sexta-feira, 18 de julho de 2008

Volta ao Divã

Pensando esta noite: Ontem, depois de quase dois anos longe do divã, voltei a deitar olhando pro teto. Ela perguntou: E ai? Conte-me. E enquanto pensava o que e como, fiquei me perguntando qual a importância de uma psicanalista na sua vida, sua vida, sua e não dela. Será que posso encontrar uma solução pros meus problemas? Será que ela não passa de uma cartomante de luxo equipada com formação acadêmica mestrado-doutorado, duas línguas fluentes, bagagem cultural das viagens piegas pela Europa, pratos degustados, casamentos colapsados pelo desgaste inexorável do tempo em convívio, e acaba assim, como qualquer mortal que com o passar do tempo acaba mesmo entendendo seus semelhantes? Porque não sou exatamente o tipo do cara que guarda muito segredo. Costumo fazer uma faxina sempre que dá, gosto de conversar com mãe, pai, amigos sobre minhas questões internas, até como forma de dreno. Então, penso, será mesmo que preciso gastar esta grana pra ficar deitado contando as coisas que poderia contar num bar, em casa, na praia, detalhe, de graça? Devo realmente levar em consideração as coisas que minha analista diz simplesmente por ela ser quem é? Não estou sujeito a uma análise susceptível ao que ela acredita e construiu pra si? Que a transferência paciente - profissional esteja maculada pelas suas idiossincrasias, seus traumas, carência? Bom, só me resta tentar, vou continuar indo nas sessões de teto e olhar perdido nas lembranças, afinal, falar deixa a gente mais leve.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Escrever - Parte 2

A pessoa que escreve entra numa egotrip sem precedentes. Ela no fundo se acha do caralho por saber como e onde colocar as palavras certas na orquestração de um raciocínio. Ela tem que dizer algo para os simples mortais que vivem sem sentir, ou pelo menos sem maneiras de transmitir estes sentimentos. Sou um enviado! Pensa o escritor no alto do seu castelo de cimento e ego prenssado. A prova disso é que quando postamos um texto no blog, o grande lance, o tesão da coisa é esperar pelos comments ou pelo número de acessos no dia. De onde vem esta necessidade de passar pela aprovação dos outros? Claro, sem os outros, que valor teria escrever para o nada? O grande lance é biscoitar o consciente alheio com as palavras certas e aí, aos poucos, montar seu exército de seguidores. A maneira que encontrei de buscar isso foi, levando em consideração os arquétipos, escrever da mesma forma que converso com uma pessoa que tenho muito intimidade. Com ela, você já furou todos os bloqueios, recalques, máscaras, e a conversa ventila por onde quiser, o que gera grande prazer. Com a literatura dá pra fazer o mesmo. Se você escreve como se estivesse contando a história para a pessoa com quem tem abertura total, o texto sai redondo, sem os rococós linguísticos, e acaba atingindo a todos. 

terça-feira, 15 de julho de 2008

Fragmentos na Relva

O sono foi batendo nos outros. Aos poucos as pessoas iam se retirando num boa noite de sandália arrastando e ficavam os que bebiam. Marta estava deitada numa rede, virada para uma mesa onde eu e outros conversavam. Ela se mexia na rede para apanhar o copo no chão, e virava o que tinha de vinho. Para disfarçar, eu esperava que o copo dos outros estivesse baixo e aí me levantava para servi-los, passando de copo em copo até chegar na rede, em Marta e colocar mais vinho do que os outros ganharam. Que filho-da-puta!
Corajoso de álcool, me subiu o sangue. Deixei a cadeira e puxei um banquinho pro lado da rede. Bem perto dela. Conversa vem, conversa vai, invariavelmente tirava uma risada gostosa, e servia vinho.
Quando fui ver, éramos só os dois. Sim, porque o álcool também a mim fez efeito. Não reparei muito em quem saiu e foi dormir, tinha coisas mais importantes pra reparar, entre outras, por que não, coxas maravilhosas se mexendo naquela rede, coxas que acabavam num vestido, num vestido que eu tinha lá minhas dúvidas se tinha uma calcinha por baixo. E a esta altura sentia que não tinha mais volta. Era questão de tempo. Era questão de saber dosar vinho e bom papo. Ficou fácil, bom papo eu vinha lhe contando da viagem ao Amapá, ela como antropóloga queria ouvir tudo detadalhamente, ainda mais quando eu contava dos costumes dos índios lá das riba de cima. Não posso dizer o mesmo do vinho, não era um vinho muito bom, bom era o efeito que ele dava, e bastava.
Dada altura passei a abstrair o que ela dizia, passei a manter uma conversa de manutenção intercaladas por encheções de copo. A abstração era a necessidade de pensar comigo mesmo como daria o bote. Poderia ali mesmo me aproximar da rede, falar baixinho pra não acordar os que dormiam no quarto ao lado, mas não via como, não batia a coragem, tinha medo de espantá-la, dela me achar precipitado, estar indo rápido demais e não queria, Ah não queria, que aquela noite terminasse no zero a zero. Teria de ser tão bem feito quanto foi até aqui. Não posso fazer tudo direito e cagar na saída. 
Então perguntei, já bem próximo do seu rosto, olho no olho, se ela tinha um baseado. Claro, ela tinha bastante fumo. Fomos andando até a pista de pouso. 
Na escuridão completa, ouvia os morcegos. Parecem rir. Atrás de nós, uma mata fechada, sons que não conheço, não distingo, mas sinto que caracterizam mato fechado, distância da civilização. E por um momento deixei de pensar nela, no bote, pra ouvir tudo aquilo. Mas foi só a primeira tentativa do isqueiro raiar de amarelo nossa cara pra eu voltar. Na terceira tentativa fez-se a luz, uma chama acendeu o baseado e voltamos a escuridão acompanhados somente daquele vagalume de brasa. Eu até que esperaria ela tragar, me passar, tragar, passar, conversar um pouco, mas deu, tinha dado, eu não conseguia passar mais um instante sem beijar aquela boca. E foi ela passar o cigarrinho pra mim, estender o braço, pra que eu a puxasse. Mal ela soltou a fumaça da prensada eu já colava minha boca grande e seca de tanto vinho naquela boquinha macia, que cabia inteira na minha.
Veio o beijo. E com o beijo, mão boba. Mas a mão boba não teve boa aceitação, era muita pretensão minha achar que com um beijo podia ir de encontro à seiva. Então beijei, beijei de um jeito que achava que ela pudesse gostar, passando dos lábios para o pescoço, para os lóbulos da orelha esquerda, puxada de leve no cabelo; outra mão na bunda, por cima da calça.

Pude ouvir, além dos bichos no mato e dos morcegos rindo, uma respiração diferente, ofegante, um corpo que aos poucos cedia.

Mas se até aqui a presa era Marta, muito rapidamente houve uma inversão de papéis. Como se soubesse da minha fraqueza maior – talvez seja a de todos os homens -, me deu as costas e me massageou com a bunda, dando um rosto para beijo ao mesmo tempo. Era o início do meu fim.