sexta-feira, 4 de abril de 2008

David Hockney

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Te Transformei em Lasagna















Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon pudesse ser sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. 

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um CD do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos; artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete peludo dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Em outras palavras: aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Mas na vida nem tudo acontece como gostaríamos. O céu pode estar azul, sem nuvens e a hora que você resolve pegar um bote e remar mar afora, uma frente fria aparece. O cinza sabota o azul, o vento gelado sopra com força, o bote pode virar, um cardume de tubarões aparece. Foi o que aconteceu. Achei que tivesse mais peso na relação, que fosse o mais amado…Estava enganado. Raquel acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia bem, muito bem: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato dela articular um raciocínio; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho, minhas escolhas. Eu era um bife de fígado mal passado, desses de boteco da Dutra, cebolas boiando na gordura. 

Verdade seja dita, nos quatro anos de namoro ela me viu avançar pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro CD que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Isso pra ela era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachú e fazer pão caseiro com linhaça. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou como elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que efetivamente não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando me viu largar um trampo numa produtora de som, que apareci em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou… 

No fundo no fundo eu tinha uma puta admiração por Raquel. Mulher corajosa. Fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem seu escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas. Eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira. Ela sempre reclama que eu compro coisas de segunda: macarrão, nescau, miojo, bolacha trackinas, enquanto ela forra a dispensa com mostarda Dijon, carpaccio, mussarela de búfala. Se eu ainda comesse o miojo, vá lá, mas adoro mostarda Dijon, sou capaz de traçar meio frasco na colher. Fora a sujeira, a bagunça. Raquel é metódica, dessas que organiza as calcinhas por cores, que é capaz de pensar em suspender a assinatura do jornal por cinco dias quando viajamos. Coisas que não passam pela minha cabeça. Minha estrutura é outra. Pra mim, casa arrumada é casa desabitada. Gosto de uma zona pra que todos vejam que ali mora alguém. Arrumação é coisa de showroom de apartamento em Moema.

Bom, fato é que minha lasagna virou tsunami. Naquela manhã, quando se sentiu rejeitada, Raquel me atravessou como furamos uma onda grande no mar de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, o cardume de atuns aproveitando a corrente, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força no banco de areia. Só que a onda, muitas vezes, pode te tragar e você embola durante minutos na espuma, sem saber pra que lado fica a superfície. Ela sabia das minhas limitações, mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, uma raiva que já vinha num crescente se transformou em desprezo inexorável. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído. Dali por diante virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançado ao ar, num despenhadeiro. O solo de calcário adubado com meus restos mortais. Quem sabe cresça um pé de couve.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o teto do carro preto refletindo os postes no meio do trânsito, o menino no sinal colocando balas no retrovisor, até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas caiam e me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia, punhal cada vez mais fundo, me obrigou a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. Ahhhhhh, sensação de alívio. Olhei pro copo, me servi, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão bem dadas, logo ela voltaria, o bambú com sino da porta a balançar, a chave do carro jogada na mesa e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou em caviar beluga, sereia, canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, prometo que vai ser diferente. Prometo.


Dez da noite. Completamente bêbado. Agora de cinco em cinco minutos deixava um recado no celular dela. Não atendia. Tocava por trinta segundos e caixa. Conseguia imaginar ela com o celular na mão piscando meu nome e voltar pra bolsa. 

Quando a angústia ultrapassou o limite do efeito vodka, quase apagado, resolvi sair pra procurá-la. Coloquei um gorro, cachecol, meias sem par. O frio era insuportável, talvez o noite mais fria do ano. O vento, a cada esquina, me cumprimentava com navalhas geladas, tirava o celular do bolso tentando falar e nada, caixa. Aquilo foi me deixando profundamente emputecido. Ela sabia, pela insistência, do meu estado e mesmo assim fazia o joguinho sujo. Com certeza ela queria que minha angústia chegasse num nível tal, que nunca mais eu aprontasse uma daquelas. Queria anular qualquer indício de lasagna dos meus devaneios na base do trauma, e o pior é que estava conseguindo. 

Andei duas horas a esmo por bares, ruas que ela costuma frequentar. Se via um cabelo parecido batia nas costas. Com o frio e as ladeiras do bairro, a bebedeira foi passando e recobrei a consciência. Sentia dores nas pernas, no baço, parecia que dez sacas de cimento pesavam no meu ombro. - Egoísta! Raquel é egoísta! Ao invés de se abrir comigo sobre o que a irritava, foi se fechando com o tempo, sem diálogo, sem deixar que eu participasse de suas angústias. Eu sempre disse tudo, deixei claro quem era, o que pensava, minhas ambições. Caralho! Como ela quer eu eu entenda suas coisas sem falar! Aí resolvi dar o troco. Apareci na casa da mãe dela, que sempre me adorou. Dona Elvira assistia o filme Beleza Americana quando toquei a campainha. Ela deu pausa na parte que Lester Burnham pede demissão, minha preferida. No instante que foi a cozinha fazer um café, passei a mão no telefone e dei o drible da vaca em Raquel. Não demorou muito pra ela ver no bina e atender, achando que fosse a mãe. Esperei que repetisse algumas vezes - Mãe! Mãe! É você? - Saboreando aquela voz rouca, sedoza, até me identificar. Não acreditou. Inventou uma desculpa pífia, que estava sem sinal, coisa que o valha, e que precisava de um tempo pra pensar na gente. Dona Elvira chegou com o café e me viu ali, na janela, o fio do telefone esticado no máximo, um olhar triste, baba branca no canto da boca. 

Acordei no dia seguinte sem saber onde estava. O cuco de Dona Elvira saltou pra fora do relógio, sete da manhã. Uma manta de crochê cobria meus pés, um travesseiro com fronha do Hello Kitty, talvez de Raquel pequenina, protegia meu pescoço. Dona Elvira não estava. Coloquei tudo no lugar, peguei uma fatia do bolo e fui. 

Cheguei em casa já preparado pro pior: O vazio. A garrafa de vodka, a tv ligada, a cozinha imunda. Mas quando entrei no banheiro e vi a calcinha amarela dela no boxe, suas revistas de design, os cotonetes da maquiagem, os pentelhos no sabonete., minha intuição, não sei por que, me disse que ela ia voltar. Ela vai voltar. Aquilo me alegrou sobremaneira. A possibilidade de ver, ter Raquel de novo, com outros olhos. Como se toda a paixão, estrangulada pelo convívio excessivo, tivesse se renovado com a briga da noite anterior.

Abri a geladeira. Meia cebola na parte dos ovos, limão espremido, garrafa d’água, vazio, vazio, lasagna de uma semana. Puxei o papel laminado pra ver o estado, o presunto já ressecado nas pontas, uma gelatina de gordura imobilzava a carne moída. Argh! A ressaca tinha baixado e a fome apertava. Apanhei aquela travessa da geladeira e conversei com ela por alguns segundos até decidir virar tudo no lixo. Esquecer do passado, a noite das angústia me urubuzando. Agora eu queria outra lasagna, fresca, saborosa, gorda de presunto e queijo, quentinha, borbulhando, escorregadia, como aquelas que fazíamos juntos, apaixonados, tomando vinho, fumando uma ponta, dançando colado sentindo um o calor do outro. 

Fui até a sala ligar o som e dei play no ipod de Raquel, sem saber exatamente em que música estava. De repente…Smooooooth Operatoor !!! Sade, faixa 3, Smooth Operator, a preferida de Raquel. Sem pensar nos vizinhos, no síndico, ou na esquizofrênica do terceiro andar, coloquei no máximo e Smooooooth Operatoor !!! Rodopiei na sala direção cozinha e comecei a preparar. Ingredientes do armário, forno, fogo alto, a lasagna borbulhava o queijo, a carne desprendia seu suco, logo ela gemeu anunciando o ponto. Coloquei um pedaço farto no prato. Sentei.. Um cheiro maravilhoso, meus olhos lacrimejavam, flashes da noite passada se dissolviam nas garfadas quente, a angústia desaparecia mais e mais. 

Neste exato instante escuto a porta, o bambú balançar, a chave na mesa. Dei mais uma colherada de olhos fechados, saboreando o som da sua bota no piso de madeira, o rasgar das correspondências inúteis…Era ela. Raquel. Sobrancelhas grossas, cabelo preso num coque, bata indiana meio aberta, sem sutiã, saboneteiras belas seja numa luz de farmácia seja `a luz de velas, unhas pintadas de vermelho tomate. A mulher mais linda do mundo. 

Limpando a boca na manga da camisa, atravessei a sala, a garrafa de vodka, a TV ligada no mute, e abracei Raquel com força. Algo valioso nos braços, a jóia perdida e recuperada; terra firme depois da tempestade em alto mar. Arrastei a barba por fazer no seu rosto de pêssego até encontrar a boca. Lábios macios, cheiro de tangerina, via os olhos desfocados, o medo e prazer de uma nova entrega. Minha mão correu bunda, peitos, costas pra sentir em braile que era realmente verdade, estava tudo ali, inteira pra mim, a barriguinha lisa, nectarina, a respiração indocile com o passeio chacal dos meus dedos famintos até que sua mão no caminho encontrou a minha, beijei, beijei, ela me olhando, entre um beijo e outro, se certificando da volta da paixão. Cabelo cheiroso, suguei seu pescoço como um neném faminto, caminhamos esbarrando nas coisas da sala, até o quarto, a cama. Smooooooth Operatoor !!!