Ele não via a hora de voltar pro sul da Bahia. Esteve por lá com seus pais, viagem família, meados da década de 90. Agora seria diferente. Sozinho, o que ele queria é pisar numa areia fina, tomar suas cervejas beliscando um peixe frito, um banho de mar naquelas piscinas naturais de pedras cheias de alga verde limão, ver as sombras crescerem deitado numa rede de varanda, escutar os coqueiros se pegarem. E quanto mais tempo em São Paulo, mas salivava por uma praia. Seu desespero foi perceber o tempo que perdemos nas grandes cidades. Enquanto o sol se põe na vela da jangada, as marés sobem, a lua de cheia mingua, você perde tendo de sobreviver num aglomerado de 16 milhões de outros seres, um querendo ser melhor que o outro em alguma coisa, custe o que custar.
Ele até que digeria a tal da dialética, vendo a coisa de um outro ângulo. Talvez aquele que mais conforte os paulistas: O negócio é trabalhar, juntar uma bela grana numa aplicação segura de renda fixa, e aí sim, conhecer todos estes lugares maravilhosos com classe. Se não fosse na selvageria da megalópole, não se teria esta chance. Você estaria servindo caipirinha ou tocando maracas na tal praia paradisíaca e não aguentaria mais olhar pra aquele mar em dia de semana nublado, louco por um feriado abarrotado de turistas que pudessem gerar um trocado a mais. Muito bem, por este lado, existem lá sua vantagens. Você cosmopolita, cheio da grana depois de trabalhar trinta anos numa rotina de trânsito, bebedeiras, filhos, pensões alimentícias, talvez lhe reste uma carcaça, e aí, por que não, largá-la a beira mar.
Mas ele tinha a clara impressão de que não aguentaria esperar por este dia.
