
Depois de três filmes consecutivos - 007 Cassino Royale, missão impossível 3 e Sob o sol da toscana - resolvi pegar a moto e dar uma volta. Uma ventania joga as palmeiras de um lado pro outro, sigo na direção da lagoa, estou em Florianópolis.
A moto rende nas ultrapassagens, me sinto o Daniel Graig, o novo James Bond, a cada ultrapassagem me vem a música do bond em mente, e vou ultrapassando. Nuvens carregadas, a areia das dunas se arremete contra minhas pernas, olho pro céu, vejo que mais ao norte existe um clarão, é pra lá que vou, onde bate o sol. Rodo mais uns 20 km ao norte até que finalmente os primeiros raios me cegam ao bater nos espelhos da moto. O vento aumenta, me pega de lado, quase derruba, entro por uma estrada de barro, direção mar. Avanço alguns metros até que vejo o Atlântico. Estaciono, sento numa das dunas, tiro o tênis, a camisa, a bermuda, praia deserta, pelado, aos trinta anos já não se tem vergonha de nada, se tiver algum mané olhando que olhe. Aproveito pra dar uma olhada no corpo, o que já começa a cair, vejo a musculatura forte da barriga, apesar da camada de chopes e pastéis, vejo as pernas peludas, o pau, o sol, o mar, onde estou, os anos que passaram, o que eu to fazendo aqui, o que faço em SP, o que vai ser de mim, tudo em questão de minutos, o mar toca meus pés, agua fria aqui do sul, quero limpeza, avanço, água na cintura, o mergulho, a cabeça, o silêncio, de volta o vento, a diluição das angústias, posso tomar banho de mar, que venham os problemas, a moto longe, o sol se pondo, o vento, o zunido no ouvido molhado, a boca aberta, a mexida no pau, a saudade do molhado, os amigos, quanto tempo vou durar, que tal uma taça de vinho, xoxota, saio da água. Preciso escrever, preciso sair dessa inércia, me aprofundar de verdade nessa porra, fazer bonito, tornar as outras coisas menores, o tempo passa, não posso enrolar...mas já me disse isso e continuo enrolando...digo de novo, não posso esperar, winner, loser, quero uma rede, um mar, a namorada, uma fogueira, não preciso de muito. As gaivotas me cercam, cantam, acompanham o vento, vôo parado, a moto se aproxima, cada vez mais perto, hora de voltar, meu pai me espera, sem saber ao certo o que passou comigo neste passeio, as coisas que pensei, que passei, motor da moto, o vento, volto pra casa.
sábado, 13 de outubro de 2007
Coisas que pensei passei
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João Pavese
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sábado, 6 de outubro de 2007
Hoje tive vontade de mandar o mundo parar de rodar pra eu descer (relato de um mulher na TPM)

Eu tô mal. Bom, na verdade três minutos atrás eu tava mal, eu não sei como é a dor dos outros e o peso que eles carregam, mas a minha é pesada demais pra mim as vezes. É diferente de angústia que faz parte da condição humana e que te cobra posições, é um sentimento de perda, de morte, de destruição que é tão absoluto que me deixa apática como se alguma coisa dentro de mim tivesse necrosado. Nessas horas eu penso se não vale a pena tomar o remédio que eu descobri há pouco tempo e que dá uma contida nisso, mas só de externar, colocar em palavras, o inominável diminiu pq ele já está nomeado e se ele está nomeado, ele fica sob controle. Não sei se é sob controle, mas pelo menos dá pra controlar a dor, não é mas absoluto nem abissal e que me engole, agora eu tô engolindo ele, um monstro do meu tamanho. Quando eu não toco ele fica grande, e quando eu me aproximo ele vai diminuindo. Quando acaba sempre me dá um certo tesão, eu acho que eu sou...não sei se as outras pessoas tem isso...sinto...acaba a dor e vem um tesão...me masturbando...fantasias com o obstetra me comendo, no caminho da sala de parto parei de gemer pra fazer um comentário para o médico que tirou a máscara, um anjo, não era de verdade, quero esse, um cara lindo, uma das faces do meu anjo. Hummm chocolate....Não. Quero pau. Gordo, grosso, atrás do pau um homem com tesão, mãos rápidas, beijo nas partes moles. Minha analista dizia que eu sexualizava a dor, bom, sorte a minha, sempre tive muita libido, a rainha da masturbação, o prazer sexual é minha morfina, as vezes não precisa ninguém, pq eu me completo com as minhas fantasias. Nunca precisei de droga, fantasia sempre foi a minha morfina. Me deu sono.
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João Pavese
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quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Não vou forçar a barra senão espanta

Ele foi pro Rio a trabalho. Que saco! É a segunda vez em menos de um mês. E quando está em São Paulo, sempre na correria, temos pouquíssimo tempo um pro outro. Por mim eu queria ver sempre, beijar, mas o cara é fooocado amigas, completamente focado na dele, e isto me dá um puta tesão, subo pelas paredes pelo cara. Por isso que mesmo sem ele ter tempo e me dar uns canos, eu acabo perdoando. Só que os canos vem piorando. Desde agosto ele não me beija mais como no começo. Antes, quando eu abria a porta do apê ele aparecia com flores, bombons meio amargo da Copenhagen, e me dava uns beijos inacreditáveis, era cama mesa e banho direto. Mas esta história do Rio...Pior é que ele não atende a porra do celu o dia todo, o filha da puta deve tá me binando, deve tá tomando chope no Leblon vendo aquelas carioquinhas no calçadão, mas aí quando eu desencano ele me liga lápras duas da manhã todo carinhoso, pergunta com que roupa eu tô, meio safado, deve ter tomado uns whiskys no piano bar do hotel, diz que tá com saudade, que lembra da minha boca, e aí eu me derreto toda, toda, acaba rolando uns dedinhos lá, básico, em sua homenagem. Bom, depois de uma semana no Rio finalmente ele chegaria na quinta-feira, me produzi toda. Manicure, unhas tomate, depilação....Aaaiii essa dor, como mulher é um bicho masoquista, puxa pêlo dali arrancar pêlo daqui, bye bye sobrancelha...Tudo pelo olhar guloso dele. Ele me ligou. Umas duas da tarde, lá do Galeão. Disse que pegava um táxi, que eu não precisava pegar em Congonhas. Bom, mas eu quero te pegar, eu vou. Não precisa, fica tranquila que eu te ligo. Tudo bem, não vou forçar a barra senão espanta. 3, 4, 5 da tarde e nada dele ligar. Que aflição. Fui na Parmalat e pedi duas bolas de amendoado. Comprei umas fivelas, um sapato na promoção. Nada de ligar. Chamei a Paula prum café na Duca. Não podia. Cadê o cara...Canalha.
Lá pras 8 e meia da noite é que ele me liga. Pra variar trabalho, gravata, cinto...humm, aquela bundinha na calça social, as secretárias devem pagar um pau...AAAHHHHH ele é meu vadias, não quero ninguém olhando. Disse que foi direto do Aeroporto pra uma reunião e que saiu de lá agora, tá super cansado...Este cara tá me dando um pé...E eu não tô sabendo me valorizar...Foda-se, não vou mais procurar...Foda-se ele e seu egoísmo de merda, não preciso disso, você é forte Melina, forte, só tem canalha, homem não presta, preciso aprender a me valorizar, nunca mais vou procurar, agora se os homens quiserem eles que venham a mim, pilates, yoga, praia, tô super bem, este iogurte de ameixa regulou super, como disse minha melhor amiga: mulher legal só fica sozinha se quiser. Vou apagar o número dele do cel. Isto, chega, vou apagar...(toca o celular na hora). Oi! Tá em casa? Saudade? Eu também... Tá bom, vou me arrumar e vou, levo um vinho? Ahhhhhhhhhh, você é um amor....Não não...Tô super afim de te ver...Não...Nada cansada...Chego aí em 10 min...beijo.
O que ele pensa enquanto espera ela chegar:
Puta merda...Ela tá na minha total...Posso sacanear quanto quiser que ela vai tá na bota. Ela tem uma bucetinha gostosa,
comi aquela no Rio e foi uma merda acordar do lado. Puta ressaca moral, só bêbado pra comer uma rampeira daquela, ainda bem que meti uma camisinha, por ela ia no Al Dente. Vou segurar a patroa, ela me faz bem...(prepara um Whisky).
Campainha ( ding dong)
Ele coloca o Whisky de lado, no bar, se olha no espelho vendo se não tem pêlo nem catota no nariz, arruma as sobrancelhas (vaidoso que só) e coloca a camisa por dentro da calça jeans mostrando o volume do pau. Ele pensa: ( vou foder...Comi aquela no Rio ontem e já tô fodendo outra...Sou foda, sou gostoso, sou o cara, tenho 37 anos e duas milhas no banco, levo qualquer uma no sushi, banco totas até molhar e depois blablabla aahhhhh caio de boca...)
Ele abre a porta
-Ooooooi!!!! Nooooossa! Como vc tá gostoso, o Rio te fez bem.
-É?
- Claro que é. Que ciúmes que eu tenho de pensar naquelas cariocas que ficaram vendo esta sua boca carnuda.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Ontem ela chegou por volta das 02H30 a.m
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Ontem ela chegou por volta das 02h30 a.m. Chegou pra dormir. E foi a segunda vez que ela deita e apaga. Acho muito estranho. Nos dias que ela chega cedo, demora a dormir. Bebe seu Bloodymary, degusta de um aperitive, vê uma tevê, toma um banho de banheira, nunca deita direto. Tudo bem que eram duas, quase três da manhã e, logo cedo, 07h30 a.m seu Thompson rádio relógio vai despertá-la, sempre na NRJ, que toca as últimas baladas de Paris. E saber que ela chegou 02h30 a.m me incomodou profundamente. Se já não conseguia dormir, se já respirava fundo pra não perder o pulso, se já administrava a frustração caucado nos traumas com as meninas do passado, com ela do lado dormindo profundamente não podia segurar a tensão, o medo, perspectiva de que este sono tranqüilo, esta respiração profunda, o deitar e apagar, fosse conseqüência direta de um foder, de um trepar, de um clitóris hipertrofiado no gozar gostoso. E se realmente ela tinha dado pra outro, não poderia dormir ao seu lado como venho fazendo nos últimos 15 dias, não não não. Uma coisa é se dar pro vibrador. Outra é certificar-me de que realmente ela deu pra outro.
Passei mais alguns minutos na cama numa posição totalmente incômoda, simulando a continuidade do meu sono quebrado pela sua chegada. Não suportei, levantei no escuro, vi o seu vulto, levantei com pulso que enfermeira pede pra tirar a pressão de novo, não acreditando naqueles 14 por 9. A primeira coisa que me passou pela cabeça, acreditem vocês, foi ir até o banheiro. Acontece que sempre que ela chega em casa, deixa a roupa do dia jogada no chão, um bolo de calça, blusa, sutiã e calcinha. E justamente pela calcinha que eu vinha medindo os seus dias. Cada vez que ela chegava do trabalho eu dava uma boa fungada naquela calcinha fio dental, sempre de uma cor diferente, pra sentir e medir seu PH. E se nos outros dias a secreção vinha normal, a leve crosta caramelada na altura certa da costura da calcinha, desta vez acertei em cheio, a calcinha, mais chic do que a dos dias anteriores, bordô, vinha sem caramelo, mas ensopada de porra na mesma altura da costura. Como se dez minutos atrás alguém tivesse esporrado tudo lá dentro e antes mesmo dela levantar. colocou a calcinha pra ir embora, levando contigo toda a porra. E se deitada a porra se acalma dentro, quando ela levanta e pega a scooter de volta pra casa, tremelicando pelo asfalto com o o motor da motoca, podes crer que a porra vai descer, foi como vi, calcinha empapada, filetes branco de esperma. Fiquei mal. Me olhava no espelho querendo fugir. A minha vontade naquele instante era entrar naquele quarto sem roupa, tirá-la debaixo daquele edredon e fodê-la a força, incrementando o frozen iogurte de porra, dois tipos de queijo, deixá-la dolorida, fazê-la chorar de dor, segurá-la pelo cabelo, comer o cu mordendo todo seu pescoço. Mas precisava estar bem fora de controle e um tanto apaixonado pra fazer tal loucura.
Saí do banheiro. A casa escura, só o barulho da ventilação que circula o ar entre um cômodo e outro. O barulho desta ventoinha me punha louco. Um ruído sinistro, o ar quente daqui de dentro, a geladeira silenciosa, e a ela dormindo profundamente, dormindo ainda com a porra de outro escorrendo na calça de flanela do pijama.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2007
NOITE DE CIUMES

CONCURSO LITERÁRIO - NOITE DE CIúMES
Mande para nós uma crônica ou conto com até três páginas. O tema é
a questão universal vivida pelas casais de todo o mundo: Noite de Ciúmes.
O melhor texto será publicado aqui no Blog e o autor ganhará um (01) DVD original do filme
Blade Runner.
Resultado: dia 01 de janeiro de 2008
O vencedor será avisado por email e receberá o prêmio em casa.
Mande seu texto para jpavese@gmail.com
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Shark attack
Agora vou ter que corre atrás pra sobreviver
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João Pavese
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quinta-feira, 27 de setembro de 2007
EL DESEO

Milão, Inverno, 9 p.m.
Nuvens nas cores da cidade, lambretas passam, casacos pendurados, calefação.
Valentina e Juan conversam no bar. Reflexos dentro e fora se confundem no vidro onde os dois estão sentados.
Valentina se olha por entre os reflexos, a luz das velas permite que ela se veja entre faróis, garçons, cigarros, asfalto molhado. Por mais descolada que seja, ela tem aquela sensação de brasileiro, do glamour de se estar na Europa.
Depois de tomar um negroni cada, comer brusquetas e salada de beringela, os dois começam a se estranhar. Isto porque nunca se entenderam tão bem como naquele dia. Já eram amigos, mas naquela noite, em especial, El Deseo passou a bailar com os dois e romper as barreiras do simplesmente amigos. O acordo tácito fora pras picas. Valentina vinha de um período de estiagem braba, seu último namorado, que ficou no Brasil, ela não via há oito meses. Claro, lembrava dele, mas os telefonemas eram cada vez mais raros, e pela voz, ele já estava noutras. Pra compensar, Valentina foi ao sex shop e comprou um Rabbit com três variações de vibração. Não sossegou.
Já Juan tinha lá seus casos, nenhum duradouro. One Night Stand. Gozou vira pizza. Se alimentar dessa forma não mata a fome da carência, muito pelo contrário, dia seguinte vinha uma vontade aguda de abraçar e pegar um cinema.
Pois bem, os dois em condições adversas agora no bar mastigavam as barreiras impostas nos dois anos de amizade. Quando um se distraía, o outro aproveitava pra olhar e desejar. Mas os negronis na cabeça faziam perder o timing do disfarce, e um começou a ganhar as olhadelas do outro. Até que ficou proposital. Vieram os sorrisos. Pediram a conta.
Caminhando pela rua, um frio de rachar, Juan se adiantou em passos largos, deixando Valentina pra trás. Ela reclamou:
-Juan? Grande cavalheiro o senhor! Não tá vendo que eu ando mais devagar, dá pra me esperar?
-Tem razão, só quero chegar logo...
- Vai ter que esperar, anda aqui comigo e do lado da rua, os cavalheiros devem defender as damas...
-Sim Senhora.
A casa que Valentina mora em Milão tem quase 1000m2. Quando Juan entra não acredita no que vê. Cinco siameses, uma fonte de pedra sabão e a piscina, que atravessa o jardim invade a sala quase até encostar no piano de cauda. Valentina tira as botas:
- Juan, moro aqui com um velho que me aluga uma parte da casa. A múmia é ranzinza e não deixa trazer homem aqui, ele proibiu. Corre e se esconde no banheiro do meu quarto.
Juan caminha de tênis. No chão de mármore o solado de borracha assobia.
No quarto uma cama de viúvo, branca com detalhes dourados. O chão de madeira velha, range a cada passo. Um aquecedor à gás mancha o papel de parede com o calor. uma TV 20 polegadas passa RAI, novela. No banheiro da suíte sabonetes de gansos, conchas, toalhas bordadas. O espelho de cristal, 2X2 metros, quebrado numa das pontas.
Juan espera ansioso por Valentina. Não sabe se o velho encasquetou, se o viu, se ela está a negociar com ele. Juan, ainda no banheiro, fareja duas calçolas penduradas no boxe. Observa o forro da calcinha, onde o rosbife de valentina encosta, e no meio do cheiro de sabão consegue detectar, com seu faro de coiote, alguma essência salmon, eau du salmon.
Valentina chega de sopetão e o pega no banheiro. Ele de costas, com a calçola na mão, se vira pra falar com ela, aproveita pra deixar a calcinha cair no chão, dentro da banheira. Ela não percebe.
Valentina diz que a barra está limpa, o velho já foi dormir, sono pesado, se quiser poderiam abrir um vinho. Valentina tira o casaco, um sobretudo de pele artificial. O traje é de patricinha da Hípica Paulista atrás de um Klabin. A calça jeans, ainda que não perceba, molda os grandes lábios com perfeição. A bunda perfeitamente definida pelas costuras. Ela sabe, foram anos se olhando no espelho, torcendo o quadril ou perguntando pras amigas qual daquelas calças fica mais enfiadinha com a possibilidade de ativar o córtex dos machos. E ativou. Juan, macho que é, negroni na cabeça, sentiu uma fisgada no saco, no testículo esquerdo, como se o cérebro mandasse a mensagem: Hora de produzir porra!!! Vamos lá putada, ao trabalho, duas colheres de maizena, duas de açucar mascavo, creme de leite!!
Valentina deita na cama e desabotoa a calça que lhe marca a barriga. Finge ver a Rai, aquela programação mal feita que só italiano tem a manha. Juan não tem onde sentar, ou senta no chão, ou ao lado dela, na cama. Vence a segunda opção, ainda mais com aquela rabeta empinada. Valentina nota a escolha de Juan e puxa assunto:
- E aí, você não vai pro seu Hotel? Tá tarde já...
- Não conheço direito Milão, fica longe daqui, né?
- Fica, esta hora é difícil achar um ônibus, acho melhor você dormir aqui.
- Pode ser, vou pensar...
- Vou colocar meu pijama...
Valentina se levanta e vai até o banheiro. O tesão de Juan é tamanho que o simples levantar de Valentina é suficiente
pra que ele sinta no ar um cheiro apetitoso de fêmea. Uma mistura de cheiro de alcool com perfume de freeshop, atum com tangerina.
Ele desliga a TV e fecha os olhos, abre e olha pro teto, fecha e vê uma bunda, a de Valentina. Se concentra nos barulhos que ela faz lá de dentro. Primeiro uma escovação de dente, barulho de sabonete líquido na mão e no rosto, um silêncio de 5 segundos, xixi, isso, assobio de xixi, a descarga, e a ducha higiênica em ação, lavando as jóias da família.
A porta se abre.
Juan observa. O pijama tem estampas com o mapa da Europa. A Grécia está na bunda, a Rússia nos peitos. Dois países que Juan tem muito interesse em conhecer...Aquela noite.
Valentina apaga as luzes e deixa um pequeno abajur no chão, luz 30 watts. Entra nas cobertas, posição fetal. Juan, sem saber por onde começar, deita de bruços. Valentina espera trinta segundos, alguma reação de Juan e, temendo que ele durma, puxa assunto:
- Juan...
-Oi.
- Sei lá, eu tava pensando... Qu você acha dessa história de amigos que acaba rolando uma coisa, amizade colorida?
- Acho que se tiver que acontecer, tem que rolar...
Valentina respira fundo e volta a posição fetal.
Juan, ainda que um pouco ingênuo percebe a deixa de Valentina. Amizade colorida...Hummm
Então ele se vira, na mesma posição que ela, mas sem encostar. A Grécia na bunda agora maior. A ponta da Rússia, a luz amarela. Juan tem medo, medo de quebrar a amizade, de romper as barreiras, mas seu coração dispara, ele não tem como voltar atrás, seria muito ruim estancar a vontade. Juan estaciona a mão na cintura de Valentina.
Ainda que Valentina contiunue na mesma posição, Juan sente a respiração dela acelerar. Carros passam na rua de pedra, ele deixa de escutar, mas logo volta o silêncio do quarto, a respiração dela. Só pra constatar ele sobe a mão na altura da das costelas de Valentina, e aí comprova o movimento. Valentina se vira, olhos semiserrados, boca aberta e seca, a jugular saltada. Juan assusta, tempos que não via uma fêmea tão no ponto sem que ele ao menos a tenha tocado. E a cada toque, por cima do pijama, ela solta um suspiro, misto de susto e tesão, sensibilidade total ao toque, e vem o beijo.
Valentina vem por cima, a cama range junto com o chão, a novela nba Rai, o bafo de negroni, e na cabeça dos dois, a mistureba, amizade e o que que está rolando...ta rolando, e pra ganhar distância da sensação amigos o beijo se torna mais intenso, os dois querem mergulhar, fugir da brisa da realidade, que as vezes bate, mais o beijo apaga, o beijo fecha a venesiana, até que toda a carne se entregue ao desejo, El DESEO.
Juan sente que pode e passa a mão por dentro do pijama, na altura da bunda dela. Carne macia, gelada nas bordas, quente medida que se aproxima do centro, e mais quente, mais e mais, até que umidece os dedos. Mordidas no pescoço, respiração, farra de boca dos mamilos, pressão das mãos, pêlos, um cobertor no chão. Valentina houve passos, por um instante se aquieta, administrando a respiração ofegante. Pode ser o velho...Mas logo vem o silêncio, ela solta a respiração e vem pra cima, pros lábios dele nela, mão, boca ocupa boca língua dente égua, úmido, cabelo , Córtex by córtex, e prepara a montaria.
Juan vira Valentina de bruços, afasta as pernas dela, passa a mão pra achar o caminho. Questão de segundos e ela sente uma injeção de agulha grossa lhe separando as entranhas. Ao invés da dor, um prazer que vem pela coluna até a nuca, onde Juan beija e morde. A amizade foi pras picas, literalmente. O velho com certeza houve tudo.
Manhã de chuva, ruas molhadas. Juan acorda grudado na amiga. Toma um susto. Não imagina como possa ser a primeira conversa, o primeiro olhar. Mas ela suspira e se vira, sorrindo. Ele a beija, bafão.
Depois de um café rápido, Juan se despede com um beijo no canto da boca, o clima pesa.
Juan pega suas coisas no Hotel e segue pra estação de Trem. Compra um ticket pra Paris. Vê um orelhão, pessoas ao celular, mas não telefona.
No trem pensa em valentina, triste ser assim, não ligar, não se despedir. Mas a possibilidade de encarar a real o faz seguir pra longe, sem rastros...ainda que faça mal.
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João Pavese
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