terça-feira, 18 de novembro de 2008

Menino do Rio

Leandro. O típico garoto classe média de Ipanema dos anos 1990. Forjado a danoninho e televisão a cabo pelos pais numa incessante preocupação de emplacar o filho como um adulto capaz de se estabelecer dentro dos interesses da elite carioca, o garoto tem uma infância e adolescência provida de todo conforto. Frequenta a melhor escola da zona sul, surfa no arpoador em dia de semana, fuma baseado nas pedras no tempo de cabular a aula de inglês, garimpa com os amigos cheirosas na danceteria, se embebeda de férias e viagens ao exterior pagas pelos pais. Da grana fácil na mão para um cinema, restaurante, o carro do pai, tanque cheio, sempre, Leandro fica cada vez mais distante de uma noção de luta pela sobrevivência. O quarto dele, refrigerado pelo consul 10.000 btus, é forrado de fotos da galera na praia, na cachoeira, pôr do sol alucinante, na praça de alimentação do shopping, na Disney show de fogos abraçado ao Mickey e Pateta, os adesivos de marca na janela, roupas de grife no armário, dobradas cuidadosamente, coleção de miniaturas de carro na estante, entre os gibis, Playboys e Fluir, da pasta de dente Crest e perfume francês no banheiro, gameboy, os oito pares de nike e pumas, a carteira da Oskley, os Cds de rock fácil, Leandro vive a redoma e não enxerga um palmo fora da bolha que lhe foi dada e cuidadosamente soprada para flutuar assim. Uma visão esteotipada e elitista conforta e assegura seus interesses, o que exclui qualquer possibilidade de entrada de estranhos, pretos e mulatos aos serviços de alto padrão do gueto.
Leandro cresceu, virou um garotão bonito que gosta de academia, do açaí no fim do dia, da corrente prata no pulso direito, da sua tatuagem de albatroz no dorso. Tudo como manda o figurino.
Mas o mundo dá voltas e surpreende a todo instante, sem distinção de raça, classe, cor, credo. Quebra regras, dilascera paradigmas, fode esquemas. No exato instante em que Leandro termina o terceiro colegial, que se prepara folgado pra curtir um ano de praia antes de optar por uma carreira, seu pai, Luís, investidor da bolsa de valores e dono de uma revenda de automóveis, aparece em casa com péssimas notícias. As ações com a crise viraram pó e as vendas de carro zero não cobrem os custos com pessoal e peças. O pai quebrou e com medo de abalar a o ego da família sustentou a mentira até o limite, queimando as reservas para manter o patamar de vida. Foi a centelha da bala na agulha. A realidade conseguiu sua brecha e inoculou a redoma de desgraça. Leandro muito rapidamente percebe que toda aquela segurança se espatifou como um vaso de porcelana no espelho de casa, tudo rachou, inclusive sua imagem de mundo, das pessoas.
Os planos de passar um ano com os pés para o ar são definitivamente suspensos. Leandro entra no desespero de procurar um emprego que lhe garanta um pacote mínimo de conforto compatível com seu antigo status quo. Resolve prestar concurso público, na busca por um emprego seguro. Sabe da dificuldade da prova e resolve estudar como nunca. Ele tem a seu favor o medo do abismo. A possibilidade de fracassar e viver uma vida contada, sem todo o anteparo que sorvia na adolescência, é a força motor que o impulsiona a sentar doze horas por dia decorando leis e cláusulas. Não adianta alguém chamar para uma praia ou aquele chope no boteco. Leandro só levanta ao final do dia para ir `a academia, onde malha, puxa o supino em séries de 15 com força, numa tentativa de anular a dor das perdas com peitos e braços marombados.
Em meio `as tentativas da família de colar os cacos, Leandro faz a prova e passa. Vira auditor fiscal do Ministério do Trabalho. O grande orgulho da família. Apesar do bom salário ele, que nunca teve que ajudar ninguém, pelo contrário, só recebeu, passa a colaborar com as despesas da casa, quantia que morde bonito seu olerite. Mas o pacote é maior. A manobra do titanic fica cada vez mais difícil. A namorada que antes só exigia o sorvete, o sushi, agora cobra um noivado, a possibilidade de casar, encarar um aluguel, filhos. Leandro não aguenta a pressão da noiva, que beira os trinta anos e está louca por um filho. A verdade é que ele não sabe muito bem se é a mulher certa, principalmente porque ela foi a primeira, o grande amor, e agora com uma autonomia de grana, sua vontade é curtir, conhecer outras mulheres, antes de decidir se ela realmente é a tal.
O trabalho no Ministério é tranquilo. Leandro não bate ponto, trabalha por pontuação, pelo número de empresas visitadas e autuadas num mês. Logo vem a rotina, o marasmo, a falta de motivação. Época de questinamentos, se ele não deveria ter aceito a oferta do amigo para ser corretor de imóveis de luxo no Leblon e São Conrado, ganhando mais, fazendo o que gosta. Agora é tarde.
Surge a possibilidade de entrar numa viagem do grupo móvel do Ministério do Trabalho. Consiste numa equipe de auditores, que junto com um procurador do ministério público sob a escolta da Polícia federal, dá flagrante em fazendas com trabalho escravo. Para Leandro aquilo soa aventura, mais do que qualquer outra coisa. Um misto de Armação Ilimitada com Robin Hood, a chance de sair daquele marasmo das visitas nas empresas da baixada fluminense. Ele aceita e se candidata a voluntário.
A primeira viagem é para Mato Grosso, onde as usinas de cana, em época de queima, recrutam hordas de famintos pelo nordeste e norte do país prometendo trabalho. Os trabalhadores chegam ao campo através do gato, homem que um dia já foi cortador de cana e subiu na vida. Ele faz o transporte dos homens, contrata e supervisiona o trabalho, sem que o fazendeiro arque com as responsabilidades pelas condições dos cortadores. Chega uma denúncia anônima ao Ministério de que em algumas usinas, o trabalho é degradante, e as condições de segurança, precárias. Leandro é chamado. Lá se vai o garoto de praia mergulhar no abismo social, cego como um cachorro com glaucoma.