segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Crescer para onde?

Se numa cultura de bactérias você joga uma gota de sacarose, as bactérias consomem o máximo que podem do açúcar, sem nenhum tipo de controle. A hora que o açúcar acaba, elas morrem juntas. O homem já consome mais de uma Terra em recursos naturais para manter o seu desenvolvimento. Todo mundo quer crescer, o Lula diz em 4,5 % ao ano, promete instalar não sei quantas hidrelétricas para suprir a matriz energética brasileira, que não pode parar de crescer, crescer e crescer.

Me pergunto: Crescer para onde? Neste modelo bactéria X Açúcar, crescer significa manter a indústria a todo vapor, gerar empregos, consumir reservas até atingir a meta absoluta: o colapso geral. Porque com este modelo de desenvolvimento estamos realmente acelerados em direção a extinção da espécie. O meteoro somos nós, de dentro pra fora.

Não sou esquerdinha purista chato, nem reacionário, muito menos frequento a Assembléia de Deus, mas me preocupa a tal da índole humana que foi depurada ao longo dos séculos e deu provas concretas que o caminho é este: da auto-destruição. O dinheiro sempre esteve na mão de poucos e continua (sem culpas). Até porque são estes empresários que geram empregos. E da mesma forma que eles conseguem transformar idéias em produtos de sucesso e gerar muita grana e vagas de trabalho, faz parte da índole destes caras explorar, consumir e concentrar riqueza. E isto o cara vai levar até a morte. Ele só opera nesta frequência.

E aí, ou você entra no jogo para sobreviver, pensando que a vida é curta, ou é marginalizado, com grandes chances de passar a existência na merda. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

De fora a fora, um punhal na egotrip

domingo, 28 de dezembro de 2008

Férias até dia 02/01/2009

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Automóveis?

Realmente não entendo quando os jornais dizem que o governo vai ajudar a indústria automobilística a sair do sufoco injetando bilhões. É mais ou menos com dizer: "O verão deste ano vai bater os 40 graus no Rio, e o governo continua injetando milhões na indústria de lã, incentivando o carioca a usar cachecol na praia". A meu ver a questão não é salvar uma Fiat, uma Volks. A questão é entender que o carro, para o fim que foi dado, pelo menos nas grandes metrópoles, não cumpre mais o seu papel.  Se a função é deslocar-se pra lá e pra cá numa velocidade incrivelmente maior a que alcançamos andando, já era, porque na hora do rush, é bem possível que a pé, você chegue antes em casa. Como continuar a incentivar uma indústria que já saturou? Que não faz mais sentido? Seis milhões de veículos em São Paulo. Parou! Travou! Colapso! Por que não usar toda esta grana para pensar numa maneira gradativa de remanejar os trabalhadores do setor? Usar todo este aço em metrô, plataformas, a borracha do pneu no asfalto. Achar com urgência alternativas para o transporte público? Colocar na cabeça que a era do automóvel, da maneira como se dá, acabou. Simplesmente porque o planeta não comporta mais. Bom, mas e o status? Que todo mundo quer ter o seu carrinho para tirar uma chinfra isto é fato. Mas acredito que mesmo o tempo tratará de enferrujar o desejo de se ter um. Basta olhar, numa avenida como a Av. Rebouças, na hora do rush, a cara de banana dos motoristas enquanto avançam 2,3 km por hora. Alguns fumam, falam ao celular, coçam o saco, mas a maioria encosta o braço na janela e olha pro teto, com cara de cu, pagando 60 parcelas de R$ 600,00 + impostos para ficar parado. Bela compra! Quitou seu apartamento?
Por mais que injetem grana, uma hora a população percebe que a coisa degringolou e precisa de mudança. Por mais preciso que os comerciais sejam na sua lavagem cerebral. Claro. Se a Globo fizer uma campanha nacional de uso de cachecol no verão, vai ter carioca achando lindo aquela coisa de lã enrolada no pescoço para entrar no mar de Ipanema. Caetano pode até fazer outra versão de Menino do rio. Mas logo todo mundo tira e troca pela canga, boné, fio dental. O mesmo acontece com o carro. Ele vai começar a ficar na garagem, as bicicletas vão sair, e ninguém mais vai querer ficar no frenesi de trocar por um zero KM todo ano. Já pensou se trocássemos o status do carro pelo culto ao corpo saudável. Que as mulheres olhassem não para um carrão, mas para o cara bem dormido, boa postura, bebendo seu suco de acerola no parque, sorriso lago, bicicleta ao lado. Grande mudança de paradigma. Não aconteceu com o cigarro? Fumar não era chique? A questão é como mudar. Milhões de trabalhadores do setor vão se foder? Vão. Talvez se eu fosse um deles não estaria escrevendo este texto. Mas o que adianta alguém dizer: Caminhe até o precipício e pule, eu pago suas contas até você chegar lá.   Mais ou menos o que acontece com os metalúrgicos do ABC. Eles querem seus postos a qualquer preço, mas produzindo cachecol para o verão carioca.
Sustentabilidade com responsabilidade socioambiental. Etanol. Dar de beber a uma frota com sede. Parada com o motor ligado. O que adianta foder com a Amazônia, avançar a fronteira agrícola produzindo biocombustível para fazer lã no verão. A gente só tira o cachecol quando o frio aperta. Use a mesma lógica na sua garagem.
A indústria de automóveis parace um grande ditador que perde a guerra. Manda as tropas avançarem até o último homem, e quando tudo está perdido, mete um balaço na cabeça.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caixa de Bombons

 Lúcia não queria casar tão cedo e continuava a morar com os pais. Dizia que a idade boa pra isso é 34, 35 anos. Não menos. As amigas achavam que ela estava maluca. Que nesta idade já se tem filho grandinho na escola. Mas ela se defendia. Dizia que esperaria pelo homem ideal, que seus poucos namorados não deram prova alguma de merecimento do cargo, que ela não entraria, como muitas, no desespero. 

  Lúcia se achava uma mulher interessante. E, dentro do possível, realmente o era. Mergulhada nas suas convicções, gostava mesmo é de tirar sarro do desespero das amigas. Elas faziam de tudo pelos homens, disputavam às unhadas quem macho passasse na linha de tiro. Lúcia dizia a si mesmo: "Fracas, dependentes, tudo em nome da carência".

  Verdade seja dita, Lúcia não se importava muito de ficar sozinha. Tinha lá os seus consolos pra segurar a barra. Guardava seus brinquedinhos de borracha, réplica perfeita do verdadeiro, numa caixa metálica de bombons franceses, toda decorada de carrosséis. Nunca desconfiariam que atrás de alguns livros da estante do quarto, toda manhã, antes mesmo do café, retirava cuidadosamente aquele Grandes Sertões: Veredas pra apanhar sua caixa. Com cuidado, levava até a cabeceira, fechava as cortinas e deixava só a luz do abajur sossegar. Eram 20 minutos de deleite em gemidos contidos. A gaveta do criado-mudo sempre cheia de pilhas duracell e uma lixa de unha que servia pra raspar no aparelho, os contatos sempre oxidados pelas baterias. Então voltava a cochilar mais 1 hora, leve como pluma, antes de finalmente levantar. E que café da manhã. Aquele seu ritual na cama fazia ela esquecer de tudo, de todos e abria seu apetite como se numa longa noite de amor. Gostava de mel, fritava dois ovos.

  Bom, o tempo foi passando e Lúcia percebendo que as coisas não mudavam - pelo menos não enquanto ela não mudasse. Sua teoria era de que com o tempo toda sua auto-suficiência serviria de isca pros homens. Que eles sentiriam nela uma aura de integridade, e que ficariam perdidamente apaixonados por aquela sua personalidade forte. E Lúcia freqüentava bares descolados, livrarias tchapitchuras, mas nada de aparecer alguém com uma cantada que fizesse jus ao seu alento. Então voltava pra casa e mergulhava num banho seguido de boa leitura na cama. Lia vinte páginas e não vinha o sono. Então levantava atrás da sua caixa de bombons franceses. Muitas vezes, depois de guardar a caixa atrás dos livros, já saciada, esboçava um choro contido, batia uma aflição que lhe esquentava o corpo, se olhava no espelho, abria a janela, sentia o mundo correr sem ela e muitas vezes culpava a caixa de bombons por tudo aquilo. Noites de insônia.

  Lúcia decidiu mudar. Como dizem por aí, fazer uma mudança radical. Pintou cabelo, fez luzes e resolveu se dar um banho de loja. Foi numa daquelas tendas indianas, feiras descoladas de sábado, e comprou uma calça estampada de elefantes. Tecido leve, dessas folgadas na perna, mas que no andar ao vento, deflagram a qualidade e formato do derrière. Apesar de ter os traços fortes, e de não se achar bonita, sabia dos seus potenciais, como toda mulher. As amigas já notavam a diferença e começaram a especular o porquê daquela sensível transformação. Lúcia, antes tão recatada, dos trajes opacos, sem mostrar o corpo, agora trazia um tom sobre tom casual, cores suaves, tudo de muito bom gosto.

  Mas justamente por este seu temperamento forte que ela não dava o braço a torcer. Não iria, de forma alguma, flertar descaradamente. No máximo uma olhadela, uma espera pelo interesse, nunca digladiar olhares numa paquera. A calça indiana até que chamava a atenção, mas não era o suficiente pra levar ao bote. Sua calça indiana era roupa de primeira comunhão pros jovens de hoje.

  As conversas com as amigas já tinham outro tom. Se antes Lúcia achava o maior besteirol ficar falando de homem, agora ela já estava antenada nas histórias. As solteiras contavam o desempenho dos casinhos; as casadas de como eles engordam. E toda vez que Lúcia voltava pra casa, tirava sua calça indiana, tomava sua ducha e afastava os dois livros atrás da sua caixinha de bombons. Era sua morfina. Ali ela tirava um pouco da culpa por não encontrar, que fosse, um cafajeste qualquer, e alimentava sua procura pelo cara ideal.

  Mas o tempo salivava. Sete, oito meses e nada de encontrar o prometido. As amigas a sentiam meio abatida, sempre em casa lendo, sozinha, e acabou por uma delas, Sheila, perguntar a quanto tempo ela não fazia. Lúcia ficou vermelha, pensou mentir, mas acabou por contar que logo mais completaria um ano de estiagem. Pasmaram. Todas ali eram bem resolvidas, uma semana sem já era preocupante, e de repente Lúcia se revela. Sheila, a mais burrinha de todas, pra lá de insensível, falou que aquilo era o mesmo que ficar um ano com prisão de ventre. Ajudou. Kátia, mais esclarecida, disse que ela deveria sair mais, procurar as pessoas, que via um embrutecimento muito grande causado por traumas de paixões antigas e que não iria ajudar em nada ficar daquele jeito; ela tinha de se abrir, estar aberta para novas oportunidades. Lúcia, pra se proteger, manteve o discurso de que trabalhava muito, que não tinha tempo pra namorar, que ela queria crescer profissionalmente e que um relacionamento, agora, iria prejudicar a atenção dada ao lavoro.
Mas os meses iam se passando, e cada vez mais Lúcia era convidada pro cerimonial de alguma amiga. Agora o grande mal era acompanhar um casamento. Antes, a maioria namorava, no máximo morava junto. Mas de um tempo pra cá suas amigas de faculdade, de colégio, vinham casando, uma atrás da outra. Às vezes ela era convocada pra ser madrinha, noutras simplesmente participava da cerimônia. E a cada casamento, a cada benção do padre, a cada dedo na aliança, sentia suas mãos suarem e vinha um medo abissal, algo que tomava sua mente com os dizeres "Vai ficar pra tia, vai ficar pra titia". Lúcia começou a lutar pelos buquês que as amigas lançavam. Chegava a se jogar no chão com as outras desesperadas, e sempre ficava de olho em algum solteirão dando sopa nas festas depois da igreja. Foi numa dessas baladas, em plena pista de dança, que Lúcia cruzou olhares com Raul. Ela já meio bebinha das suas cinco, seis taças de champagne, misturou com vinho branco e já não podia, como antes, conter seus olhares. O desespero por alguém fez do álcool o fim das rédeas. Lúcia agora estava dada ao galope. Raul, do cavanhaque George Michael, sentindo a vulnerabilidade da moça, aproveitou para fitá-la sem descanso. Quando percebeu a constante recíproca, veio como quem não quer nada e puxou logo papo. Frivolidades. Lúcia era só sorrisos. As amigas se cutucavam umas as outras pra não deixar passar em branco o grande acontecimento, talvez até maior que o próprio casamento do dia: Lúcia estava sendo cortejada. 

  Mas no tempo de falar alguma coisa no ouvido, Raul avançou e tentou um beijo no pescoço, um lance meio precipitado. Lúcia, em meio ao seu longo período de ferrugem, assustou, e pediu que ele se afastasse. Ela então saiu da pista, talvez um pouco raivosa, e Raul veio, às mil desculpas, tentando a pegar pelas mãos - neste momento havia quase meia festa acompanhando o caso. 

  Já no canto do salão, Raul se declarou. Que ela era linda, que ele não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, mas que era real, era amor e papapapapapá, popopopopopó, toda uma ladainha, famigerado xaveco. Lúcia, ainda que pra completar um ano sem, desdenhou. Disse que ele não fazia seu tipo, que ele tinha cara de cafa, que sabia do seu passado negro quando agarrou duas primas ao mesmo tempo numa festa no Jardim Botânico e que não estava a fim de homem galinha. Raul não esperava que ela soubesse de tanto e ficou sem palavras. Foi o ponto final. Gaguejou, fraquejou e consentiu no silêncio toda a verdade da história. Ela pegou sua bolsa, algumas flores e se foi com o último bonde pra casa. 

  Raul, desesperado, interrompeu a dança de Sheila com o noivo para pedir o telefone de Lúcia. Anotou num guardanapo. 

  Manhã seguinte, na ressaca, Lúcia se desesperou. Percebeu que tinha desperdiçado uma chance. Fechava os olhos e via Raul, o roçar daquele cavanhaque. Sentiu novamente aquela sensação ruim de carência, de querer abraçar alguém e num acesso de fúria, ao fim de mais uma sessão com a caixa de bombons, arremessou-a, sem pensar, pela janela. A caixa, ainda no ar, se abriu e foi tampa pra lá, brinquedo pra cá, até que se estatelaram no paralelepípedo da rua. O brinquedo de borracha ainda quicou duas vezes. Fez-se aquela roda de gente. Lúcia, ainda ofegante, fechou a janela e agachou quietinha, para que ninguém a visse, nem de onde tinha voado todo aquele aparato. Neste instante tocou o telefone. Lúcia disse a si mesmo que não atenderia, continuou agachada. O telefone insistiu, insistiu, até que alguém atendeu da sala. Logo ela escutou sua mãe na porta do quarto, era um moço na linha. Ainda agachada, engatinhando para fugir da janela, puxou do gancho. Era Raul. Lúcia o tratou com toda a delicadeza desse mundo.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Boa estória bem contada

por Robert Mckee - Story - editora arte & letra

Uma estória bem contada significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir. O que dizer você terá que descobrir sozinho. Ela começa com talento. Você precisa nascer com o poder criativo para juntar idéias de uma maneira que ninguém nunca sonhou. Depois, você precisa trazer ao trabalho uma visão dirigida por um novo panorama sobre a natureza humana e a sociedade, acasalada com um profundo conhecimento de seus personagens e seu mundo.

Você deve escrever e suportar a solidão. Sua meta deve ser uma boa estória bem contada.

Assim como um compositor deve atingir excelência nos princípios da composição musical, você também precisa dominar os princípios correspondentes da composição da estória. Essa arte não é mecânica  nem macete. É um concerto de técnicas pelas quais criamos uma intriga de interesses entre nós e o público. A arte é a soma final de todos os meios pelos quais deixamos o público profundamente envolvidos, mantemos este envolvimento e, finalmente, recompensamo-nos com uma experiência comovente e significativa.

Sem a perícia na arte, o melhor que um escritor pode fazer é apanhar a primeira idéia que vem em sua cabeça, e daí sentar desamparado em frente ao próprio trabalho, sem poder responder `as terríveis questões: "está bom? Ou está um lixo? E se está um lixo, o que eu faço?" O lado consciente da mente, fixada nessas terríveis questões, bloqueia o subconsciente. Mas quando o consciente é posto para trabalhar na tarefa objetiva de executar a arte, o espontâneo emerge. A perícia na arte libera o subconsciente.

Qual é o ritmo do dia de um escritor? Primeiro, você entra no seu mundo imaginário. Enquanto as personagens falam e atuam, você escreve. Qual é a próxima coisa a fazer? Você sai de sua fantasia e lê o que escreveu. E o que você faz quando lê? Analisa. "Isto é bom? Isso funciona? Por que não? Devo cortar? Adiciona? Reordenar?" Você escreve, você lê; cria, critica; impulso, lógica; cérebro direito, esquerdo; re-imagina, reescreve. E a qualidade de sua escrita, a possibilidade de perfeição, depende de seu comando da arte que lhe guia para corrigir a imperfeição. Um artista nunca deve estar `a mercê dos caprichos do impulso; ele voluntarialmente exercita sua arte para criar harmonias de instinto e idéia.

O escritor deve ganhar a vida escrevendo

Escrever enquanto se trabalha quarenta horas por semana é possível. Milhares já o fizeram. Mas com o tempo, vem a exaustão, a concentração vai embora, a criatividade se desintegra e você é tentado a desistir. Antes que isso aconteça, você precisa descobrir uma maneira de fazer da escrita seu ganha-pão.