Meses que Mariano não conseguia dormir direito.
Por mais que tentasse se conscientizar que o melhor a fazer seria não levar os problemas pra cama e deixar pra pensar como atravessar as pontes na hora em que efetivamente as tivesse atravessando, ele não conseguia. Incapaz.
Deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos era o mesmo que estar dentro de uma casa com lareira, perto dos amigos e de repente ser solto pelado no escuro no meio de uma floresta, som dos bichos, a luz da lua mal conseguindo passar pelas folhas das copas.
Mas Mariano, por pior que fosse, já tinha se acostumado com a sensação. Já conhecia alguns dos seus atalhos, mesmo no escuro. Entre aquela carnaúba e a outra estão questões ligadas ao trabalho. Perto do córrego questões ligadas ao dinheiro, sobrevivência. E Mariano passava boa parte da noite vasculhando entre arbustos e pontes bambas o(s) motivo(s) de suas crises.
De manhã, ao abrir os olhos, não sabia exatamente o quanto da noite tinha efetivamente dormido ou ficado no transe catatônico. Mas era só ir ao banheiro escovar os dentes pra comprovar nas olheiras a noite na selva.
Pois bem. Fazia tempo que sua atividade noturna era limpar fossas existenciais. De alguma maneira ele tinha que sair da merda. Uma sensação ruim mastigava seu rim toda manhã com preocupações mundanas. Talvez durante uma sessão de filme, conversa de bar, as dentadas fossem temporariamente atenuadas, mas era só se ver sozinho, pra que elas virassem tubarão branco mastigando grade de ferro na Austrália. A mandíbula projetada, película protetora nos olhos, atuns dilacerados, sangue n'água.
Mariano resolveu dar o fora por um tempo. Pegar umas roupas, anotações, seus óculos escuros, e pular fora. Não via mais como sair do atoleiro. Meteu a grana no fundo falso do tênis velho, notas graúdas,
fechou a porta de casa e foi, decidido a ver o mar, sentir o calor do sol, longe de um Shark Attack.
Sul da Bahia. Dois dias depois e Mariano já estava na península de Maraú. O simples fato de estar longe daquela inhaca toda, já valia a pena. Nada de Corollas metalizados. `A sua frente o mar, ao fundo coqueiros ao vento, `a direita dois jegues trazendo côco, o calor miragem, as lentes dos óculos já embaçadas da maresia, uma maria farinha atravessa de um buraco ao outro. Mariano começa a se sentir bem. Ele finalmente pensou numa música e cantou, o corpo mexeu, sinal de que ainda havia vida naquela carcaça.
Depois de ler algumas páginas de "O Velho e o Mar" de Hemingway, Mariano quebra o pescoço pra direita e vê uma moça caminhando. A distância não deixa responder suas curiosidades, sabe apenas que o quadril se forma em violão, não muito alta, cabelos no ombro e um jeito suave de andar. Ela se deita na canga e vasculha uma bolsa de palha. Tira um frasco de óleo bronzeador e passa nas pernas e barriga. Aquele corpo besuntado dá a primeira alfinetada no córtex de Mariano. Ele sente vontade de agir, abocanhar. Mas é cedo, Mariano...Fica na sua - diz a voz.
Ele tenta se concentrar na leitura, naquela história do velho pescador que não pega nada há 84 dias, até muito interessante por sinal, mas cada vez que a moça mexe alguma parte do corpo, seja pra passar o óleo na bunda, pentear o cabelo, arrumar o biquíni, seu globo ocular imediatamente muda da página pro canto dos óculos escuros, onde ele consegue enquadrar a moça. E quanto mais ela resolve se mexer, mais o livro é usado de fachada por ele, ali na frente, desfocado, mesma página, linhas que são lidas e não absorvidas. Finalmente um banho de mar. Ela se levanta, cobre a bolsa e sandálias com a ponta da canga e caminha pras ondas. É a deixa. Mariano joga o livro na areia, apóia os óculos nas raízes de um coqueiro e entra n'água, com um espaço de uns 100 m da moça.
Ela mergulha, fura as ondas, e Mariano, de onde está, tem aquela clássica visão Ipanema de ver a bunda e o pacotinho de xoxota quando as moças furam ondas pra se refrescar. Mais uma alfinetada no córtex. Hummmm.
Os dois na água, Mariano luta contra a leve corrente que insiste em mandá-lo pra longe da moça. Ele se aproxima com esforço, sem dar a entender, como que buscando um banco de areia, mas a verdade é que ela já o viu e sentiu alguma intenção no movimento. Ela bóia, estica os braços, respira, olha o céu, nuvens que parecem novelos de lã esticados, bem finas e brancas, e então lembra que ele se aproxima e deixa de boiar pra conferir quão próximo Mariano está. E cada vez que ela faz este movimento, ele disfarça e pára, mergulha, fixa no horizonte.
O jogo se mantém até que o braço de Mariano toca, por baixo d'água, a coxa da moça. A sensação é maravilhosa, pele molhada, lisa, gostosa. O coração acelera, ela bóia e fixa o olhar nas nuvens, sem ver nuvens, nada, só a lembrança do braço na coxa, de pele. Uma onda maior e entra um pouco de água no nariz dela, que numa engasgada leve, dá o gancho pra Mariano começar:
- Delícia essa água, né?
- Ótima, quentinha, maravilhosa, coisas da Bahia...
- É...Cheguei faz dois dias lá de São Paulo, fico imaginando o tempo da minha vida que eu passei no trânsito,
na fumaça, enquanto estas ondas quebravam por aqui, no sol, estes coqueiros...
- ....Mas acostuma, logo mais você vai olhar o mar e achar um tédio, é bonito demais, e beleza cansa...
- E você é daqui?
- Não, mas moro faz tempo. Tenho uma pousada na outra ponta da praia...
- ...Que maravilha...Pousadinha num paraíso desses...Você administra com seu marido?
-...Marido? Que marido? Não, não...Aquele lá me largou quando eu engravidei...crio minha filha sozinha...
- Quantos anos tem sua filha?
- Vai fazer oito...linda...a cara do pai...olho verde...pelo menos isso aquele merda fez direito...
Nessa hora ela mergulhou pra esfriar a cabeça e mais uma vez, mostrou a bunda e o pacotinho.
Ele voltou com investidas mais certeiras, mentindo, caso necessário:
- Eu também tenho uma filha linda...(mentira).
- Ah é? Que legal...
- Adoro ela...combinei com a mãe que duas vezes por semana ela fica comigo...
- Quer dizer que você é um paizão?
- Adoro criança.
Mariano, pra impressionar, dá algumas braçadas de crawl e volta no borboleta.
Chega ofegante. Os braços maiores, os pêlos do peito molhados, o ombro já queimado do sol.
É a vez da moça ter o córtex golpeado, o tesão ativou um axônio, ligações feitas,
hormônio liberado, endorfina na circulação, pupila dilatou, ela molha no molhado e pergunta:
- E onde você está ficando?
- Tô naqueles bangalôs do fim da praia...
- Sei, na pousada do Jorge, gostoso...Então, passa lá na minha pousada no fim do dia, faço um risoto de camarão ótimo,
só que tem que reservar mesa antes...
- Tá legal passo sim...Procuro você lá?
- Isso, só perguntar que todo mundo me conhece. Eu vou indo, tenho que coordenar o almoço dos hóspedes.
- Belezzzza.
- Não vai perguntar meu nome?
- ...
- Valeska...
- Mariano.
Os dois se comprimentam. Uma onda faz o favor de juntar corpo no corpo. Valeska sai devagar. A água translúcida esverdeada mostra seu corpo inteiro. Um biquíni branco, misangas no cabelo, uma bunda redonda que já teve seu momento, mas ainda tem seu lugar ao sol. E ela caminha, caminha, até que a água bate na altura da bunda, as pequenas ondas explodem nas nádegas tremelicando-as como um belo manjar, e mais uma, e outra onda, manjar, a água passa por entre as coxas, Mariano se agacha, só com os olhos pra fora dágua e fica tirando várias fotos em mente daquela mulher maravilhosa.
Fim do dia. Mariano abre os olhos. As cortinas balançam com a brisa, barulho do ventilador de teto, costas suadas, areia nos pés, um pouco na cama, lençol macio, ele levanta pra ver o mar. O silêncio é total. Brisa nos coqueiros. Ele até pensa em trabalho, no que foi deixado pra trás, mas aí esbarra no assunto Valeska e fica. Nada poderia ser melhor do que passar um fim de tarde como aquele ao lado dela. Não só ao lado. Em cima, rolando, aos beijos.
Abre a mala e pega uma camisa de linho, um bermudão sem cueca e sandálias. Se olha no espelho. O rosto dourado lhe agrada. Molha os cabelos. Mostra os dentes a si mesmo como se fosse cavalo, a língua, torce o rosto no ângulo que lhe favorece, aprova, sorri...deixa espelho.
Chega na pousada de Valeska meia hora depois. Alguns hóspedes alemães bebericam caipirinhas e se besuntam de hidratante. Mariano senta numa mesa de madeira, perto de duas espreguiçadeiras. De lá continua vendo o mar. Não tem pressa de encontra Valeska, sabe que hora ou outra ela aparece.
O fim do dia se apressa, até que ela aparece com um punhado de velas nas mãos, espalhando pelos cantos da pousada. Um vestido branco com detalhes em renda, sandália de dedo, cabelo preso, só os olhos pintados. Mariano sorri e finge observar seu trabalho com as velas, mas na verdade tenta ver além, atravessar aquele vestido e ver uma calcinha branca no encontro da pele queimada do sol. E mais uma vela, calcinha, vela, calcinha, brisa, até que ela termina e finalmente vem conversar com ele:
- E aí, gostou?
- Linda, puta bom gosto, tudo no lugar, fantástico (não sabemos se ele se refere `a pousada ou ao corpo dela)
- Então, o pessoal já começou a preparar o risoto, você quer beber algo antes?
- Olha, acho que eu vou de suco de abacaxi com hortelã.
- É? Não tá bebendo?
- Não é...é que eu to vendo se dou uma maneirada, vim de uma maratona séria em São Paulo, tô querendo dar
uma limpada.
- Bom, eu vou tomar uma caipira, trabalhei o dia todo...mereço. Certeza que quer o suco?
Mariano mira os olhos de Valeska e sente o código morse. Talvez o suco não funcione pra quebrar o clima, ela bem que poderia pedir uma água com um pouco de limão espremido, mas a caipira tem seu lugar e mostra que de alguma forma ela se interessou. A camisa dele está aberta até o terceiro botão, os pêlos do peito macios na pele morena, os lábios carnudos, uma barba bem feita deixa a pele do queixo num tom azulado. Valeska volta a investir:
- Acho que vou pedir pra fazer uma caipirinha ótima, que vai absolut, maracujá e tangerina, com raspas de limão, peço pra colocar pouca vodka, fica refrescante, você vai adorar...
- Bom, se vamos beber, então pede pra caprichar na vodka, não gosto muito de bebida fraca.
- Você que manda.
Valeska estica o braço chamando uma das suas empregadas. Ao esticar, o vestido folga na altura das axilas e, pela primeira vez, Mariano tem uma visão mais bonita que o mar, que a luz da Bahia, são os peitinhos de Valeska queimados do sol em contato com o algodão. Mamilos redondos, sardas periféricas. Tudo numa fração de segundos naquela nesga de tecido. Mais algumas fotos em mente.
As caipirinhas chegam, o papo recomeça:
- E como você começou com esta história de pousada?
- Ahhhh, longa história, meus pais já vinham pra cá nos anos 70 com um grupo de italianos e ficaram maravilhados com
o lugar, o clima. Estes italianos acabaram comprando uma fazenda de côco ali atrás, preservaram tudo, a casa, a mata, o cacau, e venderam alguns lotes aos amigos mais chegados. Nesta época meu pai tinha uma grana boa, no boom dos anos 70 ele ganhou grana vendendo papel de parede pra residências e empresas, e acabou comprando umas terras por aqui.
- Então a pousada ficou de herança?
- É, podemos dizer que sim. Tive umas brigas com a minha irmã...aliás, não nos falamos, ela vendeu um terreno e nunca me passou a grana, eu tinha ajudado o filho dela com escola, análise e ela me passou pra trás...Não nos falamos mais...minha irmã...éramos tão próximas na infância, que louca esta vida...pessoas tão importantes desaparecem, outras, que não existiam, passam a ter importância...
- É...quando tem grana no meio FODE, aí aparecem as verdadeiras facetas...Já tive vários problemas assim. Sócio que me fodeu, pensão de ex, gravidez de casinho...Também não falo com meu irmão...simplesmente nos desentendemos e ele desapareceu, não atendeu telefone, e quando nos encontramos, no Natal, foi de um formalismo completo...
- Gravidez de casinho? Que história é essa?
- AH, coisa de adolescente. Fiquei com uma menina uma noite, festa na praia, os dois beberam e acabou rolando, aí cinco dias depois ela me liga dizendo que não desceu, que sentiu enjôo...foi uma merda. Eu queria ter (mentira) e ela quis tirar...Os pais dela me odiavam...fiz de tudo pra ter o filho...Mas ela foi numa clínica e tirou...
- Noooossa, que chato...
A cozinheira chama Valeska pra ver como anda o risoto. Ela dá uma bela golada na caipirinha e levanta. Mariano também sorve sua bebida, daqueles goles que ao mesmo tempo amortizam o nervosismo e aceleram o que deve ser dito, sem cair nas ladainhas ou frivolidades mundanas.
Mais uma vez o vestido de Valeska é tema do olhar de Mariano. Direção cozinha, ao passar pela porta de entrada onde um vento de mar entra com força, canalizado, o vestido se desdobra em duas camadas e sobe, sobe, o vento mais forte, as coxas, pêlos loiros, Mariano morde o canudo do drink, o vestido sobe, ele torce pra uma lufada ainda mais poderosa, vamos mar, vamos, me manda um vento oceânico, música árabe em mente, a dança do vestido, sobe mais, da coxa, sobe, e um vento ainda mais forte passa por ele, desarruma o cabelo, apaga as duas velas na mesa e chega nas pernas de Valeska, com força, o vestido agora na altura da bunda, quase calcinha, pele linda, morde canudo, velas outras quase apagadas, ela com a mão tenta aparar e descer o vestido, ele insiste subir, até que ela cruza a faixa de vento direção cozinha e ventania sossega. Mariano, ofegante, se refaz, senta melhor na cadeira, larga o canudo.
Valeska volta com o risoto em mãos. Ainda que as velas não dêem conta de uma iluminação uniforme, tornam todas as formas mais belas e gostosas de olhar. A fumaça sai do risoto e se dissipa, os dentes de Valeska brancos, dourados pela luz, olhos azuis, boca brilha, a voz suave.
- Então, melhor comer enquanto tá quente, senão perde a graça...
- Claro, só quero te pedir outra caipirinha dessas, nunca provei tão boa, e é fraquinha, na medida.
- Peço sim.
Valeska mais uma vez estica o braço, desta vez o ângulo não permite o olhar chacal. Mas por hora Mariano está satisfeito. Com a ajuda do vento e do vestido, 30 % do corpo dela já pode ser, em último caso, montado e consagrado numa punheta ao luar. E fica muito mais gostoso descobrir aos poucos (mentira, pro homem o pá pum é sempre melhor).
- Muito bom, muito. Que que você usou de tempero?
- Muito simples. Uso um pouco de caldo de peixe e do próprio camarão, cozinho o arroz e só...
Mariano come sem muito comedimento. Garfadas seguras, fala de boca cheia, deixa cair um pouco na toalha, capricha no queijo ralado. Valeska, que poderia achar o cara sem finess, vê uma autenticidade de macho nas garfadas, nas mastigadas e seu cérebro imediatamente processa aquelas informações e libera serotonina, faz uma associação no hemisfério direito do cérebro, sem que ela saiba, de como ele deve ser na cama. Sem firulas, voraz, faminto, com a famosa bela pegada. Inconscientemente, as pernas de Valeska se afastam, bem devagar, a boca relaxa, os olhos fixam Mariano, até que ela pergunta:
- Vamos tomar mais uma?
-Ahã - de boca cheia.
- Pelo visto você gostou do meu prato.
- Se não fosse feio, lamberia o prato...shhhhh perdão ( cinco grãos de arroz voam no vestido de Valeska).
- Nossa, tava tão bom assim?
- Uma das melhores coisas que eu já coloquei na boca. Só tinha comido um assim na Grécia...
- Eu vi, você devorou...Dá prazer só de olhar.
- Escuta, você não tem um pãozinho pra eu passar neste molho que sobrou?
- Claro, Val! Tráz uma cestinha daqueles italianos.
- Você sabe como chamam pão francês na Bahia?
- Não.
- Você mora na Bahia e não sabe? Cassetinho.
-Cassetinho? Que nome...nunca ouvi falar...
- Pois é...vivendo e aprendendo.
Valeska se levanta pra ver se os gringos, mesa ao lado, gostaram do risoto. Mariano acompanha a desenvoltura da moça, o sorriso, e percebe que um dos gringos está de olho nela. De longe, Mariano escuta uns great, delicious, e o gringo faz questão que Valeska sente ao seu lado pra conversar. Mariano, que até então se sentia o dono da vez, sente um calor na espinha que sobe até a nuca...sozinho, constata: ciúme.
Pra fazer a digestão resolve levantar e dar um giro pela pousada. Numa das salas, iluminação banhada `a vela, vários pufs, uma mesa baixa central de madeira nobre, livros e revistas de arquitetura e viagens. Mariano deita meio de banda e abre uma revista de tendências. Procura o melhor ângulo das velas pra ler a matéria. A brisa do mar entra pela janela, a cortina faz seu balé, as velas dançam o ventre e junto com elas, as sombras. Daquele ângulo Mariano consegue ver Valeska conversando com o gringo. Ela tirando mais risadas dele do que ele dela. O papo continua. O cara é boa pinta, australiano, o calor volta a subir até os músculos do omoplata. Mas Mariano segura a onda e tenta concentrar na leitura. Constanza Pascolato, que gravata com que meia, frivolités, e seu olhar volta aos dois pela fresta...calor.
Nisso entra a hostess, uma morena dos cabelos cacheados, blusa branca de renda apertada na cintura, saia de xita. Vem com um spray fragrância de laranja, burrifando pelo ambiente. Mariano puxa assunto:
- Hummm, delícia de cheiro...
- É laranja...essência...Também adoro...
- O perfume que eu uso é de tangerina...gosto muito dos cítricos...
- Também adoro, nada de cheiro doce, enjoativo...
- ...Como é seu nome?
- Talita...
- Baiana?
- Baiana. Nasci em Ilhéus e me criei em Corumbau...
- Nada mal...Mora perto da pousada?
- Moro sim..moro eu mais uma amiga minha, duas ruas pra trás...
- Que gostoso...eu to lá no Jorge, no fim da praia...
- Que delícia, lá é o que há de chique na região...Você é paulista é?
- Sou...
- eu sabia, os paulistas é que vem com a bufunfa pra cá...gastam mermo...
- Se você quiser passa lá no Jorge amanhã pra tomar uma...Sábado você trabalha?
- Vô folgá..Sábado folgo...Pode ser...
Por um instante Mariano havia deixado de lado Valeska. Talita era uma mulher interessante e aquele sotaque de baiana deixou o cabra marcado pra morrer de desejo. A timidez da moça, regado ao seu ar de submissa, calibraram o tesão dele pela baianinha. Levantar aquela saia de xita, passear as mãos numa bunda macia, afastar a calcinha pra ver pelinhos, chupar aqueles peitinho salgados de suor, aquela buceta deve ser mais escorregadia que gomo de jaca na sombra depois de chuva de verão, e ela deve fazer um cafuné maravilhoso na rede.
Mas quando o caldo tava pra chegar no ponto, Valeska entrou e já mandou Talita fazer alguma coisa sem muita importância, do tipo contar quantas garrafas de dendê ainda haviam em estoque.
Mariano levantou os olhos da revista com aquela cara de autosuficiência e perguntou:
- E aí, os gringos aprovaram o risoto?
- Aprovaram.
- Senti que o australiano tava na sua?
- Ah, nem ligo, estes gringos são uns bananas, pragmáticos...não entendem de gente, de alma...
- Não vai dar uma chance pro moço?
- Tá louco! O branquela? Nem morta...E você? Gostou da Talita?
- Boa fruta...Dava uma boa caipiroska ( com os olhos na revista)
- Homem não presta...Viu, você toma mais uma?
- Opa...
Valeska pede pra Talita mais duas de caju com carambola. Nitidamente está um pouco alta. A voz rouca, o jeito de mexer no cabelo, o rosto rosado, a intensidade dos olhares. Mariano sentiu nela a famosa transição do querer pra efetivamente tomar uma atitude. Se estivesse completamente sóbria, Valeska não seria capaz de se deixar flagrar em desejo, olhares, bocas, andar; mas com algumas na cabeça, ela já não fazia tanta questão assim de omitir seu tesão por Mariano. Muito pelo contrário, começava a esboçar uma reação pra deixar claro que ele seria dela e não de Talita. E aí de quem se aproximasse do seu macho. Arranharia a cara toda, puxar cabelo e rolar no deck chamando de piranha.
As duas caipirinhas chegam; os outros hóspedes se recolhem. Dois deles caminham direção praia pra fumar seu baseado. Valeska dispensa Talita e os garçons. A maioria das velas chega ao final e por obra e Deus, ou, aos olhos dos materialistas, por coincidência, a luz fica perfeita pro que Mariano quer e busca. Ao que parece, não só ele...
Agora o barulho do mar, a fragrância de laranja, o cheiro forte das velas no final. Mariano joga a revista de lado e pega uma concha na mesa. Põe na orelha e escuta o barulho. Mar, ooooondas, shhhhhhhhhhhhh, agora é questão de tempo, pensa. Valeska, por mais que a bebida solte as amarras, sente que o caçador está perto da caça encurralada. Que muito em breve ela vai ser abatida. Num misto de prazer e medo de ser deixada, dele fazer como os outros, de se apaixonar, se entregar e depois sentir o desprezo, ela se apóia numa estante de jacarandá achando que possa ajudá-la a sentir menos. As pernas fraquejam, o veneno rapidamente entra na circulação, a respiração acelera, e Mariano, sem muita conversa, como diria o baiano: sem presepada, deixa a concha na mesa, se levanta e cola seu corpo no dela. Um dos livros cai da estante. Dona flôr e seus dois maridos. Mariano tenta beijá-la. Ela vira o rosto. Mariano busca sua boca de um lado ao outro, Valeska torce o rosto de um lado ao outro, lado ao outro, até que Mariano entende o movimento e pega sua boca no caminho. A barba por fazer, boca grande, uma língua vem que vem pra saborear Valeska. Acompanhado de mãos hábeis que sincronizam sua força em parceria com os movimentos da língua, das costas pra bunda, pros peitos, até que o aval do silêncio com gemidos permite a ele, predador, muito lentamente, sem querer que ela perceba, a erguer a saia. Valeska se desvencilha e corre pra varanda.
Mariano arruma o pau pra não dar bandeira e vai atrás.
Valeska nota no olhar de Mariano, ainda que a luz seja pouca, sua fome por ela, se vê sem saída, justamente o que ela quer, sem saída, e começa a rir e falar:
- Você pára com isso, que cara é essa? Tá maluco é?
- Tô, maluco, maluco por você...louco...
-Pára Mariano, não faz assim...você me assusta...vai devagar...
- Vem cá...você é linda...tô apaixonado....te vi no mar hoje de manhã...você é linda...desde a primeira vez que te vi...
- Pára Mariano...me solta.

Valeska se desvencilha e corre na direção da praia. Mariano vai atrás, com uma folga de 20 metros. Não tem pressa, trota, passadas largas, e sorri sozinho quando a luz da lua encontra o mar, a areia da praia molhada pela onda também ganha o prata, as passadas de Valeska mancham de preto o prata, ele as segue.
Valeska encontra os gringos no final da praia e sente o porto seguro. Os australianos dão risada e contam piadas de inglês. Mariano chega junto e apesar de não falar muito inglês, puxa assunto:
- Hi Guys, whats up? Nice night with full moon...
- Yeah, Brazil is a exciting place...much better than Australia...
- Yeah...And is too sheap for you... Third World is so nice...visit poor people...Ongs...beach...nice and easy girls...
- Hahaha, its true, its true...
- So...Do you have a pop...you know...marijuana? Just a point is enough...
- Oh Yeah...
Os gringos tiram do bolso uma latinha de Amsterdã. Dois baseados de skank feitos. Entrega um a Mariano, que cheira passando pelo nariz como se fosse incenso. Valeska gosta da desenvoltura dele, e por um instante perde o medo, até encosta braço no braço, mãos se tocam.
Os gringos, chapados, resolvem querer conversar, mas Mariano, nada afim, lança um papo que dá paranóia em chapado de primeira viagem:
- Look, its not a good idea stay out side during the night. There are a lot of bugs, You can get a fever, its dangerous...
- Bugs? what kind of bugs?
- Do you know Aedes aegypti?
-No.
- OOOOOOOOH my God, its too dangerous...go home, please, please...
Os gringos voam pra pousada.
Valeska sente o predador e fareja a cena do crime. Em duas frases ele forjou uma situação que colocou os gringos pra corrrer, deixando o baseado.
Mariano pede pra Valeska fazer cabaninha com a mão e acende o baseado. Os dois em silêncio, a lua.
Alguns minutos e o baseado faz efeito. Mariano começa a escutar o barulho do mar ainda mais forte, a luz prata da lua mais intensa, o vento gostoso na pele. Olha pra Valeska. Os cabelos prateados, a pele azulada. Novamente ele sente um calor no corpo lhe varando a espinha. A maconha dá um tesão filha da puta e ele parte pra cima. Primeiro tira o cabelo dela da altura da nuca e aplica uns beijos de peixe, só os lábios. Então percebe que ela deixa, que continua olhando o mar como se nada tivesse acontecendo,e os beijos crescem pra uma lambida, uma marca de dente, uma lambida, uma passada de língua. Valeska suspira, com certeza o baseado fez efeito e eleva as lambidas de Mariano ao máximo. Suas pernas fraquejam, as mãos se fecham em punho, as unhas grandes e bem cuidadas arranham de leve a pele da coxa...o barulho do mar. Mariano abraça a moça, aperta com força, abre a camisa pra que fique pele com pele, o calor, e Valeska fraqueja, a respiração inconstante, olhos semiabertos, o brilho da lua na pupila, os dois se beijam, línguas entrelaçadas.
Mariano pensa em ir além e, pouco a pouco, avança o sinal. Uma mão no peito, muito sutil, passando pelo bico, a outra rasteja das costas pra bunda, e ainda que Valeska tire a mão dele - quando lembra de tirar - o saldo é positivo pra Mariano, porque a cada investida, o avanço é maior. Valeska completamente bêbada não percebe a agilidade de Mariano pra desabotoar o sutiã e abrir a calça. Ela se dá por si quando ele já está mamando o peito esquerdo enquando enfia a mão direita na buceta. Mas este foi o erro de Mariano, ainda que ele imaginasse já ter a moça pra si. O erro foi que aquela mão na buceta fez ela lembrar do seu último caso. A vez em que se conheceram num sítio, os dois bêbados, e o cara fez a mesma coisa. Afastou o biquíni dela e carcou dois dedos no fundo. Só que o cara comeu ela duas vezes e sumiu, nunca mais atendeu o celular. Veleska chorou um mês seguido. Se Mariano tivesse feito de outra maneira, talvez a combinação de códigos fosse outra, e Valeska não teria lembrado do seu ex caso. Mas Mariano não teve sorte. Valeska acordou do transe, da anestesia geral e se deu por si do que aconteceria dali pra frente. E se ele fosse mais um...um mês chorando...nem pensar...ela precisava de mais confiança... e no estado que Mariano estava, a fome, ele não tinha como agir diferente, cego que só, de tesão.
- Não, não...Eu não posso...me deixa em paz...não quero assim...
- Por que? Que que eu fiz de errado? Tava tão bom...
- Não sei...não é você...sou eu...não tô me sentindo legal...Quero ir pra casa...
- Mas agora? Olha a lua...Nós dois aqui...eu to apaixonado por você...Quero te beijar...vem cá.
Mariano abraça. Valeska deixa. Mais uma vez ele começa com os beijos na nuca. Estágio por estágio tenta chegar onde parou: boca no peito; mão na xoxota. Mas ela só quer um abraço quente pra esquecer a dor que sentiu pelo cara, e Mariaano nnao entende, ou não quer, não consegue, caso é que ele insiste e ela sai correndo de volta pra pousada. mariano arruma o pau, pensa "Caralho!" e corre atrás.
Na porta da pousada, Valeska diz que vai dormir, pede desculpas e fecha a porta. Mariano bate, pede pra ficar, que vai deitar e dormir do lado dela, só. Mas seus olhos dizem outra coisa, ele não consegue omitir a vontade de fodê-la, os olhos chegam a lacrimejar de desejo, sangue n'olhos, e o medão bate em Valeska. Ela praticamente bate a porta na cara dele.
Mariano decide tomar um banho de mar. Enquando esfria a cabeça e reflete que talvez realmnete tenha ido longe demais pra uma primeira vez, de dentro d'água vê uma fogueira. Aquele fim de fogo. Decide ver o que é.
Caminha pela praia. A lua o deixou, nada de prata, tudo azulado, pouca luz. A proximidade da fogueira faz o azul se misturar ao alaranjado da brasa. Uma silhueta. Cabelos longos, Mariano vem se aproximando até que o vento aumenta as chamas do fogo, que lambe o rosto da silhueta. Mariano não acredita no que vê: Talita.
- Oi...você por aqui, sozinha esta hora?
- Pois é rapaz, tava sem sono e vim pra praia pensar na vida...
- Tô com uma ponta no bolso, tá afim?
- Pode ser...chega aqui...senta na canga...tem espaço pra dois.
Mariano senta e desamassa o baseado.
- Molhou um pouco, mas acho que rola.
- Eu vi umas pessoas na praia, lá do outro lado, era você?
- Era. Eu e uns gringos.
- Os da pousada?
- É.
- E Valeska?
- Foi dormir eu acho, depois do jantar não vi mais ela.
Acende o baseado.
Mais alguns minutos e começa a fazer efeito. A conversa continua.
- Nossa, Este é poderoso. Onde você arrumou?
- Os gringos. Os gringos me deram.
- Nooooossa. hahahahahahahaha
- Que foi?
- Hahahahahahaahaha tô muito louca hahahahahahahaha
- Loucura boa?
- Muito boa. O vento tá gostoso, me sinto bem, leve.
- Eu também.
Os dois se olham. O rosto perde a nitidez no escuro e isto é bom. Bom porque todo o contorno, exceto os olhos brilhantes pelo fogo, podem ser redesenhados, imaginados. E é justamente o que eles fazem. Mariano, que vinha de Valeska, já
engatou uma segunda e partiu pro beijo. Diferente de Valeska, Talita compareceu, e desta vez foi ela quem mordeu a nuca dele, deixando de saída sua marca. A marca que no dia seguinte Valeska veria, entregando que Mariano não tinha perdido sua noite. E ele faria questão de deixar o pescoço a mostra.
Talita não parece ter sofrido com homens. Muito pelo contrário: fazia sofrer por ela. Um domínio total da situação. Deitou Mariano na canga e lambeu o cabra de cima a baixo. E aí dele tentar se mexer...mordia. Como dizem os homens numa mesa de bar: a mulher gostava da coisa. A saia de xita ela ergueu, a luz do fogo lambeu suas coxas de laranja, o fundo azul da noite, do mar. Contraste. Mariano vê um vulto de pêlos bem aparados, bigode de hitler, e sem pestanejar, Talita, tesão de maconha, rasteja a púbis pelo corpo dele, rasteja como se pintasse um muro na Grécia, vai e vem, até encontrar a boca de Mariano. Ele aperta sua bunda e suga, suga como se aquela fosse a maior das iguarias, e quanto a isso, não há dúvida, é.
Quando o nível de molhado ultrapassa o perímetro dos grandes lábios, Talita se vê pronta pra receber. Novamente pinta o corpo de Mariano com aquela xoxotinha molhada. rasteja num vai e vem, inclina o corpo, ergue o quadril, com a ajuda das mãos busca um encaixe, pincela, e hummmmmmmm, começa a sentir algo lhe atravessando as entranhas. Mariano está fora de si. Durante todo o movimento, tenta focar as estrelas, a silhueta dos coqueiros, mas quando sente o escorregadio quente, tudo entra em desfoque. Ele tenta imaginar Valeska, sobrepõe Talita, Valeska, fecha os olhos, mas Valeska se funde no azul desfocado e aparece Talita banhada em fogo, cavalgando, cabelos enrolados, sobrancelhas grossas.
Mariano quer gozar. Sabe que não é o ideal em se tratando de satisfação feminina. Mas a energia gasta e contida com Valeska foi tamanha, que ele precisava aliviar. Pelo menos nessa primeira. Talvez numa segunda até faria uma carícia, mas no estado coiote, o negócio era ejacular.
Segurou Talita pela cintura e torceu seu corpo sobre o dela, deixando-a de costas. Movimento rápido, ergueu o quadril da morena na altura de um criado mudo e penetrou com força. Nessa hora, dono da situação, até que recobrou a consciência e lembrou da camisinha. "Caralho, que que eu tô fazendo", mas o tesão era tanto, que ele não conseguiu tirar, até porque, ali na praia, ele não tinha preservativo, e a fissura não deixou que ele fosse até a pousada buscar uma. Já Talita não pensou nisso. Ela queria dar tanto pra ele que seria impossível ter alguma doença. Que cara gostoso! Mete! Me fode! Mariano foi que foi, metendo sem parar, que morena, que bunda, que fome, até gozar.
Os dois adormecem na praia, juntos.
Amanhece. Talita acorda e sente um pouco de areia na boca. Recobra as faculdades e procura por Mariano. Pegadas na areia indicam que direção ele tomou. Talita senta na canga. A areia no entorno mais parece a desova de uma tartaruga, tudo revirado. De saia, fica em pé pra colocar a calcinha. Um veio de porra escorre pela coxa, Mariano gozou dentro. Ela faz as contas, Menstruou dia tal, logo: fértil. A possibilidade de ter engravidado é grande. Vai pra casa tomar uma chuveirada.
Mariano acorda no quarto da pousada. No pau uma casquinha branca indica até onde a noite o levou. Tudo vem em mente. Camisinha, gravidez, que cagada. Mas agora já foi feita. Entra no banho e se esfrega. Se Talita ele já arrebatou, falta Valeska.
Valeska acordou de mau humor. No fundo ela queria alguma coisa com Mariano. Sentiu o maior tesão. E só não foi mais longe porque teve medo de se ferir. Mas acordou sem saber o que seria melhor: ferir-se ou frustrar-se. A frustração lhe parecia pior, deixar de sentir o peso do corpo de Mariano, o calor, o beijo, era infinitamente mais doloroso do que levar um pé na bunda. E pra compensar, começou o dia descarregando nos funcionários da pousada. Mandou limpar todos os vidros, raspar o deck de madeira e passar selador, ficou insuportável. Os funcionários só foram ter descanso no final da tarde, quando Mariano apareceu.
A primeira coisa que Valeska notou: um chupão no pescoço dele. O fato foi fundamental pra que ela caísse na real. Ou ela cedia, ou ele partiria pra outra, numa boa.
Anoitece na velha Bahia. Os coqueiros não se cansam da brisa. Não bastasse a beleza do dia, a noite rompe com estrelas. Se já estava calor, agora juntava cupim voador nos lampiões. Mariano sentiu que decididamente não precisava mais trabalhar pra ter Valeska. O enredo da história já trabalhava sozinho por ele. Mais ou menos como uma grana bem aplicada, você só fica ali de butija vendo se a vento continua soprando. Valeska cercada por todos os lados. Ela tentou se fazer de difícil e não rolou. Ou ela assumia que queria dar pra ele e entregava o ouro, ou perderia sua chance.

