Nada mais fazia sentido, pelo menos para Carl. Na empresa ele apostou todas as fichas, mas não percebeu em tempo a hora de tirar o time de campo. Ou percebeu, mas não teve culhão pra fazer. A grande verdade é que ele nunca gostou de trabalhar em grupo, pelo grupo, com aquilo, e acabou por sabotar o trabalho, prejudicando os outros e a si mesmo. A empresa ia de mal a pior. A grana pouca, contada. Aluguel, contador, fornecedores, gerente do banco ligando, seguro do carro vencendo, um verdadeiro inferno, Vietnã no chinelo.
Pois Bem, Carl teve que vender seu Vectra 2.0 mês passado. No lugar, pegou um chevet, chevelho, funilaria fodida, pintura
descascando, sem escapamento. O glamour foi pras picas e ele não sabia muito lidar com a coisa. Cair dessa maneira o patamar de vida foi proporcional `a queda de cabelo, as entradas atacaram as têmporas, Carl, 36, parecia ter 50.
Além de todos os problemas no trabalho, das dívidas, em casa não era melhor. Sua mulher gozava da mesma angústia, derrotada com a escolha do macho, descer do patamar a deixava louca. Não poder fazer uma comprinha, regular no telefone, tudo parecia um pesadelo.
Numa noite fria e chuvosa de quinta feira, quando as pixações e os mendigos da cidade parecem dominar a paisagem, Carl saiu do trabalho tarde. O combinado era que ela ligaria quando descesse na estação Sumaré e Carl a pegaria no chevelho, assim economizariam gasolina, ela trabalhava em Santana. Naquele frio, vidros embaçados, Carl olhou a quilometragem do carro: 93450. Ele sabia que tinha colocado 10 reais de manhã, quando o carro marcava 93398. Portanto ele havia rodado 52 quilômetros com os 10 reais. Já que o marcador de combustível tinha quebrado, era assim que ele controlava quanto ainda podia andar.
Marta esperava na saída do metrô, no frio, enrolada num cachecol que a avó fez, uma bolsa preta já gasta, leve olheira, muito mal humorada. Muito. O Chevelho escostou, o parabrisa arranhou o vidro, a palheta já meio solta, a correia cantou. Carl freiou com a ajuda do freio de mão, já que só no pé o carro não respondia. Marta puxou a maçaneta e nada, a porta não abria. Puxou de novo, Carl tentou abrir por dentro, nada. Ela gritou. Um pipoqueiro que passava se assustou e parou de mexer o sal na pipoca. Carl tentou de novo, empurrou com o pé, ela de fora puxando, os dois se olhavam, o chevelho ligado tremia, a correia assobiou, e finalmente a porta se abriu. Marta entrou sem falar uma única palavra.
Carl, sem ligar se ela estava brava ou não, só pensava nas contas e dívidas. Sua cabeça fervilhava em números, em negativos, nas carecas dos contadores, em extratos. Marta, também longe, pensava na amiga que o marido tinha sido promovido, os dois estavam em Comandatuba, Bahia, passando uns dias no resort. Sendo que esta amiga, anos atrás, estava na merda. Pesadelo.
Carl e Marta vinham no chevelho pela Av. Rebouças e o trânsito, apesar da hora, 10 p.m, continuava carregado. O chuvisco fino se intensificou, e gotas maiores caiam quando passavam sob as árvores. Marta acompanhava os carros. Nenhum fusca, nenhum chevet ou monza classic. Eles eram únicos. Exclusivos. A chuva aumentou ainda mais e a vedação da janela deixava que as gotas geladas respingassem o braço de Marta. Ela secava com a ponta do cachecol e contorcia as pernas pra não gritar com Carl, cada problema, dada a situação, a deixava cada vez mais nervosa, por menor que fosse.
Carl olhou o velocímetro. 93458. No limite. A qualquer momento o carro ia parar, só o bafo de gasolina, e ele sabia que na carteira não tinha um puto. Seus últimos cinquenta reais ele pagou dois dias atrás no amortecedor do chevelho, e o cara que devia 400 reais pra ele, desligou o celular há duas semanas. A chuva aumentou, ouviu-se pedras de gelo no capô, folhas, ventania, Carl pediu que Marta, com a ponta do cachecol, desembaçasse o vidro. Silenciosamente ele falava consigo mesmo: vai dar, tem que dar, mais 2 km e estamos em casa, não pode parar agora.
O carro começou a engasgar, o motor falhar, os carros atrás buzinando, e uma tensão venenosa subiu pela coluna de Carl. Claro, em questão de segundos sua mulher, absorta na chuva, sem conhecer direito motor, se daria conta que aquele engasgo era falta de gasolina. Fora que não era a primeira vez.
Carl diminui a pressão no acelerador, tentando com isso diminuir a injeção de combustível no carburador, mas era tarde, o chevelho deu mais dois engasgos, e num coice de embreagem o carro parou de vez.
Silêncio, chuva, buzinas, barulho do freio de mão puxado.
Carl olha pra Marta e diz:
-Acabou a gas..
-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH, eu te odeeeeeeeeeeeioo!!!!!
Ela abre a porta e desce no meio do temporal. Buzinas, luzes em desfoque pelo vidro embaçado, Carl desce o banco e deita, não vê saída, nem quer tentar.

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