O sono foi batendo nos outros. Aos poucos as pessoas iam se retirando num boa noite de sandália arrastando e ficavam os que bebiam. Marta estava deitada numa rede, virada para uma mesa onde eu e outros conversavam. Ela se mexia na rede para apanhar o copo no chão, e virava o que tinha de vinho. Para disfarçar, eu esperava que o copo dos outros estivesse baixo e aí me levantava para servi-los, passando de copo em copo até chegar na rede, em Marta e colocar mais vinho do que os outros ganharam. Que filho-da-puta!
Corajoso de álcool, me subiu o sangue. Deixei a cadeira e puxei um banquinho pro lado da rede. Bem perto dela. Conversa vem, conversa vai, invariavelmente tirava uma risada gostosa, e servia vinho.
Quando fui ver, éramos só os dois. Sim, porque o álcool também a mim fez efeito. Não reparei muito em quem saiu e foi dormir, tinha coisas mais importantes pra reparar, entre outras, por que não, coxas maravilhosas se mexendo naquela rede, coxas que acabavam num vestido, num vestido que eu tinha lá minhas dúvidas se tinha uma calcinha por baixo. E a esta altura sentia que não tinha mais volta. Era questão de tempo. Era questão de saber dosar vinho e bom papo. Ficou fácil, bom papo eu vinha lhe contando da viagem ao Amapá, ela como antropóloga queria ouvir tudo detadalhamente, ainda mais quando eu contava dos costumes dos índios lá das riba de cima. Não posso dizer o mesmo do vinho, não era um vinho muito bom, bom era o efeito que ele dava, e bastava.
Dada altura passei a abstrair o que ela dizia, passei a manter uma conversa de manutenção intercaladas por encheções de copo. A abstração era a necessidade de pensar comigo mesmo como daria o bote. Poderia ali mesmo me aproximar da rede, falar baixinho pra não acordar os que dormiam no quarto ao lado, mas não via como, não batia a coragem, tinha medo de espantá-la, dela me achar precipitado, estar indo rápido demais e não queria, Ah não queria, que aquela noite terminasse no zero a zero. Teria de ser tão bem feito quanto foi até aqui. Não posso fazer tudo direito e cagar na saída.
Então perguntei, já bem próximo do seu rosto, olho no olho, se ela tinha um baseado. Claro, ela tinha bastante fumo. Fomos andando até a pista de pouso.
Na escuridão completa, ouvia os morcegos. Parecem rir. Atrás de nós, uma mata fechada, sons que não conheço, não distingo, mas sinto que caracterizam mato fechado, distância da civilização. E por um momento deixei de pensar nela, no bote, pra ouvir tudo aquilo. Mas foi só a primeira tentativa do isqueiro raiar de amarelo nossa cara pra eu voltar. Na terceira tentativa fez-se a luz, uma chama acendeu o baseado e voltamos a escuridão acompanhados somente daquele vagalume de brasa. Eu até que esperaria ela tragar, me passar, tragar, passar, conversar um pouco, mas deu, tinha dado, eu não conseguia passar mais um instante sem beijar aquela boca. E foi ela passar o cigarrinho pra mim, estender o braço, pra que eu a puxasse. Mal ela soltou a fumaça da prensada eu já colava minha boca grande e seca de tanto vinho naquela boquinha macia, que cabia inteira na minha.
Veio o beijo. E com o beijo, mão boba. Mas a mão boba não teve boa aceitação, era muita pretensão minha achar que com um beijo podia ir de encontro à seiva. Então beijei, beijei de um jeito que achava que ela pudesse gostar, passando dos lábios para o pescoço, para os lóbulos da orelha esquerda, puxada de leve no cabelo; outra mão na bunda, por cima da calça.
Pude ouvir, além dos bichos no mato e dos morcegos rindo, uma respiração diferente, ofegante, um corpo que aos poucos cedia.
Mas se até aqui a presa era Marta, muito rapidamente houve uma inversão de papéis. Como se soubesse da minha fraqueza maior – talvez seja a de todos os homens -, me deu as costas e me massageou com a bunda, dando um rosto para beijo ao mesmo tempo. Era o início do meu fim.

1 comentário:
Boa João!
Incontestável, eu diria.
ler este post seu, hoje, valeu mt mais do que pensar, conversar ou tentar entender certas coisas que acontecem nas nossas vidas!
Adorei!
p.s. e, nessa sua viagem do "como deve-se escrever ou não", existe também a chance, como aconteceu agora e em outras leituras, de vc mesmo de longe, se aproximar muito da vida de quem te lê! eu gosto disso!
bjo
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