foto: Robert Capa
Magda já não sabia muito bem se queria o cara ou não. E nessas ficou por meses a fio, sem tocar no assunto.
Costumavam jantar juntos, em casa, e enquanto ralava queijo parmesão ou picava a cebola do molho, pensava nas mil possibilidades do fim. Sabia que o cara estava totalmente na dela, morando juntos, planos de uma vida em comum, mas alguma coisa em algum momento produziu a centelha da bancarrota. O gás foi vazando e impregnando todos os ambientes onde antes flanava a paixão, agora completamente retorcida e envenenada por uma explosão seca e devastadora. Por mais que ela se esforçasse em voltar atrás, uma voz interna, onipresente, dizia que ele não era mais seu homem, talvez, com muito esforço, só um amigo. Até existia o momento em que a carência apertava, geralmente na TPM, ou quando sentia que o trabalho como produtora (agilizando aluguel de câmera, água pra equipe, radinhos motorola, tudo pro diretor punhetar em cima de algum storyboard), engolia qualquer possibilidade de uma vida pessoal saudável. Mas ainda assim, por mais visceral que fosse a carência por colo e chocolates, ela conseguia descartar ele como porto seguro.
Qualquer detalhe incomodava: sua voz, o formato da barriga por sobre o elástico do shorts, o peido silencioso no edredon, a erudição superficial, a combinação das roupas, o bafo, o jeito de andar, os mesmos argumentos de sempre, o timbre da risada, o desleixo com as coisas, as compras inúteis com eletrônicos, as conversinhas no msn, a relação dele com os pais, o cheiro do carro, o corte de cabelo, a forma da bunda na calça jeans de bolso caído, os pêlos isolados que nasciam nas costas e ele pedia pra arrancar, a escova de dente com salsinha grudada, os pentelhos no sabonete glicerina de rosto dela, a marca de dedo no pote de cream cheese, os sites pornôs no histórico do explorer, as tampas de caneta bic com cêra de ouvido, cuecas freiadas pra fora do cesto, tv ligada sem assistir, projetos sem finalização, amigos empalhados no tempo com camisa do Pink Floyd, e o pior deles, talvez o definitivo: O cara não tinha a menor ambição de se posicionar na relação. O cara não tinha opinião própria, sem pulso e pra qualquer mulher isto é mortal. Bater o pau na mesa é vital. E ele, pelo contrário, deixava tudo pra ela resolver.
- Vamos ao cinema? Vamos. Que filme? Não sei, pensa aí, qualquer um tá bom pra mim.
Não rola. Qualquer uma perde o tesão. E Magda foi percebendo que tesão ela sentia por homem que trata mal e bem, efeito montanha russa. Que fala uma grosseria, mas rebate com uma declaração. Que pega com força, chupa, faz gozar e vai pelado na geladeira traçar meia picanha acebolada fria pingando no chão. Que deixa ela com frio, se cobrindo com a ponta do edredom, e depois aparece quentinho, abraça, beija, encaixa. Homem que fala pouco ao telefone, que diz a verdade, que lambe faca, e que na hora certa aparece com flores, sai pra dançar, propõe uma viagem, paga o cinema e leva pra jantar.
Foi num domingo clássico de inverno, daqueles que as pombas em vôo se fundem ao concreto das catedrais, ao cobertor do mendigo na fuligem, no céu cinzento e frio, que ela acordou decidida a jogar a toalha. Focada, tomou um banho quente de porta trancada, coisa que não costumava fazer, secou os cabelos com o secador turbo, passou hidratante nas coxas dez anos de jazz, secou a virilha e a xoxota depilada, desvirou o sutiã, destravou a porta e foi, junto com o bafo de vapor em linha reta pela sala até o quarto, como um trem que não pára na estação, e disparou a primeira certeira, pensada e arquitetada durante os últimos três meses de silêncio:
- Marcos, precisamos conversar...

