Praia Mole esta manhã foto: João Pavese
Depois de uma noite de sono atormentada (sonhei que fui preso por vadiagem, por não ter emprego fixo, os presos desenhavam nas paredes, e no banho de sol, olhando o lado de fora, não me conformava com a situação, eles não me davam o direito a telefonemas e nenhum parente vinha me visitar, um medo de ser currado e por ai vai), acordei e me deparei com uma realidade bem longe daquela que meu inconsciente me presenteou na longa madrugada. Floripa, estou em Floripa. Ainda vazia, sem a turistada louca pelo frenesi alimentar=esportes, trepadas e gastanças. O sonho me atormentou um pouco. Claramente um indicador da vida que levo. Esta coisa de ser profissional liberal, sem emprego fixo, atormenta. Por mais que saiba que já é sem volta, que nunca vou conseguir trabalhar pra outra pessoa, executar o que ela pensou e protagonizar a mais valia explícita( a não ser que venha a fome), passar uma segundona na praia, sabendo que os outros estão na labuta, incomoda. Como me dou ao luxo de? Talvez seja a minha síndrome de índio. Explico. Toda vez que faço um trabalho e levo uma bolada, tiro férias. Ao invés de continuar me esfalfando pra acumular mais e mais, sem descanso, penso que aquela grana dá pra viver por um tempo, e que parte deste tempo deve ser gasto com as coisas que gosto, que me dão prazer. MAis ou menos como o índio que mata uma anta. Ele não sai pra caçar até que a anta acabe. Vai ficar caçando e acumulando carne de anta pra quê. Estraga. Adoro ler um livro todo. Aquela leitura intensa de três dias que você mergulha na coisa, sem distrações. Adoro um banho de mar, tomar sol, uma boa noite de sono, a cerveja, o carinho num peitinho médio macio, dormir junto, ventilador de teto, e perder isso, seria mortal. Bom, mas aí tem aquela propaganda do Ford Fusion - "Pra quem fez por merecer" (algo que o valha). Quer dizer que devo trabalhar como um porco no cio até juntar o máximo que der, e aí, depois de um exame de próstata, constato um câncer, uma disfunção eréctil, entro no meu Fusion pra dar um passeio de ray ban com o visa platinium na carteira. Não rola. Vou comprar esta briga. Trabalhar sim, se esfalfar não. Tem que haver uma saída, a medida. Vou atrás de mecanismos que garantam uma grana razoável, sem entrar na loucura, na competição por mais e mais, afinal, pega um catálogo de pousada chique no sul da Bahia e perceba que as boas coisas na vida são as simples: uma rede, um coco gelado, canga, livro, boa companhia. Pra que mais?
