa cheirosa. Por mais que simulasse calma, aquilo foi me dando uma azia, remoendo meu estômago. Ele sempre foi o cara pra quem eu ensinava as coisas da vida, gabando do meu intelecto acadêmico corrigia seu português e sua preguiçosa ausência de plural. Mas sempre grande companheiro de rua, farreamos muito, paguei muita cerveja como irmão mais velho, e perceber agora que o jogo se inverteu, ele a bola da vez, me causou forte sensação de fracasso, derrota naquilo que entendia ser. Esse moleque não podia. Muito menos ter mais grana. A minha certeza não dava margem pra erros tão grandes de trajetória. O tempo nem as circunstâncias podiam aprontar uma dessas.

Fui dormir com a angústia em forma de solda cuspindo fogo, um gavião real que fustiga o rim exposto na estrada. O sono profundo não vinha, um primo andando de moto nova pela cidade, reencontrando o pessoal, contar vantagem, acordava sucessivas vezes e o coração acelerado. Achava que era sonho, mas nas primeiras sinapses percebia o real. Meu primo conseguiu. Me deixou pra trás. Enquanto caminhava na toada burro de carga, sem grandes progressos, sem participar do banquete, ele foi adelante, ariscou e trouxe seu peixe grande na linhada fina. E se até então me convenci que levando um dia após o outro talvez a vida passasse mais depressa, na presença do primo a história foi outra. Senti o sangue nos olhos, vontade de crescer, fazer o meu, ganhar dinheiro. Posso lhes garantir que o dia seguinte ao encontro na praça foi o pior da minha vida. Chegar ao trabalho e receber ordens, carregar peso, executar tarefas inúteis, sabendo da mais-valia, grana no bolso do patrão, quase nada no meu causou uma perda irreparável. Com aquele salário miserável pelo resto da vida, talvez algumas bonificações de fim de ano, não tinha mais por onde respirar tranquilamente. Era tudo muito pior que ressaca de campary e anis sem gelo num bote, uma trepada sem camisinha num brega barato em pleno carnaval.

Encontrei o primo na praça dias depois determinado a pedir algumas dicas dos melhores locais de garimpo no Pará. Tudo muito discreto pra não parecer favor ou conselho. Queria grana rápida pra montar meu próprio negócio, mais do que isso, manter certa distância dele, da prosperidade, só teria coragem de voltar se minha condição fosse melhor, se o status de dono do pedaço voltasse a vigorar.

Passada a época das secas na Amazônia, embarquei num ônibus convencional para Marabá, Pará. Pedi demissão dos dois empregos alegando boas propostas de trabalho na companhia Vale do Rio Doce, Serra dos Carajá. Tudo mentira. Partiria para a saga do ouro em busca de uma alternativa rápida pra enriquecer sem ficar na mão de um bando de mercenários. Nem teria meu primo cutucando meus vespeiros com vara curta.

Já no ônibus, a realidade passou a dar pontapés na porta. Olhei por entre o vão das poltronas. Balançava muito nos buracos da estrada e meu campo de visão oscilava. Viajavam duas fileiras pra trás um grupo de cinco homens. Bebiam cachaça na garrafa pet verde em largas goladas e a cada parada, compravam cinco latas de cerveja cada um. Falavam alto e quanto mais a pinga subia, mais o celibato de meses sem uma conferida cobrava seu descarrego. Começaram a incomodar as moças, sem distinção, casadas ou não, gordas, velhas, com a missão cega da cópula. Posso dizer que as chances de pipocar bala no ônibus não foram poucas. Quando o marido de uma delas, que até então dormia com a cabeça no vidro acordou, o caldo só não engrossou porque ele se viu em desvantagem contra os cinco. Trocou de lugar com a mulher, sentando no corredor.

Chegada a minha vez de dar uma mijada naquela imundície, as latas de cerveja misturadas aos biscoitos de polvilho pisoteados, aproveitei para observar os caboclos com mais atenção. Um deles se adiantou oferecendo um gole da cachaça, a garrafa pet estalando com a pressão dos dedos, o sorriso sem os da frente, os olhos vermelhos lacrimejados, óculos escuros na testa, o rosto esturricado do sol da testa rabiscada, mais parecendo pescador de jangada no mar. Perguntei de onde vinha, pra onde vai. Contou-me que ele e alguns conhecidos saíram do Paraná há nove meses em busca de trabalho. A primeira parada foi em Mato Grosso. A família ficou pra trás, esperando sorte e trocados para o arroz e feijão. As geadas e chuvas no sul arruinaram suas plantações e se viram endividados com as terras arrendadas e os financiamentos do banco. A chance estava na soja, notícia que corre rápido. Mas em Mato Grosso encontraram talvez a pior das experiências reservadas aos cães, quem dirá aos humanos. Sobram vagas aos que se sujeitam por obrigação. O abismo. Eram catadores de tocos. Explico: A Floresta é posta a baixo e toda a madeira de lei retirada é vendida. Depois os tratores entram em duplas, ligados por correntes pesadas e arrastam, colocando tudo no chão. O fogo arde durante dias naqueles nacos moribundos de madeira de lei, arbustos, flores, ninhos de araras, filhotes de macacos, até que a floresta amanheça morta e negra, em brasa, num sol laranja e omisso, por conta da fumaça. Para que a máquina comece a preparar a terra das sementes, não pode sobrar nada que embole nas engrenagens e danifique o maquinário. Entram em ação os catadores de toco numa terra quente de brasa, a cara de fuligem, calor de 40 graus, fumaça, agachados sem qualquer tipo de instrumento de segurança para arrancar um a um todos os pequenos tocos de madeira, pedras, raízes que encontram pela frente. Imagine como um cara desses fica depois de um mês nesta nobre função? Vai se despindo até que dignidade nenhuma lhe reste. E então a baba branca no canto da boca dele não foi suficiente pra negar uma oferta. Nos olhos um do outro, sentindo sua dor, compartilhei de dois generosos goles da marvada. O destino dos cinco era o meu: garimpo. A saída desesperada para uma realidade que se armou num cerco bem feito de desgraça. Logo eu, universitário, leitor de Dostoievski, da Piauí, bilíngue, das mãos de poucos calos, perdido no Pará em busca de ouro. Que os deuses possam me ouvir. Ouro.

Cheguei em Marabá ao meio dia de uma terça feira de chuva forte. Alguns trechos de floresta me davam uma vaga noção do que um dia foi tudo aquilo. Do asfalto vapor, e o Tocantins, talvez o maior rio que já vi, siriricava gotas grossas da chuva de verão. O combinado seria ligar de um orelhão e esperar por um tal de Branco, no posto de gasolina da cidade. O garimpo ficava a duas horas dali se a estrada de barro estivesse boa, coisa rara nesta época do ano.

Branco chegou numa caminhonete cabine dupla com uns oito caboclos na carroceria. Ele no volante no ar-condicionado e um grisalho, de chapéu e camisa pólo vermelha de co-piloto. Joguei a mala no meio de uns galões de gasolina e me ajeitei como pude. Os caboclos me olhavam de bombordo, analisando meu tipo. Por mais simples que fossem, com certeza passaram o pente fino vendo que eu tive mais chances na vida. Talvez o tanto de sol que o couro tomou, a proporção cabeça tronco e membros, os dentes brancos, o olhar de alguma esperança. Depois de anos trabalhando por comida, o caboclo não pensa em mais nada. Trabalhar – comer - apagar. Se o dinheiro curto sobrasse para além dessa tríade, talvez ele tivesse tempo pra pensar em como é explorado, e criaria problemas ao empregador. Mantendo ele no limite da fome, fica mais fácil manipular, é a maneira mais cruel de domesticação. Fica nítido na expressão de rosto, no caminhar, no tom de voz.

Na chegada ao garimpo me impressionou a precariedade dos alojamentos, as condições absurdas da falta de segurança. Mas isso tudo é luxo e supérfluo quando o foco de todos está no ouro encontrado, independente da malária que se pegue, do risco que se tenha, da fome e saudade que se sinta. Saudade sim, de buceta, do carinho da mulher, dos filhos, da infância. Agora me lancei numa sobrevivência louca, Vietnã Malvinas, Congo Bagdá Angola, e por mais que tudo isso pareça loucura, quando lembro do meu primo com grana e dos meus empreguinhos bunda, a faculdade, bate um nervoso, pânico, e é aí que encontro a força motriz que faz seguir, se jogar naquela lama atrás de ouro. Um corte profundo na perna, febre, sede, diarréia, coisas corriqueiras. A condição sina qua é que do chão não passo.

Muito rapidamente entendi as leis do garimpo. O buraco onde se escava tem o tamanho de três piscinas olímpicas e cada doze metros quadrados são distribuídos entre grupos de dez garimpeiros. 60% do que é encontrado é dividido entre os dez, enquanto os 40% restantes fica pro tal do Branco e seu sócio. Na vendinha se consegue pinga, farinha, carne de porco, roupa e desodorante. Moeda é ouro. Tudo superfaturado pelo dono, Branco. Duas vezes por mês chega ao garimpo um ônibus escolar velho trazendo engradados de caninha, cigarros contrabandeados e meninas, geralmente menores, pra refrescar a mente do caboclo. Duas gramas de ouro por uma bimbada rápida no alojamento de taipa. E é bom se adiantar pra ser um dos primeiros porque a fila é grande.

No terceiro mês de garimpo, passaria reto pela minha mãe sem que ela me reconhecesse. Se chegasse em casa assim, minhas irmãs dariam queixa `a polícia. Um reflexo de espelho era tão raro que já projetava minha face pelo tato, lembranças, pela reação dos outros ao me observar. Minhas pernas cheias de inquilinos devendo condomínio. Bernes e picadas infeccionadas, arranhões. A tarefa de colocar uma calça e meter as botas já era em si, o grande feito do dia. O jeans subia espocando as feridas e a lama seca misturada cuidava de aumentar o estrago infeccionando ainda mais o que me restava de carne fresca. Perdi todos os pruridos e noções de higiene. Quando a coisa ficava preta, cachaça nas feridas. Andar cagado virou coisa corriqueira. Mesmo assim, ouro me colocava de pé todas as manhãs.

Foi numa quinta feira de muita chuva, em que poucos os homens se aventuravam a escavar lama diante do sério risco de soterramento, que acordei numa caganeira das bravas. Tinha certeza que fora a carne de porco dos dias em que a única geladeira a gás pifou, kaput. Pontadas, dores no abdomen, só podia ser. A mandioca é que não. Corri desesperado por um descampado atrás do alojamento, as calças arriadas, as perebas abertas, a chuva descendo pelas sobrancelhas, a respiração ofegante, quase nada me restava, fui despido de civilização na marra. Olhava para os lados, o céu, as costelas aceleradas e enquanto, no meio de um riacho, aliviava as entranhas do pesadelo numa posição nada grata, comecei a pensar na possível desistência. No garimpo não é o trabalho que liberta. A idéia de que a sorte aparece quando o trabalho duro encontra sua oportunidade parecia cada vez mais distante. Nos meus quatro meses de garimpo acumulei experiências interessantes ao meu curriculum como cientista social. Quem sabe alguma multinacional queira me contratar. Minha pós em malária, tentativas de ser currado e poucas gramas de ouro. Não aguentaria por muito tempo.

Finalizado o serviço, subi as calças cuidadosamente, evitando cada chupão de mosca. Ao tentar dar o primeiro passo percebi que estava preso na lama, as botas fizeram vácuo, e que quanto mais me movimentasse, mais elas afundariam. Por mais que me esforçasse em ir para frente ou para trás, o esforço era em vão. Então agachei para desamarrar a bota, sem enxergar nada na lama, e com cuidado fui desfazendo os lances de cadarço. Neste momento senti uma coisa raspando minhas costas e bunda, como se deslizasse. Imaginei um toco, um cipó, me dera fosse a bunda macia da nega velha, mas o movimento não me parecia ser morto ou vegetal. Em outra situação talvez fosse o caso de entrar em desespero, mas o tempo de garimpo serve pra vacinar o caboclo, tudo é possível, o grau de tolerância aumenta muito.
Continuei meu trabalho com as botas. A chuva prosseguia e se intensificava, arrastando ainda mais tocos de encontro aos meus joelhos. O barranco da margem, por onde a água corria ligeira, ia aos poucos cedendo, e cada vez mais abria minha distância com relação as margens. Também aumentava a profundidade do riacho com as botas afundando e o volume de água subindo. Mas uma vez agachei para livrar o pé da primeira bota, a lama no meio do cadarço dificultava o trabalho, comecei a engolir água, os tocos desciam e agora se chocavam contra meu braço, perna, baço. Intensifiquei o trabalho, não adiantava gritar aos outros, o barulho do gerador da bomba deixava todo mundo surdo. Mas uma vez senti como uma massa pesada passando pelas minhas costas, quase ao ponto de me desequilibrar, até que algo mais rápido que um mestre de capoeira laçou meus pés derrubou-me de bruços no riacho. Enquanto tentava escorar no fundo de lama, evitando que as mãos também afundassem como os pés, uma porção gorda de carne escura me abraçou as pernas e consegui ver rabo, um dorso, a cabeça da sucuri gigante. Filha da puta. Só me faltava essa. Sensação de morte. Eu era o tal do bezerro do National Geographic, preso pela sucuri. Enquanto meus braços permaneciam livres, esmurrava pra que ela soltasse as pernas, mas a força do bicho era tamanha que na pressão do seu dorso meu corpo se soltou da lama e fomos arrastados, embolando riacho abaixo. Pescoço, tronco, minha única meta naquele instante era não deixar que ela me desse o abraço mortal. Com os tocos e pedras que encontrava nas beiras do rio, socava a filha da puta, que de filha de puta não tinha nada. O puto ali era eu, que não tinha nada de estar ali cagando no riacho dela, atrapalhando a hora do jantar. Continuamos descendo cada vez mais rápido até que uma árvore deitada sobre a água me deu suporte e flutuação. Com a pedra afiada. Golpeei a sucuri na cabeça e na parte mais grossa e musculosa, até senti ela ceder e parar de comprimir. Arrastei metade do corpo pelo tronco da árvore, continuando com os golpes certeiros na cabeça da puta, até que ela perdeu a consciência e se enlaçou no tronco em espasmos, sem mais saber o que era o quê. Levantei com raiva, sem as calças, sem as botas, pernas sangrando das feridas, e com o corpo coberto de lama apanhei uma pedra ainda mais afiada. Atravessei a sucuri drenando toda a raiva que sentia dela, do garimpo, da situação até que a pedra encontrou o barro do outro lado e as tripas dela apareceram escorrendo pro lado. Bati mais vezes, respiração acelerada, a saliva grossa me escorrendo da boca até que vi o impossível, o inacreditável, a cena que imediatamente me trouxe de volta a máxima: No garimpo não é o trabalho que liberta, mas a sorte. No meio da barrigada da sucuri, uma pepita de aproximadamente um quilo de ouro, senão mais, saia do meio da tripa, toda babada, o organismo da cobra tratou de digerir o barro e deixou a pedra pura, um quilo de ouro. Naquele momento a chuva parou, só o barulho irritado do riacho, a cobra aberta, o sangue das feridas me encorrendo pelas pernas, inacreditável, um quilo de ouro. Mother fucker!! Takes four loads of cum!! O equivalente a 50 mil reais. Arranquei a camiseta fazendo um calção medieval, alojei a pedra no saco, na altura do períneo e voltei ao alojamento. Deveria deixar aquele lugar o mais rápido possível, antes que os outros ganhassem no meu olhar a sorte grande, coisa que qualquer ali conseguia fazer muito bem, no meio da merda, todo mundo percebe quando sopra a brisa.

Na manhã seguinte peguei meus trapos e voltei no mesmo ônibus que trouxe as meninas e os engradados de caninha. Até perguntaram o porquê da minha saída. De pronto respondi que ia voltar pra minha cidade, cuidar das feridas, que logo voltaria em busca de ouro. Como já tinha fama de boy, de alemão, acharam que era o fresco que não segurou. A história passou como verdadeira.

De volta a Marabá, a primeira coisa que fiz foi comprar uma roupa fiado. Deixei minha identidade com o vendedor da Vest’s e peguei uma bermuda dois número acima e regata cáqui. No centro da cidade, local em que as transações de ouro acontecem, naquela loucura de feira com camelô, dvd pirata, chamei um táxi e pedi que me esperasse na porta. O ouro era da melhor qualidade, pouca quantidade de paládio, puro, a sucuri tinha feito um belo trabalho, não fosse pelo abraço apertado, teria dado um desconto a ela.

Com o dinheiro dividido pelo corpo, entrei no mesmo táxi e mandei seguir até Belém, 300 km de Marabá. Se você fica muito tempo dando bandeira corre o boato, até mesmo pelo cara que comprou o ouro e te pegam numa esquina atrás da grana. O certo é sumir do mapa na mesma hora.

Cinema 26/10 - Bilhete na garrafa

ACONTECE:
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NO AR:
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CONVERGÊNCIA DIGITAL:
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