Foto: João Pavese
Voltei de Mato Grosso com boas histórias pra contar e uma profunda sensação de perda com relação `a condição humana. Gostaria de deixar aqui um breve relato do que vi e senti.
Mato Grosso é uma cloaca. O cu do mundo. Pra mim, a síntese do que o homem é capaz de fazer de mais degradante consigo mesmo. O agronegócio conseguiu liquidar em menos de três décadas simplesmente toda a floresta e serrado que cobria o estado. Os rios estão contaminados com agrotóxicos e a paisagem foi completamente transformada e sumariamente executada. Cana, cana, soja, gado, árvores retorcidas, poeira, caminhonetes de luxo, caminhões carregados de toras de lei, usinas de cana, tratores, som sertanejo dos carros, rodeios, santinho de políticos por todo lado, gordos comedores de picanha e um calor nefasto fruto do desmatamento. Em Cuiabá, que mais parece um Largo da Batata extendido, conversei com algumas pessoas na rua, no supermercado, que reclamavam do calor excessivo neste inverno seco, de umidade beirando os 10%. Todas diziam não entender como pode estar tão quente, que nunca viram coisa igual. É de deixar perplexo qualquer ser minimamente esclarecido. Ninguém consegue associar o calor com a brusca alteração do bioma local. As pessoas querem progresso, muitas delas chamam a floresta de sujeira, que o mato deve ser limpo pra dar lugar as plantações, e não percebem que a cobertura vegetal é um regulador natural do clima, do solo, que muito em breve o tal progresso vai virar pó, areia, deserto, e aí elas vão buscar outro lugar pra ocupar, destruir e repetir o erro.
Talvez eu esteja sendo duro demais com o termo cloaca, até porque eu moro numa: São Paulo. Mas penso que numa cidade como a nossa, a destruição já foi tamanha, o rio morto, o trânsito constipado, que temos alguns anos-luz na frente pra refletir sobre qual caminho tomar. É só parar um pouco pra pensar no absurdo.
Mato Grosso é mar aberto de cana pura. Ainda mais quando bate o vento. Os cortadores de cana com certeza estão no substrato mais rasteiro da cadeia alimentar. Vivem na merda. Eles são tão escravos como foram seus antigos. Vivem no limite do ter o que comer e não lhes resta tempo pra pensar em nada que não seja cortar, cortar e se refazer do fastio com uma ração pobre e um colchão duro. Quando escrevo estas palavras, me pergunto: bom João, grande novidade seu nerd, isto todo mundo já sabia, Helloooo!!! Mas a questão é que quando você vê de perto, a coisa entranha na sua carne. Você primeiro empina o nariz e diz: - Nossa, como minha vida é boa, ainda bem que eu não estou nessa, coitada dessa gente sofrida! Até perceber que, seguindo a ordem natural das coisas, isto não vai ficar barato. Se eles estão na merda, e nós bem de vida, significa que cedo ou tarde o caldo entorna e a merda começa a subir. O cortador de cana sem nenhuma perspectiva vai ser expulso do campo quando as máquinas passarem a cortar ( uma máquina corta o equivalente a 400 homens) e aí eles vão pegar o primeiro ônibus que passar com o dinheiro que lhes resta e desembarcar nas grandes cidades, uma delas, pode ter certeza, a sua. E por mais que este trabalhador seja de boa índole, a hora que a fome apertar e que o filho dele chorar, não tenha a menor dúvida que ele vai bater com o cano do .38 no vidro fumê do seu honda civic flex, tanque cheio de álccol baratinho R$1,17 o litro, você indo ao cinema ver um filminho cult com a gata, e cobrar pela cana que ele cortou de quase graça. Aí não venha me perguntar: Mas por quê eu? Tarde demais, Luciano Huck, passa o rolex pra cá!

