
Milão, Inverno, 9 p.m.
Nuvens nas cores da cidade, lambretas passam, casacos pendurados, calefação.
Valentina e Juan conversam no bar. Reflexos dentro e fora se confundem no vidro onde os dois estão sentados.
Valentina se olha por entre os reflexos, a luz das velas permite que ela se veja entre faróis, garçons, cigarros, asfalto molhado. Por mais descolada que seja, ela tem aquela sensação de brasileiro, do glamour de se estar na Europa.
Depois de tomar um negroni cada, comer brusquetas e salada de beringela, os dois começam a se estranhar. Isto porque nunca se entenderam tão bem como naquele dia. Já eram amigos, mas naquela noite, em especial, El Deseo passou a bailar com os dois e romper as barreiras do simplesmente amigos. O acordo tácito fora pras picas. Valentina vinha de um período de estiagem braba, seu último namorado, que ficou no Brasil, ela não via há oito meses. Claro, lembrava dele, mas os telefonemas eram cada vez mais raros, e pela voz, ele já estava noutras. Pra compensar, Valentina foi ao sex shop e comprou um Rabbit com três variações de vibração. Não sossegou.
Já Juan tinha lá seus casos, nenhum duradouro. One Night Stand. Gozou vira pizza. Se alimentar dessa forma não mata a fome da carência, muito pelo contrário, dia seguinte vinha uma vontade aguda de abraçar e pegar um cinema.
Pois bem, os dois em condições adversas agora no bar mastigavam as barreiras impostas nos dois anos de amizade. Quando um se distraía, o outro aproveitava pra olhar e desejar. Mas os negronis na cabeça faziam perder o timing do disfarce, e um começou a ganhar as olhadelas do outro. Até que ficou proposital. Vieram os sorrisos. Pediram a conta.
Caminhando pela rua, um frio de rachar, Juan se adiantou em passos largos, deixando Valentina pra trás. Ela reclamou:
-Juan? Grande cavalheiro o senhor! Não tá vendo que eu ando mais devagar, dá pra me esperar?
-Tem razão, só quero chegar logo...
- Vai ter que esperar, anda aqui comigo e do lado da rua, os cavalheiros devem defender as damas...
-Sim Senhora.
A casa que Valentina mora em Milão tem quase 1000m2. Quando Juan entra não acredita no que vê. Cinco siameses, uma fonte de pedra sabão e a piscina, que atravessa o jardim invade a sala quase até encostar no piano de cauda. Valentina tira as botas:
- Juan, moro aqui com um velho que me aluga uma parte da casa. A múmia é ranzinza e não deixa trazer homem aqui, ele proibiu. Corre e se esconde no banheiro do meu quarto.
Juan caminha de tênis. No chão de mármore o solado de borracha assobia.
No quarto uma cama de viúvo, branca com detalhes dourados. O chão de madeira velha, range a cada passo. Um aquecedor à gás mancha o papel de parede com o calor. uma TV 20 polegadas passa RAI, novela. No banheiro da suíte sabonetes de gansos, conchas, toalhas bordadas. O espelho de cristal, 2X2 metros, quebrado numa das pontas.
Juan espera ansioso por Valentina. Não sabe se o velho encasquetou, se o viu, se ela está a negociar com ele. Juan, ainda no banheiro, fareja duas calçolas penduradas no boxe. Observa o forro da calcinha, onde o rosbife de valentina encosta, e no meio do cheiro de sabão consegue detectar, com seu faro de coiote, alguma essência salmon, eau du salmon.
Valentina chega de sopetão e o pega no banheiro. Ele de costas, com a calçola na mão, se vira pra falar com ela, aproveita pra deixar a calcinha cair no chão, dentro da banheira. Ela não percebe.
Valentina diz que a barra está limpa, o velho já foi dormir, sono pesado, se quiser poderiam abrir um vinho. Valentina tira o casaco, um sobretudo de pele artificial. O traje é de patricinha da Hípica Paulista atrás de um Klabin. A calça jeans, ainda que não perceba, molda os grandes lábios com perfeição. A bunda perfeitamente definida pelas costuras. Ela sabe, foram anos se olhando no espelho, torcendo o quadril ou perguntando pras amigas qual daquelas calças fica mais enfiadinha com a possibilidade de ativar o córtex dos machos. E ativou. Juan, macho que é, negroni na cabeça, sentiu uma fisgada no saco, no testículo esquerdo, como se o cérebro mandasse a mensagem: Hora de produzir porra!!! Vamos lá putada, ao trabalho, duas colheres de maizena, duas de açucar mascavo, creme de leite!!
Valentina deita na cama e desabotoa a calça que lhe marca a barriga. Finge ver a Rai, aquela programação mal feita que só italiano tem a manha. Juan não tem onde sentar, ou senta no chão, ou ao lado dela, na cama. Vence a segunda opção, ainda mais com aquela rabeta empinada. Valentina nota a escolha de Juan e puxa assunto:
- E aí, você não vai pro seu Hotel? Tá tarde já...
- Não conheço direito Milão, fica longe daqui, né?
- Fica, esta hora é difícil achar um ônibus, acho melhor você dormir aqui.
- Pode ser, vou pensar...
- Vou colocar meu pijama...
Valentina se levanta e vai até o banheiro. O tesão de Juan é tamanho que o simples levantar de Valentina é suficiente
pra que ele sinta no ar um cheiro apetitoso de fêmea. Uma mistura de cheiro de alcool com perfume de freeshop, atum com tangerina.
Ele desliga a TV e fecha os olhos, abre e olha pro teto, fecha e vê uma bunda, a de Valentina. Se concentra nos barulhos que ela faz lá de dentro. Primeiro uma escovação de dente, barulho de sabonete líquido na mão e no rosto, um silêncio de 5 segundos, xixi, isso, assobio de xixi, a descarga, e a ducha higiênica em ação, lavando as jóias da família.
A porta se abre.
Juan observa. O pijama tem estampas com o mapa da Europa. A Grécia está na bunda, a Rússia nos peitos. Dois países que Juan tem muito interesse em conhecer...Aquela noite.
Valentina apaga as luzes e deixa um pequeno abajur no chão, luz 30 watts. Entra nas cobertas, posição fetal. Juan, sem saber por onde começar, deita de bruços. Valentina espera trinta segundos, alguma reação de Juan e, temendo que ele durma, puxa assunto:
- Juan...
-Oi.
- Sei lá, eu tava pensando... Qu você acha dessa história de amigos que acaba rolando uma coisa, amizade colorida?
- Acho que se tiver que acontecer, tem que rolar...
Valentina respira fundo e volta a posição fetal.
Juan, ainda que um pouco ingênuo percebe a deixa de Valentina. Amizade colorida...Hummm
Então ele se vira, na mesma posição que ela, mas sem encostar. A Grécia na bunda agora maior. A ponta da Rússia, a luz amarela. Juan tem medo, medo de quebrar a amizade, de romper as barreiras, mas seu coração dispara, ele não tem como voltar atrás, seria muito ruim estancar a vontade. Juan estaciona a mão na cintura de Valentina.
Ainda que Valentina contiunue na mesma posição, Juan sente a respiração dela acelerar. Carros passam na rua de pedra, ele deixa de escutar, mas logo volta o silêncio do quarto, a respiração dela. Só pra constatar ele sobe a mão na altura da das costelas de Valentina, e aí comprova o movimento. Valentina se vira, olhos semiserrados, boca aberta e seca, a jugular saltada. Juan assusta, tempos que não via uma fêmea tão no ponto sem que ele ao menos a tenha tocado. E a cada toque, por cima do pijama, ela solta um suspiro, misto de susto e tesão, sensibilidade total ao toque, e vem o beijo.
Valentina vem por cima, a cama range junto com o chão, a novela nba Rai, o bafo de negroni, e na cabeça dos dois, a mistureba, amizade e o que que está rolando...ta rolando, e pra ganhar distância da sensação amigos o beijo se torna mais intenso, os dois querem mergulhar, fugir da brisa da realidade, que as vezes bate, mais o beijo apaga, o beijo fecha a venesiana, até que toda a carne se entregue ao desejo, El DESEO.
Juan sente que pode e passa a mão por dentro do pijama, na altura da bunda dela. Carne macia, gelada nas bordas, quente medida que se aproxima do centro, e mais quente, mais e mais, até que umidece os dedos. Mordidas no pescoço, respiração, farra de boca dos mamilos, pressão das mãos, pêlos, um cobertor no chão. Valentina houve passos, por um instante se aquieta, administrando a respiração ofegante. Pode ser o velho...Mas logo vem o silêncio, ela solta a respiração e vem pra cima, pros lábios dele nela, mão, boca ocupa boca língua dente égua, úmido, cabelo , Córtex by córtex, e prepara a montaria.
Juan vira Valentina de bruços, afasta as pernas dela, passa a mão pra achar o caminho. Questão de segundos e ela sente uma injeção de agulha grossa lhe separando as entranhas. Ao invés da dor, um prazer que vem pela coluna até a nuca, onde Juan beija e morde. A amizade foi pras picas, literalmente. O velho com certeza houve tudo.
Manhã de chuva, ruas molhadas. Juan acorda grudado na amiga. Toma um susto. Não imagina como possa ser a primeira conversa, o primeiro olhar. Mas ela suspira e se vira, sorrindo. Ele a beija, bafão.
Depois de um café rápido, Juan se despede com um beijo no canto da boca, o clima pesa.
Juan pega suas coisas no Hotel e segue pra estação de Trem. Compra um ticket pra Paris. Vê um orelhão, pessoas ao celular, mas não telefona.
No trem pensa em valentina, triste ser assim, não ligar, não se despedir. Mas a possibilidade de encarar a real o faz seguir pra longe, sem rastros...ainda que faça mal.
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comercializado por via marítima no mundo. A rota ganhou ainda mais
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Há 58 minutos

1 comentário:
há jonny!!!! mto bom este texto, eu ri mto de suas lorotas incríveis e absurdamente extravagantes!!!! ADOREI!!!
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