Realmente não entendo quando os jornais dizem que o governo vai ajudar a indústria automobilística a sair do sufoco injetando bilhões. É mais ou menos com dizer: "O verão deste ano vai bater os 40 graus no Rio, e o governo continua injetando milhões na indústria de lã, incentivando o carioca a usar cachecol na praia". A meu ver a questão não é salvar uma Fiat, uma Volks. A questão é entender que o carro, para o fim que foi dado, pelo menos nas grandes metrópoles, não cumpre mais o seu papel. Se a função é deslocar-se pra lá e pra cá numa velocidade incrivelmente maior a que alcançamos andando, já era, porque na hora do rush, é bem possível que a pé, você chegue antes em casa. Como continuar a incentivar uma indústria que já saturou? Que não faz mais sentido? Seis milhões de veículos em São Paulo. Parou! Travou! Colapso! Por que não usar toda esta grana para pensar numa maneira gradativa de remanejar os trabalhadores do setor? Usar todo este aço em metrô, plataformas, a borracha do pneu no asfalto. Achar com urgência alternativas para o transporte público? Colocar na cabeça que a era do automóvel, da maneira como se dá, acabou. Simplesmente porque o planeta não comporta mais. Bom, mas e o status? Que todo mundo quer ter o seu carrinho para tirar uma chinfra isto é fato. Mas acredito que mesmo o tempo tratará de enferrujar o desejo de se ter um. Basta olhar, numa avenida como a Av. Rebouças, na hora do rush, a cara de banana dos motoristas enquanto avançam 2,3 km por hora. Alguns fumam, falam ao celular, coçam o saco, mas a maioria encosta o braço na janela e olha pro teto, com cara de cu, pagando 60 parcelas de R$ 600,00 + impostos para ficar parado. Bela compra! Quitou seu apartamento?
Por mais que injetem grana, uma hora a população percebe que a coisa degringolou e precisa de mudança. Por mais preciso que os comerciais sejam na sua lavagem cerebral. Claro. Se a Globo fizer uma campanha nacional de uso de cachecol no verão, vai ter carioca achando lindo aquela coisa de lã enrolada no pescoço para entrar no mar de Ipanema. Caetano pode até fazer outra versão de Menino do rio. Mas logo todo mundo tira e troca pela canga, boné, fio dental. O mesmo acontece com o carro. Ele vai começar a ficar na garagem, as bicicletas vão sair, e ninguém mais vai querer ficar no frenesi de trocar por um zero KM todo ano. Já pensou se trocássemos o status do carro pelo culto ao corpo saudável. Que as mulheres olhassem não para um carrão, mas para o cara bem dormido, boa postura, bebendo seu suco de acerola no parque, sorriso lago, bicicleta ao lado. Grande mudança de paradigma. Não aconteceu com o cigarro? Fumar não era chique? A questão é como mudar. Milhões de trabalhadores do setor vão se foder? Vão. Talvez se eu fosse um deles não estaria escrevendo este texto. Mas o que adianta alguém dizer: Caminhe até o precipício e pule, eu pago suas contas até você chegar lá. Mais ou menos o que acontece com os metalúrgicos do ABC. Eles querem seus postos a qualquer preço, mas produzindo cachecol para o verão carioca.
Sustentabilidade com responsabilidade socioambiental. Etanol. Dar de beber a uma frota com sede. Parada com o motor ligado. O que adianta foder com a Amazônia, avançar a fronteira agrícola produzindo biocombustível para fazer lã no verão. A gente só tira o cachecol quando o frio aperta. Use a mesma lógica na sua garagem.
A indústria de automóveis parace um grande ditador que perde a guerra. Manda as tropas avançarem até o último homem, e quando tudo está perdido, mete um balaço na cabeça.

1 comentário:
palavrão usado na hora certa fica até chique. Adorei seu texto. Tem que ser assim, pra expurgar a raiva que dá de ter um governo tão ganancioso!
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