terça-feira, 25 de setembro de 2007

Parque dos Coqueiros km 07












Ar Condicionado me lembra a Bahia.
Não estes modernos, silenciosos,
aquele marrom, barulhento, que vibra a la geladeira.

Andar descalço pelo condomínio do meu tio,
ruas de terra e cascalho moído,
cajueiros, pássaros pretos, eu de short e fitinha do bonfim no braço.

Andava descalço pra imitar meu primo.
O status era ter o fundo do pé duro, um cascão.
E eu queria ter um daqueles.

A noite, antes de dormir, checava meu cascão
pra ver se, até o fim do verão,
conseguiria ter um pé como o do meu primo Maurício.

No condomínio, as casas eram muito chiques.
Piscinas e jardins bem cuidados. Nada de muro.
Lembro da casa do Ari.
Um Atari na sala. Jogava PacMan e River raid.

De noite, quando a temperatura caía pros 28 graus,
ainda descalço, de banho tomado,
brincava de polícia e ladrão.
Lembro que fiquei atrás de um muro perto de um poste,
o barulho do transformador e minha respiração de ramister asmático,
não conseguia controlar a respiração depois de uma corrida.
Segurava ao máximo
A polícia podia estar por perto.

Lembro das minhas primas.
Na hora do banho.
o box mais baixo que o nível do banheiro.
Via a xoxota pelada,
aquele olho de japa na vertical
e já achava interessante.
O design triangular, de alguma forma
cutucava meu cerebelo nos seus gens 95% chipanzé.
Minhas irmãs tinham, minha mãe também,
mas os pêlos cegavam o olho de japa dela.

Andava descalço direção do rio Joanes.
Rio com mangue
caminho no silêncio
piso onde dói pra ver se o cascão engrossa mais.
Posso ouvir entre as folhagens os lagartos rastejando.
Como chamam por lá: os calangos

Chego no rio
Espumas de mangue flutuam e caminham devagar com o fluxo.
um ou outro peixe respira,
a brisa bate.

Maurício chegava e dizia: João, bora andá pela bera do rio pra pegá siri?
Bora - eu dizia.
E lá íamos pela beira do Joanes, com água pela canela, água turva, atrás de siri e ganhamum.

Maurício não sentia as pedras e ostras que eu topava pelo caminho,
Eu sempre acabava o passeio com alguma lasca a menos do pé.
Maurício ria e dizia: Paulista bunda mole...

A piscina da casa do meu tio tinha um deck em volta
o deck contornava um coqueiro.
Gostava de entrar pelado, 9 da noite, com a luz da piscina ligada.
aquele azulão claro, meus pés lá embaixo, o pinto balançando.

Tinha um pouco de medo nessa hora.
Meu tio matou duas cascavéis ali.
Tanto é que na parte funda, perto do filtro, tem um remendo de durepox.
Maurício disse que foi da bala.
Meu tio matou as cobras na bala, com um 38.

Mas a verdade é que a água e a noite eram tão boas, que eu não conseguia sair mesmo com medo.
Nessa hora podia escutar o barulho do ar condicionado de cada quarto.

Depois de um mês voltava pra SP.
Varig
Na identificação dizia: Mr. Pavese, desacomp. 7 anos
Meu amigo...Cada aeromoça...me abraçavam,
fofinho pra cá, e eu sentindo o peitão no uniforme azul...
Queimado, com pé cascão e camiseta hering listrada de marinheiro,
pedia pra ir na cabine.
Sempre deixavam.

Em casa, achava tudo estranho.
Frio, sem coqueiros, pão pinheirense, blusa de lã.
Meu irmão com aquele pé de bebê.
comparava o meu com o dele e dizia: paulista bunda mole...

Não gostava da volta.
Sentia muita saudade da brisa, do rio, do ar condicionado.
Sempre senti. Continuo sentindo.

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