Lúcia não queria casar tão cedo e continuava a morar com os pais. Dizia que a idade boa pra isso é 34, 35 anos. Não menos. As amigas achavam que ela estava maluca. Que nesta idade já se tem filho grandinho na escola. Mas ela se defendia. Dizia que esperaria pelo homem ideal, que seus poucos namorados não deram prova alguma de merecimento do cargo, que ela não entraria, como muitas, no desespero.
Lúcia se achava uma mulher interessante. E, dentro do possível, realmente o era. Mergulhada nas suas convicções, gostava mesmo é de tirar sarro do desespero das amigas. Elas faziam de tudo pelos homens, disputavam às unhadas quem macho passasse na linha de tiro. Lúcia dizia a si mesmo: "Fracas, dependentes, tudo em nome da carência".
Verdade seja dita, Lúcia não se importava muito de ficar sozinha. Tinha lá os seus consolos pra segurar a barra. Guardava seus brinquedinhos de borracha, réplica perfeita do verdadeiro, numa caixa metálica de bombons franceses, toda decorada de carrosséis. Nunca desconfiariam que atrás de alguns livros da estante do quarto, toda manhã, antes mesmo do café, retirava cuidadosamente aquele Grandes Sertões: Veredas pra apanhar sua caixa. Com cuidado, levava até a cabeceira, fechava as cortinas e deixava só a luz do abajur sossegar. Eram 20 minutos de deleite em gemidos contidos. A gaveta do criado-mudo sempre cheia de pilhas duracell e uma lixa de unha que servia pra raspar no aparelho, os contatos sempre oxidados pelas baterias. Então voltava a cochilar mais 1 hora, leve como pluma, antes de finalmente levantar. E que café da manhã. Aquele seu ritual na cama fazia ela esquecer de tudo, de todos e abria seu apetite como se numa longa noite de amor. Gostava de mel, fritava dois ovos.
Bom, o tempo foi passando e Lúcia percebendo que as coisas não mudavam - pelo menos não enquanto ela não mudasse. Sua teoria era de que com o tempo toda sua auto-suficiência serviria de isca pros homens. Que eles sentiriam nela uma aura de integridade, e que ficariam perdidamente apaixonados por aquela sua personalidade forte. E Lúcia freqüentava bares descolados, livrarias tchapitchuras, mas nada de aparecer alguém com uma cantada que fizesse jus ao seu alento. Então voltava pra casa e mergulhava num banho seguido de boa leitura na cama. Lia vinte páginas e não vinha o sono. Então levantava atrás da sua caixa de bombons franceses. Muitas vezes, depois de guardar a caixa atrás dos livros, já saciada, esboçava um choro contido, batia uma aflição que lhe esquentava o corpo, se olhava no espelho, abria a janela, sentia o mundo correr sem ela e muitas vezes culpava a caixa de bombons por tudo aquilo. Noites de insônia.
Lúcia decidiu mudar. Como dizem por aí, fazer uma mudança radical. Pintou cabelo, fez luzes e resolveu se dar um banho de loja. Foi numa daquelas tendas indianas, feiras descoladas de sábado, e comprou uma calça estampada de elefantes. Tecido leve, dessas folgadas na perna, mas que no andar ao vento, deflagram a qualidade e formato do derrière. Apesar de ter os traços fortes, e de não se achar bonita, sabia dos seus potenciais, como toda mulher. As amigas já notavam a diferença e começaram a especular o porquê daquela sensível transformação. Lúcia, antes tão recatada, dos trajes opacos, sem mostrar o corpo, agora trazia um tom sobre tom casual, cores suaves, tudo de muito bom gosto.
Mas justamente por este seu temperamento forte que ela não dava o braço a torcer. Não iria, de forma alguma, flertar descaradamente. No máximo uma olhadela, uma espera pelo interesse, nunca digladiar olhares numa paquera. A calça indiana até que chamava a atenção, mas não era o suficiente pra levar ao bote. Sua calça indiana era roupa de primeira comunhão pros jovens de hoje.
As conversas com as amigas já tinham outro tom. Se antes Lúcia achava o maior besteirol ficar falando de homem, agora ela já estava antenada nas histórias. As solteiras contavam o desempenho dos casinhos; as casadas de como eles engordam. E toda vez que Lúcia voltava pra casa, tirava sua calça indiana, tomava sua ducha e afastava os dois livros atrás da sua caixinha de bombons. Era sua morfina. Ali ela tirava um pouco da culpa por não encontrar, que fosse, um cafajeste qualquer, e alimentava sua procura pelo cara ideal.
Mas o tempo salivava. Sete, oito meses e nada de encontrar o prometido. As amigas a sentiam meio abatida, sempre em casa lendo, sozinha, e acabou por uma delas, Sheila, perguntar a quanto tempo ela não fazia. Lúcia ficou vermelha, pensou mentir, mas acabou por contar que logo mais completaria um ano de estiagem. Pasmaram. Todas ali eram bem resolvidas, uma semana sem já era preocupante, e de repente Lúcia se revela. Sheila, a mais burrinha de todas, pra lá de insensível, falou que aquilo era o mesmo que ficar um ano com prisão de ventre. Ajudou. Kátia, mais esclarecida, disse que ela deveria sair mais, procurar as pessoas, que via um embrutecimento muito grande causado por traumas de paixões antigas e que não iria ajudar em nada ficar daquele jeito; ela tinha de se abrir, estar aberta para novas oportunidades. Lúcia, pra se proteger, manteve o discurso de que trabalhava muito, que não tinha tempo pra namorar, que ela queria crescer profissionalmente e que um relacionamento, agora, iria prejudicar a atenção dada ao lavoro.
Lúcia se achava uma mulher interessante. E, dentro do possível, realmente o era. Mergulhada nas suas convicções, gostava mesmo é de tirar sarro do desespero das amigas. Elas faziam de tudo pelos homens, disputavam às unhadas quem macho passasse na linha de tiro. Lúcia dizia a si mesmo: "Fracas, dependentes, tudo em nome da carência".
Verdade seja dita, Lúcia não se importava muito de ficar sozinha. Tinha lá os seus consolos pra segurar a barra. Guardava seus brinquedinhos de borracha, réplica perfeita do verdadeiro, numa caixa metálica de bombons franceses, toda decorada de carrosséis. Nunca desconfiariam que atrás de alguns livros da estante do quarto, toda manhã, antes mesmo do café, retirava cuidadosamente aquele Grandes Sertões: Veredas pra apanhar sua caixa. Com cuidado, levava até a cabeceira, fechava as cortinas e deixava só a luz do abajur sossegar. Eram 20 minutos de deleite em gemidos contidos. A gaveta do criado-mudo sempre cheia de pilhas duracell e uma lixa de unha que servia pra raspar no aparelho, os contatos sempre oxidados pelas baterias. Então voltava a cochilar mais 1 hora, leve como pluma, antes de finalmente levantar. E que café da manhã. Aquele seu ritual na cama fazia ela esquecer de tudo, de todos e abria seu apetite como se numa longa noite de amor. Gostava de mel, fritava dois ovos.
Bom, o tempo foi passando e Lúcia percebendo que as coisas não mudavam - pelo menos não enquanto ela não mudasse. Sua teoria era de que com o tempo toda sua auto-suficiência serviria de isca pros homens. Que eles sentiriam nela uma aura de integridade, e que ficariam perdidamente apaixonados por aquela sua personalidade forte. E Lúcia freqüentava bares descolados, livrarias tchapitchuras, mas nada de aparecer alguém com uma cantada que fizesse jus ao seu alento. Então voltava pra casa e mergulhava num banho seguido de boa leitura na cama. Lia vinte páginas e não vinha o sono. Então levantava atrás da sua caixa de bombons franceses. Muitas vezes, depois de guardar a caixa atrás dos livros, já saciada, esboçava um choro contido, batia uma aflição que lhe esquentava o corpo, se olhava no espelho, abria a janela, sentia o mundo correr sem ela e muitas vezes culpava a caixa de bombons por tudo aquilo. Noites de insônia.
Lúcia decidiu mudar. Como dizem por aí, fazer uma mudança radical. Pintou cabelo, fez luzes e resolveu se dar um banho de loja. Foi numa daquelas tendas indianas, feiras descoladas de sábado, e comprou uma calça estampada de elefantes. Tecido leve, dessas folgadas na perna, mas que no andar ao vento, deflagram a qualidade e formato do derrière. Apesar de ter os traços fortes, e de não se achar bonita, sabia dos seus potenciais, como toda mulher. As amigas já notavam a diferença e começaram a especular o porquê daquela sensível transformação. Lúcia, antes tão recatada, dos trajes opacos, sem mostrar o corpo, agora trazia um tom sobre tom casual, cores suaves, tudo de muito bom gosto.
Mas justamente por este seu temperamento forte que ela não dava o braço a torcer. Não iria, de forma alguma, flertar descaradamente. No máximo uma olhadela, uma espera pelo interesse, nunca digladiar olhares numa paquera. A calça indiana até que chamava a atenção, mas não era o suficiente pra levar ao bote. Sua calça indiana era roupa de primeira comunhão pros jovens de hoje.
As conversas com as amigas já tinham outro tom. Se antes Lúcia achava o maior besteirol ficar falando de homem, agora ela já estava antenada nas histórias. As solteiras contavam o desempenho dos casinhos; as casadas de como eles engordam. E toda vez que Lúcia voltava pra casa, tirava sua calça indiana, tomava sua ducha e afastava os dois livros atrás da sua caixinha de bombons. Era sua morfina. Ali ela tirava um pouco da culpa por não encontrar, que fosse, um cafajeste qualquer, e alimentava sua procura pelo cara ideal.
Mas o tempo salivava. Sete, oito meses e nada de encontrar o prometido. As amigas a sentiam meio abatida, sempre em casa lendo, sozinha, e acabou por uma delas, Sheila, perguntar a quanto tempo ela não fazia. Lúcia ficou vermelha, pensou mentir, mas acabou por contar que logo mais completaria um ano de estiagem. Pasmaram. Todas ali eram bem resolvidas, uma semana sem já era preocupante, e de repente Lúcia se revela. Sheila, a mais burrinha de todas, pra lá de insensível, falou que aquilo era o mesmo que ficar um ano com prisão de ventre. Ajudou. Kátia, mais esclarecida, disse que ela deveria sair mais, procurar as pessoas, que via um embrutecimento muito grande causado por traumas de paixões antigas e que não iria ajudar em nada ficar daquele jeito; ela tinha de se abrir, estar aberta para novas oportunidades. Lúcia, pra se proteger, manteve o discurso de que trabalhava muito, que não tinha tempo pra namorar, que ela queria crescer profissionalmente e que um relacionamento, agora, iria prejudicar a atenção dada ao lavoro.
Mas os meses iam se passando, e cada vez mais Lúcia era convidada pro cerimonial de alguma amiga. Agora o grande mal era acompanhar um casamento. Antes, a maioria namorava, no máximo morava junto. Mas de um tempo pra cá suas amigas de faculdade, de colégio, vinham casando, uma atrás da outra. Às vezes ela era convocada pra ser madrinha, noutras simplesmente participava da cerimônia. E a cada casamento, a cada benção do padre, a cada dedo na aliança, sentia suas mãos suarem e vinha um medo abissal, algo que tomava sua mente com os dizeres "Vai ficar pra tia, vai ficar pra titia". Lúcia começou a lutar pelos buquês que as amigas lançavam. Chegava a se jogar no chão com as outras desesperadas, e sempre ficava de olho em algum solteirão dando sopa nas festas depois da igreja. Foi numa dessas baladas, em plena pista de dança, que Lúcia cruzou olhares com Raul. Ela já meio bebinha das suas cinco, seis taças de champagne, misturou com vinho branco e já não podia, como antes, conter seus olhares. O desespero por alguém fez do álcool o fim das rédeas. Lúcia agora estava dada ao galope. Raul, do cavanhaque George Michael, sentindo a vulnerabilidade da moça, aproveitou para fitá-la sem descanso. Quando percebeu a constante recíproca, veio como quem não quer nada e puxou logo papo. Frivolidades. Lúcia era só sorrisos. As amigas se cutucavam umas as outras pra não deixar passar em branco o grande acontecimento, talvez até maior que o próprio casamento do dia: Lúcia estava sendo cortejada.
Mas no tempo de falar alguma coisa no ouvido, Raul avançou e tentou um beijo no pescoço, um lance meio precipitado. Lúcia, em meio ao seu longo período de ferrugem, assustou, e pediu que ele se afastasse. Ela então saiu da pista, talvez um pouco raivosa, e Raul veio, às mil desculpas, tentando a pegar pelas mãos - neste momento havia quase meia festa acompanhando o caso.
Já no canto do salão, Raul se declarou. Que ela era linda, que ele não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, mas que era real, era amor e papapapapapá, popopopopopó, toda uma ladainha, famigerado xaveco. Lúcia, ainda que pra completar um ano sem, desdenhou. Disse que ele não fazia seu tipo, que ele tinha cara de cafa, que sabia do seu passado negro quando agarrou duas primas ao mesmo tempo numa festa no Jardim Botânico e que não estava a fim de homem galinha. Raul não esperava que ela soubesse de tanto e ficou sem palavras. Foi o ponto final. Gaguejou, fraquejou e consentiu no silêncio toda a verdade da história. Ela pegou sua bolsa, algumas flores e se foi com o último bonde pra casa.
Raul, desesperado, interrompeu a dança de Sheila com o noivo para pedir o telefone de Lúcia. Anotou num guardanapo.
Manhã seguinte, na ressaca, Lúcia se desesperou. Percebeu que tinha desperdiçado uma chance. Fechava os olhos e via Raul, o roçar daquele cavanhaque. Sentiu novamente aquela sensação ruim de carência, de querer abraçar alguém e num acesso de fúria, ao fim de mais uma sessão com a caixa de bombons, arremessou-a, sem pensar, pela janela. A caixa, ainda no ar, se abriu e foi tampa pra lá, brinquedo pra cá, até que se estatelaram no paralelepípedo da rua. O brinquedo de borracha ainda quicou duas vezes. Fez-se aquela roda de gente. Lúcia, ainda ofegante, fechou a janela e agachou quietinha, para que ninguém a visse, nem de onde tinha voado todo aquele aparato. Neste instante tocou o telefone. Lúcia disse a si mesmo que não atenderia, continuou agachada. O telefone insistiu, insistiu, até que alguém atendeu da sala. Logo ela escutou sua mãe na porta do quarto, era um moço na linha. Ainda agachada, engatinhando para fugir da janela, puxou do gancho. Era Raul. Lúcia o tratou com toda a delicadeza desse mundo.
Mas no tempo de falar alguma coisa no ouvido, Raul avançou e tentou um beijo no pescoço, um lance meio precipitado. Lúcia, em meio ao seu longo período de ferrugem, assustou, e pediu que ele se afastasse. Ela então saiu da pista, talvez um pouco raivosa, e Raul veio, às mil desculpas, tentando a pegar pelas mãos - neste momento havia quase meia festa acompanhando o caso.
Já no canto do salão, Raul se declarou. Que ela era linda, que ele não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, mas que era real, era amor e papapapapapá, popopopopopó, toda uma ladainha, famigerado xaveco. Lúcia, ainda que pra completar um ano sem, desdenhou. Disse que ele não fazia seu tipo, que ele tinha cara de cafa, que sabia do seu passado negro quando agarrou duas primas ao mesmo tempo numa festa no Jardim Botânico e que não estava a fim de homem galinha. Raul não esperava que ela soubesse de tanto e ficou sem palavras. Foi o ponto final. Gaguejou, fraquejou e consentiu no silêncio toda a verdade da história. Ela pegou sua bolsa, algumas flores e se foi com o último bonde pra casa.
Raul, desesperado, interrompeu a dança de Sheila com o noivo para pedir o telefone de Lúcia. Anotou num guardanapo.
Manhã seguinte, na ressaca, Lúcia se desesperou. Percebeu que tinha desperdiçado uma chance. Fechava os olhos e via Raul, o roçar daquele cavanhaque. Sentiu novamente aquela sensação ruim de carência, de querer abraçar alguém e num acesso de fúria, ao fim de mais uma sessão com a caixa de bombons, arremessou-a, sem pensar, pela janela. A caixa, ainda no ar, se abriu e foi tampa pra lá, brinquedo pra cá, até que se estatelaram no paralelepípedo da rua. O brinquedo de borracha ainda quicou duas vezes. Fez-se aquela roda de gente. Lúcia, ainda ofegante, fechou a janela e agachou quietinha, para que ninguém a visse, nem de onde tinha voado todo aquele aparato. Neste instante tocou o telefone. Lúcia disse a si mesmo que não atenderia, continuou agachada. O telefone insistiu, insistiu, até que alguém atendeu da sala. Logo ela escutou sua mãe na porta do quarto, era um moço na linha. Ainda agachada, engatinhando para fugir da janela, puxou do gancho. Era Raul. Lúcia o tratou com toda a delicadeza desse mundo.
