segunda-feira, 17 de março de 2008

Aqueles Peitos - primeiro tratamento

















     Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon fosse sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. Ração com cenoura, cabeça de galinha e mamão, muito mamão.

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um cd do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos, artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete me dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Aconteceu diferente. Achei que eu tivesse mais peso na balança, que fosse o mais amado, estava enganado. Ela acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia a razão: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato que ela articula um raciocínio, almeja as coisas; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho. Era uma trufa de recheio fungado esquecida na cristaleira. Nos quatro anos de namoro eu tinha avançado pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro cd que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Pra ela isso era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachu e fazer pão caseiro. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou com elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando ela me viu largar um trampo numa produtora de som, que eu cheguei em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou…

Mas verdade seja dita: tinha uma puta admiração por Raquel. Ela fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu imendar uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem um escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas, eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira.

Naquele olhar ela me atravessou como furamos uma onda grande de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força. Ela sabia das minhas limitações mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Mas quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, ela introjetou uma raiva que já vinha num processo e transformou em desprezo inexorável. Dali por diante eu virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançou ao ar, num despenhadeiro.
Foi um baque. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o carro preto no meio do trânsito até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas iam caindo e eu me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia era tanta que fui abrigado a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. E veio uma sensação de alívio. A angústia agora parecia um dente ciso anestesiado que empurrava os outros. Olhei pro copo, me servi de outra, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão doloridas, logo ela voltaria, o sino da porta a balançar, e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou numa sereia, um canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, eu prometo que vai ser diferente.