quarta-feira, 25 de junho de 2008

Veneno na Brisa

















Escolhi o restaurante abate. Era lá que costumava levar as outras moças na minha época de famigerado filho da puta. Aquele pra levar a cocota, refogar umas abobrinhas no papear e créu, ferro na boneca. 
A entrada toda luz de velas, mesas aconchegantes, pratos leves, boa bebida. Como dizem por aí: só gente bonita. Fui logo pedindo duas caipirinhas; bebericamos num balcão de espera, tudo lotado. 
Assim que conseguimos sentar, eu já estava na terceira dose e com muita vontade de beijar Valentina. O azul dos seus olhos levemente âmbar pela luz das velas, cabelo displicentemente amarrado como se sozinha em casa tomando café, lendo jornal de calcinha e meia. Linda. Achava que viria a coragem, que as palavras certas derreteriam na sua boca, mas que nada, veio um silencioso desespero - pânico, nada para falar, para fazê-la sorrir. Não era assim tão fácil como foi com as outras. Apaixonado. Só me restava ir ao Toillete. Tem aqueles dias em que você vai ao banheiro e se acha bonito no espelho. Assume uma nova postura levando em conta a descoberta que lhe devolve a auto-estima.
No banheiro, mijando, torci o pescoço pro espelho. Queria dar a cara a tapa. Lavei o rosto, a boca e percebi uma leve paralisia facial. Não estava bonito como previa. Eis então que surgiu do nada, no meio de uma névoa de ópio e cocaína, um Freud anão vestido de mulher gato, com microfone Madonna, chicote na mão, chibatando meu consciente. Na conversa que tivemos, Freud fez questão de deixar claro que muitos pontos da minha relação passada ainda não haviam cicatrizados. Se houve uma seqüela silenciosa da última paixão, era um forte medo de amar. Significava estar susceptível ao sofrer, queria distância. Tudo me levava a crer que o caminho com Valentina seria a paixão. E eu poderia passar por qualquer situação, difícil alguma tragédia atravessar meu couro de elefante, mas Valentina conseguiu, não via por onde escapar. Não! Não! Eu sou o negro 32 cm que afasta fruteira sem as mãos. Não posso! No hay más tiempo, hombre! Todo esta cerrado Ela esta lá, caralho! Sozinha na mesa fumando seu Marlboro Light, sorvendo da caipira...Tesuda”. Então, fazendo caras e bocas, tentei aprumar meu reflexo de mosca morta, tirei um tatu com pêlos do nariz, simulei como seria o bote, escondi os primeiros cabelos brancos por detrás dos negros, dei risada, e disse a mim mesmo que seria agora, era voltar pra mesa, dar dois, três goles do drink e partir pra cima, sem perhaps. Ajeitei o Freud nas costas, cuspi na pia e deixei espelho.

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