sexta-feira, 30 de maio de 2008

Minha Husky

Dela no barco, pouco me lembro. Proa popa popa proa e mal a via. Só tinha olhos para a vela cheia de vento, casco que corta água, horizonte, braço salgado, pé no acrílico branco. Dela mesmo, quase nada. 
Passar quatro dias em alto mar transforma um homem. O marinheiro vira marujo coiote fácil. Só água e horizonte deixa qualquer um maluco por terra firme e mulher. É inexplicável, mas deixa. E no terceiro pro quarto dia, logo pela manhã, ela que não era nada perto daquele horizonte, daquele mar e céu de azul profundo, passou a ser tudo. Uma xota, uma bunda que engolia toda a beleza do lugar, dos lugares. E era a mesma xota do primeiro, do segundo dia. Então porque no quarto a mesma xota virou A xota?
Chegamos à ilha, já próximos da costa do Panamá. Nunca tinha visto um lugar tão bonito. Azul turquesa, coqueiros e areia branca, tudo como manda o figurino. Era hora de abandonar navio e capitão, daqui os outros podem seguir viagem, fico por aqui. Não só eu, a finlandesa também. Que finlandesa? A Xota. Ficamos a ver navio, a ver veleiro sumir na quina de coral da praia.
A ilha é habitada pelos índios da tribo Matapalpa. Esperava aquela recepção de filmes, colar de búzios, coco e abacaxi na madeira e três indiazinhas pra brincar de macunaíma na rede. Nada. Índio quer pescar, índio quer caçar, índio faz artesanato, mas gosta mesmo é de din din, money, bufunfa, mais que espelho, mais que machadinha, é money in cash, igual a qualquer um, qualquer lugar. 
A finlandesa e eu ficamos numa oca grande, com muita gente, muita fumaça, galinha e cachorro. A finlandesa na rede do lado, balança aquela bunda no casulo, só o volume das ancas no balouço que espanta fumaraça de fogão no chão. Na minha rede, fechada as duas bandas, mexia no pau, no pau pensando nela. Se no barco bateu uma vontade de leve, em terra firme, no meio dos índios, numa ilha perdida no Caribe, eleve esta vontade ao cubo.
Não podia mais vê-la tomar sol, comer peixe frito e lamber os dedos, brincar com as crianças se agachando acocorada, beber água, raspar as axilas, mexer no cabelo, coçar o braço. Qualquer que fosse a ação da gringa e eu virava coiote de perder o prumo.
Eu até que tentei me segurar batendo minha punheta na rede, a noite, com a tribo toda dormindo na escuridão dos bichos, no longe do mar. Mas na bronha não resolvi, acordava com a casquinha seca no umbigo, a mancha amarelada na rede e na do lado aquele volume gostoso dormindo. Voltava tudo, voltava coiote.
De tão coiote, se antes eu mal falava com ela, se no barco só rolava um good morning e beautiful sunset, encostei na rede dela pra conversar. Ela lendo um livro, lendo A Montanha Mágica. Fechou o catatau na página do dia e sorriu sem desnudar os dentes, puxou a costura da blusa que lhe apertava o peito. Convidei pra pegar uma praia, ver se os índios já tinham voltado do mar com os peixes do dia. Topou. Guardou o Thomas numa bolsa de viagem, pegou seu chapéu trançado, dois hashis pra fazer coque e uma sandália de dedo. 
A caminho da praia pouco falava. E nem precisava. O lugar é de uma beleza tão grande que os olhos se perdem nas cores das flores, nos cantos dos pássaros, no vento na árvore, no lagarto verde que rasteja mato seco, no papagaio mordiscando fruta, no caranguejo que escapole pro buraco. Melhor que qualquer Guggeiheim, Loivre, Metropolitan, só obra de arte de primeira. 
Quando o caminho estreito de areia por entre a vegetação rasteira deu espaço só pra areia, o marzão deu às caras. Vento gostoso, barulho de mar e vontade de correr um pouco. Uns tiros de cem metros rasos, só pela liberdade de correr. Ela nem se abalou pela minha felicidade de latino pelo mar, pelo espaço livre, pé no chão. Continuou com aquele sorriso selado, olhos fixos em pontos distantes, mãos acertando o biquíni na altura dos pêlos depilados. Como se fosse uma governanta austríaca levando o filho bastardo do patrão pra ver o mar. Sem saco pra cuidar de filho dos outros. E o bastardo corria, enfiava o pé nas algas secas do entre marés, penteava o cabelo com os ventos, rabiscava areia com graveto, fechava os olhos. E a governanta lá, gelada como um viking por entre Icebergs.
Mas aos poucos foi caindo por água abaixo toda a minha crendice de que os nórdicos são frios e insensíveis. Ela estava ali parada, mas em puro deleite. O simples fato de sentir um vento tropical, de ver um mar com aquela cor, um sol que não se esvai nunca, já era motivo para paralisá-la, tirar a gringa de órbita. O que eu tinha como trivial, carne de vaca, de ter o calor, o mar, o verão sempre a disposição, para ela era um banquete, uma ceia que ela nunca teve na Finlândia. Então fui deixando de correr, de chutar areia, de fazer toda a macacada para observá-la. Ela caminhou com os braços pra trás, chapéu na mão, olhos semicerrados e sentou num tronco gordo que a maré alta cuspiu do mar. Tronco cheio de craca, madeira da boa, madeira que pode passar anos à deriva, se é que não passou. Continuou a olhar pro mar, às vezes pro sol, parava no sol de olhos fechados, voltava pro mar. Que mulher!
Sem conversar, sentei no que restou de tronco. Ela não se mexia, não deixava sua contemplação pra nada, eu ali era o chato da pipoca que atrapalhava seu filme preferido. E se ela não esboçava uma olhadela sequer, fui eu quem passei a vê-la de perto, cada vez mais perto. Percebia no seu rosto as cicatrizes do frio cortante lá das riba de cima. Um pé de galinha em leque, o contorno da boca ressecada, e os olhos azuis com diafragma f22 pra evitar o sol. Todos os fios de cabelo loiros, das sobrancelhas à penugem da orelha tudo loiro, amarelo trigo, muito longe do meu cabelo ruim de mameluco. Um corpo que não tinha a fartura volátil de um quadril carnaval mulata, via uma pele nívea com cara de bem durável, uma bunda que não sucumbe ao declínio, peitos que se mantém quindim, bunda que dá pra ver de luz acesa por longas décadas. Tudo com aquela penugem de pêssego. 
E se não fosse o zumbido constante do vento nos ouvidos, estaríamos num silêncio sepulcral já que ela não pronunciava uma única palavra. Melhor! Não só não dizia nada como gostava deste não dizer, simplesmente gostava de ver e ouvir o que não é som urbanóide. E apesar dela não pedir pelo meu silêncio, a sua quietude tragava minha agitação, como se aos poucos eu fosse adestrado, um labrador que sabe onde mijar, onde deitar, a hora de parar de latir, de pedir carinho. Ela conseguia tudo isto sem dizer, sem olhar e eu entendia muito bem.
Mas se até então me comportava bem, de uma hora pra outra o sangue latino subiu, os tambores tocaram, as maracas sacolejaram e a pica me fez tripé. Não só o corpo era escultural como sua áurea transcendental. Ela tinha me cercado por todos os lados, era uma mulher de verdade, longe das poucas e loucas que tive na vida. Tal descoberta me pôs maluco a tal ponto que, como um cavalo selvagem que derruba cela e cowboy e rompe a cerca aos galopes e relinchadas, avancei no seu cangote sem dó, lavando de língua o que via pela frente. Ela, sem fazer escândalos, sem se debater e gritar como as histéricas deste nosso mundo, simplesmente pediu calma, disse nãos e nãos e nãos e procurou me acalmar, afastar-se da minha boca louca. Então, já que tinha começado, tentei de novo, avancei. Ela, um pouco mais ríspida, desta vez apertou meu braço com força, apertou justo o braço da mão que buscava suas coxas, o filé do meio das coxas. E se olhar azul antes pairava sobre o infinito do horizonte, agora me olhava como uma SS na triagem da fila do gás.
Esperei alguns minutos antes de voltar a atacar. Desta vez a arma era outra: a convenceria a dar por exaustão, no argumento; famigerado xaveco:

- Olha, eu juro que não te entendo. Nós dois aqui nesta ilha num fim de mundo e você não dá uma brecha...eu...eu...eu juro que não te entendo.

Silêncio Vento

- HÁ HÁ HÁ Você é um cara engraçado. Enquanto a gente estava no barco naqueles quatro dias de viagem, você mal olhava pra mim, não dava bola nenhuma. Agora que eu sou a única mulher do barco você resolve querer me comer. Isto é típico dos latinos! Só porque tá com uma mulher na praia tem que comer por comer. Eu não vou cair na sua, Ah não vou mesmo.
- Mas qual o problema em querer te comer. Qual o problema, me fala?
- O problema é justamente este, você SÓ quer me comer, mais nada, só comer e pular fora....Típico dos latinos.
- Porra! Não é nenhuma aberração querer comer alguém numa praia paradisíaca, querer gozar. Tem coisa melhor do que trepar...E tem mais, você vai gozar, eu vou gozar, os dois vão gozar, na praia, na noite estrelada, que mais você quer, não tô entendendo. 
- Pois é. Você não entende porque é latino, os latinos são machistas, acham que qualquer uma tem que dar. Eu vi muito bem como é que funciona. Quando eu fui pra Martinica, era só eu querer dançar que o negão já achava que eu queria dar. Se você quisesse mesmo ficar comigo, eu teria percebido algum interesse ainda no barco, não agora que você não tem opção, que não pode comer uma índia senão arruma briga, e encontra a amiga de bordo como única chance de dar uma. Não vem não, sem chance.
- Quer dizer que você prefere passar vinte dias sozinha do que trepando?
- Exato.
- Quer dizer que você vai viajar todo o Caribe e voltar pra Finlândia sem dar?
- Você continua sem entender. EU NÃO QUERO DAR PRA VOCÊ, PRA VOCÊ, DÁ PRA ENTENDER? É DIFÍCIL?
- Deixa pra lá.


O mais pavoroso de tudo é que aquele negar irredutível elevava meu tesão ao grau máximo. Passei os dias seguintes sem pensar em mais nada, sem escutar quem fosse, sem sentir a água do mar, o sol, os ouriços no pé. Era inacreditável. Como iria contar aos amigos uma história louca destas. Era inconcebível, vexatório, não podia com aquilo mesmo me remoendo com seu argumento de classe: “ Se não antes; porque agora?”. Aquela mulher era realmente incrível.
E pra piorar, ela queria ser minha amiga. E ser amigo de quem você quer comer é a pior tortura que pode existir. Pode arrancar minhas unhas de alicate, choque elétrico, ameaçar os filhos, agora, esfregar xoxota na cara e não dar, não dar e querer abraço, carinho, chamando de miguinho, de fofo, isto é humilhação da boa. 
Amiguinha acordava nova, saia da rede, Thomas Mann quase no fim, chapéu, arrastava a sandalha de dedo até minha rede. Então fazia um carinho no cabelo, soltava um good morning e me convidava pra dar um mergulho, andar na praia. Pedia pra que eu levantasse rápido, me puxando e eu fingindo que não, que na rede estava bom, que já ia, tudo pra disfarçar um pinto já de pé. 
Quando finalmente o bimbo me dava um sossego, levantava e corria pra praia. Ela já na água entre os corais. Pra ver um peixe, uma concha no fundo, mergulhava embicando a bunda. Então ela me via de longe, ficava de pé no coral e acenava, chamava. Eu entrava n’água devagar, pisando com cuidado, os peixes coloridos beliscando os dedos do pé, até que eu chegava na sereia. A sereia me olhava, dava o tradicional riso sem desnudar os dentes e me passava sua máscara de mergulho. Feliz da vida apontava uma estrela do mar, uma antena de lagosta e lá se ia o coiote com cara de tacho. Mas esta parte até que era bem boa. Ela de pé na piscina natural, água pela cintura, e eu de máscara mandando lagosta, estrela do mar pras picas, gostava mesmo é de fitar sua bunda lá de baixo. Segurava numa ponta de coral pra não boiar e me perdia naquela vista de bunda, de xoxota no biquíni, de pulinhos na areia. Perplexo como é bom mulher pelada, nem me lembrava de subir pra pegar ar, aguentava o máximo, o máximo, até explodir lá pra cima. E pra melhorar ainda mais, ela começou a nadar peito. Nadar peito! Existe algo mais fantástico do que ver, de máscara, uma mulher nadar peito embaixo d’água? Golfinho nadando é bonito? Tartaruga marinha respirando é uma graça? Ballet de arraia é fantástico? O que dizer então do nadar peito de uma moça, pernas que se desencontram, chutam e deslocam água, e nos dão o mais belo ângulo do planeta, a bissetriz calculada, o esporão no cérebro, a ventosa babada, a concha viva que sorri na lycra, o triângulo das bermudas que hipnotiza e fulminaria Vasco da gama na primeira das travessias. Nadar peito! Peito! Aprendeu na piscina aquecida de Oslo, onde passou parte da infância. A professora gritava do seu craw desgrenhado, do seu borboleta catastrófico, mas no nado peito ela se encontrava, gostava daquele deslizar de cabeça, de pescoço ganso mergulhando, as pernas que voam pelo ar denso. A professora elogiava. Então, voltando ao nosso nado peito aqui, lá estava eu atrás da gringa. Uma água cristalina, 10, 20, 30 metros de visibilidade e a gringa na frente no peito. Eu também nadava um peito, só que bem mais lento. Bem mais lento pra ficar sempre pra trás. E se deixado pra trás, significa poder vê-la por trás. E que bunda. Carne que fica mais bonita ainda debaixo d’água, carne que engole biquíni a cada pernada e me fazia engolir água. Era como se meu olhar tivesse um Bresson instalado. Só pegava os melhores instantâneos, as melhores fotos, espocadas de flash, nada poderia com aquelas cenas, nada me tiraria dali, nem um tubarão de recife nadando pelo meu flanco esquerdo desfiaria minha atenção. O nado peito, momento sublime, flashes potencializando ainda mais minha loucura.
De volta à areia, ela largou o equipamento de mergulho melado na areia e se preparou para me dar mais um presente: alongamento. Isto mesmo, deitar, abrir espacate, fazer ponte, tudo naquele biquíni, com a brisa do fim de tarde secando o sal no pescoço, deixando seus pêlos ainda mais louros, salgados, enquanto o volume da minha sunga parecia ter um quilo de sal grosso. 
Enquanto a observava, sentia o resto de sol me lambendo as costas e a textura da mão numa maciez incrível. Unhas saudáveis, como se o banho de mar às renovassem. Procurava entender se ela tinha consciência do que aquela ginástica toda causava no cumpadre aqui. Se ela desconfiou que o meu nado peito débil tinha um propósito. Enfim, queria saber se tudo aquilo era uma grande provocação pra me deixar louco, ou se, assim como seu olhar contemplativo ao mar, ao céu, ou seus argumentos certeiros, ela não estava nem aí pra mim e fazia do seu corpo o que bem entendesse, sem dar margem à minha loucurada de coiote. Mas do que isto. Passei a perguntar aos deuses se as mulheres tem, com exatidão, idéia de como uma xoxota afeta o macho. Mas a melhor resposta que encontrei foi que para isto, basta imaginar se nós, homens, temos idéia de como um bimbo ou coxa peluda afeta as mulheres. Temos, mais é muito superficial, fica no âmbito do observável, do que foi aprendido nos longos anos do jogo de sedução. Lembro que nos meus dezoito pra dezenove anos, época em que eu andava muito de bicicleta, minha professora de Inglês disse que eu tinha umas pernas bonitas, que era sacanagem eu chegar à sua aula com aquelas bermudas, deixando as coxas peludas às vistas. Lembro que na mesma noite, depois de voltar da aula, fiquei olhando para aquelas coxas peludas, magras, joelho cheio das manchas das quedas de skate e não conseguia entender o que faz da coxa de um homem gostosa. Talvez fosse cedo para entender, não sei, talvez hoje, poderia detectar com maior exatidão quais são meus pontos fortes neste jogo de sedução das carnes, mas ainda assim sei que a minha dimensão do que tenho de tesudo é muito pouco perto da profunda reação instintiva das fêmeas. Sendo assim, ela não poderia entender como eu me sinto vendo um nadar peito ou um alongamento na praia. Nem ela nem nenhuma outra, coisa de macho, coisa nossa.
De volta à oca, índios no fritar de peixe, cachorros mordendo o pêlo atrás de pulgas como uma máquina de costura trabalhando em tecido grosso, a generosidade do ciscar da galinha com seus pintos, o mesmo que o meu gostaria de receber da gringa. E, impressionante, eu não conseguia avançar na conquista. A gringa não estava blefando, não fazia jogo. Geralmente as mulheres, independentemente de querer ou não, gostam de um assédio, de algum macho obstinado por perto. Ela não. Soltava as sandálias no chão, enchia a rede com fartura de bunda e abria o Thomas Mann na maior. Quando parava era pra dar um gole d’água e descascar uma laranja. Chupava, deixava casca e bagaço organizados num cantinho e voltava à leitura. 
Foi aí que percebi o colapso. Eu não tinha mais forças pra agir, não via por onde; estava contaminado de tal forma que da minha rede, mal podia piscar, mal podia focar, um olhar pobre de acuidade, boca aberta e língua cutucando canino torto, vontade de esfoliar lama na cara, de ser arrastado no chão, dar um jeito de me livrar da total submissão.
Sem avisar os da oca, deixei minha rede. Ela me viu levantar e por dois segundos deixou sua página aberta sem olhos. Fiz com os dedos um vou andar, ela coçou o cabelo com a ponta das unhas e mergulhou de volta ao livro. 
Na praia, entrei num processo de regeneração, de drenagem linfática. Precisava estar sozinho e revisitar todos os meus aposentos palacianos, peneirar o que me restou de racional, fugir do pólen daquela flor que o vento levava a toda parte. Levantava a mão na altura dos olhos e via os dedos tremerem, fechava os olhos e vinha um nadar peito, pegava um siri morto na areia e brincava com suas garras já em decomposição. Brincava com as pinças, fazia o bicho parecer vivo com brincadeiras de criança, encontrava em qualquer coisa uma forçação de barra pra transformar logo aquela fêmea em pó. E quando o torrão de açúcar começava a se dissolver, algo no campo de visão me soterrava na areia até o pescoço. Fosse o tronco que ela havia sentado a meditar, fosse os desenhos na areia de sua sessão de alongamento, fosse o vento. Sobrou andar pra longe.