segunda-feira, 17 de março de 2008

Aqueles Peitos - primeiro tratamento

















     Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon fosse sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. Ração com cenoura, cabeça de galinha e mamão, muito mamão.

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um cd do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos, artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete me dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Aconteceu diferente. Achei que eu tivesse mais peso na balança, que fosse o mais amado, estava enganado. Ela acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia a razão: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato que ela articula um raciocínio, almeja as coisas; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho. Era uma trufa de recheio fungado esquecida na cristaleira. Nos quatro anos de namoro eu tinha avançado pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro cd que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Pra ela isso era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachu e fazer pão caseiro. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou com elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando ela me viu largar um trampo numa produtora de som, que eu cheguei em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou…

Mas verdade seja dita: tinha uma puta admiração por Raquel. Ela fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu imendar uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem um escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas, eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira.

Naquele olhar ela me atravessou como furamos uma onda grande de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força. Ela sabia das minhas limitações mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Mas quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, ela introjetou uma raiva que já vinha num processo e transformou em desprezo inexorável. Dali por diante eu virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançou ao ar, num despenhadeiro.
Foi um baque. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o carro preto no meio do trânsito até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas iam caindo e eu me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia era tanta que fui abrigado a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. E veio uma sensação de alívio. A angústia agora parecia um dente ciso anestesiado que empurrava os outros. Olhei pro copo, me servi de outra, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão doloridas, logo ela voltaria, o sino da porta a balançar, e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou numa sereia, um canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, eu prometo que vai ser diferente.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Na Calada da Noite
















A água do mar mais quente que o ar. Sobe uma névoa que se dissipa pelos pequenos barcos ancorados perto da praia até lamber os corredores de pedra e musgo das casas. A brisa úmida balança uma ceroula no varal, preenche de pequenas gotas folhas de uma flor violeta. Um velho de barba, todo encasacado, desce a ladeira puxando duas cabras. Passam pela frente de uma mercearia fechada. No lixo, restos de verdura, folhas de alcachofra, rabos de peixe. Sobe uma senhora gorda, meias de lã, vestido preto marcando a calcinha. O velho pára pra olhar. Uma das cabras alcança um maço de manjericão. O velho puxa. O sino no pescoço dela tilinta, berra. Estamos falando de Trieste, Itália, 1938.

Francesca era filha de Fritz, triestino rico, empresário construtor de estradas e pontes na Europa. Fiona, mãe de Francesca, usufruía dos luxos que o marido lhe proporcionava. E não pense que eram poucos: Braceletes cravejados, muitos quilates, bolsas e visons com raposas, viagens, estações de ski. Uma vida de condessa regada `a boa literatura, carteados e aos cuidados com os filhos. Não que ela nunca tivesse feito algo. Até tentou se dedicar ao piano, estudar música, mas Fritz foi terminantemente contra. Achava que tocar, dançar era coisa de prostituta.

Nada é de graça nessa vida. Fiona sempre soube que ele comprava seu afeto com grana. Há tempos dormiam em camas separadas. Eram vistos juntos em eventos sociais; mas em casa, mal se falavam. Talvez no jantar, com as crianças na mesa, Fritz elogiava um prato. Fora isso, como se um não existisse pro outro.
Ela pagava um preço alto. Deixou de ser o que sempre quis, pianista, pra se dedicar ao casamento. Constatou que talvez não fosse este o caminho. Pensava muito na separação.

Os primeiros quatro anos de casamento foram fantásticos. Paixão legítima, Fiona não enxergava uma vida ao lado de outro. Fritz definitivamente era o homem da vida dela. Mas o tempo foi eficaz e não deixou que as diferenças, ocultas no noivado, ficassem de fora no dia a dia. Foi os filhos crescerem pra coisa minguar. Problemas foram aparecendo. Fiona sempre se queixou do marido ser fechado. A sua necessidade de trocar angústias, dores, vontades, seja sobre filhos, relação, nunca foram correspondidas, sequer ouvidas. Fritz sempre se fechou dizendo que o problema era dela, que ele tinha coisas mais importantes a tratar no trabalho, que aliás, garantiam o queijo brie na mesa e a fronha de algoodão egípcio onde ela deitava a cabeça todas as noites.

Fiona abominava o embrutecimento do marido com todas as forças. Ele não se parecia em nada com aquele que ela disse sim no altar, inclusive fisicamente. Pra onde foi aquele menino alegre que gostava de ver as estrelas, caminhar na praia, se declarar. E quanto mais sozinha e distante do ideal que se perdeu, maior a raiva que sentia. Uma mágoa contida, amarga, que aparecia nas bolsas escuras sob os olhos, nas rugas desenhadas no rosto.

Sabemos que a vida nos reserva surpresas. Coisas que damos por certo e nos surpreendem com algo completamente diferente. Aos olhos de quem via e acompanhava o casal, impossível dizer que algo acontecia entre os dois. O relacionamento estava morto e sobrevivia única e exclusivamente por conta das aparências vigentes na época.

Mas era na calada da noite, quando o vento faz a curva e todos os gatos são pardos, que Fritz era visto com uma certa frequência pela governanta das crianças cruzando de meias o corredor do casarão. O chão de madeira estalava sob o tapete persa. Entreabria a porta do quarto de Fiona até que o feixe de luz do corredor alcançasse a cama. Observava ela dormindo, as pantufas, o jarro d’água, os óculos de leitura. Então, com muita cautela, se aproximava, descia as calças e entrava debaixo do edredom de plumas de ganso. Alguns segundos de silêncio, Fritz ficava paralizado, pensando a melhor forma de romper o constrangimento, cimentar a sensação de culpa e avançar. Fiona sabia exatamente o que ele vinha buscar e fingia dormir. Respiração profunda. Travava pernas e braços contra o corpo e esperava pela improvável desistência do chacal. De nada adiantava. Fritz sempre resolvia agir, desabotoava as duas camadas da camisola e arriava as calçolas dela. Fiona soltava grunhidos sufocados pelo travesseiro e balançava o quadril de um lado ao outro, como um bebê que desvia a boca da colherada de sopa quente, evitando a mira quase certeira do lobão depravado. Fritz ficava ainda mais instigado com a luta inútil e segurava com força as duas bandas de bunda da patroa até que finalmente, por cansaço, ela cedia. A governanta, no quarto abaixo deles, que sofria de insônia lendo um interminável Proust, escutava o lento ranger da cama acelerar, acelerar, a cama batia na parede como um motor velho de calhambeque `a diesel até que finalmente todo e qualquer movimento cessasse. No mais completo silêncio, a governanta sentia a respiração ofegante dos dois pelo ir e vir das molas da cama. Bastavam cinco minutos pra que Fritz se cansasse sobre Fiona. Vestia as calças e, como se nada tivesse acontecido, voltava pelo mesmo corredor estalando os tacos de madeira.

Naquela noite a governanta largou o Proust e apagou o abajur. No escuro, inspirada pelos dois, trançou as pernas pensando nos braços do açougueiro, nas pernas de um barqueiro de Gênova. Quando recobrou a consciência, pouco antes do torpor virar sono, se perguntou, perplexa, por que raios a patroa nunca trancou a porta por dentro. Pensou: No fundo, bem lá no fundo ela deve gostar.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Tá difícil













Não consigo parar de trabalhar, sem tempo pra nada, sem almoço, dormindo mal, aqui vcs podem ver como sofro.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O Manjar de Valeska














Meses que Mariano não conseguia dormir direito.

Por mais que tentasse se conscientizar que o melhor a fazer seria não levar os problemas pra cama e deixar pra pensar como atravessar as pontes na hora em que efetivamente as tivesse atravessando, ele não conseguia. Incapaz.

Deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos era o mesmo que estar dentro de uma casa com lareira, perto dos amigos e de repente ser solto pelado no escuro no meio de uma floresta, som dos bichos, a luz da lua mal conseguindo passar pelas folhas das copas.
Mas Mariano, por pior que fosse, já tinha se acostumado com a sensação. Já conhecia alguns dos seus atalhos, mesmo no escuro. Entre aquela carnaúba e a outra estão questões ligadas ao trabalho. Perto do córrego questões ligadas ao dinheiro, sobrevivência. E Mariano passava boa parte da noite vasculhando entre arbustos e pontes bambas o(s) motivo(s) de suas crises.
De manhã, ao abrir os olhos, não sabia exatamente o quanto da noite tinha efetivamente dormido ou ficado no transe catatônico. Mas era só ir ao banheiro escovar os dentes pra comprovar nas olheiras a noite na selva.

Pois bem. Fazia tempo que sua atividade noturna era limpar fossas existenciais. De alguma maneira ele tinha que sair da merda. Uma sensação ruim mastigava seu rim toda manhã com preocupações mundanas. Talvez durante uma sessão de filme, conversa de bar, as dentadas fossem temporariamente atenuadas, mas era só se ver sozinho, pra que elas virassem tubarão branco mastigando grade de ferro na Austrália. A mandíbula projetada, película protetora nos olhos, atuns dilacerados, sangue n'água.


Mariano resolveu dar o fora por um tempo. Pegar umas roupas, anotações, seus óculos escuros, e pular fora. Não via mais como sair do atoleiro. Meteu a grana no fundo falso do tênis velho, notas graúdas,
fechou a porta de casa e foi, decidido a ver o mar, sentir o calor do sol, longe de um Shark Attack.

Sul da Bahia. Dois dias depois e Mariano já estava na península de Maraú. O simples fato de estar longe daquela inhaca toda, já valia a pena. Nada de Corollas metalizados. `A sua frente o mar, ao fundo coqueiros ao vento, `a direita dois jegues trazendo côco, o calor miragem, as lentes dos óculos já embaçadas da maresia, uma maria farinha atravessa de um buraco ao outro. Mariano começa a se sentir bem. Ele finalmente pensou numa música e cantou, o corpo mexeu, sinal de que ainda havia vida naquela carcaça.

Depois de ler algumas páginas de "O Velho e o Mar" de Hemingway, Mariano quebra o pescoço pra direita e vê uma moça caminhando. A distância não deixa responder suas curiosidades, sabe apenas que o quadril se forma em violão, não muito alta, cabelos no ombro e um jeito suave de andar. Ela se deita na canga e vasculha uma bolsa de palha. Tira um frasco de óleo bronzeador e passa nas pernas e barriga. Aquele corpo besuntado dá a primeira alfinetada no córtex de Mariano. Ele sente vontade de agir, abocanhar. Mas é cedo, Mariano...Fica na sua - diz a voz.

Ele tenta se concentrar na leitura, naquela história do velho pescador que não pega nada há 84 dias, até muito interessante por sinal, mas cada vez que a moça mexe alguma parte do corpo, seja pra passar o óleo na bunda, pentear o cabelo, arrumar o biquíni, seu globo ocular imediatamente muda da página pro canto dos óculos escuros, onde ele consegue enquadrar a moça. E quanto mais ela resolve se mexer, mais o livro é usado de fachada por ele, ali na frente, desfocado, mesma página, linhas que são lidas e não absorvidas. Finalmente um banho de mar. Ela se levanta, cobre a bolsa e sandálias com a ponta da canga e caminha pras ondas. É a deixa. Mariano joga o livro na areia, apóia os óculos nas raízes de um coqueiro e entra n'água, com um espaço de uns 100 m da moça.

Ela mergulha, fura as ondas, e Mariano, de onde está, tem aquela clássica visão Ipanema de ver a bunda e o pacotinho de xoxota quando as moças furam ondas pra se refrescar. Mais uma alfinetada no córtex. Hummmm.

Os dois na água, Mariano luta contra a leve corrente que insiste em mandá-lo pra longe da moça. Ele se aproxima com esforço, sem dar a entender, como que buscando um banco de areia, mas a verdade é que ela já o viu e sentiu alguma intenção no movimento. Ela bóia, estica os braços, respira, olha o céu, nuvens que parecem novelos de lã esticados, bem finas e brancas, e então lembra que ele se aproxima e deixa de boiar pra conferir quão próximo Mariano está. E cada vez que ela faz este movimento, ele disfarça e pára, mergulha, fixa no horizonte.
O jogo se mantém até que o braço de Mariano toca, por baixo d'água, a coxa da moça. A sensação é maravilhosa, pele molhada, lisa, gostosa. O coração acelera, ela bóia e fixa o olhar nas nuvens, sem ver nuvens, nada, só a lembrança do braço na coxa, de pele. Uma onda maior e entra um pouco de água no nariz dela, que numa engasgada leve, dá o gancho pra Mariano começar:


- Delícia essa água, né?
- Ótima, quentinha, maravilhosa, coisas da Bahia...
- É...Cheguei faz dois dias lá de São Paulo, fico imaginando o tempo da minha vida que eu passei no trânsito,
na fumaça, enquanto estas ondas quebravam por aqui, no sol, estes coqueiros...
- ....Mas acostuma, logo mais você vai olhar o mar e achar um tédio, é bonito demais, e beleza cansa...
- E você é daqui?
- Não, mas moro faz tempo. Tenho uma pousada na outra ponta da praia...
- ...Que maravilha...Pousadinha num paraíso desses...Você administra com seu marido?
-...Marido? Que marido? Não, não...Aquele lá me largou quando eu engravidei...crio minha filha sozinha...
- Quantos anos tem sua filha?
- Vai fazer oito...linda...a cara do pai...olho verde...pelo menos isso aquele merda fez direito...

Nessa hora ela mergulhou pra esfriar a cabeça e mais uma vez, mostrou a bunda e o pacotinho.

Ele voltou com investidas mais certeiras, mentindo, caso necessário:

- Eu também tenho uma filha linda...(mentira).
- Ah é? Que legal...
- Adoro ela...combinei com a mãe que duas vezes por semana ela fica comigo...
- Quer dizer que você é um paizão?
- Adoro criança.

Mariano, pra impressionar, dá algumas braçadas de crawl e volta no borboleta.
Chega ofegante. Os braços maiores, os pêlos do peito molhados, o ombro já queimado do sol.
É a vez da moça ter o córtex golpeado, o tesão ativou um axônio, ligações feitas,
hormônio liberado, endorfina na circulação, pupila dilatou, ela molha no molhado e pergunta:

- E onde você está ficando?
- Tô naqueles bangalôs do fim da praia...
- Sei, na pousada do Jorge, gostoso...Então, passa lá na minha pousada no fim do dia, faço um risoto de camarão ótimo,
só que tem que reservar mesa antes...
- Tá legal passo sim...Procuro você lá?
- Isso, só perguntar que todo mundo me conhece. Eu vou indo, tenho que coordenar o almoço dos hóspedes.
- Belezzzza.
- Não vai perguntar meu nome?
- ...
- Valeska...
- Mariano.


Os dois se comprimentam. Uma onda faz o favor de juntar corpo no corpo. Valeska sai devagar. A água translúcida esverdeada mostra seu corpo inteiro. Um biquíni branco, misangas no cabelo, uma bunda redonda que já teve seu momento, mas ainda tem seu lugar ao sol. E ela caminha, caminha, até que a água bate na altura da bunda, as pequenas ondas explodem nas nádegas tremelicando-as como um belo manjar, e mais uma, e outra onda, manjar, a água passa por entre as coxas, Mariano se agacha, só com os olhos pra fora dágua e fica tirando várias fotos em mente daquela mulher maravilhosa.


Fim do dia. Mariano abre os olhos. As cortinas balançam com a brisa, barulho do ventilador de teto, costas suadas, areia nos pés, um pouco na cama, lençol macio, ele levanta pra ver o mar. O silêncio é total. Brisa nos coqueiros. Ele até pensa em trabalho, no que foi deixado pra trás, mas aí esbarra no assunto Valeska e fica. Nada poderia ser melhor do que passar um fim de tarde como aquele ao lado dela. Não só ao lado. Em cima, rolando, aos beijos.

Abre a mala e pega uma camisa de linho, um bermudão sem cueca e sandálias. Se olha no espelho. O rosto dourado lhe agrada. Molha os cabelos. Mostra os dentes a si mesmo como se fosse cavalo, a língua, torce o rosto no ângulo que lhe favorece, aprova, sorri...deixa espelho.


Chega na pousada de Valeska meia hora depois. Alguns hóspedes alemães bebericam caipirinhas e se besuntam de hidratante. Mariano senta numa mesa de madeira, perto de duas espreguiçadeiras. De lá continua vendo o mar. Não tem pressa de encontra Valeska, sabe que hora ou outra ela aparece.

O fim do dia se apressa, até que ela aparece com um punhado de velas nas mãos, espalhando pelos cantos da pousada. Um vestido branco com detalhes em renda, sandália de dedo, cabelo preso, só os olhos pintados. Mariano sorri e finge observar seu trabalho com as velas, mas na verdade tenta ver além, atravessar aquele vestido e ver uma calcinha branca no encontro da pele queimada do sol. E mais uma vela, calcinha, vela, calcinha, brisa, até que ela termina e finalmente vem conversar com ele:

- E aí, gostou?
- Linda, puta bom gosto, tudo no lugar, fantástico (não sabemos se ele se refere `a pousada ou ao corpo dela)
- Então, o pessoal já começou a preparar o risoto, você quer beber algo antes?
- Olha, acho que eu vou de suco de abacaxi com hortelã.
- É? Não tá bebendo?
- Não é...é que eu to vendo se dou uma maneirada, vim de uma maratona séria em São Paulo, tô querendo dar
uma limpada.
- Bom, eu vou tomar uma caipira, trabalhei o dia todo...mereço. Certeza que quer o suco?

Mariano mira os olhos de Valeska e sente o código morse. Talvez o suco não funcione pra quebrar o clima, ela bem que poderia pedir uma água com um pouco de limão espremido, mas a caipira tem seu lugar e mostra que de alguma forma ela se interessou. A camisa dele está aberta até o terceiro botão, os pêlos do peito macios na pele morena, os lábios carnudos, uma barba bem feita deixa a pele do queixo num tom azulado. Valeska volta a investir:

- Acho que vou pedir pra fazer uma caipirinha ótima, que vai absolut, maracujá e tangerina, com raspas de limão, peço pra colocar pouca vodka, fica refrescante, você vai adorar...
- Bom, se vamos beber, então pede pra caprichar na vodka, não gosto muito de bebida fraca.
- Você que manda.

Valeska estica o braço chamando uma das suas empregadas. Ao esticar, o vestido folga na altura das axilas e, pela primeira vez, Mariano tem uma visão mais bonita que o mar, que a luz da Bahia, são os peitinhos de Valeska queimados do sol em contato com o algodão. Mamilos redondos, sardas periféricas. Tudo numa fração de segundos naquela nesga de tecido. Mais algumas fotos em mente.

As caipirinhas chegam, o papo recomeça:

- E como você começou com esta história de pousada?
- Ahhhh, longa história, meus pais já vinham pra cá nos anos 70 com um grupo de italianos e ficaram maravilhados com
o lugar, o clima. Estes italianos acabaram comprando uma fazenda de côco ali atrás, preservaram tudo, a casa, a mata, o cacau, e venderam alguns lotes aos amigos mais chegados. Nesta época meu pai tinha uma grana boa, no boom dos anos 70 ele ganhou grana vendendo papel de parede pra residências e empresas, e acabou comprando umas terras por aqui.
- Então a pousada ficou de herança?
- É, podemos dizer que sim. Tive umas brigas com a minha irmã...aliás, não nos falamos, ela vendeu um terreno e nunca me passou a grana, eu tinha ajudado o filho dela com escola, análise e ela me passou pra trás...Não nos falamos mais...minha irmã...éramos tão próximas na infância, que louca esta vida...pessoas tão importantes desaparecem, outras, que não existiam, passam a ter importância...
- É...quando tem grana no meio FODE, aí aparecem as verdadeiras facetas...Já tive vários problemas assim. Sócio que me fodeu, pensão de ex, gravidez de casinho...Também não falo com meu irmão...simplesmente nos desentendemos e ele desapareceu, não atendeu telefone, e quando nos encontramos, no Natal, foi de um formalismo completo...
- Gravidez de casinho? Que história é essa?
- AH, coisa de adolescente. Fiquei com uma menina uma noite, festa na praia, os dois beberam e acabou rolando, aí cinco dias depois ela me liga dizendo que não desceu, que sentiu enjôo...foi uma merda. Eu queria ter (mentira) e ela quis tirar...Os pais dela me odiavam...fiz de tudo pra ter o filho...Mas ela foi numa clínica e tirou...
- Noooossa, que chato...


A cozinheira chama Valeska pra ver como anda o risoto. Ela dá uma bela golada na caipirinha e levanta. Mariano também sorve sua bebida, daqueles goles que ao mesmo tempo amortizam o nervosismo e aceleram o que deve ser dito, sem cair nas ladainhas ou frivolidades mundanas. 

Mais uma vez o vestido de Valeska é tema do olhar de Mariano. Direção cozinha, ao passar pela porta de entrada onde um vento de mar entra com força, canalizado, o vestido se desdobra em duas camadas e sobe, sobe, o vento mais forte, as coxas, pêlos loiros, Mariano morde o canudo do drink, o vestido sobe, ele torce pra uma lufada ainda mais poderosa, vamos mar, vamos, me manda um vento oceânico, música árabe em mente, a dança do vestido, sobe mais, da coxa, sobe, e um vento ainda mais forte passa por ele, desarruma o cabelo, apaga as duas velas na mesa e chega nas pernas de Valeska, com força, o vestido agora na altura da bunda, quase calcinha, pele linda, morde canudo, velas outras quase apagadas, ela com a mão tenta aparar e descer o vestido, ele insiste subir, até que ela cruza a faixa de vento direção cozinha e ventania sossega. Mariano, ofegante, se refaz, senta melhor na cadeira, larga o canudo.

Valeska volta com o risoto em mãos. Ainda que as velas não dêem conta de uma iluminação uniforme, tornam todas as formas mais belas e gostosas de olhar. A fumaça sai do risoto e se dissipa, os dentes de Valeska brancos, dourados pela luz, olhos azuis, boca brilha, a voz suave.

- Então, melhor comer enquanto tá quente, senão perde a graça...
- Claro, só quero te pedir outra caipirinha dessas, nunca provei tão boa, e é fraquinha, na medida.
- Peço sim.

Valeska mais uma vez estica o braço, desta vez o ângulo não permite o olhar chacal. Mas por hora Mariano está satisfeito. Com a ajuda do vento e do vestido, 30 % do corpo dela já pode ser, em último caso, montado e consagrado numa punheta ao luar. E fica muito mais gostoso descobrir aos poucos (mentira, pro homem o pá pum é sempre melhor).

- Muito bom, muito. Que que você usou de tempero?
- Muito simples. Uso um pouco de caldo de peixe e do próprio camarão, cozinho o arroz e só...

Mariano come sem muito comedimento. Garfadas seguras, fala de boca cheia, deixa cair um pouco na toalha, capricha no queijo ralado. Valeska, que poderia achar o cara sem finess, vê uma autenticidade de macho nas garfadas, nas mastigadas e seu cérebro imediatamente processa aquelas informações e libera serotonina, faz uma associação no hemisfério direito do cérebro, sem que ela saiba, de como ele deve ser na cama. Sem firulas, voraz, faminto, com a famosa bela pegada. Inconscientemente, as pernas de Valeska se afastam, bem devagar, a boca relaxa, os olhos fixam Mariano, até que ela pergunta:

- Vamos tomar mais uma?
-Ahã - de boca cheia.
- Pelo visto você gostou do meu prato.
- Se não fosse feio, lamberia o prato...shhhhh perdão ( cinco grãos de arroz voam no vestido de Valeska).
- Nossa, tava tão bom assim?
- Uma das melhores coisas que eu já coloquei na boca. Só tinha comido um assim na Grécia...
- Eu vi, você devorou...Dá prazer só de olhar.
- Escuta, você não tem um pãozinho pra eu passar neste molho que sobrou?
- Claro, Val! Tráz uma cestinha daqueles italianos.
- Você sabe como chamam pão francês na Bahia?
- Não.
- Você mora na Bahia e não sabe? Cassetinho.
-Cassetinho? Que nome...nunca ouvi falar...
- Pois é...vivendo e aprendendo.


Valeska se levanta pra ver se os gringos, mesa ao lado, gostaram do risoto. Mariano acompanha a desenvoltura da moça, o sorriso, e percebe que um dos gringos está de olho nela. De longe, Mariano escuta uns great, delicious, e o gringo faz questão que Valeska sente ao seu lado pra conversar. Mariano, que até então se sentia o dono da vez, sente um calor na espinha que sobe até a nuca...sozinho, constata: ciúme.

Pra fazer a digestão resolve levantar e dar um giro pela pousada. Numa das salas, iluminação banhada `a vela, vários pufs, uma mesa baixa central de madeira nobre, livros e revistas de arquitetura e viagens. Mariano deita meio de banda e abre uma revista de tendências. Procura o melhor ângulo das velas pra ler a matéria. A brisa do mar entra pela janela, a cortina faz seu balé, as velas dançam o ventre e junto com elas, as sombras. Daquele ângulo Mariano consegue ver Valeska conversando com o gringo. Ela tirando mais risadas dele do que ele dela. O papo continua. O cara é boa pinta, australiano, o calor volta a subir até os músculos do omoplata. Mas Mariano segura a onda e tenta concentrar na leitura. Constanza Pascolato, que gravata com que meia, frivolités, e seu olhar volta aos dois pela fresta...calor.

Nisso entra a hostess, uma morena dos cabelos cacheados, blusa branca de renda apertada na cintura, saia de xita. Vem com um spray fragrância de laranja, burrifando pelo ambiente. Mariano puxa assunto:

- Hummm, delícia de cheiro...
- É laranja...essência...Também adoro...
- O perfume que eu uso é de tangerina...gosto muito dos cítricos...
- Também adoro, nada de cheiro doce, enjoativo...
- ...Como é seu nome?
- Talita...
- Baiana?
- Baiana. Nasci em Ilhéus e me criei em Corumbau...
- Nada mal...Mora perto da pousada?
- Moro sim..moro eu mais uma amiga minha, duas ruas pra trás...
- Que gostoso...eu to lá no Jorge, no fim da praia...
- Que delícia, lá é o que há de chique na região...Você é paulista é?
- Sou...
- eu sabia, os paulistas é que vem com a bufunfa pra cá...gastam mermo...
- Se você quiser passa lá no Jorge amanhã pra tomar uma...Sábado você trabalha?
- Vô folgá..Sábado folgo...Pode ser...


Por um instante Mariano havia deixado de lado Valeska. Talita era uma mulher interessante e aquele sotaque de baiana deixou o cabra marcado pra morrer de desejo. A timidez da moça, regado ao seu ar de submissa, calibraram o tesão dele pela baianinha. Levantar aquela saia de xita, passear as mãos numa bunda macia, afastar a calcinha pra ver pelinhos, chupar aqueles peitinho salgados de suor, aquela buceta deve ser mais escorregadia que gomo de jaca na sombra depois de chuva de verão, e ela deve fazer um cafuné maravilhoso na rede.

Mas quando o caldo tava pra chegar no ponto, Valeska entrou e já mandou Talita fazer alguma coisa sem muita importância, do tipo contar quantas garrafas de dendê ainda haviam em estoque.

Mariano levantou os olhos da revista com aquela cara de autosuficiência e perguntou:

- E aí, os gringos aprovaram o risoto?
- Aprovaram.
- Senti que o australiano tava na sua?
- Ah, nem ligo, estes gringos são uns bananas, pragmáticos...não entendem de gente, de alma...
- Não vai dar uma chance pro moço?
- Tá louco! O branquela? Nem morta...E você? Gostou da Talita?
- Boa fruta...Dava uma boa caipiroska ( com os olhos na revista)
- Homem não presta...Viu, você toma mais uma?
- Opa...

Valeska pede pra Talita mais duas de caju com carambola. Nitidamente está um pouco alta. A voz rouca, o jeito de mexer no cabelo, o rosto rosado, a intensidade dos olhares. Mariano sentiu nela a famosa transição do querer pra efetivamente tomar uma atitude. Se estivesse completamente sóbria, Valeska não seria capaz de se deixar flagrar em desejo, olhares, bocas, andar; mas com algumas na cabeça, ela já não fazia tanta questão assim de omitir seu tesão por Mariano. Muito pelo contrário, começava a esboçar uma reação pra deixar claro que ele seria dela e não de Talita. E aí de quem se aproximasse do seu macho. Arranharia a cara toda, puxar cabelo e rolar no deck chamando de piranha.

As duas caipirinhas chegam; os outros hóspedes se recolhem. Dois deles caminham direção praia pra fumar seu baseado. Valeska dispensa Talita e os garçons. A maioria das velas chega ao final e por obra e Deus, ou, aos olhos dos materialistas, por coincidência, a luz fica perfeita pro que Mariano quer e busca. Ao que parece, não só ele...

Agora o barulho do mar, a fragrância de laranja, o cheiro forte das velas no final. Mariano joga a revista de lado e pega uma concha na mesa. Põe na orelha e escuta o barulho. Mar, ooooondas, shhhhhhhhhhhhh, agora é questão de tempo, pensa. Valeska, por mais que a bebida solte as amarras, sente que o caçador está perto da caça encurralada. Que muito em breve ela vai ser abatida. Num misto de prazer e medo de ser deixada, dele fazer como os outros, de se apaixonar, se entregar e depois sentir o desprezo, ela se apóia numa estante de jacarandá achando que possa ajudá-la a sentir menos. As pernas fraquejam, o veneno rapidamente entra na circulação, a respiração acelera, e Mariano, sem muita conversa, como diria o baiano: sem presepada, deixa a concha na mesa, se levanta e cola seu corpo no dela. Um dos livros cai da estante. Dona flôr e seus dois maridos. Mariano tenta beijá-la. Ela vira o rosto. Mariano busca sua boca de um lado ao outro, Valeska torce o rosto de um lado ao outro, lado ao outro, até que Mariano entende o movimento e pega sua boca no caminho. A barba por fazer, boca grande, uma língua vem que vem pra saborear Valeska. Acompanhado de mãos hábeis que sincronizam sua força em parceria com os movimentos da língua, das costas pra bunda, pros peitos, até que o aval do silêncio com gemidos permite a ele, predador, muito lentamente, sem querer que ela perceba, a erguer a saia. Valeska se desvencilha e corre pra varanda.
Mariano arruma o pau pra não dar bandeira e vai atrás.

Valeska nota no olhar de Mariano, ainda que a luz seja pouca, sua fome por ela, se vê sem saída, justamente o que ela quer, sem saída, e começa a rir e falar:

- Você pára com isso, que cara é essa? Tá maluco é?
- Tô, maluco, maluco por você...louco...
-Pára Mariano, não faz assim...você me assusta...vai devagar...
- Vem cá...você é linda...tô apaixonado....te vi no mar hoje de manhã...você é linda...desde a primeira vez que te vi...
- Pára Mariano...me solta.

















Valeska se desvencilha e corre na direção da praia. Mariano vai atrás, com uma folga de 20 metros. Não tem pressa, trota, passadas largas, e sorri sozinho quando a luz da lua encontra o mar, a areia da praia molhada pela onda também ganha o prata, as passadas de Valeska mancham de preto o prata, ele as segue.
Valeska encontra os gringos no final da praia e sente o porto seguro. Os australianos dão risada e contam piadas de inglês. Mariano chega junto e apesar de não falar muito inglês, puxa assunto:

- Hi Guys, whats up? Nice night with full moon...
- Yeah, Brazil is a exciting place...much better than Australia...
- Yeah...And is too sheap for you... Third World is so nice...visit poor people...Ongs...beach...nice and easy girls...
- Hahaha, its true, its true...
- So...Do you have a pop...you know...marijuana? Just a point is enough...
- Oh Yeah...

Os gringos tiram do bolso uma latinha de Amsterdã. Dois baseados de skank feitos. Entrega um a Mariano, que cheira passando pelo nariz como se fosse incenso. Valeska gosta da desenvoltura dele, e por um instante perde o medo, até encosta braço no braço, mãos se tocam.

Os gringos, chapados, resolvem querer conversar, mas Mariano, nada afim, lança um papo que dá paranóia em chapado de primeira viagem:

- Look, its not a good idea stay out side during the night. There are a lot of bugs, You can get a fever, its dangerous...
- Bugs? what kind of bugs?
- Do you know Aedes aegypti?
-No.
- OOOOOOOOH my God, its too dangerous...go home, please, please...


Os gringos voam pra pousada.


Valeska sente o predador e fareja a cena do crime. Em duas frases ele forjou uma situação que colocou os gringos pra corrrer, deixando o baseado.
Mariano pede pra Valeska fazer cabaninha com a mão e acende o baseado. Os dois em silêncio, a lua.

Alguns minutos e o baseado faz efeito. Mariano começa a escutar o barulho do mar ainda mais forte, a luz prata da lua mais intensa, o vento gostoso na pele. Olha pra Valeska. Os cabelos prateados, a pele azulada. Novamente ele sente um calor no corpo lhe varando a espinha. A maconha dá um tesão filha da puta e ele parte pra cima. Primeiro tira o cabelo dela da altura da nuca e aplica uns beijos de peixe, só os lábios. Então percebe que ela deixa, que continua olhando o mar como se nada tivesse acontecendo,e os beijos crescem pra uma lambida, uma marca de dente, uma lambida, uma passada de língua. Valeska suspira, com certeza o baseado fez efeito e eleva as lambidas de Mariano ao máximo. Suas pernas fraquejam, as mãos se fecham em punho, as unhas grandes e bem cuidadas arranham de leve a pele da coxa...o barulho do mar. Mariano abraça a moça, aperta com força, abre a camisa pra que fique pele com pele, o calor, e Valeska fraqueja, a respiração inconstante, olhos semiabertos, o brilho da lua na pupila, os dois se beijam, línguas entrelaçadas.

Mariano pensa em ir além e, pouco a pouco, avança o sinal. Uma mão no peito, muito sutil, passando pelo bico, a outra rasteja das costas pra bunda, e ainda que Valeska tire a mão dele - quando lembra de tirar - o saldo é positivo pra Mariano, porque a cada investida, o avanço é maior. Valeska completamente bêbada não percebe a agilidade de Mariano pra desabotoar o sutiã e abrir a calça. Ela se dá por si quando ele já está mamando o peito esquerdo enquando enfia a mão direita na buceta. Mas este foi o erro de Mariano, ainda que ele imaginasse já ter a moça pra si. O erro foi que aquela mão na buceta fez ela lembrar do seu último caso. A vez em que se conheceram num sítio, os dois bêbados, e o cara fez a mesma coisa. Afastou o biquíni dela e carcou dois dedos no fundo. Só que o cara comeu ela duas vezes e sumiu, nunca mais atendeu o celular. Veleska chorou um mês seguido. Se Mariano tivesse feito de outra maneira, talvez a combinação de códigos fosse outra, e Valeska não teria lembrado do seu ex caso. Mas Mariano não teve sorte. Valeska acordou do transe, da anestesia geral e se deu por si do que aconteceria dali pra frente. E se ele fosse mais um...um mês chorando...nem pensar...ela precisava de mais confiança... e no estado que Mariano estava, a fome, ele não tinha como agir diferente, cego que só, de tesão.

- Não, não...Eu não posso...me deixa em paz...não quero assim...
- Por que? Que que eu fiz de errado? Tava tão bom...
- Não sei...não é você...sou eu...não tô me sentindo legal...Quero ir pra casa...
- Mas agora? Olha a lua...Nós dois aqui...eu to apaixonado por você...Quero te beijar...vem cá.

Mariano abraça. Valeska deixa. Mais uma vez ele começa com os beijos na nuca. Estágio por estágio tenta chegar onde parou: boca no peito; mão na xoxota. Mas ela só quer um abraço quente pra esquecer a dor que sentiu pelo cara, e Mariaano nnao entende, ou não quer, não consegue, caso é que ele insiste e ela sai correndo de volta pra pousada. mariano arruma o pau, pensa "Caralho!" e corre atrás. 


Na porta da pousada, Valeska diz que vai dormir, pede desculpas e fecha a porta. Mariano bate, pede pra ficar, que vai deitar e dormir do lado dela, só. Mas seus olhos dizem outra coisa, ele não consegue omitir a vontade de fodê-la, os olhos chegam a lacrimejar de desejo, sangue n'olhos, e o medão bate em Valeska. Ela praticamente bate a porta na cara dele.

Mariano decide tomar um banho de mar. Enquando esfria a cabeça e reflete que talvez realmnete tenha ido longe demais pra uma primeira vez, de dentro d'água vê uma fogueira. Aquele fim de fogo. Decide ver o que é.

Caminha pela praia. A lua o deixou, nada de prata, tudo azulado, pouca luz. A proximidade da fogueira faz o azul se misturar ao alaranjado da brasa. Uma silhueta. Cabelos longos, Mariano vem se aproximando até que o vento aumenta as chamas do fogo, que lambe o rosto da silhueta. Mariano não acredita no que vê: Talita.

- Oi...você por aqui, sozinha esta hora?
- Pois é rapaz, tava sem sono e vim pra praia pensar na vida...
- Tô com uma ponta no bolso, tá afim?
- Pode ser...chega aqui...senta na canga...tem espaço pra dois.

Mariano senta e desamassa o baseado.

- Molhou um pouco, mas acho que rola.
- Eu vi umas pessoas na praia, lá do outro lado, era você?
- Era. Eu e uns gringos.
- Os da pousada?
- É.
- E Valeska?
- Foi dormir eu acho, depois do jantar não vi mais ela.

Acende o baseado.

Mais alguns minutos e começa a fazer efeito. A conversa continua.

- Nossa, Este é poderoso. Onde você arrumou?
- Os gringos. Os gringos me deram.
- Nooooossa. hahahahahahahaha
- Que foi?
- Hahahahahahaahaha tô muito louca hahahahahahahaha
- Loucura boa?
- Muito boa. O vento tá gostoso, me sinto bem, leve.
- Eu também.


Os dois se olham. O rosto perde a nitidez no escuro e isto é bom. Bom porque todo o contorno, exceto os olhos brilhantes pelo fogo, podem ser redesenhados, imaginados. E é justamente o que eles fazem. Mariano, que vinha de Valeska, já
engatou uma segunda e partiu pro beijo. Diferente de Valeska, Talita compareceu, e desta vez foi ela quem mordeu a nuca dele, deixando de saída sua marca. A marca que no dia seguinte Valeska veria, entregando que Mariano não tinha perdido sua noite. E ele faria questão de deixar o pescoço a mostra.

Talita não parece ter sofrido com homens. Muito pelo contrário: fazia sofrer por ela. Um domínio total da situação. Deitou Mariano na canga e lambeu o cabra de cima a baixo. E aí dele tentar se mexer...mordia. Como dizem os homens numa mesa de bar: a mulher gostava da coisa. A saia de xita ela ergueu, a luz do fogo lambeu suas coxas de laranja, o fundo azul da noite, do mar. Contraste. Mariano vê um vulto de pêlos bem aparados, bigode de hitler, e sem pestanejar, Talita, tesão de maconha, rasteja a púbis pelo corpo dele, rasteja como se pintasse um muro na Grécia, vai e vem, até encontrar a boca de Mariano. Ele aperta sua bunda e suga, suga como se aquela fosse a maior das iguarias, e quanto a isso, não há dúvida, é.

Quando o nível de molhado ultrapassa o perímetro dos grandes lábios, Talita se vê pronta pra receber. Novamente pinta o corpo de Mariano com aquela xoxotinha molhada. rasteja num vai e vem, inclina o corpo, ergue o quadril, com a ajuda das mãos busca um encaixe, pincela, e hummmmmmmm, começa a sentir algo lhe atravessando as entranhas. Mariano está fora de si. Durante todo o movimento, tenta focar as estrelas, a silhueta dos coqueiros, mas quando sente o escorregadio quente, tudo entra em desfoque. Ele tenta imaginar Valeska, sobrepõe Talita, Valeska, fecha os olhos, mas Valeska se funde no azul desfocado e aparece Talita banhada em fogo, cavalgando, cabelos enrolados, sobrancelhas grossas.

Mariano quer gozar. Sabe que não é o ideal em se tratando de satisfação feminina. Mas a energia gasta e contida com Valeska foi tamanha, que ele precisava aliviar. Pelo menos nessa primeira. Talvez numa segunda até faria uma carícia, mas no estado coiote, o negócio era ejacular.

Segurou Talita pela cintura e torceu seu corpo sobre o dela, deixando-a de costas. Movimento rápido, ergueu o quadril da morena na altura de um criado mudo e penetrou com força. Nessa hora, dono da situação, até que recobrou a consciência e lembrou da camisinha. "Caralho, que que eu tô fazendo", mas o tesão era tanto, que ele não conseguiu tirar, até porque, ali na praia, ele não tinha preservativo, e a fissura não deixou que ele fosse até a pousada buscar uma. Já Talita não pensou nisso. Ela queria dar tanto pra ele que seria impossível ter alguma doença. Que cara gostoso! Mete! Me fode! Mariano foi que foi, metendo sem parar, que morena, que bunda, que fome, até gozar.

Os dois adormecem na praia, juntos.


Amanhece. Talita acorda e sente um pouco de areia na boca. Recobra as faculdades e procura por Mariano. Pegadas na areia indicam que direção ele tomou. Talita senta na canga. A areia no entorno mais parece a desova de uma tartaruga, tudo revirado. De saia, fica em pé pra colocar a calcinha. Um veio de porra escorre pela coxa, Mariano gozou dentro. Ela faz as contas, Menstruou dia tal, logo: fértil. A possibilidade de ter engravidado é grande. Vai pra casa tomar uma chuveirada.

Mariano acorda no quarto da pousada. No pau uma casquinha branca indica até onde a noite o levou. Tudo vem em mente. Camisinha, gravidez, que cagada. Mas agora já foi feita. Entra no banho e se esfrega. Se Talita ele já arrebatou, falta Valeska.

Valeska acordou de mau humor. No fundo ela queria alguma coisa com Mariano. Sentiu o maior tesão. E só não foi mais longe porque teve medo de se ferir. Mas acordou sem saber o que seria melhor: ferir-se ou frustrar-se. A frustração lhe parecia pior, deixar de sentir o peso do corpo de Mariano, o calor, o beijo, era infinitamente mais doloroso do que levar um pé na bunda. E pra compensar, começou o dia descarregando nos funcionários da pousada. Mandou limpar todos os vidros, raspar o deck de madeira e passar selador, ficou insuportável. Os funcionários só foram ter descanso no final da tarde, quando Mariano apareceu.

A primeira coisa que Valeska notou: um chupão no pescoço dele. O fato foi fundamental pra que ela caísse na real. Ou ela cedia, ou ele partiria pra outra, numa boa. 

Anoitece na velha Bahia. Os coqueiros não se cansam da brisa. Não bastasse a beleza do dia, a noite rompe com estrelas. Se já estava calor, agora juntava cupim voador nos lampiões. Mariano sentiu que decididamente não precisava mais trabalhar pra ter Valeska. O enredo da história já trabalhava sozinho por ele. Mais ou menos como uma grana bem aplicada, você só fica ali de butija vendo se a vento continua soprando. Valeska cercada por todos os lados. Ela tentou se fazer de difícil e não rolou. Ou ela assumia que queria dar pra ele e entregava o ouro, ou perderia sua chance.


sábado, 10 de novembro de 2007

Tchau Sushi, oi Vale Transporte













Aos dezessete anos de idade Duda foi trabalhar com o tio, dono de um posto de gasolina. Atendia os fregueses na loja de conveniência. 
Por lá viu passar todo tipo de gente. Bêbado atrás de vodka barata, senhoras esperando o pãozinho fresco, meninas gostosinhas comprando chocolates e chicletes, gordas e sorvetes, magros e águas de coco, frescos e queijos de cabra. 
Mas aquele trabalho era de doer. Duda não suportava mais passar os finais de semana atrás daquele balcão, sendo que o tio lhe pagava merreca e ainda cobrava seriedade. 

Aí começou a esculhambação. 

Quando sozinho na loja, em plena madrugada, Duda saiu abrindo pães e patês sem a menos discrição. Comia atrás do balcão, agachado, e já levantava pra atender com a mão melada, boca cheia. Seu tio, no primeiro mês que deu baixa no estoque, já detectou o desfalque: 24 danoninhos, 3 quindins caseiros, 8 pacotes de camisinha, 4 pilhas AAA, 5 barras de cereais, 3 potes de patê. Ele poderia desconfiar de qualquer um, menos de Duda, seu querido sobrinho. Logo despediu a negra da área de frios e o pardo da limpeza. 
O tio então instalou câmeras num circuíto interno por todo o posto e loja de conveniência. Duda estaria sendo vigiado 24 horas por dia. Aí perdeu a graça, pensou. Sem os pequenos furtos que ele levava pra casa da namorada e de amigos, aquele trabalho não fazia o menor sentido. Ele não estava ali por que precisasse. Ou pelo menos pensava que não...

Duda, filho de pais classe média, nunca foi de se preocupar com a sobrevivência. Muito pelo contrário, Seus pais sempre lhe deram tudo. Viajava com os amigos pra praia, cinema, restaurante com a namorada. 
E não pensem que com a idade isto se resolveu porque com 17, 18 ainda vá lá, mas aos 25 a coisa começa a ficar preocupante, as pessoas precisam saber se virar, e Duda continuava na mesma toada de gastos no cartão de crédito da mãe, inclusive, gastando mais do que ela.

Bom, aí os pais decidiram dar uma prensa no rapaz. Ó meu filho, você tem que procurar um trabalho, alguma coisa pra fazer, se manter, não dá mais pra sua mãe ficar pagando academia, pizza com a namorada, etc.

Duda ficou puto da vida. Como assim os pais não querem pagar coisas tão básicas? Eu não faço nenhuma estravagância, só vou ao sushi duas vezes por semana com a Cris, pago academia e compro roupas e livros. Não vão querer bancar esta merreca? Pão duros, isto que eles são...Pão duros.

Puto da cara, Duda contou a história pra um amigo seu engenheiro, que já trabalhava, ganhava o seu, tudo nos conformes. Achou que o cara fosse dar uma força, falar que os pais estavam sendo duros coisa e tal. Mas que nada, não só concordou com as colocações dos pais de Duda, como o massacrou dizendo que era ridículo ele querer que os pais mantivessem suas mordomias. Se ele gostava tanto de um sushi, de um tênis tchapitchura, que fosse atrás do din din pra isso, sem colocar os pais na história. 
Duda ficou mal. Pela primeira vez caiu a ficha de que o errado era ele. Naquele dia saiu pelas ruas e viu o que não enxergava antes. Olhava pra cada pessoa, umas mais tristes que outras, e percebeu que cada um daqueles seres estava na batalha pela sobrevivência. Que de alguma maneira teriam de dar um jeito, muito bem dado, de diponibilizar sua mão de obra pra alguma lacuna de trabalho. E não só. Se quisessem mesmo sobreviver dignamente, teriam de executar estas tais tarefas da melhor maneira possível e contar com um pouco de sorte pra estar na hora certa, no lugar certo. 
Puta que os pariu, pensou. 
E naquele dia, pra completar, um frio de rachar, cidade cinza, muito trânsito, mendigos na praça fizeram sua parte como cereja do bolo. E cada vez mais, na base da bola de neve, as fichas foram caindo, a postura dos pais fazendo sentido e tudo mais, tudo mais, uma dor grande comprimiu o peito de Duda, ele sentiu vontade de estar entre dois grandes colchões num quarto escuro sem janela e que o máximo de pessoas pulassem em cima do colchão esmagando ele até a exaustão e que depois elas fossem embora e o deixassem dormir por longos 6 meses pra que tudo passasse, ou voltasse ao que era antes dele sacar a real.

Mas nada disso aconteceu. Muito pelo contrário. Os pais realmente cortaram o cartão de crédito dele e eliminaram pela raiz qualquer possibilidade de mimo que Duda pudesse usar de refúgio. Ou ele trabalhava ou trabalhava, sem saídas.

Durante aquela semana Duda ainda tentou manter seu status e sua graça com a namorada. Restava um mês de academia no cartão da mãe e uns duzentos paus na carteira. 

A namorada Cris, noite de sexta, estava animada pra comer alguma coisa fora e depois sair pra dançar. Duda pediu o carro pra mãe, como sempre fazia. A mãe, vendo um filme com o pai na TV, que antigamente levantava como uma ovelhinha, ia até a bolsa, pegava a chave, 30 pratas e entregava a Duda com um sorriso amarelo, desta vez nem se mexeu. Num momento que a legenda do filme permitiu, ela simplesmente disse: não rola mais carro, filho. Pega ônibus, vai a pé. E voltou ao filme. Duda não acreditou. As palavras da mãe correram como veneno na corrente sanguínea, Duda curvou as costas, as mãos suaram, a boca curvou, o saco murchou. Aí sim a mãe pegou na veia. Agora, além de estar sem a academia e sem grana solta pra dar suas risadas, ele não tinha o carro pra sair com namorada, que, diga-se de passagem, era uma puta de uma fresca. 

Duda passou a mão no telefone e ligou pra namorada:
- Onde cê tá?
- Tô saindo do Iguatemi com a Sô, cê me pega aqui?
- Então, hoje não rola, deu problema no carro, tô sem hoje, você pode pegar o dos seus pais?
- Pô DUUUUUUU, cê sabe que meu pai não gosta de emprestar o carro, pega um táxi então?


Duda não teve coragem de dizer não pra gata, nem que estava sem o dinheiro do táxi. 200 pila. Era tudo que tinha sobrado da sua fase áurea de filhinho de papai. Pela primeira vez olhou aquelas 4 oncinhas no verso das notas e valorizou. Em mente contabilizou: - caralho, daqui até o Iguatemi de táxi já vai 30 paus fácil.

Sem dar tchau aos pais, puto da cara, saiu de casa atrás de um táxi. No caminho pensou: - eu não vou me rebaixar, logo logo arrumo alguma coisa e reponho esta grana do táxi, vou ganhar muito dinheiro ainda, é só uma questão de tempo.

Com isso em mente, Duda ficou aliviado. O táxi, por mais passageiro que fosse, lhe dava dignidade e o status que até pouco tempo atrás era seu, e isso, like morfina, o tranquilizava. O táxi parava no sinal e Duda via aqueles pontos de ônibus lotados, gente do cabelo ruim saindo pelo ladrão, churrasquinho de gato, pagode, axé, mãe com filho no colo, e ele foi apertando o puta que o pariu, apertando, até pedir pro taxista aumentar o ar e pôr um som ambiente.

A namorada esperava na frente do Shopping, toda bravinha com a amiga.

-Pô DUUUUuu, que demora meu, a gente teve que ir até a Parmalat tomar um sorvete porque cê tava demorando demais.
- Desculpa aí, tava mó trânsito, tudo parado.

( Duda largou 34 reais com o táxista)

- Então Du, vamos naquele sushi novo que abriu perto do clube Hebraica? Tá super barato, tá saindo 47 reais cabeça com direito a tudo, meu!!! Adoro Teka de salmão e dizem que o de lá é delicioso.

(em mente Duda contabilizou 34 táxi, 47 X 2 do sushi = 128 pratas)

Cris, Duda e Sô foram a pé até lá, eram duas quadras tranquilas, prédios com seguranças, não havia o que temer, mais ou menos como andar numa rua de Milão. 
Enquanto as duas falavam da balada de ontem, Duda já estava em transe com seus tormentos. Olhava pras duas, pra rua, pros carros e via um único corpo estranho, algo agora decifrável, mas por enquanto, intransponível. Cris, a gatinha dos sonhos dele, conquistada a duras penas na base da infra, do carro, dos jantares, dos contatos, estava prestes a conhecer outro Duda, um Duda que o próprio tinha vergonha de apresentar, mas que dada as proporções, ele não tinha como evitar que ela conhecesse. Não depois daquele sushi e do táxi de volta, quando seus últimos 200 reais gastos praticamente em um dia, teriam terminado, escorrido pelo ralo. E no dia de amanhã, depois da também última transa com a namorada, Duda finalmente teria que entender toda aquela engrenagem da melhor maneira possível pra conseguir sobreviver. Do contrário, tchau sushi, tchau Cris ( sim, porque ela não iria entender), e Voilá! Oi ônibus, oi comida à quilo, oi vale transporte.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

93458













Nada mais fazia sentido, pelo menos para Carl. Na empresa ele apostou todas as fichas, mas não percebeu em tempo a hora de tirar o time de campo. Ou percebeu, mas não teve culhão pra fazer. A grande verdade é que ele nunca gostou de trabalhar em grupo, pelo grupo, com aquilo, e acabou por sabotar o trabalho, prejudicando os outros e a si mesmo. A empresa ia de mal a pior. A grana pouca, contada. Aluguel, contador, fornecedores, gerente do banco ligando, seguro do carro vencendo, um verdadeiro inferno, Vietnã no chinelo.

Pois Bem, Carl teve que vender seu Vectra 2.0 mês passado. No lugar, pegou um chevet, chevelho, funilaria fodida, pintura 
descascando, sem escapamento. O glamour foi pras picas e ele não sabia muito lidar com a coisa. Cair dessa maneira o patamar de vida foi proporcional `a queda de cabelo, as entradas atacaram as têmporas, Carl, 36, parecia ter 50.

Além de todos os problemas no trabalho, das dívidas, em casa não era melhor. Sua mulher gozava da mesma angústia, derrotada com a escolha do macho, descer do patamar a deixava louca. Não poder fazer uma comprinha, regular no telefone, tudo parecia um pesadelo.

Numa noite fria e chuvosa de quinta feira, quando as pixações e os mendigos da cidade parecem dominar a paisagem, Carl saiu do trabalho tarde. O combinado era que ela ligaria quando descesse na estação Sumaré e Carl a pegaria no chevelho, assim economizariam gasolina, ela trabalhava em Santana. Naquele frio, vidros embaçados, Carl olhou a quilometragem do carro: 93450. Ele sabia que tinha colocado 10 reais de manhã, quando o carro marcava 93398. Portanto ele havia rodado 52 quilômetros com os 10 reais. Já que o marcador de combustível tinha quebrado, era assim que ele controlava quanto ainda podia andar.

Marta esperava na saída do metrô, no frio, enrolada num cachecol que a avó fez, uma bolsa preta já gasta, leve olheira, muito mal humorada. Muito. O Chevelho escostou, o parabrisa arranhou o vidro, a palheta já meio solta, a correia cantou. Carl freiou com a ajuda do freio de mão, já que só no pé o carro não respondia. Marta puxou a maçaneta e nada, a porta não abria. Puxou de novo, Carl tentou abrir por dentro, nada. Ela gritou. Um pipoqueiro que passava se assustou e parou de mexer o sal na pipoca. Carl tentou de novo, empurrou com o pé, ela de fora puxando, os dois se olhavam, o chevelho ligado tremia, a correia assobiou, e finalmente a porta se abriu. Marta entrou sem falar uma única palavra.

Carl, sem ligar se ela estava brava ou não, só pensava nas contas e dívidas. Sua cabeça fervilhava em números, em negativos, nas carecas dos contadores, em extratos. Marta, também longe, pensava na amiga que o marido tinha sido promovido, os dois estavam em Comandatuba, Bahia, passando uns dias no resort. Sendo que esta amiga, anos atrás, estava na merda. Pesadelo. 

Carl e Marta vinham no chevelho pela Av. Rebouças e o trânsito, apesar da hora, 10 p.m, continuava carregado. O chuvisco fino se intensificou, e gotas maiores caiam quando passavam sob as árvores. Marta acompanhava os carros. Nenhum fusca, nenhum chevet ou monza classic. Eles eram únicos. Exclusivos. A chuva aumentou ainda mais e a vedação da janela deixava que as gotas geladas respingassem o braço de Marta. Ela secava com a ponta do cachecol e contorcia as pernas pra não gritar com Carl, cada problema, dada a situação, a deixava cada vez mais nervosa, por menor que fosse.

Carl olhou o velocímetro. 93458. No limite. A qualquer momento o carro ia parar, só o bafo de gasolina, e ele sabia que na carteira não tinha um puto. Seus últimos cinquenta reais ele pagou dois dias atrás no amortecedor do chevelho, e o cara que devia 400 reais pra ele, desligou o celular há duas semanas. A chuva aumentou, ouviu-se pedras de gelo no capô, folhas, ventania, Carl pediu que Marta, com a ponta do cachecol, desembaçasse o vidro. Silenciosamente ele falava consigo mesmo: vai dar, tem que dar, mais 2 km e estamos em casa, não pode parar agora. 

O carro começou a engasgar, o motor falhar, os carros atrás buzinando, e uma tensão venenosa subiu pela coluna de Carl. Claro, em questão de segundos sua mulher, absorta na chuva, sem conhecer direito motor, se daria conta que aquele engasgo era falta de gasolina. Fora que não era a primeira vez.

Carl diminui a pressão no acelerador, tentando com isso diminuir a injeção de combustível no carburador, mas era tarde, o chevelho deu mais dois engasgos, e num coice de embreagem o carro parou de vez.

Silêncio, chuva, buzinas, barulho do freio de mão puxado.

Carl olha pra Marta e diz:

-Acabou a gas..
-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, eu te odeeeeeeeeeeeioo!!!!!

Ela abre a porta e desce no meio do temporal. Buzinas, luzes em desfoque pelo vidro embaçado, Carl desce o banco e deita, não vê saída, nem quer tentar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Michelle Pfeifer leu pra mim o Taro

















Logo me cansei de ser engraxate em New York. A idéia de vir para a América fazer money e virar winner cada dia estava mais distante. Se depois de dois anos continuava pagando meu aluguel no Bronx, almoçando Hot dog e namorando 
funcionária do mês do Mac Donald's, é porque algo não saiu como o planejado. Não como tinha em mente ao deixar a casa de mamãe em Governador Valadares. Precisava fazer algo, inventar. Me vinha em mente a história do pintor Romero Brito. Aquelas cores, cheddar com catchup, uma fórmula que não me convence, mas que agrada Silvester Stalone, Schuwarzeneger, Van Damme, Britney Spears, Pamela Anderson. Como é que ele conseguiu?

Fiz minhas trouxas e peguei um ônibus pra Califórnia. Sem saber direito do que iria viver. No máximo, passaria o resto de meus dias num trailer todo fodido em Barstow, no meio do deserto, e faria uns bicos em Las Vegas. Mas a Costa Oeste renovava os ares, estava convicto de que lá seria muito mais fácil subir, vencer.

Na primeira semana, pra conseguir um dinheiro, ajudei uns coyotes mexicanos a atravessar gente pela fronteira. Foi um trabalho do cão. Acordava 4 da matina e esperava o grupo do lado de cá num furgão velho. Minha parte era sinalizar pra aqueles mexicanos fodidos onde ficava o buraco do grande muro, um pequeno sinalizador infra vermelho, sempre tomando o máximo de cuidado com os borders patrols, risco grande, se fosse pego, voltava pra Minas num conteiner. Mas era muito bem pago, valia a pena.

Depois que quase fui pego ao ajudar uma mãe e seus cinco filhos, sendo dois com diarréia, resolvi mudar de ramo. Com os 2 paus que ganhei, fui pra onde deveria ter ido desde o primeiro dia, L.A. Lá, perto dos astros de Hollywwod, com certeza sobraria uma borda da pizza.

Mas não foi bem assim. As coisas são muito caras em Los Angeles. A grana que eu ganhei com os comparsas latinos se foi 
e me vi obrigado a aceitar qualquer trabalho, qualquer. Primeiro num restaurante mexicano, me colcaram de Dishwasher. Com uma mangueira de lavar carro, avental e botas brancas, recebia de 20 a 30 pratos por minuto pra lavar com água quente, ensaboar, água fria e secar. Quando voltava pra casa, tinha insônia, me via lavando pilhas e mais pilhas de pratos com gordura trans, tacos, abacate e carne respingando na testa, insuportável. Não consegui segurar, saí. 

Dois dias perambulando por L.A. e nada de um emprego. Anoitecia. Leve frio de outono. Precisava comer. Foi por acaso, já no limite de revirar lixo atrás de um naco de hamburguer, de escolher quem esmolar pelos cabelos e sapatos bem cuidados que conheci uma cigana de El Salvador, figura muito interessante. Comprava frutas numa quitanda. Devia ter seus 40 anos, boa de corpo, bonita. Olhos azuis, um olhar triste. Disse a ela que vinha do Brasil e houve imediata identificação America Latina soy loco por ti. Me convidou pra jantar. Roupas estendidas na frente do trailer, me interessei por aquela mulher. Dessas que sofreram tudo que é possível imaginar. Perdeu filho, marido, foi estuprada por caminhoneiros no Panamá, esfregou chão, limpou merda de madame, tomou fora de todos os homens que amou. Ainda assim eu conseguia enxergar vida nos seus olhos. Como um veio de água da nascente que escorre por entre folhagens, como uma uva rubi fresca e lavada, aquela mulher fortaleza tinha ainda a chama da vida dentro dela, a vontade de viver, de amar, de cantar uma canção pra espantar a tristeza. Passei três noites com ela. Comprava carne, t-bones, frutas, damasco, e fazíamos uma ceia ao luar do deserto. Tive receio de beijá-la. Era muito diferente da tetuda disléxica que eu não dei a mínima e, bem filha da puta, quis aproveitar ao máximo. Meu medo é que um pedido de beijo pudesse remetê-la aos traumas com seus casos passados, e que isso fizesse mal a ela. Meu desejo era que um beijo pudesse cicatrizar suas dores, sem assustar, sem que ela pedisse que eu fosse embora. Não queria. Mas então, noite tíbia, entre damascos e frutas secas, ela se levantou e foi na direção do trailer. Com a ajuda da luz do fogo, que atravessava sua saia de tecido fino, pude ver suas coxas torneadas, o encontro delas, o formato da bunda, e aquilo me deu um frio na espinha. Não um frio de noite que a gente sente quando sai do banho e esquece a toalha longe, um frio de desejo que bateu no crânio e voltou pro sacral, uma mistura de instinto com paixão e tesão, isso isso, tesão pela cigana.

Ela trouxe cartas embrulhadas num lenço de seda, duas velas azuis e uma garrafa de vinho do porto toda empoeirada. Acendeu as velas, se sentou com as pernas cruzadas e me puxou pelas mãos. Sentamos um de frente pro outro. Que noite linda, estrelada, esqueci New York, winners, money, eu estava amando. 

Eram cartas de tarô, muitas figuras de deuses, reconheci uma que estudei na escola, Afrodite. Ela me pediu pra pensar numa pergunta, qualquer que fosse, sobre o meu futuro, trabalho, filhos. Pensei, pensei...Olhando pro céu vi dois aviões da força aérea americana passando longe, só o som, um rastro de fumaça, as luzes vermelhas piscando. Ela me chamou, pediu minha atenção. Então perguntei:

- Quero saber se vou ganhar dinheiro aqui em Los Angeles.

Ela embaralhou as cartas com aquelas unhas grandes e bem cuidadas, uma mão ágil, macia, o esmalte impecável pintada de vermelho tomate. Espalhou as cartas pelo lenço e pediu que eu tirasse três. Escolhi aleatóriamente as minhas e entreguei a ela. 

- AHHHHHHHH, vejam só, o que temos aqui - e olhou fundo nos meus olhos. - Você é um homem de muita sorte, as cartas dizem que não foi fácil até aqui, sobreviver na América, muitas dificuldades, mas que de agora em diante sua busca finalmente iria encontrar um eixo. Muitas pessoas tentam atrapalhar, mas você é um homem bom e as coisas com o tempo vão acabar se encaminhando, da maneira que você quiser...

Ela abriu a rolha da garrafa e uma lufada de vento passou, desarrumando a seda sob as cartas. Uma coruja, pousada numa estaca, cantou. Tomamos cada um uma dose, e pedi pra repetir. 
O álcool subiu. O fato dela ler as cartas e ver um futuro promissor me deu muita vontade de beijar, de que ela fizesse parte desta minha sensação, talvez como minha mulher, finalmente. Mas era cedo. Peixe grande, tinha que dar linha, muita linha até que ele cansasse, aí sim poderia, muito calmamente, puxá-lo até o barco.
Mas verdade seja dita, minto. Não era verdade. De maneira nenhuma poderia acreditar em cartas, astros ou Deuses. Meu ceticismo não permitia. Pra mim tudo é muito mais fácil - ou difícil - do que parece: morreu virou adubo, e pronto. Sem essa de ser arrebatado da Terra pro Paraíso. Muito claro, ou escuro, trevas, por que aí não tem aquela de sofrer na Terra pra usufruir no céu. Bom, sem maoires delongas, a grande verdade é que eu não estava acreditando nas cartas, achava tudo aquilo uma baboseira, gostava mesmo é de ver as mãos dela, o olhar, as palavras, e se pra isso precisasse certificá-la de que as cartas e sua leitura eram importantes, o faria, com todo prazer.

A partir dali, dentro da filosofia de cansar o grande peixe, passei a contar a ela todos os casos que tive, as frustrações, amores, quando abandonei, quando traí - fui traído. Mais do que o tarô, escutar aquelas minhas palavras foi como mágica. Como se eu entendesse seu drama particular, sendo que o dela, o meu, pertence a todos. Universal. Sem grandes segredos.

E cada caso que eu contava, cada decepção, demonstração de afeto, paixão, a cigana ia se derretendo, se entregando, até que percebi que o beijo era nosso, meu e dela, em questão de segundos.

Peguei na sua mão e olhei nos olhos. A luz do fogo dourava seu rosto e atravessava o cristalino até contrair a pupila.
Ela me parecia nervosa, seu olhar fugia do meu quando era muito intenso, como se não quisesse a entrega, mas cada vez que nos olhávamos, mas tempo durava, e passamos a nos corresponder pelos tipos de piscadas, pra onde caminhava o globo ocular, até que fui me aproximando e beijei, de leve, uma boca se abriu, gosto de vinho do porto, doce, lábios pequenos e macios, respiração quente e saborosa, passei a mão pelo cabelo, pela nuca, pele macia, brisa leve me ajudava a penteá-la, mais beijo, língua, até que deitamos ali mesmo, completamente apaixonados, esquecendo o que de ruim passava lá fora, velozmente, com as nuvens, pela internet, o dinheiro ganho, gasto, tudo perdeu o sentido, porque na verdade, nada daquilo fazia algum, senão nós, no céu estrelado do deserto.