terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Amor na Cama de Outro

A viagem fora marcada com antecedência. Mariano, completamente apaixonado por Isabela, não imaginava outra pessoa no mundo ao seu lado e queria fazer tudo por ela, pelos dois. Achou que caixa de bombom, flores, jantar, além de clichê, seria pouco, nada.
Entrou no site da agência de viagens, pipocou um banner no canto esquerdo da tela: “Itacaré, pousada pé na areia, imperdível”. Deu o número do cartão. 12x sem juros, sete noites com translado e café da manhã. Finalizou a compra feliz da vida, olhando as fotos do site. Imaginou os dois naquele quarto cheiro madeira de lei com limão siciliano, ventilador de teto no médio, mosquiteiro amarelo claro com um ou outro mosquito morto preso, cortina de algoodão cru na brisa fresca da maré baixa com lua cheia, cervejas, dois chokitos no frigobar; Isabela nua, já marcada do biquíni, morenaça cor do pecado, depilada na virilha, gramado serrado no meio, salgada de suor e sal marinho, a calcinha preferida do catálogo, branca transparente na frente, cavada no fundo com lacinho no cóxix, óleo de amêndoa já no final, um bloco de notas, divagações inacabadas, a revista Piauí respingada no chão do banheiro, o xampú de chá verde no box.
Meses se passaram e Mariano nem se lembrava mais da viagem. Deletou. Só se tocou quando chegou o extrato do cartão: “Cumshottravels 11/12 – R$ 328,00”. Era a penúltima parcela.
Acontece que de lá pra cá muita coisa mudou. Muita. Quando Mariano comprou o pacote, os dois viviam o tal do momento em que todo o resto não existe. Em que tudo é sugado pelo buraco negro, até Stephen Hawking, e a massa deixa a matéria. A paixão no auge da forma, fim de semana fechados no quarto, o lençol amarrotado, mancha de suor, secreção, sangue, óleos, pêlos, um travesseiro em cima do outro, pacotes de camisinha abertos no dente, saindo de lá só quando a fome aperta, pra comer peito de perú com geléia de laranja, mel, damasco, uma golada de suco, castanha do pará. O telefone fora do gancho, celular no silence, velas derretidas pela garrafa de vinho argentino, abridor com a rolha última da noite e os amigos cobrando a amizade momentaneamente esquecida, sabendo que nada segura a trepação, que por um bom tempo, o amigo antes presente nas baladas, no chope de sexta, vai passar longe, trabalhando o abdomen, secando na madeira virando os olhos, até que a vontade de explodir supere o suposto limite da força, da oxigenação.
Mas tudo mudou ao longo do tempo. A inexorável passagem. Um ano de convívio fez cair por terra boa parte das idealizações e os punhados de arroz não eram mais jogados ao alto nem a noite tinha mais aquele cheiro fresco nem a Av. Rebouças no rush funcionava pro beijo faminto a cada engasgada do trânsito. Por mais que se gostassem, dormir e acordar na mesma cama, acostumar-se com o corpo do outro, decifrar as fraquezas nos momentos de angústia, um egoísmo que aflora com a intimidade, parecia mesmo que desafetos brindavam o fim, que o lado negativo pesava mais na balança. Mariano percebera que a relação, da forma como se estabelece de início, não se sustenta`a longo prazo, por mais que se queira. Não existia mais aquela fome ancestral de virar um só, e as outras mulheres, antes só bonitinhas, lhe pareciam cada vez mais interessantes. Muito deste seu interesse – pensava ele - vinha do seu ganho de repertório ao longo do namoro, o mestrado e doutorado adquiridos na intimidade do casal. Como se ele descobrisse as mulheres ao decifrar os códigos da sua, e encontrasse a beleza de cada uma no olhar, no cheiro, na essência.
Mas quando Mariano pensava num fim, batia o pavor. Por um lado ele sabia que naquele momento, não poderia corresponder `as expectativas de Isabela. Um filho? Não dava. Não agora. A grana ainda era pouca, cobria com alguma folga as contas, mas nada que desse pra bancar a criança da maneira merecida. Pra vir ao mundo passar perrengue, melhor não vir. Pensou também naquela fórmula: se tivesse um filho, correria mais atrás de trabalho, de uma formação mais sólida. Mesmo assim, com os poucos meses de terapia, sabia muito bem que sua índole macunaíma não se abalaria o suficiente com maiores responsabilidades a ponto de correr atrás. Tudo a seu tempo. Se ela quisesse mesmo ter um filho, teria de cuspir a pílula em dia fértil, preparar a bolsa de água quente e mandar bala. Mas não fazia o seu tipo. Por mais que os 32 anos nas costas pesasse contra Isabela, que a maior parte das amigas já estivessem pensando num segundo, pra ela incomodava muito engravidar sem uma aprovação clara do macho. Pra ela seria muito importante um pai presente, não queria produção independente. E assim foram postergando, esperando do outro a reação, a tomada de decisão. Mas não vinha de nenhum dos dois. E muito das desavenças surgia desta discrença com o futuro da relação. Isabela com planos de fazer família. Mariano sem querer perder sua liberdade. E ao invés dos dois conversarem sobre seus temores, a coisa foi degringolando, e quanto mais longe se sentiam do que realmente tinha que ser dito, mais o tesão e a intimidade iam pro beleléu. Isabela tinha raiva por Mariano não corresponder aos seus anseios, e o diálogo, cada vez mais breve, resumia os fatos corriqueiros, nada em profundidade, nada que ajudasse a revigorar a relação. A viagem seria uma espécie de last chance. Mariano acreditou que lá, no mar esverdeado da Bahia, as disavenças pudessem se dissolver e aquela sensação boa do começo do namoro voltasse.

Embarcaram pra Salvador num dois de fevereiro, dia de Iemanjá. De lá pegaram um carro pra Itacaré. O clima não era dos melhores. E por mais que a viagem tivesse cara de despedida, havia uma esperança, não custava tentar. Em último caso, de chorar as pitangas, que fosse na Bahia, na beira do mar.

Vai aí uma passagem do Kama Sutra:

"Se por compaixão aos sentimentos dela,
você não faz qualquer avanço,
ela vai julgá-lo um néscio,
irremediável tolo, incapaz
de compreender como é a mente dela.

Se, por outro lado, você não se empenhar
em cortejá-la, aos sentimentos pisoteando,
em pressa estouvada para seus desejos saciar,
medo e ira há de causar,
entre os dois gerando ódio frio.

Se sua esposa sinais de amor não encontrar,
de amargura há de encher,
vindo depois hostilidade, rebeldia,
a repulsa pelo sexo; você a força
a buscar o amor nas camas de outros homens"

Mallanaga Vatsyayana, séc IV

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Texto de Cesar Benjamin sobre o colapso financeiro.


O que vemos não é erro; mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas

AS ECONOMIAS modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Hora que Acaba


















foto: Robert Capa

Magda já não sabia muito bem se queria o cara ou não. E nessas ficou por meses a fio, sem tocar no assunto.

Costumavam jantar juntos, em casa, e enquanto ralava queijo parmesão ou picava a cebola do molho, pensava nas mil possibilidades do fim. Sabia que o cara estava totalmente na dela, morando juntos, planos de uma vida em comum, mas alguma coisa em algum momento produziu a centelha da bancarrota. O gás foi vazando e impregnando todos os ambientes onde antes flanava a paixão, agora completamente retorcida e envenenada por uma explosão seca e devastadora. Por mais que ela se esforçasse em voltar atrás, uma voz interna, onipresente, dizia que ele não era mais seu homem, talvez, com muito esforço, só um amigo. Até existia o momento em que a carência apertava, geralmente na TPM, ou quando sentia que o trabalho como produtora (agilizando aluguel de câmera, água pra equipe, radinhos motorola, tudo pro diretor punhetar em cima de algum storyboard), engolia qualquer possibilidade de uma vida pessoal saudável. Mas ainda assim, por mais visceral que fosse a carência por colo e chocolates, ela conseguia descartar ele como porto seguro.
Qualquer detalhe incomodava: sua voz, o formato da barriga por sobre o elástico do shorts, o peido silencioso no edredon, a erudição superficial, a combinação das roupas, o bafo, o jeito de andar, os mesmos argumentos de sempre, o timbre da risada, o desleixo com as coisas, as compras inúteis com eletrônicos, as conversinhas no msn, a relação dele com os pais, o cheiro do carro, o corte de cabelo, a forma da bunda na calça jeans de bolso caído, os pêlos isolados que nasciam nas costas e ele pedia pra arrancar, a escova de dente com salsinha grudada, os pentelhos no sabonete glicerina de rosto dela, a marca de dedo no pote de cream cheese, os sites pornôs no histórico do explorer, as tampas de caneta bic com cêra de ouvido, cuecas freiadas pra fora do cesto, tv ligada sem assistir, projetos sem finalização, amigos empalhados no tempo com camisa do Pink Floyd, e o pior deles, talvez o definitivo: O cara não tinha a menor ambição de se posicionar na relação. O cara não tinha opinião própria, sem pulso e pra qualquer mulher isto é mortal. Bater o pau na mesa é vital. E ele, pelo contrário, deixava tudo pra ela resolver.
- Vamos ao cinema? Vamos. Que filme? Não sei, pensa aí, qualquer um tá bom pra mim.
Não rola. Qualquer uma perde o tesão. E Magda foi percebendo que tesão ela sentia por homem que trata mal e bem, efeito montanha russa. Que fala uma grosseria, mas rebate com uma declaração. Que pega com força, chupa, faz gozar e vai pelado na geladeira traçar meia picanha acebolada fria pingando no chão. Que deixa ela com frio, se cobrindo com a ponta do edredom, e depois aparece quentinho, abraça, beija, encaixa. Homem que fala pouco ao telefone, que diz a verdade, que lambe faca, e que na hora certa aparece com flores, sai pra dançar, propõe uma viagem, paga o cinema e leva pra jantar.
Foi num domingo clássico de inverno, daqueles que as pombas em vôo se fundem ao concreto das catedrais, ao cobertor do mendigo na fuligem, no céu cinzento e frio, que ela acordou decidida a jogar a toalha. Focada, tomou um banho quente de porta trancada, coisa que não costumava fazer, secou os cabelos com o secador turbo, passou hidratante nas coxas dez anos de jazz, secou a virilha e a xoxota depilada, desvirou o sutiã, destravou a porta e foi, junto com o bafo de vapor em linha reta pela sala até o quarto, como um trem que não pára na estação, e disparou a primeira certeira, pensada e arquitetada durante os últimos três meses de silêncio:
- Marcos, precisamos conversar...

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Segunda na Neura















Praia Mole esta manhã foto: João Pavese

Depois de uma noite de sono atormentada (sonhei que fui preso por vadiagem, por não ter emprego fixo, os presos desenhavam nas paredes, e no banho de sol, olhando o lado de fora, não me conformava com a situação, eles não me davam o direito a telefonemas e nenhum parente vinha me visitar, um medo de ser currado e por ai vai), acordei e me deparei com uma realidade bem longe daquela que meu inconsciente me presenteou na longa madrugada. Floripa, estou em Floripa. Ainda vazia, sem a turistada louca pelo frenesi alimentar=esportes, trepadas e gastanças. O sonho me atormentou um pouco. Claramente um indicador da vida que levo. Esta coisa de ser profissional liberal, sem emprego fixo, atormenta. Por mais que saiba que já é sem volta, que nunca vou conseguir trabalhar pra outra pessoa, executar o que ela pensou e protagonizar a mais valia explícita( a não ser que venha a fome), passar uma segundona na praia, sabendo que os outros estão na labuta, incomoda. Como me dou ao luxo de? Talvez seja a minha síndrome de índio. Explico. Toda vez que faço um trabalho e levo uma bolada, tiro férias. Ao invés de continuar me esfalfando pra acumular mais e mais, sem descanso, penso que aquela grana dá pra viver por um tempo, e que parte deste tempo deve ser gasto com as coisas que gosto, que me dão prazer. MAis ou menos como o índio que mata uma anta. Ele não sai pra caçar até que a anta acabe. Vai ficar caçando e acumulando carne de anta pra quê. Estraga. Adoro ler um livro todo. Aquela leitura intensa de três dias que você mergulha na coisa, sem distrações. Adoro um banho de mar, tomar sol, uma boa noite de sono, a cerveja, o carinho num peitinho médio macio, dormir junto, ventilador de teto, e perder isso, seria mortal. Bom, mas aí tem aquela propaganda do Ford Fusion - "Pra quem fez por merecer" (algo que o valha). Quer dizer que devo trabalhar como um porco no cio até juntar o máximo que der, e aí, depois de um exame de próstata, constato um câncer, uma disfunção eréctil, entro no meu Fusion pra dar um passeio de ray ban com o visa platinium na carteira. Não rola. Vou comprar esta briga. Trabalhar sim, se esfalfar não. Tem que haver uma saída, a medida. Vou atrás de mecanismos que garantam uma grana razoável, sem entrar na loucura, na competição por mais e mais, afinal, pega um catálogo de pousada chique no sul da Bahia e perceba que as boas coisas na vida são as simples: uma rede, um coco gelado, canga, livro, boa companhia. Pra que mais?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cana pela Culatra















Foto: João Pavese

Voltei de Mato Grosso com boas histórias pra contar e uma profunda sensação de perda com relação `a condição humana. Gostaria de deixar aqui um breve relato do que vi e senti.

Mato Grosso é uma cloaca. O cu do mundo. Pra mim, a síntese do que o homem é capaz de fazer de mais degradante consigo mesmo. O agronegócio conseguiu liquidar em menos de três décadas simplesmente toda a floresta e serrado que cobria o estado. Os rios estão contaminados com agrotóxicos e a paisagem foi completamente transformada e sumariamente executada. Cana, cana, soja, gado, árvores retorcidas, poeira, caminhonetes de luxo, caminhões carregados de toras de lei, usinas de cana, tratores, som sertanejo dos carros, rodeios, santinho de políticos por todo lado, gordos comedores de picanha e um calor nefasto fruto do desmatamento. Em Cuiabá, que mais parece um Largo da Batata extendido, conversei com algumas pessoas na rua, no supermercado, que reclamavam do calor excessivo neste inverno seco, de umidade beirando os 10%. Todas diziam não entender como pode estar tão quente, que nunca viram coisa igual. É de deixar perplexo qualquer ser minimamente esclarecido. Ninguém consegue associar o calor com a brusca alteração do bioma local. As pessoas querem progresso, muitas delas chamam a floresta de sujeira, que o mato deve ser limpo pra dar lugar as plantações, e não percebem que a cobertura vegetal é um regulador natural do clima, do solo, que muito em breve o tal progresso vai virar pó, areia, deserto, e aí elas vão buscar outro lugar pra ocupar, destruir e repetir o erro.
Talvez eu esteja sendo duro demais com o termo cloaca, até porque eu moro numa: São Paulo. Mas penso que numa cidade como a nossa, a destruição já foi tamanha, o rio morto, o trânsito constipado, que temos alguns anos-luz na frente pra refletir sobre qual caminho tomar. É só parar um pouco pra pensar no absurdo.

Mato Grosso é mar aberto de cana pura. Ainda mais quando bate o vento. Os cortadores de cana com certeza estão no substrato mais rasteiro da cadeia alimentar. Vivem na merda. Eles são tão escravos como foram seus antigos. Vivem no limite do ter o que comer e não lhes resta tempo pra pensar em nada que não seja cortar, cortar e se refazer do fastio com uma ração pobre e um colchão duro. Quando escrevo estas palavras, me pergunto: bom João, grande novidade seu nerd, isto todo mundo já sabia, Helloooo!!! Mas a questão é que quando você vê de perto, a coisa entranha na sua carne. Você primeiro empina o nariz e diz: - Nossa, como minha vida é boa, ainda bem que eu não estou nessa, coitada dessa gente sofrida! Até perceber que, seguindo a ordem natural das coisas, isto não vai ficar barato. Se eles estão na merda, e nós bem de vida, significa que cedo ou tarde o caldo entorna e a merda começa a subir. O cortador de cana sem nenhuma perspectiva vai ser expulso do campo quando as máquinas passarem a cortar ( uma máquina corta o equivalente a 400 homens) e aí eles vão pegar o primeiro ônibus que passar com o dinheiro que lhes resta e desembarcar nas grandes cidades, uma delas, pode ter certeza, a sua. E por mais que este trabalhador seja de boa índole, a hora que a fome apertar e que o filho dele chorar, não tenha a menor dúvida que ele vai bater com o cano do .38 no vidro fumê do seu honda civic flex, tanque cheio de álccol baratinho R$1,17 o litro, você indo ao cinema ver um filminho cult com a gata, e cobrar pela cana que ele cortou de quase graça. Aí não venha me perguntar: Mas por quê eu? Tarde demais, Luciano Huck, passa o rolex pra cá!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Ressaca no Trailer












Steve acordou com o calor do trailer numa ressaca da pior. A cama e o travesseiro vomitados, só bílis. Um ou outro milho numa poça densa perto do colchão. Abriu os olhos e fez a retrospectiva do fim da noite. Não se lembrava de nada. Flashes de vômito, música alta, fusão serial de rostos de fêmeas decotadas. Pensou na carteira, nos documentos, onde os havia deixado. Memória em branco. A última coisa de que se lembra era uma roda de amigos falando putaria. Uma menina contando que trepava com o namorado todos os dias, durante os seis últimos anos. Ninguém acreditou. Até porque ela era uma broaca, e se trepava ou deixasse de trepar não faria a menor diferença.
Tentou levantar do travesseiro, ou pelo menos posicionar a cabeça na nesga de fronha que sobrou limpa, mas o enjôo era tremendo. O trailer não chegava a rodar, mas era com se estivessem injetado clorofórmio na aorta. E por mais que o mal estar imobilizasse Steve na cama, o fato da noite ter sido uma merda, o fez reagir. Queria saber dos documentos. Contou até vinte olhando para os rebites do teto de metal do trailer e ergueu a carcaça encharcada de álcool. Enquanto envergava o tronco, sentiu o fígado cobrando o castigo, uma dor logo abaixo das costelas, aguda. A primeira impressão naquela posição semi-erectus foi de que seria impossível se refazer. A ânsia veio, untou de saliva o palato, e então Steve correu pro vaso, onde tentou em vão, colocar alguma coisa pra fora. Achou um pano no canto do chuveiro, ainda úmido do banho de ontem, e meio que rastejando voltou `a cama. Esfregou no vômito pra tirar o grosso e atirou o pano longe.
Acordou depois de alguns minutos de sono leve, o enjôo estava lá. O estômago completamente vazio, mas não sentia fome, nem conseguia pensar em nada gorduroso, doce. No máximo tentaria um copo d'água com limão, uma maçã. Alguns flashes na memória seletiva. Lembrou de uma conversa com uma loira, já na sexta dose de vodka, e que ela convidou pra ir ao banheiro dar uns tecos e otras cositas más. Lembrou que preferiu não ir, a luz do bar escancarava uma pele mal cuidada da loira e Steve, por livre associação e alguma experiência, achou que ela era grupo de risco total. Se entrasse naquele banheiro a loira ia dar dois teco e abocanhar seu pau. Aí seria tarde pra uma camisinha. Mas que ela era uma puta gostosa era.
Na ressaca, levantou a cabeça mais uma vez pra ver o dia lá fora pela janela do trailer. Sol `a pino, deserto de Mojave, Barstow a 18 milhas dalí. Sua vontade era ligar pra mamãe pedindo ajuda, um carinho, uma sopa, mas naquela altura do campeonato, mamãe e papai não passavam de polaroids desbotados na caixa vazia de Cohiba. Steve, sozinho no mundo, não tinha a quem recorrer senão a si mesmo. Lembranças ruins não ajudavam em nada, bastava a ressaca. Desembrulhou o pau pra fora e ali mesmo, no silêncio do deserto, descascou pensando na loira. Melhor comê-la assim, na fábula, do que consumar e se foder com uma Aids. Gozar trouxe pelo menos algum prazer pra situação desoladora. O coração acelerado.
Passava do meio dia quando Steve finalmente conseguiu levantar. Bebeu meio litro d’água e meteu o dedo na goela. Repetiu três vezes. Começou a se sentir gente. A calça jeans na cadeira, as barras cheias de lama, respingos de vômito, conferiu no bolso de trás a carteira. Menos mal, estava lá.
E se na ressaca a cabeça estava ocupada com as maneiras de curá-la, quando melhorou, as angústias tomaram o lugar. Por conta delas a bebedeira atingia este estado. A falta de perspectivas. Com a grana como leão de chácara de uma boate, conseguia comer e beber, morar no trailer. Talvez o melhor seria ganhar um pouco menos, no limite da fome, aí sim não teria tempo pra conjecturar, estaria dia e noite pensando no que comer, como, onde. Mas com uns cents a mais de reserva, as angústias conseguiam penetrar e estabelecer as sinapses necessárias pra causar estragos. Fuck!
Uma águia careca sobrevôa o trailer aproveitando a corrente de ar. Numa das asas faltam duas penas importantes pra estabilidade do vôo. Steve se concentra na águia, na maneira como ela se apropria do vento, sem nenhum esforço, pra ganhar altitute. A vida podia ser assim. Uma corrente de ar, você leve, planando, sem grandes preocupações. Mas pra ele era como se as asas estivessem depenadas e não soprasse vento algum. Como se precisasse bater asas o tempo todo pra não cair e mesmo assim, vivia se estatelando no chão. Um redemoinho de areia se arma na soleira, junto de uns engradados de budweiser. Steve bebe mais um gole d’água, passa o dedo no suor da garrafa. Não consegue mais esperar. Achava que alguma coisa boa pudesse aparecer sem que precisasse se esforçar tanto, que alguém muito generoso apontasse na sua direção e dissesse: este cara é genial! Mas percebeu que o massacre é proporcional ao descaso. Quanto mais longe de uma ação concreta, mais a vida lhe janta pelas bordas. O grande lance é que ele tinha total consciência das suas fraquezas, da sua auto-sabotagem, mas nem por isso tinha forças, ferramentas pra lutar contra. Chegar aos 42 anos como leão de Chácara de uma boate de estrada, limpando banheiro, tomando esporro de patrão, não era lá a melhor das sensações de sucesso na vida. Alguns amigos de escola montaram uma fábrica de fraldas descartáveis, outro fazia atum enlatado, coisas que Steve, na época, desprezou, considerando que os amigos tinham se vendido ao sistema. Não submeteria a isso. Ainda mais ele, sujeito que sempre gostou de ler, que devorou meia centena de clássicos, e achou que assim, poderia ser melhor que os outros. Mas a erudição não quer dizer nada na América. O Make Wild Money não quer saber se você leu Edgar Allan Poe. Quer mesmo é que você entenda o funcionamento da coisa, onde está a grana, quantos bebês cagam em quantas fraldas, quantos sanduíches de atum comem uma gorda nas férias em Key West, que você tenha a blindagem pra vender a alma ao diabo, que navegue e domine a imbecilidade humana, sem filtros, sempre na pose de caçador com as botas sobre a cabeça do búfalo. Não interessa se você pensa, se orgulha disso, e não se sujeita a máquina de moer. Fora dela, você não é moído, é esfacelado. E é assim desde o início da vida. Quando papai jorra o líquido seminal em mamãe, o jogo está lançado. Nadamos desesperadamente em direção ao óvulo, batemos a cabeça no útero, tropeçamos nos irmãos girinos, e alguém ali vai chegar antes e ganhar o jogo. E no caso de Steve, perdido no deserto nesse trailer capenga, é mais ou menos como se papai tivesse feito o coito interrompido e melasse o sofá. Suas chances de chegar lá não existem. A ressaca. Tomar todas pra esquecer. Não faz acontecer. Hora de mudar, ninguém vai fazer por você.

The important thing: find me the french man

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pedágio das seis



















(foto tirada no momento em que pensava - acervo João Pavese)

Apesar de estar dormindo bem, indo pra cama meia noite acordando às 8, sem despertador, invariavelmente, lá pras 6 da manhã, desperto do nada no meio de um sonho. Dificilmente um pesadelo, mas claramente uma mensagem do inconsciente. O sonho vai certeiro nas minhas lacunas, neuroses, e acaba por incomodar. Raramente é erótico, raramente um vôo entre peladas numa casa da Grécia, o mar azul, pedras roliças na praia, vestido branco molhando as pontas na água. O sonho me cerca nas minhas fraquezas. O mau uso dos meus potenciais, os recalques, a falta de amadurecimento - tardio -, como se eu fosse uma peça obsoleta que gira em falso, em que os dentes da engrenagem não se encaixam nas outras, e ficam mais ou menos como uma marcha ré mal engatada, grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. Como encaixar? Fui lapidado por traumas e alegrias, gens e arquétipos, cipós e maracas, e agora? Agora talvez seja tarde pra mudanças profundas que me tirem do atoleiro onde só caminhões maiores passam com segurança. Bom, pelo menos nestas acordadas das 6 pra refletir sobre sonhos, consigo aos poucos entender minha loucura, e a dos outros.