quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Na Calada da Noite
















A água do mar mais quente que o ar. Sobe uma névoa que se dissipa pelos pequenos barcos ancorados perto da praia até lamber os corredores de pedra e musgo das casas. A brisa úmida balança uma ceroula no varal, preenche de pequenas gotas folhas de uma flor violeta. Um velho de barba, todo encasacado, desce a ladeira puxando duas cabras. Passam pela frente de uma mercearia fechada. No lixo, restos de verdura, folhas de alcachofra, rabos de peixe. Sobe uma senhora gorda, meias de lã, vestido preto marcando a calcinha. O velho pára pra olhar. Uma das cabras alcança um maço de manjericão. O velho puxa. O sino no pescoço dela tilinta, berra. Estamos falando de Trieste, Itália, 1938.

Francesca era filha de Fritz, triestino rico, empresário construtor de estradas e pontes na Europa. Fiona, mãe de Francesca, usufruía dos luxos que o marido lhe proporcionava. E não pense que eram poucos: Braceletes cravejados, muitos quilates, bolsas e visons com raposas, viagens, estações de ski. Uma vida de condessa regada `a boa literatura, carteados e aos cuidados com os filhos. Não que ela nunca tivesse feito algo. Até tentou se dedicar ao piano, estudar música, mas Fritz foi terminantemente contra. Achava que tocar, dançar era coisa de prostituta.

Nada é de graça nessa vida. Fiona sempre soube que ele comprava seu afeto com grana. Há tempos dormiam em camas separadas. Eram vistos juntos em eventos sociais; mas em casa, mal se falavam. Talvez no jantar, com as crianças na mesa, Fritz elogiava um prato. Fora isso, como se um não existisse pro outro.
Ela pagava um preço alto. Deixou de ser o que sempre quis, pianista, pra se dedicar ao casamento. Constatou que talvez não fosse este o caminho. Pensava muito na separação.

Os primeiros quatro anos de casamento foram fantásticos. Paixão legítima, Fiona não enxergava uma vida ao lado de outro. Fritz definitivamente era o homem da vida dela. Mas o tempo foi eficaz e não deixou que as diferenças, ocultas no noivado, ficassem de fora no dia a dia. Foi os filhos crescerem pra coisa minguar. Problemas foram aparecendo. Fiona sempre se queixou do marido ser fechado. A sua necessidade de trocar angústias, dores, vontades, seja sobre filhos, relação, nunca foram correspondidas, sequer ouvidas. Fritz sempre se fechou dizendo que o problema era dela, que ele tinha coisas mais importantes a tratar no trabalho, que aliás, garantiam o queijo brie na mesa e a fronha de algoodão egípcio onde ela deitava a cabeça todas as noites.

Fiona abominava o embrutecimento do marido com todas as forças. Ele não se parecia em nada com aquele que ela disse sim no altar, inclusive fisicamente. Pra onde foi aquele menino alegre que gostava de ver as estrelas, caminhar na praia, se declarar. E quanto mais sozinha e distante do ideal que se perdeu, maior a raiva que sentia. Uma mágoa contida, amarga, que aparecia nas bolsas escuras sob os olhos, nas rugas desenhadas no rosto.

Sabemos que a vida nos reserva surpresas. Coisas que damos por certo e nos surpreendem com algo completamente diferente. Aos olhos de quem via e acompanhava o casal, impossível dizer que algo acontecia entre os dois. O relacionamento estava morto e sobrevivia única e exclusivamente por conta das aparências vigentes na época.

Mas era na calada da noite, quando o vento faz a curva e todos os gatos são pardos, que Fritz era visto com uma certa frequência pela governanta das crianças cruzando de meias o corredor do casarão. O chão de madeira estalava sob o tapete persa. Entreabria a porta do quarto de Fiona até que o feixe de luz do corredor alcançasse a cama. Observava ela dormindo, as pantufas, o jarro d’água, os óculos de leitura. Então, com muita cautela, se aproximava, descia as calças e entrava debaixo do edredom de plumas de ganso. Alguns segundos de silêncio, Fritz ficava paralizado, pensando a melhor forma de romper o constrangimento, cimentar a sensação de culpa e avançar. Fiona sabia exatamente o que ele vinha buscar e fingia dormir. Respiração profunda. Travava pernas e braços contra o corpo e esperava pela improvável desistência do chacal. De nada adiantava. Fritz sempre resolvia agir, desabotoava as duas camadas da camisola e arriava as calçolas dela. Fiona soltava grunhidos sufocados pelo travesseiro e balançava o quadril de um lado ao outro, como um bebê que desvia a boca da colherada de sopa quente, evitando a mira quase certeira do lobão depravado. Fritz ficava ainda mais instigado com a luta inútil e segurava com força as duas bandas de bunda da patroa até que finalmente, por cansaço, ela cedia. A governanta, no quarto abaixo deles, que sofria de insônia lendo um interminável Proust, escutava o lento ranger da cama acelerar, acelerar, a cama batia na parede como um motor velho de calhambeque `a diesel até que finalmente todo e qualquer movimento cessasse. No mais completo silêncio, a governanta sentia a respiração ofegante dos dois pelo ir e vir das molas da cama. Bastavam cinco minutos pra que Fritz se cansasse sobre Fiona. Vestia as calças e, como se nada tivesse acontecido, voltava pelo mesmo corredor estalando os tacos de madeira.

Naquela noite a governanta largou o Proust e apagou o abajur. No escuro, inspirada pelos dois, trançou as pernas pensando nos braços do açougueiro, nas pernas de um barqueiro de Gênova. Quando recobrou a consciência, pouco antes do torpor virar sono, se perguntou, perplexa, por que raios a patroa nunca trancou a porta por dentro. Pensou: No fundo, bem lá no fundo ela deve gostar.

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