terça-feira, 29 de julho de 2008

Scan Disk














foto acervo  João Pavese


Crise?  Não, nada a ver com ela. A idade bate na porta e pede mais, muito mais do que tenho ou tive até agora. O breque de mão puxado não me leva a lugar nenhum. Pelo contrário, roda em falso na lama. Não bastasse, uma névoa preenche o vale ensolarado. Primeiro vai o sol, o frio aumenta, tudo fica cinza. Quanto tempo dura a névoa? O tempo que precisar. Depende das correntes, coisas boas que leve a uruca pra longe. Quero lua cheia. Freud? Fixação em que fase? Poderia ser mais fácil, as coisas poderiam se encaixar com mais naturalidade, sem tanta minúcia. Paciência, acontece assim. O tempo passa e cada vez mais o scan disk fareja minhas neuroses. Preciso, até os quarenta, entender o funcionamento da máquina, suas engrenagens, ciente, câmera ângulo oposto, em quadro aquele que fui, sou, flashes de espelhos e fotos do passado, serei.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O sol na vela da jangada

Ele não via a hora de voltar pro sul da Bahia. Esteve por lá com seus pais, viagem família, meados da década de 90. Agora seria diferente. Sozinho, o que ele queria é pisar numa areia fina, tomar suas cervejas beliscando um peixe frito, um banho de mar naquelas piscinas naturais de pedras cheias de alga verde limão, ver as sombras crescerem deitado numa rede de varanda, escutar os coqueiros se pegarem. E quanto mais tempo em São Paulo, mas salivava por uma praia. Seu desespero foi perceber o tempo que perdemos nas grandes cidades. Enquanto o sol se põe na vela da jangada, as marés sobem, a lua de cheia mingua, você perde tendo de sobreviver num aglomerado de 16 milhões de outros seres, um querendo ser melhor que o outro em alguma coisa, custe o que custar. 
Ele até que digeria a tal da dialética, vendo a coisa de um outro ângulo. Talvez aquele que mais conforte os paulistas: O negócio é trabalhar, juntar uma bela grana numa aplicação segura de renda fixa, e aí sim, conhecer todos estes lugares maravilhosos com classe. Se não fosse na selvageria da megalópole, não se teria esta chance. Você estaria servindo caipirinha ou tocando maracas na tal praia paradisíaca e não aguentaria mais olhar pra aquele mar em dia de semana nublado, louco por um feriado abarrotado de turistas que pudessem gerar um trocado a mais. Muito bem, por este lado, existem lá sua vantagens. Você cosmopolita, cheio da grana depois de trabalhar trinta anos numa rotina de trânsito, bebedeiras, filhos, pensões alimentícias, talvez lhe reste uma carcaça, e aí, por que não, largá-la a beira mar. 
Mas ele tinha a clara impressão de que não aguentaria esperar por este dia.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Volta ao Divã

Pensando esta noite: Ontem, depois de quase dois anos longe do divã, voltei a deitar olhando pro teto. Ela perguntou: E ai? Conte-me. E enquanto pensava o que e como, fiquei me perguntando qual a importância de uma psicanalista na sua vida, sua vida, sua e não dela. Será que posso encontrar uma solução pros meus problemas? Será que ela não passa de uma cartomante de luxo equipada com formação acadêmica mestrado-doutorado, duas línguas fluentes, bagagem cultural das viagens piegas pela Europa, pratos degustados, casamentos colapsados pelo desgaste inexorável do tempo em convívio, e acaba assim, como qualquer mortal que com o passar do tempo acaba mesmo entendendo seus semelhantes? Porque não sou exatamente o tipo do cara que guarda muito segredo. Costumo fazer uma faxina sempre que dá, gosto de conversar com mãe, pai, amigos sobre minhas questões internas, até como forma de dreno. Então, penso, será mesmo que preciso gastar esta grana pra ficar deitado contando as coisas que poderia contar num bar, em casa, na praia, detalhe, de graça? Devo realmente levar em consideração as coisas que minha analista diz simplesmente por ela ser quem é? Não estou sujeito a uma análise susceptível ao que ela acredita e construiu pra si? Que a transferência paciente - profissional esteja maculada pelas suas idiossincrasias, seus traumas, carência? Bom, só me resta tentar, vou continuar indo nas sessões de teto e olhar perdido nas lembranças, afinal, falar deixa a gente mais leve.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Escrever - Parte 2

A pessoa que escreve entra numa egotrip sem precedentes. Ela no fundo se acha do caralho por saber como e onde colocar as palavras certas na orquestração de um raciocínio. Ela tem que dizer algo para os simples mortais que vivem sem sentir, ou pelo menos sem maneiras de transmitir estes sentimentos. Sou um enviado! Pensa o escritor no alto do seu castelo de cimento e ego prenssado. A prova disso é que quando postamos um texto no blog, o grande lance, o tesão da coisa é esperar pelos comments ou pelo número de acessos no dia. De onde vem esta necessidade de passar pela aprovação dos outros? Claro, sem os outros, que valor teria escrever para o nada? O grande lance é biscoitar o consciente alheio com as palavras certas e aí, aos poucos, montar seu exército de seguidores. A maneira que encontrei de buscar isso foi, levando em consideração os arquétipos, escrever da mesma forma que converso com uma pessoa que tenho muito intimidade. Com ela, você já furou todos os bloqueios, recalques, máscaras, e a conversa ventila por onde quiser, o que gera grande prazer. Com a literatura dá pra fazer o mesmo. Se você escreve como se estivesse contando a história para a pessoa com quem tem abertura total, o texto sai redondo, sem os rococós linguísticos, e acaba atingindo a todos. 

terça-feira, 15 de julho de 2008

Fragmentos na Relva

O sono foi batendo nos outros. Aos poucos as pessoas iam se retirando num boa noite de sandália arrastando e ficavam os que bebiam. Marta estava deitada numa rede, virada para uma mesa onde eu e outros conversavam. Ela se mexia na rede para apanhar o copo no chão, e virava o que tinha de vinho. Para disfarçar, eu esperava que o copo dos outros estivesse baixo e aí me levantava para servi-los, passando de copo em copo até chegar na rede, em Marta e colocar mais vinho do que os outros ganharam. Que filho-da-puta!
Corajoso de álcool, me subiu o sangue. Deixei a cadeira e puxei um banquinho pro lado da rede. Bem perto dela. Conversa vem, conversa vai, invariavelmente tirava uma risada gostosa, e servia vinho.
Quando fui ver, éramos só os dois. Sim, porque o álcool também a mim fez efeito. Não reparei muito em quem saiu e foi dormir, tinha coisas mais importantes pra reparar, entre outras, por que não, coxas maravilhosas se mexendo naquela rede, coxas que acabavam num vestido, num vestido que eu tinha lá minhas dúvidas se tinha uma calcinha por baixo. E a esta altura sentia que não tinha mais volta. Era questão de tempo. Era questão de saber dosar vinho e bom papo. Ficou fácil, bom papo eu vinha lhe contando da viagem ao Amapá, ela como antropóloga queria ouvir tudo detadalhamente, ainda mais quando eu contava dos costumes dos índios lá das riba de cima. Não posso dizer o mesmo do vinho, não era um vinho muito bom, bom era o efeito que ele dava, e bastava.
Dada altura passei a abstrair o que ela dizia, passei a manter uma conversa de manutenção intercaladas por encheções de copo. A abstração era a necessidade de pensar comigo mesmo como daria o bote. Poderia ali mesmo me aproximar da rede, falar baixinho pra não acordar os que dormiam no quarto ao lado, mas não via como, não batia a coragem, tinha medo de espantá-la, dela me achar precipitado, estar indo rápido demais e não queria, Ah não queria, que aquela noite terminasse no zero a zero. Teria de ser tão bem feito quanto foi até aqui. Não posso fazer tudo direito e cagar na saída. 
Então perguntei, já bem próximo do seu rosto, olho no olho, se ela tinha um baseado. Claro, ela tinha bastante fumo. Fomos andando até a pista de pouso. 
Na escuridão completa, ouvia os morcegos. Parecem rir. Atrás de nós, uma mata fechada, sons que não conheço, não distingo, mas sinto que caracterizam mato fechado, distância da civilização. E por um momento deixei de pensar nela, no bote, pra ouvir tudo aquilo. Mas foi só a primeira tentativa do isqueiro raiar de amarelo nossa cara pra eu voltar. Na terceira tentativa fez-se a luz, uma chama acendeu o baseado e voltamos a escuridão acompanhados somente daquele vagalume de brasa. Eu até que esperaria ela tragar, me passar, tragar, passar, conversar um pouco, mas deu, tinha dado, eu não conseguia passar mais um instante sem beijar aquela boca. E foi ela passar o cigarrinho pra mim, estender o braço, pra que eu a puxasse. Mal ela soltou a fumaça da prensada eu já colava minha boca grande e seca de tanto vinho naquela boquinha macia, que cabia inteira na minha.
Veio o beijo. E com o beijo, mão boba. Mas a mão boba não teve boa aceitação, era muita pretensão minha achar que com um beijo podia ir de encontro à seiva. Então beijei, beijei de um jeito que achava que ela pudesse gostar, passando dos lábios para o pescoço, para os lóbulos da orelha esquerda, puxada de leve no cabelo; outra mão na bunda, por cima da calça.

Pude ouvir, além dos bichos no mato e dos morcegos rindo, uma respiração diferente, ofegante, um corpo que aos poucos cedia.

Mas se até aqui a presa era Marta, muito rapidamente houve uma inversão de papéis. Como se soubesse da minha fraqueza maior – talvez seja a de todos os homens -, me deu as costas e me massageou com a bunda, dando um rosto para beijo ao mesmo tempo. Era o início do meu fim.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Escrever

Gosto das pessoas que escrevem sem filtro. É muito difícil. Geralmente a pessoa escreve pensando num autor adorado ou numa fórmula que esconda sua verdadeira faceta, e aí sai uma merda. Quando se escreve colocando o que realmente é necessário, a coisa anda, pq a pessoa precisa colocar aqui pra que os outros leiam. Geralmente uma frustração, ou um ganho, perda, que seja, mas é autêntico, e as pessoas sentem e percebem o valor. Não adianta ler mil romances e acreditar na validez do conhecimento sem ter alguma coisa pra dizer. Pq aí vc faz um risoto bem bolado daquilo que leu e gera uma fórmula pronta pra um texto bem acabado. Não rola. Quem escreve ou tem sede por literatura quer ter vazão por sentimento carne crua, coisas que acrescentem, não que mostre eficácia literária. E eu gosto das pessoas que tenham coragem disso. Que pare, ache tempo, sente a bunda e escreva coisas que catapultem seus leitores pra frente, pra alguma coisa que eles não tenham. É muito difícil. E dá prazer quando é bem feito e surte efeito. Goza autor, goza.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Veneno na Brisa

















Escolhi o restaurante abate. Era lá que costumava levar as outras moças na minha época de famigerado filho da puta. Aquele pra levar a cocota, refogar umas abobrinhas no papear e créu, ferro na boneca. 
A entrada toda luz de velas, mesas aconchegantes, pratos leves, boa bebida. Como dizem por aí: só gente bonita. Fui logo pedindo duas caipirinhas; bebericamos num balcão de espera, tudo lotado. 
Assim que conseguimos sentar, eu já estava na terceira dose e com muita vontade de beijar Valentina. O azul dos seus olhos levemente âmbar pela luz das velas, cabelo displicentemente amarrado como se sozinha em casa tomando café, lendo jornal de calcinha e meia. Linda. Achava que viria a coragem, que as palavras certas derreteriam na sua boca, mas que nada, veio um silencioso desespero - pânico, nada para falar, para fazê-la sorrir. Não era assim tão fácil como foi com as outras. Apaixonado. Só me restava ir ao Toillete. Tem aqueles dias em que você vai ao banheiro e se acha bonito no espelho. Assume uma nova postura levando em conta a descoberta que lhe devolve a auto-estima.
No banheiro, mijando, torci o pescoço pro espelho. Queria dar a cara a tapa. Lavei o rosto, a boca e percebi uma leve paralisia facial. Não estava bonito como previa. Eis então que surgiu do nada, no meio de uma névoa de ópio e cocaína, um Freud anão vestido de mulher gato, com microfone Madonna, chicote na mão, chibatando meu consciente. Na conversa que tivemos, Freud fez questão de deixar claro que muitos pontos da minha relação passada ainda não haviam cicatrizados. Se houve uma seqüela silenciosa da última paixão, era um forte medo de amar. Significava estar susceptível ao sofrer, queria distância. Tudo me levava a crer que o caminho com Valentina seria a paixão. E eu poderia passar por qualquer situação, difícil alguma tragédia atravessar meu couro de elefante, mas Valentina conseguiu, não via por onde escapar. Não! Não! Eu sou o negro 32 cm que afasta fruteira sem as mãos. Não posso! No hay más tiempo, hombre! Todo esta cerrado Ela esta lá, caralho! Sozinha na mesa fumando seu Marlboro Light, sorvendo da caipira...Tesuda”. Então, fazendo caras e bocas, tentei aprumar meu reflexo de mosca morta, tirei um tatu com pêlos do nariz, simulei como seria o bote, escondi os primeiros cabelos brancos por detrás dos negros, dei risada, e disse a mim mesmo que seria agora, era voltar pra mesa, dar dois, três goles do drink e partir pra cima, sem perhaps. Ajeitei o Freud nas costas, cuspi na pia e deixei espelho.