quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Texto de Cesar Benjamin sobre o colapso financeiro.


O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas

AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

2 comentários:

Andre /michiles disse...

Imprecionante como uma teoria formulada no século XIX ainda está vigente em pleno século XXI.
Nada mais natural que no capitalismo financeiro a crise de superprodução seja de crédito. Mas como o próprio Marx já havia dito no século XIX, as crises no capitalismo são estruturais e o capitalismo passa a entrar em um periodo ascendente após um de recessão. Porém, ao mesmo tempo, a crise é o momento onde uma ruptura é possível, as codições objetivas estão postas, o problema está nas condições subjetivas relativas a consciência e organização das pessoas. Não podemos pensar como querem por ai na midia monopolista que o pior já passou. Se a crise é justamente relativa a falta de recursos das classes mais pobres para pagar seus financiamentos, então a concentração de capitais que estamos assistindo, um banco comprando o outro, apenas irá agravar ainda mais a crise a longo prazo, ou seja, se o problema está justamente na questão de que, se por um lado, se produzem cada vez mais casas ou crédito e etc, por outro, as pessoas cada vez mais pobres podem até ter crédito, mas se individam a tal ponto que torna-se impossível pagar, portanto não possuem meios reias de compra, então quanto mais se concentrar o capital nas mãos de um punhado de bancos mais se agravará sua força motriz, a falta de capitais na base popular, tornando a crise ainda mais explosiva no futuro. Dialéticamente o rémedio para a crise a curto prazo, será o seu veneno catalisador a longo prazo.
Estamos vendo as condições objetivas postas na mesa do jogo, precisamos agora é entender de que forma podemos usar isso a nosso favor, acredito que ninguém em sã consciência, a não ser que seja um filha da puta, seja a favor da desigualdade social e das injustiças centrais ao consolidação do sistema capiatalista: Roubo - Violencia - Mentira.
Como dizia Marx após refletir sobre essas considerações:
Proletário do mundo uni-vos!!!

Anónimo disse...

zuzo bem...mas impressionou-me sobre maneira ver impressionante com c.