quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Michelle Pfeifer leu pra mim o Taro

















Logo me cansei de ser engraxate em New York. A idéia de vir para a América fazer money e virar winner cada dia estava mais distante. Se depois de dois anos continuava pagando meu aluguel no Bronx, almoçando Hot dog e namorando 
funcionária do mês do Mac Donald's, é porque algo não saiu como o planejado. Não como tinha em mente ao deixar a casa de mamãe em Governador Valadares. Precisava fazer algo, inventar. Me vinha em mente a história do pintor Romero Brito. Aquelas cores, cheddar com catchup, uma fórmula que não me convence, mas que agrada Silvester Stalone, Schuwarzeneger, Van Damme, Britney Spears, Pamela Anderson. Como é que ele conseguiu?

Fiz minhas trouxas e peguei um ônibus pra Califórnia. Sem saber direito do que iria viver. No máximo, passaria o resto de meus dias num trailer todo fodido em Barstow, no meio do deserto, e faria uns bicos em Las Vegas. Mas a Costa Oeste renovava os ares, estava convicto de que lá seria muito mais fácil subir, vencer.

Na primeira semana, pra conseguir um dinheiro, ajudei uns coyotes mexicanos a atravessar gente pela fronteira. Foi um trabalho do cão. Acordava 4 da matina e esperava o grupo do lado de cá num furgão velho. Minha parte era sinalizar pra aqueles mexicanos fodidos onde ficava o buraco do grande muro, um pequeno sinalizador infra vermelho, sempre tomando o máximo de cuidado com os borders patrols, risco grande, se fosse pego, voltava pra Minas num conteiner. Mas era muito bem pago, valia a pena.

Depois que quase fui pego ao ajudar uma mãe e seus cinco filhos, sendo dois com diarréia, resolvi mudar de ramo. Com os 2 paus que ganhei, fui pra onde deveria ter ido desde o primeiro dia, L.A. Lá, perto dos astros de Hollywwod, com certeza sobraria uma borda da pizza.

Mas não foi bem assim. As coisas são muito caras em Los Angeles. A grana que eu ganhei com os comparsas latinos se foi 
e me vi obrigado a aceitar qualquer trabalho, qualquer. Primeiro num restaurante mexicano, me colcaram de Dishwasher. Com uma mangueira de lavar carro, avental e botas brancas, recebia de 20 a 30 pratos por minuto pra lavar com água quente, ensaboar, água fria e secar. Quando voltava pra casa, tinha insônia, me via lavando pilhas e mais pilhas de pratos com gordura trans, tacos, abacate e carne respingando na testa, insuportável. Não consegui segurar, saí. 

Dois dias perambulando por L.A. e nada de um emprego. Anoitecia. Leve frio de outono. Precisava comer. Foi por acaso, já no limite de revirar lixo atrás de um naco de hamburguer, de escolher quem esmolar pelos cabelos e sapatos bem cuidados que conheci uma cigana de El Salvador, figura muito interessante. Comprava frutas numa quitanda. Devia ter seus 40 anos, boa de corpo, bonita. Olhos azuis, um olhar triste. Disse a ela que vinha do Brasil e houve imediata identificação America Latina soy loco por ti. Me convidou pra jantar. Roupas estendidas na frente do trailer, me interessei por aquela mulher. Dessas que sofreram tudo que é possível imaginar. Perdeu filho, marido, foi estuprada por caminhoneiros no Panamá, esfregou chão, limpou merda de madame, tomou fora de todos os homens que amou. Ainda assim eu conseguia enxergar vida nos seus olhos. Como um veio de água da nascente que escorre por entre folhagens, como uma uva rubi fresca e lavada, aquela mulher fortaleza tinha ainda a chama da vida dentro dela, a vontade de viver, de amar, de cantar uma canção pra espantar a tristeza. Passei três noites com ela. Comprava carne, t-bones, frutas, damasco, e fazíamos uma ceia ao luar do deserto. Tive receio de beijá-la. Era muito diferente da tetuda disléxica que eu não dei a mínima e, bem filha da puta, quis aproveitar ao máximo. Meu medo é que um pedido de beijo pudesse remetê-la aos traumas com seus casos passados, e que isso fizesse mal a ela. Meu desejo era que um beijo pudesse cicatrizar suas dores, sem assustar, sem que ela pedisse que eu fosse embora. Não queria. Mas então, noite tíbia, entre damascos e frutas secas, ela se levantou e foi na direção do trailer. Com a ajuda da luz do fogo, que atravessava sua saia de tecido fino, pude ver suas coxas torneadas, o encontro delas, o formato da bunda, e aquilo me deu um frio na espinha. Não um frio de noite que a gente sente quando sai do banho e esquece a toalha longe, um frio de desejo que bateu no crânio e voltou pro sacral, uma mistura de instinto com paixão e tesão, isso isso, tesão pela cigana.

Ela trouxe cartas embrulhadas num lenço de seda, duas velas azuis e uma garrafa de vinho do porto toda empoeirada. Acendeu as velas, se sentou com as pernas cruzadas e me puxou pelas mãos. Sentamos um de frente pro outro. Que noite linda, estrelada, esqueci New York, winners, money, eu estava amando. 

Eram cartas de tarô, muitas figuras de deuses, reconheci uma que estudei na escola, Afrodite. Ela me pediu pra pensar numa pergunta, qualquer que fosse, sobre o meu futuro, trabalho, filhos. Pensei, pensei...Olhando pro céu vi dois aviões da força aérea americana passando longe, só o som, um rastro de fumaça, as luzes vermelhas piscando. Ela me chamou, pediu minha atenção. Então perguntei:

- Quero saber se vou ganhar dinheiro aqui em Los Angeles.

Ela embaralhou as cartas com aquelas unhas grandes e bem cuidadas, uma mão ágil, macia, o esmalte impecável pintada de vermelho tomate. Espalhou as cartas pelo lenço e pediu que eu tirasse três. Escolhi aleatóriamente as minhas e entreguei a ela. 

- AHHHHHHHH, vejam só, o que temos aqui - e olhou fundo nos meus olhos. - Você é um homem de muita sorte, as cartas dizem que não foi fácil até aqui, sobreviver na América, muitas dificuldades, mas que de agora em diante sua busca finalmente iria encontrar um eixo. Muitas pessoas tentam atrapalhar, mas você é um homem bom e as coisas com o tempo vão acabar se encaminhando, da maneira que você quiser...

Ela abriu a rolha da garrafa e uma lufada de vento passou, desarrumando a seda sob as cartas. Uma coruja, pousada numa estaca, cantou. Tomamos cada um uma dose, e pedi pra repetir. 
O álcool subiu. O fato dela ler as cartas e ver um futuro promissor me deu muita vontade de beijar, de que ela fizesse parte desta minha sensação, talvez como minha mulher, finalmente. Mas era cedo. Peixe grande, tinha que dar linha, muita linha até que ele cansasse, aí sim poderia, muito calmamente, puxá-lo até o barco.
Mas verdade seja dita, minto. Não era verdade. De maneira nenhuma poderia acreditar em cartas, astros ou Deuses. Meu ceticismo não permitia. Pra mim tudo é muito mais fácil - ou difícil - do que parece: morreu virou adubo, e pronto. Sem essa de ser arrebatado da Terra pro Paraíso. Muito claro, ou escuro, trevas, por que aí não tem aquela de sofrer na Terra pra usufruir no céu. Bom, sem maoires delongas, a grande verdade é que eu não estava acreditando nas cartas, achava tudo aquilo uma baboseira, gostava mesmo é de ver as mãos dela, o olhar, as palavras, e se pra isso precisasse certificá-la de que as cartas e sua leitura eram importantes, o faria, com todo prazer.

A partir dali, dentro da filosofia de cansar o grande peixe, passei a contar a ela todos os casos que tive, as frustrações, amores, quando abandonei, quando traí - fui traído. Mais do que o tarô, escutar aquelas minhas palavras foi como mágica. Como se eu entendesse seu drama particular, sendo que o dela, o meu, pertence a todos. Universal. Sem grandes segredos.

E cada caso que eu contava, cada decepção, demonstração de afeto, paixão, a cigana ia se derretendo, se entregando, até que percebi que o beijo era nosso, meu e dela, em questão de segundos.

Peguei na sua mão e olhei nos olhos. A luz do fogo dourava seu rosto e atravessava o cristalino até contrair a pupila.
Ela me parecia nervosa, seu olhar fugia do meu quando era muito intenso, como se não quisesse a entrega, mas cada vez que nos olhávamos, mas tempo durava, e passamos a nos corresponder pelos tipos de piscadas, pra onde caminhava o globo ocular, até que fui me aproximando e beijei, de leve, uma boca se abriu, gosto de vinho do porto, doce, lábios pequenos e macios, respiração quente e saborosa, passei a mão pelo cabelo, pela nuca, pele macia, brisa leve me ajudava a penteá-la, mais beijo, língua, até que deitamos ali mesmo, completamente apaixonados, esquecendo o que de ruim passava lá fora, velozmente, com as nuvens, pela internet, o dinheiro ganho, gasto, tudo perdeu o sentido, porque na verdade, nada daquilo fazia algum, senão nós, no céu estrelado do deserto.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Egotrip: Quero ser Bruce Wills














Estava em plena Rodeo Drive, no Coconut Bar, quando entrou Bruce Wills e sua pussy cat. 
Foi aquele alvoroço contido, as pessoas se perguntando se era mesmo ele, e era. Era.
A namorada uma mexicana, Baja Califórnia, quase uma Penelope Cruz,
peito-decote-peitão Oh my God-bocão-olhos negros-cabelo longo-bolsa pequena-anel brilhante.

Naquela situação, preferi pensar que os dois não estavam no bar, ou que fossem uns qualquer.
Pedi mais uma Miller, dei minhas goladas e abstrai. Olhei pro ventilador de teto, pensei em Focault, Zaratrusta,
tenho pedigree, família intelectual, filme cult europeu, mas... Mas...Caralho, como Hollywood vai fundo na gente.
Por mais que eu negasse a importância de um canastrão blockbuster, quando eu olhava pro Bruce, 
um endeusamento me domava e...Eu eu eu, filho de comuna, hippie, salada de bardana...queria ser Bruce Wills.

Aquela cara, aquela grana, de se perder sem saber direito quem você é. Sem função egóica.

Claro, deve ser do caralho comer aquela garçonete mexicana numa jacuzzi em Santa Mônica, na mansão que você comprou falando 550 fucks por minutos no Duro de Matar 3, perseguindo um latino de regata manchada de sangue nas ruas de Detroit, e depois pedir o extrato do Bank Boston e estar lá, mais 20 milhas na conta. E de frente pro mar, de repente você se olha no espelho e vê Bruce Wills, e aí você cai na real, sou aquele dos filmes, o durão, o fodão, e aí você contrai o abdomen, faz as caras dos filmes e entra numa egotrip violentíssima, sem volta, demônio ralado, de se levar ao Olimpo e chutar Zeus de Mykonos, e aquela mulher ali embaixo, gemendo, louca, diz que só pode estar sonhando, que não é possível ela estar dando para Bruce, Bruce Wills. Mete, mete, goza dentro Bruce, pleeeease.

E esta era a cara dele no bar. Faz tempo que ele se acostumou com a idéia de ser Bruce.

E se antes eu blefava que nada acontecia, agora os olhava pelo reflexo do espelho, sem parar. Espelho no espelho, ângulo, luz, brilho do sol, e lá estava a mexicana de perfil, boca carnuda, frases perdidas no som do bar, tentava ler seus lábios.
Ele pediu água mineral com gás, ela um suco de abacaxi com morango. Os dois não pareciam muito íntimos, coisa de pele, foda memorável, nada disso. Bruce continua no filme e atua, dentro e fora dele.

Mas a água mineral faz Bruce levantar pro banheiro. Estou no balcão na quarta miller, no caminho dos restrooms, e Bruce passa me encarando, olha meu anel de tucum dos índios, a pele árabe, a camisa descolada, e baixa uma incógnita na cabeça de Bruce. Slowmotion da cena: A mexicana beberica seu suco abacaxi, Bruce passa, ventilador gira, reflexos de Bruce nos espelhos do bar, neon da geladeira, e Bruce não me entende, sente o perigo por perto, ainda que ele 20 milhas no banco no último mës e eu 2 mil doláres raspando cascos na marina Blue Fish em Miami. 


Me vejo sozinho com a morena mexican. Ela de canudinho pesca os pedaços de abacaxi no fundo do copo, os espelhos confundem olhares, até que ângulo tal nosso olhares se cruzam. Ventilador.

Viro minha Miller, e abro um dos botões da camisa florida. Ela fecha as pernas, tesão.
Sente que eu posso lhe dar o que Bruce não pode. Ele demora no banheiro, diriam os índios, deve estar de piriri.
O garçom está longe e ela sede por suco levanta direção balcão.

Ao meu lado, aquela Mônica Belucci habla inglês com gracias e pede morango e um pouco de absolut.
Espelho do bar rebatido na pilastra me dá seu frontal. Decote, brilho do anel. 
Mas ela entende o jogo e me acha nos espelhos. Tento outro e mais outro, outro, ela acompanha, cruza as pernas, lambe os lábios, pisca. A pele do pescoço, na altura da traquéia, entra. As narinas dilatam.

Fim dos espelhos, olhos se cruzam, pupilam escaneiam. Ela me vê Andy Warhol, colores e contraste pele, polaroid brasileiro,
suor, foda boa. Eu a vejo Rodin, curvas, mão carne, respiração, canga, cancun, flores. frutas, fonte, cabelo nuca, esculpo quadril, lençol egípcio.

Slowmotion seus olhos piscam, boca abre.

Cadê Bruce? Não importa. Força Bruce.

Chave e carteira de Bruce no bolso, queimo chão no corvette dele, North East Concorde Ave.

Nas curvas o fresco do mar. A encosta, as mansões. Me olho no retrovisor, o asfalto, listas, 90 milhas, tudo pra trás.
Mexicana sobe um pouco a saia, acelero, sobe mais, canto o pneu e reduzo pra quarta. Motor ronca, escapamento cospe água com etanol.
Ela agora acaricia minha nuca, abre minha blusa e alisa meu peito peludo. As narinas dilatam, as pernas se afastam, a costela na respiração deixa o quadril ainda mais gostoso. Aumento o som e amarro uma fitinha do bonfim do retrovisor, acelero. Páro no sinal e olho pro carro do lado. Não acredito, Brad Pitt com uma puta chupando outra no banco de trás. Ele acena e diz: 

"Lets go to my house, Angelina went to Africa to see poor people fighting for a bread" 
"All right"
"Who is that girl?" - ele pergunta
"is Bruce wills's pussy"
"So nice, lets go"


O farol abre, Brad acelera. A morena massageia calça jeans e mexe o quadril no banco de couro.
Um caminhão a frente, as putas se comem no carro de Brad. Ele tenta ultrapassar, mas esbarra na sua dialética nórdica,
muito atrás das sinapses brasileñas, e eu o ultrapasso pelo acostamento da contramão, quase no despenhadeiro, pedras rolam pro mar.
A morena eulouquece, olha pra trás vê Brad perplexo, eu no volante, quarta, quinta, mão na coxa dela. Gps ligado, esqueço de Brad, jogo uma jaca na estrada que pega no retrovisor dele, que capota e cai no barranco. A morena geme e me morde o pescoço. GPS, bip bip bip me indica Big Sur, 20 milhas. É pra lá. 

Digo:

"Senhorita, ssssssss vaamos a laaaa casssaaaaa de un amigouuuussh" ( o vento distorce as palavras)
"Si, com mucho gusto"

A fitinha do Bonfim balança.

Aumento o som, abro uma manga e chupo, peço pra ela segurar o volante, lambuzo ela de manga, peito, boca, seguro o
volante com o joelho e lambo peitão esquerdo Oh my God, ela olho fecha e segura no puta que eu pariu. Ahhhhhhhhhh pernas bambas guaca mole.

Entro na estrada de terra, palmeiras, cascalho, cascavéis, abro o porta luvas. Sinto sede. Encontro coisas de Bruce: Um Rolex - jogo na estrada - uma pistola .45 automática - fora - um gel de cabelo - pra que? Fora - um arranca pelo nariz - guardo.


Estaciono numa casa, vista pro mar, névoa, fim de tarde. O motor do carro estala com o calor, gaivotas embalam na corrente de ar. Toca o cel da morena. Pisca Honey Bruce Bruce Honey - saiu do banheiro. Ela me pergunta se devo atender. Abro a braguilha, ela joga o celular no mar. 

Ah Bruce, Zed is dead baby, Zed is dead...