sábado, 10 de novembro de 2007

Tchau Sushi, oi Vale Transporte













Aos dezessete anos de idade Duda foi trabalhar com o tio, dono de um posto de gasolina. Atendia os fregueses na loja de conveniência. 
Por lá viu passar todo tipo de gente. Bêbado atrás de vodka barata, senhoras esperando o pãozinho fresco, meninas gostosinhas comprando chocolates e chicletes, gordas e sorvetes, magros e águas de coco, frescos e queijos de cabra. 
Mas aquele trabalho era de doer. Duda não suportava mais passar os finais de semana atrás daquele balcão, sendo que o tio lhe pagava merreca e ainda cobrava seriedade. 

Aí começou a esculhambação. 

Quando sozinho na loja, em plena madrugada, Duda saiu abrindo pães e patês sem a menos discrição. Comia atrás do balcão, agachado, e já levantava pra atender com a mão melada, boca cheia. Seu tio, no primeiro mês que deu baixa no estoque, já detectou o desfalque: 24 danoninhos, 3 quindins caseiros, 8 pacotes de camisinha, 4 pilhas AAA, 5 barras de cereais, 3 potes de patê. Ele poderia desconfiar de qualquer um, menos de Duda, seu querido sobrinho. Logo despediu a negra da área de frios e o pardo da limpeza. 
O tio então instalou câmeras num circuíto interno por todo o posto e loja de conveniência. Duda estaria sendo vigiado 24 horas por dia. Aí perdeu a graça, pensou. Sem os pequenos furtos que ele levava pra casa da namorada e de amigos, aquele trabalho não fazia o menor sentido. Ele não estava ali por que precisasse. Ou pelo menos pensava que não...

Duda, filho de pais classe média, nunca foi de se preocupar com a sobrevivência. Muito pelo contrário, Seus pais sempre lhe deram tudo. Viajava com os amigos pra praia, cinema, restaurante com a namorada. 
E não pensem que com a idade isto se resolveu porque com 17, 18 ainda vá lá, mas aos 25 a coisa começa a ficar preocupante, as pessoas precisam saber se virar, e Duda continuava na mesma toada de gastos no cartão de crédito da mãe, inclusive, gastando mais do que ela.

Bom, aí os pais decidiram dar uma prensa no rapaz. Ó meu filho, você tem que procurar um trabalho, alguma coisa pra fazer, se manter, não dá mais pra sua mãe ficar pagando academia, pizza com a namorada, etc.

Duda ficou puto da vida. Como assim os pais não querem pagar coisas tão básicas? Eu não faço nenhuma estravagância, só vou ao sushi duas vezes por semana com a Cris, pago academia e compro roupas e livros. Não vão querer bancar esta merreca? Pão duros, isto que eles são...Pão duros.

Puto da cara, Duda contou a história pra um amigo seu engenheiro, que já trabalhava, ganhava o seu, tudo nos conformes. Achou que o cara fosse dar uma força, falar que os pais estavam sendo duros coisa e tal. Mas que nada, não só concordou com as colocações dos pais de Duda, como o massacrou dizendo que era ridículo ele querer que os pais mantivessem suas mordomias. Se ele gostava tanto de um sushi, de um tênis tchapitchura, que fosse atrás do din din pra isso, sem colocar os pais na história. 
Duda ficou mal. Pela primeira vez caiu a ficha de que o errado era ele. Naquele dia saiu pelas ruas e viu o que não enxergava antes. Olhava pra cada pessoa, umas mais tristes que outras, e percebeu que cada um daqueles seres estava na batalha pela sobrevivência. Que de alguma maneira teriam de dar um jeito, muito bem dado, de diponibilizar sua mão de obra pra alguma lacuna de trabalho. E não só. Se quisessem mesmo sobreviver dignamente, teriam de executar estas tais tarefas da melhor maneira possível e contar com um pouco de sorte pra estar na hora certa, no lugar certo. 
Puta que os pariu, pensou. 
E naquele dia, pra completar, um frio de rachar, cidade cinza, muito trânsito, mendigos na praça fizeram sua parte como cereja do bolo. E cada vez mais, na base da bola de neve, as fichas foram caindo, a postura dos pais fazendo sentido e tudo mais, tudo mais, uma dor grande comprimiu o peito de Duda, ele sentiu vontade de estar entre dois grandes colchões num quarto escuro sem janela e que o máximo de pessoas pulassem em cima do colchão esmagando ele até a exaustão e que depois elas fossem embora e o deixassem dormir por longos 6 meses pra que tudo passasse, ou voltasse ao que era antes dele sacar a real.

Mas nada disso aconteceu. Muito pelo contrário. Os pais realmente cortaram o cartão de crédito dele e eliminaram pela raiz qualquer possibilidade de mimo que Duda pudesse usar de refúgio. Ou ele trabalhava ou trabalhava, sem saídas.

Durante aquela semana Duda ainda tentou manter seu status e sua graça com a namorada. Restava um mês de academia no cartão da mãe e uns duzentos paus na carteira. 

A namorada Cris, noite de sexta, estava animada pra comer alguma coisa fora e depois sair pra dançar. Duda pediu o carro pra mãe, como sempre fazia. A mãe, vendo um filme com o pai na TV, que antigamente levantava como uma ovelhinha, ia até a bolsa, pegava a chave, 30 pratas e entregava a Duda com um sorriso amarelo, desta vez nem se mexeu. Num momento que a legenda do filme permitiu, ela simplesmente disse: não rola mais carro, filho. Pega ônibus, vai a pé. E voltou ao filme. Duda não acreditou. As palavras da mãe correram como veneno na corrente sanguínea, Duda curvou as costas, as mãos suaram, a boca curvou, o saco murchou. Aí sim a mãe pegou na veia. Agora, além de estar sem a academia e sem grana solta pra dar suas risadas, ele não tinha o carro pra sair com namorada, que, diga-se de passagem, era uma puta de uma fresca. 

Duda passou a mão no telefone e ligou pra namorada:
- Onde cê tá?
- Tô saindo do Iguatemi com a Sô, cê me pega aqui?
- Então, hoje não rola, deu problema no carro, tô sem hoje, você pode pegar o dos seus pais?
- Pô DUUUUUUU, cê sabe que meu pai não gosta de emprestar o carro, pega um táxi então?


Duda não teve coragem de dizer não pra gata, nem que estava sem o dinheiro do táxi. 200 pila. Era tudo que tinha sobrado da sua fase áurea de filhinho de papai. Pela primeira vez olhou aquelas 4 oncinhas no verso das notas e valorizou. Em mente contabilizou: - caralho, daqui até o Iguatemi de táxi já vai 30 paus fácil.

Sem dar tchau aos pais, puto da cara, saiu de casa atrás de um táxi. No caminho pensou: - eu não vou me rebaixar, logo logo arrumo alguma coisa e reponho esta grana do táxi, vou ganhar muito dinheiro ainda, é só uma questão de tempo.

Com isso em mente, Duda ficou aliviado. O táxi, por mais passageiro que fosse, lhe dava dignidade e o status que até pouco tempo atrás era seu, e isso, like morfina, o tranquilizava. O táxi parava no sinal e Duda via aqueles pontos de ônibus lotados, gente do cabelo ruim saindo pelo ladrão, churrasquinho de gato, pagode, axé, mãe com filho no colo, e ele foi apertando o puta que o pariu, apertando, até pedir pro taxista aumentar o ar e pôr um som ambiente.

A namorada esperava na frente do Shopping, toda bravinha com a amiga.

-Pô DUUUUuu, que demora meu, a gente teve que ir até a Parmalat tomar um sorvete porque cê tava demorando demais.
- Desculpa aí, tava mó trânsito, tudo parado.

( Duda largou 34 reais com o táxista)

- Então Du, vamos naquele sushi novo que abriu perto do clube Hebraica? Tá super barato, tá saindo 47 reais cabeça com direito a tudo, meu!!! Adoro Teka de salmão e dizem que o de lá é delicioso.

(em mente Duda contabilizou 34 táxi, 47 X 2 do sushi = 128 pratas)

Cris, Duda e Sô foram a pé até lá, eram duas quadras tranquilas, prédios com seguranças, não havia o que temer, mais ou menos como andar numa rua de Milão. 
Enquanto as duas falavam da balada de ontem, Duda já estava em transe com seus tormentos. Olhava pras duas, pra rua, pros carros e via um único corpo estranho, algo agora decifrável, mas por enquanto, intransponível. Cris, a gatinha dos sonhos dele, conquistada a duras penas na base da infra, do carro, dos jantares, dos contatos, estava prestes a conhecer outro Duda, um Duda que o próprio tinha vergonha de apresentar, mas que dada as proporções, ele não tinha como evitar que ela conhecesse. Não depois daquele sushi e do táxi de volta, quando seus últimos 200 reais gastos praticamente em um dia, teriam terminado, escorrido pelo ralo. E no dia de amanhã, depois da também última transa com a namorada, Duda finalmente teria que entender toda aquela engrenagem da melhor maneira possível pra conseguir sobreviver. Do contrário, tchau sushi, tchau Cris ( sim, porque ela não iria entender), e Voilá! Oi ônibus, oi comida à quilo, oi vale transporte.

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