Ganhei muito dinheiro nesta vida. Ahhhh, se ganhei. Ainda menino, 18, 19 anos uma notícia triste me deixou montado. Meu avô, barão de café, foi encontrado morto na piscina de casa. Assustei quando olhei meu saldo.
Todo fim de tarde vovô fazia seus 500 de peito voltando costas, mas naquele dia as várias feijoadas cobraram seus joelhos de porco. Infarto fulminante. Quando vovó foi chamá-lo pra tomar uma sopa de mandioquinha e abriu a janela do jardim, a água da piscina já estava parada. Algumas folhas rastejavam na superfície, vovô submerso na parte funda, perto do filtro, pairava como uma água viva. Os vizinhos ouviram os gritos, mas era tarde demais.
A família se abraçou no velório, óculos escuros, lenços calibrados de ranho, apareceu aquele primo abutre que nunca ninguém viu, querendo sua fatia do bolo. Foi o tempo do caixão baixar pra que as brigas começassem. Vovô, assim como Charles Chaplin, foi um dos poucos que se safou do crack de 1929. E por incrível que pareça, minha parte estava garantida no testamento. Ninguém tasca.
Com a grana que entrou, meu negócio era a jogatina. Gastar em cassino, poker, mulheres, champagne, putaria, pó, piada de preto, desdém alheio, depredação do patrimônio público, ostentação. O que você imaginar que se possa fazer.
Dinheiro deixa a gente babaca. Aos 20 já tinha minha Mercedez conversível, três rolex e muita jóia pendurada nos meus vários troféus. Isso mesmo, comi mais da metade das menininhas de família do clube. Fazia questão de dar um brilhante, colar; tenho tesão nisso, gastar com mulher, suscitar o desejo atávico delas pelo provedor. A partir do momento que você entende que o que elas querem mesmo é ser exclusivas, ter o seu olhar, seu carinho, ainda que naqueles poucos momentos juntos, você levou. Se além disso você dá um cano no cinema, mas depois aparece com flores e põe ela pra dormir de tanto gozar, pode ter certeza: tá na mão. Como dizem por aí: Gato de barriga cheia não passeia. E na época de estiagem - coisa rara – pegava uma putinha de luxo bandeira dois e arrastava pra casa. Claro, ficava ligado se a piranha não me levava um perfume, escondia a carteira na gaveta, mas sempre deixava uma nota de US$ 100 no criado mudo, só pra testar a putinha. Elas sempre acham que são mais espertas que a gente. Te dou a periquita e voilá…Green Card, faço tudo que quiser. Não não, comigo não macarrão. Nunca foi assim. Nesse sentido sempre tive muita lucidez. Fico na fissura de comer, mas consigo manter o tênue fio da consciência. E nada da dormidinha depois. Acabou, tchau…Táxi. Algumas me acham um escroto; outras adoram.
Aos vinte e três já tinha quase que dobrado a herança que vovô deixou. Enquanto meus outros irmãos gastaram, abriram seus negócios e se deram mal – nenhum deles tinha tino, foram muito mimados por papai, perderam a noção de realidade -, eu já era tido como o grande Gatsby: cinco carros na garagem, duas motos, uma ilha em Angra.
Mas quem tem grana sempre quer mais e acha que tem de menos. Vira bola de neve. Se era dez, quando se tem cem é pouco. Um milhão, dez milhões, vinte milhões. Mixaria. O negócio é fazer bilhão pra comprimentar um Safra em evento fina flor ha ha ha ho ho ho e ele sacar, não pela roupa, nem pelo relógio, mas pelo olhar, que você bateu nas cifras dele. Por que aí você entra noutro patamar. Pode fazer absolutamente tudo que lhe der na telha. E os serviços pra quem tem grana são inimagináveis. No tempo que um trabalhador perde na fila do INSS, você pode pegar um jatinho até o sul da Bahia, toma banho de mar, dança lambada, almoça, tira uma siesta e volta antes da chuva do final da tarde. Isso é maravilhoso. É poder. Todas as ferramentas criadas pelo homem` a sua inteira disposição.
Mesmo assim me achava peixe pequeno perto dos grandes que circulam no High Society. Geralmente um judeu do mercado financeiro, usineiros, empreiteiros. E sabia muito bem que eles só eram mais ricos por um motivo: Além de saber ganhar, sabem gastar. Na hora certa, com as pessoas apropriadas. E o dinheiro sempre volta em dobro. Quando você entra neste circuito e é aceito, pode apostar que sua conta não pára de engordar. Do contrário, se seu sobrenome vem de extratos inferiores, pode bater na porta quantas vezes quiser, com a melhor das intenções, que não vai rolar, não vai. Nêgo vai te dar canseira ou queima logo seu filme, te dá uma chance e passa a rasteira.
Tudo aquilo me incomodava. A patota dos cartolas mais ricos, a vida incerta no jogo; queria gozar de certa estabilidade, esta coisa de ganhar aqui perder acolá, investir na bolsa e ficar maluco vendo se acham mais petróleo, se o Chaves estatizou multi nacional, se a seca prejudicou a laranja na Califórnia. Porra. E a noite já não era tudo aquilo. Comecei a perceber, até muito tarde pro meu gosto, que comer mil mulheres é comer nenhuma. Deitar com carpaccio e acordar com uma pizza quarto queijos do lado, que não vai embora nunca, é uma merda. Queria uma mulher de verdade, dessas de filme com vento e sobretudo, que você conhece uma francesa no café e se apaixona. É isso, faltava uma das poucas coisas que a grana não te permite comprar e que me cortava por dentro. Um amor. Uma pessoa que você tem vontade de ligar e ouvir a voz.
Mergulhado numa crise existencial sem precedentes, tarja preta com Blue Label, cueca, controle e olheiras, passava as noites em claro arquitetando a melhor forma de acabar com tudo aquilo. Hemingway, tiro de rifle na boca.Elvis, pó e icecream, Sócrates cicuta, ou fazer logo o superman e pular da cobertura? Estatelar no chão no último fade-out. Não tive coragem. Verdade é que sempre fui um cara alegre, que aprecia a vida, que não deve nem teme, sem religiões, credos, esta coisa de paraíso que não tá com nada. Aqui e agora. Visa Platinium no The Plaza com champagne e caviar beluga. Peitos e pérolas, Jacuzzi, Bahamas bermudas.
Foi só eu decidir sair daquele caldo em Pipeline pra que as coisas começassem a mudar. Conheci um peixe grande que estava atrás de sócios pra abrir um cassino em Las Vegas. Cassino com Tutâncamon de 22 metros na porta principal, 100 cleópatras no atendimento, show com ninfas múmias meladas de mel e purpurina num grande espetáculo de luzes, fontes e fogos. Esquema da pesada. E o cara era rico mesmo, nada de esquentar grana, caixa dois, drible no leão. Pelo excel teríamos retorno do investimento em seis meses. Em cinco anos 1000%. Dessas coisas de limosine virar fusca, avião táxi, Iate prancha. De ninguém te segurar. Meus olhos brilharam. Mesmo querendo sair dessa, fato é que trabalharia no que realmente sei fazer. Não vai adiantar vender tudo agora e abrir um sebo, tocar trompete, pintar descalço. Minha meta eram cinco anos nessa. Cinco anos. Depois sim, velejar pelo Caribe de tererê no cabelo, produzir alguma banda de Rumba, ficar pelado no veleiro.
Foi justamente nesta época de mudanças, já morando em Miami, completamente enlouquecido pela construção do cassino, que conheci uma moça. Estava em Key West no iate de Jeff, sobrinho de Ronald Frump. Jeff queria botar uma grana no negócio e resolveu dar um jantar no barco recém-comprado de um empresário austríaco. A marina foi fechada pra receber os convivas, as lagostas chegavam vivas, antenadas, as meninas circulavam pelo convés com os canapés.
Lembro que fumava um Cohiba série limitada enquanto ouvia Jeff falar em cifras e mais cifras, contas na Suiça. Foi quando Raymond, produtor da festa, um viadinho descolado que dava lá suas comidas numas gostosas entre um cu e outro, me apresentou uma das moças, Mila. Fiquei completamente enlouquecido. Foi como se a médico ligasse todos aqueles fios no meu cérebro e o gráfico no papel fosse lá em cima, entrasse em colapso. A menina era simplesmente um espetáculo. Tinha a leveza de uma pluma de ganso, textura de nectarina, hai kai da Playboy, o queijo de cabra com vinho branco. Melhor que todas que eu já vi. Era como se Rodin pegasse porra de um grego e misturasse com óvulo de Sueca fértil. Linda. Enquanto as outras tentavam parecer Pamela Anderson, tetas imensas numa praia de Malibu, ela zerava tudo num sorriso.
Carioca, seis anos na América, loira da boca carnuda, sobrancelhas grossas, tinha lido muito mais do que eu. Fez bale clássico, jazz, mexia no excel. Que pernas. Anoitecia quando pedi que minha lancha viesse até o Iate de Jeff. Mila estava embarcando num bote com os outros da cozinha. Ofereci carona. Convidei pra jantar. Mas ela tinha outros compromissos. Pedi seu celular, e pra não ter erro de dela me dar o número errado, na hora agilizei dela ligar no meu iphone pra que a bina desse a certeza que a veria de novo. Desci no pier principal de Coconut Groove pensando nela.
Mila imediatamente foi escalada como minha assessora no Cassino. Comandava um staff de 99 subordinadas, não usava uniforme, tinha horário flexível. Nada burra, logo sacou meu interesse por ela pra se estabelecer. Mas como não é de hoje que conheço as mulheres, ou pelo menos, o ponto fraco da maioria delas, não dei o braço a torcer. Fui logo estabelecendo que o fato dela ter sido escolhida, não significava, em hipótese alguma, que ela teria liberdade total dentro do meu estabelecimento. Ela entendeu o recado. Maravilhoso o show egípcio, Tiaras de cobra naja, biquíni, paetês e purpurina.
Não demorou muito pra acontecer. Saímos algumas vezes, levei-a nos melhores restaurantes, cobri de jóias, até que finalmente, já em alto mar, no Golfo do México, abri o fecho do seu sutiã. Espetáculo. Agora sim fiquei rico de verdade. Foi lavagem cerebral. Desconstruí toda aquela idéia de que mulher é interesseira e puta. Mila me fez enxergar.
Sempre tive minhas paranóias. Quando se instala, me consume. Penso que até gosto de mergulhar na coisa. E toda vez que resolvo uma, outra aparece no lugar. Não tem respiro, o vácuo é sempre preenchido pela próxima angústia da fila.
E se antes eram questões ligadas ao trabalho, ou mesmo em encontrar a mulher certa, agora martelava a aflição com relação a porra do HIV.
Dei minhas vaciladas, claro. Todo mundo dá. Não conheço ninguém que trepe só de camisinha. Todo mundo abre exceção. Aquelas meninas de família cheirosas, gostosas, sempre em dia com o gineco. Na hora você não pensa e passa a rola. Ou até pensa, mas sempre acaba se convencendo de que não vai rolar nada. Só depois se dá por si. Mas aí já é tarde, melou geral.
Quando comecei a namorar Mila, tive o maior cuidado em colocar camisinha. Ela cobrou. Sabia que tinha comido outras sem, não queria correr o risco de se infectar. E verdade seja dita, não tinha total certeza se estava realmente clean e seria mortal pra mim saber que passei algo pra ela. Lembro que fiz o teste um ano atrás, mas de lá pra cá foram muitos os carnavais. E como em todo relacionamento, na quarta ou quinta vez a intimidade anulou qualquer tipo de precaução. Não tinha outra ali comigo, fiquei naquela do só um pouquinho, só la cabecita e continuei sem. Na hora não pensei em nada. Seu filho da puta.
No banheiro, me olhando no espelho, a angústia se multiplicou por dois. Se ela estivesse grávida e eu doente, mataria ela e meu filho. Imaginem como fiquei. Aquilo virou um monstro dentro de mim, consumindo tudo. E o pior, sem que ela soubesse. Claro, Mila estava completamente apaixonada por mim e não lhe passava pela cabeça que eu pudesse ter alguma coisa. Talvez antes, mas agora, no auge da paixão, simplesmente deletou. Então era uma questão minha que não conseguiria dividir nem com ela nem com ninguém. Manobrar sozinho um transatlântico no meio de icebergs, tempestade.
Chegava em casa com uma cara de cu, Mila perguntando o que era, e eu sempre jogava no trabalho, no estresse do Cassino. Ela me dava conselhos, aquele rostinho lindo tentando amenizar minha dor, e cada vez mais eu pensava: “Caralho, eu vou matar a única mulher que amei”. E Mila tinha um fogo no rabo danado. Só queria sem. Vinha pra cima com o maior tesão, chupava, virava, metia, lindinha, carinhosa, tesuda, sem saber da minha angústia.
Toda noite aparecia com uns óleos de massagem, até um pau de borracha, mas aí intervi. Não me venha com esta de matar a preta na caçapa do meio. Giz no taco passo eu.
Quando ela adormecia, ia pro computador. Abria no google pra pesquisar sobre HIV. Os primeiros sintomas: Tosse, manchas no corpo, diarréia. Depois de cagar ficava olhando minha merda, ficava na luz vendo alguma picada de inseto, se era sarcoma ou mesmo picada. Qualquer tosse e…fodeu, to fodido, matei morri fodi. Sou um bosta. Os sacos de cimento foram se acumulando no ombro até que não aguentei mais. Meu sócio me ligava desesperado cobrando trabalho e já não escutava. A maneira como via o mundo era diferente. Morte, urubús, leprosos, imaginava um vale sombrio com aidéticos, eles me recebendo, som de sonâmbulos sem orelha, dedo. Até que não suportei o piano e fiz o teste. Fiz o teste. Disse lá que não era viado, nunca me piquei, só tinha lutado uns Jiu Jitsu sem kimono, galo de briga no cachorro cru.
O resultado sairia no dia seguinte, pela internet.
Nunca em toda minha vida passei por um momento tão difícil como aquele. 24 horas em que tudo pipocou na minha cabeça. A infância, minha mãe, meus brinquedos, Mila. Pra ajudar no resultado do teste, passei a mão no telefone e liguei pra todas, sem excessão, que tinha comido sem camisinha. Comecei pela Núbia, uma loira que me agarrou no carro, transamos no banheiro do Banco de Boston enquanto a gerente buscava meu extrato:
- Alô?
- Núbia?
- Isso.
- Mariano.
- Oooooooi, e aí sumido? Nunca mais me ligou…
- Pois é, viajando muito, trabalho.
- Lí no jornal que vc abriu um cassino.
- É, abri. Las Vegas, aquela loucura.
- E aí…me ligando assim no meio do dia? Alguma coisa?
- Não nada. Só liguei pra ver se você tava bem.
- Tô ótima, namorando, trabalhando.
- Bom…Bom, e de peso, engordou, emagreceu?
- Ha Ha Ha, Mariano, você enlouqueceu? Se eu emagreci…Que que é isso, pesquisa de mercado, do IBGE?
- Não, nada não. Gostava de você gordinha. E seu namorado, é aquele de sardas ainda?
- É sim, o Cássio.
E vem cá, as sardas são pequenas, não crescem? – Ahhh Mariano, depois a gente se fala, tô na correria. Tchau.
Bem, Núbia me pareceu bem, não perdeu peso, está namorando, as chances não são muitas. Se bem que a doença pode não ter se manifestado, ela contaminou o namorado, ela sempre gostou de dar o cu, e anal é tiro e queda pra pegar a coisa.
Vou ligar pra Karem, aquela que eu mandei na mansão do Safra, quando ele viajou e pediu que eu cuidasse da papelada. Foi histórica, dentro do aquário salgado dele, gigante, uma parede, no meio dos peixes palhaços.
- Alô?
- Karem?
- É, quem é?
- Mariano.
- Quem?
- Mariano, da mercedez preta.
- Ah, oi amor, saudade. Uso aquele anel até hoje…
- Você tá bem?
- Tô ótima, voltei da praia semana passada, muito sol, balada…
- Que barulho é esse no fundo?
- Ah, tô no médico, dermatologista.
- Dermatologista?
- É, apareceram umas manchas na minha pele lá na praia, alguns dizem que é fungo, resolvi dar uma olhada.
- Fungos!!! Que tipo de mancha são essas?
- Mariano?! Que que tem a ver? Manchinhas de pele de verão, nada grave, algum problema?
- Não, é que…
- Bom, chegou minha vez, a médica vai me atender, falamos depois, beijos…
- Karem, karem!!!! (desligou)
Caralho, que merda é essa. Só falta essa puta tá bichada e ter me passado alguma coisa. Voltei pro google pra ler sobre manchas mais encanado ainda. A Karem gostava de morder, chupar, pode ter rompido algum vaso, sangrado, só falta…
O negócio foi piorando. Lembrei da Miriam, uma alpimista social que comi no Iate do Eike Batista enquanto ele discutia com a Luma. Limpei na meia calça dela. Liguei pra Miriam, deu caixa. Deixei um recado “Oi Miriam, Mariano, me liga quando puder, beijo”.
Fiquei ali na pesquisa sobre sarcomas, nem vinte minutos meu celular tocou.
- Alô
- Mariano?
- Oi Miriam, pegou meu recado?
- Peguei, tava na rua numa puta chuva, acho que vou pegar uma gripe.
- Gripe? Mas com uma chuvinha só?
- Ah sei lá, tô sempre resfriada, tosse, uma merda, preciso comer mais fruta…
- Estas gripes demoram pra passar? Como é?
- Gripe, gripe, não sabe como é gripe? Dores pelo corpo, nariz escorrendo, é chato. Mas fala, que você quer?
- Então, um primo meu se acidentou e precisa de sangue. Lembrei que fizemos aquele curso de primeiros socorros juntos, que você é O+, achei que você podia doar. Você já fez doação?
- Ai que chato Mariano. Que primo foi, o Armandinho?
- Não não, você não conhece, é um primo distante, meio fodido de grana, sempre me liga pedindo, e agora essa.
- Olha, nunca doei sangue, nunca quis na verdade…
- Nunca? Mas por que? Alguma problema?
- Não não, medo de agulha, sei lá…
- Mas você já fez exame de sangue? Eles usam agulha.
- Ah Fiz pra ver meu colesterol, hormônio…
- Só? Colesterol, nenhum outro exame?
- Mariano? Você me larga, some e agora aparece fazendo este monte de pergunta, qual é meu? Você não é meu pai, cara! (cof cof cof)
- Que tosse é essa, Miriam? Você sente dor no peito?
- AHHHH Mariano, vai se foder, quando me comia não tava nem aí pra mim e agora fica aí se preocupando com a minha saúde, vai a merda…(desliga)
Caralho. Ela estava com cândida logo depois que transamos, me cocei cinco dias, a menstruação tinha acabado, mas tinha sangue ainda, um pouco, mandei sem dó, fodeu fodeu…
Eram onze horas da noite, o exame já estava disponível na internet. Era pegar a senha e abrir. Minha cabeça maquinava numa aceleração absurda, como se todos os caça níqueis, roletas, neons pipocassem no meu hipotálamo. A única chance de sobreviver era abrindo a porra do teste. Do contrário, ficaria maluco e morreria de qualquer jeito. Um medo da morte nefasto.
Digitei os www’s, dei enter. Entrei no site do laboratório já sem sentir as pernas. Minhas mãos formigavam, meu saco murcho doía, boca seca. Vi a primeira página, consultas, contato, localização. Lá estava o link: exames online. Peguei o papel na carteira com os números. Digitei um a um, sempre imaginando o pior, e antes de dar enter, fui até o quarto ver Mila. Tudo bem, sono profundo. Voltei. Era a hora. No tempo de carregar a página, saberia se levava Mila pra cova comigo ou não.
Os cachorros do vizinho latiam, o guarda da rua apitou. Acabei de digitar letras e números, sigilo absoluto, discrição aos clientes, procure uma das unidades mais próximas, a respiração disparou, o cursor do mouse estacionou em cima do ícone “entrar” e ali ficou. Num clique, agora um clique,. Um clique. Levantei, dei uma mijada curta, sentia as costas, o peito comprimido. Olhei pela janela. As estrelas, os prédios, nuvens iluminadas pela cidade. Pensei como a vida é bela…pra quem está vivo. Como gostaria de viver, e que fosse com Mila ao meu lado, não me leve agora, baixe a foice dona morte, volte pra neblina sozinha, não, não agora que encontrei, me dá mais alguns anos, vinte anos com ela, pelo menos.
Sentei, o cursor ainda no “entrar”, coloquei o dedo no mouse, preparado, gatilho, já não escutava os cachorros, roleta russa, não, Não pode ter bala nessa rodada,não,ahhhhhhhhhhjasjjasjajsajsasiedjufbbvwui
hhhhhhhjjqdfjoqwefqwiefwifwfwfkwofkwfkwefkwfefkwekfkwef apertei o mouse e antes que abrisse, minimizei a página. Ela deu loading no rodapé da página, sem abrir. Arrastei o cursor até a janela fechada, ofegante, não tinha mais como fugir, apertei e abriu:
HIV1/HIV2, ANTICORPOS, soro
Métodos: Quimioluminométrico
HIV1/HIV2 - envelope e core recombinantes
RESULTADO VALOR DE REFERêNCIA
NÃO REAGENTE (NEGATIVO) NÃO REAGENTE
Não acreditei. Sentia as pernas, os braços, era como se a guilhotina travasse no meio do caminho, massagear o pescoço, cabeças não rolaram, não fui degolado, nem Mila.
Desliguei o computador. Acendi a luz do banheiro e deixei a porta entreaberta, para poder vê-la, a silhueta, a boca, os olhos fechados de Mila. Senti o calor do seu corpo, um cheiro bom, de coisa viva, eu não a tinha matado. E se o tesão me deixou nos momentos de angústia, agora, voltava em dobro. Mila sentiu meu calor sem desodorante e virou na cama. Um dos peitinhos saltou pra fora da camisola.


