terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Amor na Cama de Outro

A viagem fora marcada com antecedência. Mariano, completamente apaixonado por Isabela, não imaginava outra pessoa no mundo ao seu lado e queria fazer tudo por ela, pelos dois. Achou que caixa de bombom, flores, jantar, além de clichê, seria pouco, nada.
Entrou no site da agência de viagens, pipocou um banner no canto esquerdo da tela: “Itacaré, pousada pé na areia, imperdível”. Deu o número do cartão. 12x sem juros, sete noites com translado e café da manhã. Finalizou a compra feliz da vida, olhando as fotos do site. Imaginou os dois naquele quarto cheiro madeira de lei com limão siciliano, ventilador de teto no médio, mosquiteiro amarelo claro com um ou outro mosquito morto preso, cortina de algoodão cru na brisa fresca da maré baixa com lua cheia, cervejas, dois chokitos no frigobar; Isabela nua, já marcada do biquíni, morenaça cor do pecado, depilada na virilha, gramado serrado no meio, salgada de suor e sal marinho, a calcinha preferida do catálogo, branca transparente na frente, cavada no fundo com lacinho no cóxix, óleo de amêndoa já no final, um bloco de notas, divagações inacabadas, a revista Piauí respingada no chão do banheiro, o xampú de chá verde no box.
Meses se passaram e Mariano nem se lembrava mais da viagem. Deletou. Só se tocou quando chegou o extrato do cartão: “Cumshottravels 11/12 – R$ 328,00”. Era a penúltima parcela.
Acontece que de lá pra cá muita coisa mudou. Muita. Quando Mariano comprou o pacote, os dois viviam o tal do momento em que todo o resto não existe. Em que tudo é sugado pelo buraco negro, até Stephen Hawking, e a massa deixa a matéria. A paixão no auge da forma, fim de semana fechados no quarto, o lençol amarrotado, mancha de suor, secreção, sangue, óleos, pêlos, um travesseiro em cima do outro, pacotes de camisinha abertos no dente, saindo de lá só quando a fome aperta, pra comer peito de perú com geléia de laranja, mel, damasco, uma golada de suco, castanha do pará. O telefone fora do gancho, celular no silence, velas derretidas pela garrafa de vinho argentino, abridor com a rolha última da noite e os amigos cobrando a amizade momentaneamente esquecida, sabendo que nada segura a trepação, que por um bom tempo, o amigo antes presente nas baladas, no chope de sexta, vai passar longe, trabalhando o abdomen, secando na madeira virando os olhos, até que a vontade de explodir supere o suposto limite da força, da oxigenação.
Mas tudo mudou ao longo do tempo. A inexorável passagem. Um ano de convívio fez cair por terra boa parte das idealizações e os punhados de arroz não eram mais jogados ao alto nem a noite tinha mais aquele cheiro fresco nem a Av. Rebouças no rush funcionava pro beijo faminto a cada engasgada do trânsito. Por mais que se gostassem, dormir e acordar na mesma cama, acostumar-se com o corpo do outro, decifrar as fraquezas nos momentos de angústia, um egoísmo que aflora com a intimidade, parecia mesmo que desafetos brindavam o fim, que o lado negativo pesava mais na balança. Mariano percebera que a relação, da forma como se estabelece de início, não se sustenta`a longo prazo, por mais que se queira. Não existia mais aquela fome ancestral de virar um só, e as outras mulheres, antes só bonitinhas, lhe pareciam cada vez mais interessantes. Muito deste seu interesse – pensava ele - vinha do seu ganho de repertório ao longo do namoro, o mestrado e doutorado adquiridos na intimidade do casal. Como se ele descobrisse as mulheres ao decifrar os códigos da sua, e encontrasse a beleza de cada uma no olhar, no cheiro, na essência.
Mas quando Mariano pensava num fim, batia o pavor. Por um lado ele sabia que naquele momento, não poderia corresponder `as expectativas de Isabela. Um filho? Não dava. Não agora. A grana ainda era pouca, cobria com alguma folga as contas, mas nada que desse pra bancar a criança da maneira merecida. Pra vir ao mundo passar perrengue, melhor não vir. Pensou também naquela fórmula: se tivesse um filho, correria mais atrás de trabalho, de uma formação mais sólida. Mesmo assim, com os poucos meses de terapia, sabia muito bem que sua índole macunaíma não se abalaria o suficiente com maiores responsabilidades a ponto de correr atrás. Tudo a seu tempo. Se ela quisesse mesmo ter um filho, teria de cuspir a pílula em dia fértil, preparar a bolsa de água quente e mandar bala. Mas não fazia o seu tipo. Por mais que os 32 anos nas costas pesasse contra Isabela, que a maior parte das amigas já estivessem pensando num segundo, pra ela incomodava muito engravidar sem uma aprovação clara do macho. Pra ela seria muito importante um pai presente, não queria produção independente. E assim foram postergando, esperando do outro a reação, a tomada de decisão. Mas não vinha de nenhum dos dois. E muito das desavenças surgia desta discrença com o futuro da relação. Isabela com planos de fazer família. Mariano sem querer perder sua liberdade. E ao invés dos dois conversarem sobre seus temores, a coisa foi degringolando, e quanto mais longe se sentiam do que realmente tinha que ser dito, mais o tesão e a intimidade iam pro beleléu. Isabela tinha raiva por Mariano não corresponder aos seus anseios, e o diálogo, cada vez mais breve, resumia os fatos corriqueiros, nada em profundidade, nada que ajudasse a revigorar a relação. A viagem seria uma espécie de last chance. Mariano acreditou que lá, no mar esverdeado da Bahia, as disavenças pudessem se dissolver e aquela sensação boa do começo do namoro voltasse.

Embarcaram pra Salvador num dois de fevereiro, dia de Iemanjá. De lá pegaram um carro pra Itacaré. O clima não era dos melhores. E por mais que a viagem tivesse cara de despedida, havia uma esperança, não custava tentar. Em último caso, de chorar as pitangas, que fosse na Bahia, na beira do mar.

Vai aí uma passagem do Kama Sutra:

"Se por compaixão aos sentimentos dela,
você não faz qualquer avanço,
ela vai julgá-lo um néscio,
irremediável tolo, incapaz
de compreender como é a mente dela.

Se, por outro lado, você não se empenhar
em cortejá-la, aos sentimentos pisoteando,
em pressa estouvada para seus desejos saciar,
medo e ira há de causar,
entre os dois gerando ódio frio.

Se sua esposa sinais de amor não encontrar,
de amargura há de encher,
vindo depois hostilidade, rebeldia,
a repulsa pelo sexo; você a força
a buscar o amor nas camas de outros homens"

Mallanaga Vatsyayana, séc IV

1 comentário:

Anónimo disse...

Bonito, sr. escritor.Seu talento refinou-se, sua prosa amaduresceu.Escrevia antes como um menino, dá pra notar o homem por detrás das palavras agora.Benditas, portanto, as circunstâncias ou as pessoas,que o conduziram na estrada rumo à maturidade. Welcome to manhood, darling.Fasten your seatbelt.Make yourself confortable. Gostei muito desse texto.Tocou-me a alma. Como Mariano,passo pelo mesmo problema.Também vivi (glória a vós ,Senhor)uma paixao dessas de virar as tripas do avesso. Sabe aqueles fenômenos sonoros e luminosos observados nos céus da Vila Madalena e os incêndios que desalojaram artistas plásticos no Morro do Querosene?Pois é,eram meu namorado e eu brincando na minha casa e na dele.Pois é, a gente se divertia a valer.
Igual a Sherazade,foram 1001 noites com uma história diferente.
O duro agora é ...que eu e gato nos olhamos e cadê as estrelinhas?
Não sabemos o que fazer um com o outro.Não gostamos de baralho,jantar fora todo dia pode prejudicar nossas silhuetas esculpidas em dois anos de relacionamento.
Casar e fazer filhos esta fora dos planos (estou quase virando avó...).Tem alguma idéia?O que viram dois amantes apaixonados quando a paixão acaba?Amigos?Mentira.Ninguém fica miguinho ,não.
Inimigos? Qualquer alternativa é melhor que deixar a paixão azedar e virar aquela coisa morna e sem graca ,igual a prato requentado,que vai ficando na geladeira até o mais sortudo encontrar novos lábios,outros bracos e fazer seu ninho numa outra cama.
Fica para seus leitores a questão.
Quem achar que devemos acabar a coisa enquanto ela esta quente, ligue para 080011.Quem achar que espera esfriar e aí pensa,ligue para 088002.
um abraco e até.