sexta-feira, 17 de abril de 2009

Era Uma Vez - Arte conta histórias do mundo

Produção Bangalô Filmes - Direção de João Pavese

Curadoria da exposição - Katia Canton

sábado, 17 de janeiro de 2009

Mel, castanhas, damascos e figos.

Estes dias estava vendo um programa no Discovery Channel. A chamada dizia: Sexo Selvagem. Parei de zapear e puxei dois travesseiros.

A fêmea do albatroz escolhe os machos pela qualidade de suas patas. Quando o macho pousa, elas reparam se as patas tem um tom azulado, limpas, e então se aproximam. Começa  uma dança de bicos, como lutadores de esgrima, as asas se abrem e se fecham, até que o macho aproveita a brisa do mar, contrai a envergadura das asas e monta na fêmea num rala e rola chamado pelo narrador de "cópula de cloacas".

Aí o programa parte para um peixe de porte médio de tom bem avermelhado, que acha uma loca entre as pedras como ninho. O peixe fica ziguezaguendo loucamente, como um boy de gol filmado pela frente da boate, até chamar a atenção da fêmea, bem avermelhada, linda. O macho entra e sai da loca, beija os corais, solta bolhas, falando " Aí gata, tô morando neste apê nos jardins, vamos lá tomar um vinho" E ela nada, continua nadando, beija coral, passa entre as algas. Bom. De repente chega um polvo ( aliás comi muito polvo na Bahia este verão, vinagrete, moqueca) que se esbeira pelas pedras, muda de cor, avança tentáculos até encontrar a loca do vermelhão, aquele apê nos jardins, e decide que vai passar um tempo ali, querendo o vermelho ou não.

Mas o vermelhão tá na seca, precisa dar um bimbex, e não deixa barato. Avança sobre o polvo, mordiscadas nos tentáculos, na cabeçona, até que o polvo desiste, cospe a tinta preta, e ganha a imensidão de azul profundo.

O vermelho volta para a loca. A fêmea reconhece o ato de heroísmo, ele é mais forte que um polvo, e então sucumbe aos encantos do seu garanhão, entra na loca.

Toca o telefone. Abaixo o som da TV.

- Oi, tô aqui na preguiça...Não, valeu vou ficar por aqui, tomei umas ontem, comi pastel, vou ficar de retiro...Sim sim, pode passar... vem pra cá...vinho não, tem sakê...beleza...tô por aqui.

Bom, era ela. Não me ligava faz tempo. Será que agora que eu fiz um doce e estou na minha a coisa engata?

A campainha.

Ela num traje indiano, sandália de dedo com miçangas, lápis de olho kajal, os lábios sempre úmidos, uma voz de seda no móvel de madeira envernizada, brincos combinando com o brilho do cabelo, e um movimento da roupa no corpo que com pouco tempo já podia imaginar a forma dela toda em pêlo. 

Sem pensar, disse que ia tomar um banho rápido. Me espera na sala. Comecei a arrumar o quarto, acendi um par de velas, liguei o lava-lamp vermelho, me perfumei, abri o vinho, coloquei Sade, vesti aquela bermuda florida sem cueca, camisa de linho branca, fiz dez barras e 20 flexões escondidas na edícula e falei com o espelho: fêmea, seduzir uma fêmea, parece que finalmente aprendi. 

Procurando Ban-chá

Vamos armar uma apetitosa sopa de legumes com chá? 
Aquela que os comedores de pastel, cerveja e espeto de picanha odeiam?
Estes dias fui comer um pastel e comecei a reparar nas pessoas. Uma pele dos poros dilatados, gordurosos, um olhar pesado de tédio, a lateral da bunda escorrendo por sobre um jeans que já serviu, os óculos descendo pelo nariz porque escorrega na gordura da pele e um apetite monstro, infinito por aquelas delícias de frituras, queijos, carne, tudo com uma Brahma ou com o desentupidor universal por cima: coca-cola.
Fui pra casa pensando: "eu já sou baiano, tenho este biotipo que engorda e fica cheio, parecendo mexicano, minha mãe francesinha bem que podia ter me dado uns gens das zoropa pra encrementar meu quórum de balzacas telefonando. Não só isso. Os europeus parecem poder beber e comer sem engordar tanto, metabolismo rápido, inverno rigoroso, tudo regulado. Mas papai prevalesceu, minha gente, me deu um corpo de pêlos, uma preguiça boa de brisa, nunca vou ter aquela cara clean de banqueiro do suisse bank que lava o rosto com sabonete líquido da loccitane e passa creme noir contour du yeux da Clinique todos os dias. Então melhor se cuidar Joãozinho..."
Não vou entrar nessa de comer pastel não, vou partir pro ban-chá, vou ligar pra minha querida tia e tomar aquela sopita. Isto sim me dá prazer"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

No caminho da varanda

Passar muito tempo usando só uma pequena fração do cérebro, pode realmente afetar a mente do caboclo.  Todos aqueles dias naquelas ações repetitivas de tiques, coceiras, compromissos e angústias baratas atrofia nossa memória de tal maneira, que a hora que nos permitimos um encontro com a dor, que exige uma certa profundidade, a coisa desanda. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Crescer para onde?

Se numa cultura de bactérias você joga uma gota de sacarose, as bactérias consomem o máximo que podem do açúcar, sem nenhum tipo de controle. A hora que o açúcar acaba, elas morrem juntas. O homem já consome mais de uma Terra em recursos naturais para manter o seu desenvolvimento. Todo mundo quer crescer, o Lula diz em 4,5 % ao ano, promete instalar não sei quantas hidrelétricas para suprir a matriz energética brasileira, que não pode parar de crescer, crescer e crescer.

Me pergunto: Crescer para onde? Neste modelo bactéria X Açúcar, crescer significa manter a indústria a todo vapor, gerar empregos, consumir reservas até atingir a meta absoluta: o colapso geral. Porque com este modelo de desenvolvimento estamos realmente acelerados em direção a extinção da espécie. O meteoro somos nós, de dentro pra fora.

Não sou esquerdinha purista chato, nem reacionário, muito menos frequento a Assembléia de Deus, mas me preocupa a tal da índole humana que foi depurada ao longo dos séculos e deu provas concretas que o caminho é este: da auto-destruição. O dinheiro sempre esteve na mão de poucos e continua (sem culpas). Até porque são estes empresários que geram empregos. E da mesma forma que eles conseguem transformar idéias em produtos de sucesso e gerar muita grana e vagas de trabalho, faz parte da índole destes caras explorar, consumir e concentrar riqueza. E isto o cara vai levar até a morte. Ele só opera nesta frequência.

E aí, ou você entra no jogo para sobreviver, pensando que a vida é curta, ou é marginalizado, com grandes chances de passar a existência na merda. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

domingo, 28 de dezembro de 2008

Férias até dia 02/01/2009

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Automóveis?

Realmente não entendo quando os jornais dizem que o governo vai ajudar a indústria automobilística a sair do sufoco injetando bilhões. É mais ou menos com dizer: "O verão deste ano vai bater os 40 graus no Rio, e o governo continua injetando milhões na indústria de lã, incentivando o carioca a usar cachecol na praia". A meu ver a questão não é salvar uma Fiat, uma Volks. A questão é entender que o carro, para o fim que foi dado, pelo menos nas grandes metrópoles, não cumpre mais o seu papel.  Se a função é deslocar-se pra lá e pra cá numa velocidade incrivelmente maior a que alcançamos andando, já era, porque na hora do rush, é bem possível que a pé, você chegue antes em casa. Como continuar a incentivar uma indústria que já saturou? Que não faz mais sentido? Seis milhões de veículos em São Paulo. Parou! Travou! Colapso! Por que não usar toda esta grana para pensar numa maneira gradativa de remanejar os trabalhadores do setor? Usar todo este aço em metrô, plataformas, a borracha do pneu no asfalto. Achar com urgência alternativas para o transporte público? Colocar na cabeça que a era do automóvel, da maneira como se dá, acabou. Simplesmente porque o planeta não comporta mais. Bom, mas e o status? Que todo mundo quer ter o seu carrinho para tirar uma chinfra isto é fato. Mas acredito que mesmo o tempo tratará de enferrujar o desejo de se ter um. Basta olhar, numa avenida como a Av. Rebouças, na hora do rush, a cara de banana dos motoristas enquanto avançam 2,3 km por hora. Alguns fumam, falam ao celular, coçam o saco, mas a maioria encosta o braço na janela e olha pro teto, com cara de cu, pagando 60 parcelas de R$ 600,00 + impostos para ficar parado. Bela compra! Quitou seu apartamento?
Por mais que injetem grana, uma hora a população percebe que a coisa degringolou e precisa de mudança. Por mais preciso que os comerciais sejam na sua lavagem cerebral. Claro. Se a Globo fizer uma campanha nacional de uso de cachecol no verão, vai ter carioca achando lindo aquela coisa de lã enrolada no pescoço para entrar no mar de Ipanema. Caetano pode até fazer outra versão de Menino do rio. Mas logo todo mundo tira e troca pela canga, boné, fio dental. O mesmo acontece com o carro. Ele vai começar a ficar na garagem, as bicicletas vão sair, e ninguém mais vai querer ficar no frenesi de trocar por um zero KM todo ano. Já pensou se trocássemos o status do carro pelo culto ao corpo saudável. Que as mulheres olhassem não para um carrão, mas para o cara bem dormido, boa postura, bebendo seu suco de acerola no parque, sorriso lago, bicicleta ao lado. Grande mudança de paradigma. Não aconteceu com o cigarro? Fumar não era chique? A questão é como mudar. Milhões de trabalhadores do setor vão se foder? Vão. Talvez se eu fosse um deles não estaria escrevendo este texto. Mas o que adianta alguém dizer: Caminhe até o precipício e pule, eu pago suas contas até você chegar lá.   Mais ou menos o que acontece com os metalúrgicos do ABC. Eles querem seus postos a qualquer preço, mas produzindo cachecol para o verão carioca.
Sustentabilidade com responsabilidade socioambiental. Etanol. Dar de beber a uma frota com sede. Parada com o motor ligado. O que adianta foder com a Amazônia, avançar a fronteira agrícola produzindo biocombustível para fazer lã no verão. A gente só tira o cachecol quando o frio aperta. Use a mesma lógica na sua garagem.
A indústria de automóveis parace um grande ditador que perde a guerra. Manda as tropas avançarem até o último homem, e quando tudo está perdido, mete um balaço na cabeça.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caixa de Bombons

 Lúcia não queria casar tão cedo e continuava a morar com os pais. Dizia que a idade boa pra isso é 34, 35 anos. Não menos. As amigas achavam que ela estava maluca. Que nesta idade já se tem filho grandinho na escola. Mas ela se defendia. Dizia que esperaria pelo homem ideal, que seus poucos namorados não deram prova alguma de merecimento do cargo, que ela não entraria, como muitas, no desespero. 

  Lúcia se achava uma mulher interessante. E, dentro do possível, realmente o era. Mergulhada nas suas convicções, gostava mesmo é de tirar sarro do desespero das amigas. Elas faziam de tudo pelos homens, disputavam às unhadas quem macho passasse na linha de tiro. Lúcia dizia a si mesmo: "Fracas, dependentes, tudo em nome da carência".

  Verdade seja dita, Lúcia não se importava muito de ficar sozinha. Tinha lá os seus consolos pra segurar a barra. Guardava seus brinquedinhos de borracha, réplica perfeita do verdadeiro, numa caixa metálica de bombons franceses, toda decorada de carrosséis. Nunca desconfiariam que atrás de alguns livros da estante do quarto, toda manhã, antes mesmo do café, retirava cuidadosamente aquele Grandes Sertões: Veredas pra apanhar sua caixa. Com cuidado, levava até a cabeceira, fechava as cortinas e deixava só a luz do abajur sossegar. Eram 20 minutos de deleite em gemidos contidos. A gaveta do criado-mudo sempre cheia de pilhas duracell e uma lixa de unha que servia pra raspar no aparelho, os contatos sempre oxidados pelas baterias. Então voltava a cochilar mais 1 hora, leve como pluma, antes de finalmente levantar. E que café da manhã. Aquele seu ritual na cama fazia ela esquecer de tudo, de todos e abria seu apetite como se numa longa noite de amor. Gostava de mel, fritava dois ovos.

  Bom, o tempo foi passando e Lúcia percebendo que as coisas não mudavam - pelo menos não enquanto ela não mudasse. Sua teoria era de que com o tempo toda sua auto-suficiência serviria de isca pros homens. Que eles sentiriam nela uma aura de integridade, e que ficariam perdidamente apaixonados por aquela sua personalidade forte. E Lúcia freqüentava bares descolados, livrarias tchapitchuras, mas nada de aparecer alguém com uma cantada que fizesse jus ao seu alento. Então voltava pra casa e mergulhava num banho seguido de boa leitura na cama. Lia vinte páginas e não vinha o sono. Então levantava atrás da sua caixa de bombons franceses. Muitas vezes, depois de guardar a caixa atrás dos livros, já saciada, esboçava um choro contido, batia uma aflição que lhe esquentava o corpo, se olhava no espelho, abria a janela, sentia o mundo correr sem ela e muitas vezes culpava a caixa de bombons por tudo aquilo. Noites de insônia.

  Lúcia decidiu mudar. Como dizem por aí, fazer uma mudança radical. Pintou cabelo, fez luzes e resolveu se dar um banho de loja. Foi numa daquelas tendas indianas, feiras descoladas de sábado, e comprou uma calça estampada de elefantes. Tecido leve, dessas folgadas na perna, mas que no andar ao vento, deflagram a qualidade e formato do derrière. Apesar de ter os traços fortes, e de não se achar bonita, sabia dos seus potenciais, como toda mulher. As amigas já notavam a diferença e começaram a especular o porquê daquela sensível transformação. Lúcia, antes tão recatada, dos trajes opacos, sem mostrar o corpo, agora trazia um tom sobre tom casual, cores suaves, tudo de muito bom gosto.

  Mas justamente por este seu temperamento forte que ela não dava o braço a torcer. Não iria, de forma alguma, flertar descaradamente. No máximo uma olhadela, uma espera pelo interesse, nunca digladiar olhares numa paquera. A calça indiana até que chamava a atenção, mas não era o suficiente pra levar ao bote. Sua calça indiana era roupa de primeira comunhão pros jovens de hoje.

  As conversas com as amigas já tinham outro tom. Se antes Lúcia achava o maior besteirol ficar falando de homem, agora ela já estava antenada nas histórias. As solteiras contavam o desempenho dos casinhos; as casadas de como eles engordam. E toda vez que Lúcia voltava pra casa, tirava sua calça indiana, tomava sua ducha e afastava os dois livros atrás da sua caixinha de bombons. Era sua morfina. Ali ela tirava um pouco da culpa por não encontrar, que fosse, um cafajeste qualquer, e alimentava sua procura pelo cara ideal.

  Mas o tempo salivava. Sete, oito meses e nada de encontrar o prometido. As amigas a sentiam meio abatida, sempre em casa lendo, sozinha, e acabou por uma delas, Sheila, perguntar a quanto tempo ela não fazia. Lúcia ficou vermelha, pensou mentir, mas acabou por contar que logo mais completaria um ano de estiagem. Pasmaram. Todas ali eram bem resolvidas, uma semana sem já era preocupante, e de repente Lúcia se revela. Sheila, a mais burrinha de todas, pra lá de insensível, falou que aquilo era o mesmo que ficar um ano com prisão de ventre. Ajudou. Kátia, mais esclarecida, disse que ela deveria sair mais, procurar as pessoas, que via um embrutecimento muito grande causado por traumas de paixões antigas e que não iria ajudar em nada ficar daquele jeito; ela tinha de se abrir, estar aberta para novas oportunidades. Lúcia, pra se proteger, manteve o discurso de que trabalhava muito, que não tinha tempo pra namorar, que ela queria crescer profissionalmente e que um relacionamento, agora, iria prejudicar a atenção dada ao lavoro.
Mas os meses iam se passando, e cada vez mais Lúcia era convidada pro cerimonial de alguma amiga. Agora o grande mal era acompanhar um casamento. Antes, a maioria namorava, no máximo morava junto. Mas de um tempo pra cá suas amigas de faculdade, de colégio, vinham casando, uma atrás da outra. Às vezes ela era convocada pra ser madrinha, noutras simplesmente participava da cerimônia. E a cada casamento, a cada benção do padre, a cada dedo na aliança, sentia suas mãos suarem e vinha um medo abissal, algo que tomava sua mente com os dizeres "Vai ficar pra tia, vai ficar pra titia". Lúcia começou a lutar pelos buquês que as amigas lançavam. Chegava a se jogar no chão com as outras desesperadas, e sempre ficava de olho em algum solteirão dando sopa nas festas depois da igreja. Foi numa dessas baladas, em plena pista de dança, que Lúcia cruzou olhares com Raul. Ela já meio bebinha das suas cinco, seis taças de champagne, misturou com vinho branco e já não podia, como antes, conter seus olhares. O desespero por alguém fez do álcool o fim das rédeas. Lúcia agora estava dada ao galope. Raul, do cavanhaque George Michael, sentindo a vulnerabilidade da moça, aproveitou para fitá-la sem descanso. Quando percebeu a constante recíproca, veio como quem não quer nada e puxou logo papo. Frivolidades. Lúcia era só sorrisos. As amigas se cutucavam umas as outras pra não deixar passar em branco o grande acontecimento, talvez até maior que o próprio casamento do dia: Lúcia estava sendo cortejada. 

  Mas no tempo de falar alguma coisa no ouvido, Raul avançou e tentou um beijo no pescoço, um lance meio precipitado. Lúcia, em meio ao seu longo período de ferrugem, assustou, e pediu que ele se afastasse. Ela então saiu da pista, talvez um pouco raivosa, e Raul veio, às mil desculpas, tentando a pegar pelas mãos - neste momento havia quase meia festa acompanhando o caso. 

  Já no canto do salão, Raul se declarou. Que ela era linda, que ele não sabia explicar de onde vinha aquela sensação, mas que era real, era amor e papapapapapá, popopopopopó, toda uma ladainha, famigerado xaveco. Lúcia, ainda que pra completar um ano sem, desdenhou. Disse que ele não fazia seu tipo, que ele tinha cara de cafa, que sabia do seu passado negro quando agarrou duas primas ao mesmo tempo numa festa no Jardim Botânico e que não estava a fim de homem galinha. Raul não esperava que ela soubesse de tanto e ficou sem palavras. Foi o ponto final. Gaguejou, fraquejou e consentiu no silêncio toda a verdade da história. Ela pegou sua bolsa, algumas flores e se foi com o último bonde pra casa. 

  Raul, desesperado, interrompeu a dança de Sheila com o noivo para pedir o telefone de Lúcia. Anotou num guardanapo. 

  Manhã seguinte, na ressaca, Lúcia se desesperou. Percebeu que tinha desperdiçado uma chance. Fechava os olhos e via Raul, o roçar daquele cavanhaque. Sentiu novamente aquela sensação ruim de carência, de querer abraçar alguém e num acesso de fúria, ao fim de mais uma sessão com a caixa de bombons, arremessou-a, sem pensar, pela janela. A caixa, ainda no ar, se abriu e foi tampa pra lá, brinquedo pra cá, até que se estatelaram no paralelepípedo da rua. O brinquedo de borracha ainda quicou duas vezes. Fez-se aquela roda de gente. Lúcia, ainda ofegante, fechou a janela e agachou quietinha, para que ninguém a visse, nem de onde tinha voado todo aquele aparato. Neste instante tocou o telefone. Lúcia disse a si mesmo que não atenderia, continuou agachada. O telefone insistiu, insistiu, até que alguém atendeu da sala. Logo ela escutou sua mãe na porta do quarto, era um moço na linha. Ainda agachada, engatinhando para fugir da janela, puxou do gancho. Era Raul. Lúcia o tratou com toda a delicadeza desse mundo.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Boa estória bem contada

por Robert Mckee - Story - editora arte & letra

Uma estória bem contada significa algo válido a dizer que o mundo queira ouvir. O que dizer você terá que descobrir sozinho. Ela começa com talento. Você precisa nascer com o poder criativo para juntar idéias de uma maneira que ninguém nunca sonhou. Depois, você precisa trazer ao trabalho uma visão dirigida por um novo panorama sobre a natureza humana e a sociedade, acasalada com um profundo conhecimento de seus personagens e seu mundo.

Você deve escrever e suportar a solidão. Sua meta deve ser uma boa estória bem contada.

Assim como um compositor deve atingir excelência nos princípios da composição musical, você também precisa dominar os princípios correspondentes da composição da estória. Essa arte não é mecânica  nem macete. É um concerto de técnicas pelas quais criamos uma intriga de interesses entre nós e o público. A arte é a soma final de todos os meios pelos quais deixamos o público profundamente envolvidos, mantemos este envolvimento e, finalmente, recompensamo-nos com uma experiência comovente e significativa.

Sem a perícia na arte, o melhor que um escritor pode fazer é apanhar a primeira idéia que vem em sua cabeça, e daí sentar desamparado em frente ao próprio trabalho, sem poder responder `as terríveis questões: "está bom? Ou está um lixo? E se está um lixo, o que eu faço?" O lado consciente da mente, fixada nessas terríveis questões, bloqueia o subconsciente. Mas quando o consciente é posto para trabalhar na tarefa objetiva de executar a arte, o espontâneo emerge. A perícia na arte libera o subconsciente.

Qual é o ritmo do dia de um escritor? Primeiro, você entra no seu mundo imaginário. Enquanto as personagens falam e atuam, você escreve. Qual é a próxima coisa a fazer? Você sai de sua fantasia e lê o que escreveu. E o que você faz quando lê? Analisa. "Isto é bom? Isso funciona? Por que não? Devo cortar? Adiciona? Reordenar?" Você escreve, você lê; cria, critica; impulso, lógica; cérebro direito, esquerdo; re-imagina, reescreve. E a qualidade de sua escrita, a possibilidade de perfeição, depende de seu comando da arte que lhe guia para corrigir a imperfeição. Um artista nunca deve estar `a mercê dos caprichos do impulso; ele voluntarialmente exercita sua arte para criar harmonias de instinto e idéia.

O escritor deve ganhar a vida escrevendo

Escrever enquanto se trabalha quarenta horas por semana é possível. Milhares já o fizeram. Mas com o tempo, vem a exaustão, a concentração vai embora, a criatividade se desintegra e você é tentado a desistir. Antes que isso aconteça, você precisa descobrir uma maneira de fazer da escrita seu ganha-pão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Queria eu poder

Para que lado correr? Não tem mais por onde.
Um rato no labirinto de acrílico. Saídas A, B, C e D.
Ele sai na D. Errou. Choque do Cientista. Luz da lanterna dilata as pupilas.
De volta ao lar. Uma pequena caixa com ração e um chumaço de palha.
Peso de 2 kg em cada mão, ele se vê no espelho do quarto e um, dois, três, - com raiva - na tentativa equivocada de privar o tempo que se acelera cada vez mais com a angústia e engraxa olheiras, salpica caspas - é natal - nos ombros curvados. Não adianta rir de manhã, nem ir comprar pão como se nada tivesse acontecido. As pessoas percebem. Muitas delas passaram por isso.
Por um tempo a realidade fora arquivada num ritual prazeiroso.
As doses cada vez maiores – cavalares - do torpor gozo, chorando o leite derramado nos lençóis da tia, no travesseiro da prima, no tapete de borracha do carro.
Um serial de picadas de najas e cascavéis, víboras em geral, paralisia, a sensação do veneno nas entranhas trava as articulações, espasmos nas falanges. Olhos virados, boca seca, abdomén contraído. Sentir. Nada melhor do que se blindar consumindo prazer incessantemente, sem dar brechas para a dor.
O prazer encontra a ladeira e desce skate slide pegando um landau no cruzamento. O céu azul naquela posição, ralado no asfalto, perde propriedades. Hora de pensar. Menino pode se divertir, você não meu velho. Não existe mais lugar para o tal menino que você é e deseja permanecer sendo. Game is Over. Its over, baby. Um tapinha no ombro não melhora as coisas, te faz coitado isto sim. E passa uma BMW. Como ele conseguiu?
Queria ter tido a exata noção do meu caminho aos 20 anos, não com 30 no desespero.
Teria sido muito mais fácil. Um pendrive na medula pisca como todas estas informações, só que dez anos atrás. E tem quem tenha, aos quinze. 32 GB.
Amadurecer jovem, com tempo para maturar escolhas, sem sofrer tanto para chegar onde elas estão. O caminho no cangaço. Cavalo sem cela, mandacaru por todo lado. O podre começa a feder.
Não ter que errar tanto. A ponto quase de desistir.
Agora é tarde. Pela primeira vez me bate a idéia da idade, envelhecer. Aos meus olhos mudar me parece uma manobra gigantesca.
Talvez não exista saída, por mais que se tente.
A única chance não é tentar, e sim conseguir.
Fracassar é morrer. E se não vem a coragem de se matar
Vegetar com a vergonha do fracasso é morrer lentamente.
A água bateu na bunda.
A bunda na água.
A cabeça no teto.
Nem um copo d’água.
Nem um cafuné.
Melhor que seja agora.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Menino do Rio

Leandro. O típico garoto classe média de Ipanema dos anos 1990. Forjado a danoninho e televisão a cabo pelos pais numa incessante preocupação de emplacar o filho como um adulto capaz de se estabelecer dentro dos interesses da elite carioca, o garoto tem uma infância e adolescência provida de todo conforto. Frequenta a melhor escola da zona sul, surfa no arpoador em dia de semana, fuma baseado nas pedras no tempo de cabular a aula de inglês, garimpa com os amigos cheirosas na danceteria, se embebeda de férias e viagens ao exterior pagas pelos pais. Da grana fácil na mão para um cinema, restaurante, o carro do pai, tanque cheio, sempre, Leandro fica cada vez mais distante de uma noção de luta pela sobrevivência. O quarto dele, refrigerado pelo consul 10.000 btus, é forrado de fotos da galera na praia, na cachoeira, pôr do sol alucinante, na praça de alimentação do shopping, na Disney show de fogos abraçado ao Mickey e Pateta, os adesivos de marca na janela, roupas de grife no armário, dobradas cuidadosamente, coleção de miniaturas de carro na estante, entre os gibis, Playboys e Fluir, da pasta de dente Crest e perfume francês no banheiro, gameboy, os oito pares de nike e pumas, a carteira da Oskley, os Cds de rock fácil, Leandro vive a redoma e não enxerga um palmo fora da bolha que lhe foi dada e cuidadosamente soprada para flutuar assim. Uma visão esteotipada e elitista conforta e assegura seus interesses, o que exclui qualquer possibilidade de entrada de estranhos, pretos e mulatos aos serviços de alto padrão do gueto.
Leandro cresceu, virou um garotão bonito que gosta de academia, do açaí no fim do dia, da corrente prata no pulso direito, da sua tatuagem de albatroz no dorso. Tudo como manda o figurino.
Mas o mundo dá voltas e surpreende a todo instante, sem distinção de raça, classe, cor, credo. Quebra regras, dilascera paradigmas, fode esquemas. No exato instante em que Leandro termina o terceiro colegial, que se prepara folgado pra curtir um ano de praia antes de optar por uma carreira, seu pai, Luís, investidor da bolsa de valores e dono de uma revenda de automóveis, aparece em casa com péssimas notícias. As ações com a crise viraram pó e as vendas de carro zero não cobrem os custos com pessoal e peças. O pai quebrou e com medo de abalar a o ego da família sustentou a mentira até o limite, queimando as reservas para manter o patamar de vida. Foi a centelha da bala na agulha. A realidade conseguiu sua brecha e inoculou a redoma de desgraça. Leandro muito rapidamente percebe que toda aquela segurança se espatifou como um vaso de porcelana no espelho de casa, tudo rachou, inclusive sua imagem de mundo, das pessoas.
Os planos de passar um ano com os pés para o ar são definitivamente suspensos. Leandro entra no desespero de procurar um emprego que lhe garanta um pacote mínimo de conforto compatível com seu antigo status quo. Resolve prestar concurso público, na busca por um emprego seguro. Sabe da dificuldade da prova e resolve estudar como nunca. Ele tem a seu favor o medo do abismo. A possibilidade de fracassar e viver uma vida contada, sem todo o anteparo que sorvia na adolescência, é a força motor que o impulsiona a sentar doze horas por dia decorando leis e cláusulas. Não adianta alguém chamar para uma praia ou aquele chope no boteco. Leandro só levanta ao final do dia para ir `a academia, onde malha, puxa o supino em séries de 15 com força, numa tentativa de anular a dor das perdas com peitos e braços marombados.
Em meio `as tentativas da família de colar os cacos, Leandro faz a prova e passa. Vira auditor fiscal do Ministério do Trabalho. O grande orgulho da família. Apesar do bom salário ele, que nunca teve que ajudar ninguém, pelo contrário, só recebeu, passa a colaborar com as despesas da casa, quantia que morde bonito seu olerite. Mas o pacote é maior. A manobra do titanic fica cada vez mais difícil. A namorada que antes só exigia o sorvete, o sushi, agora cobra um noivado, a possibilidade de casar, encarar um aluguel, filhos. Leandro não aguenta a pressão da noiva, que beira os trinta anos e está louca por um filho. A verdade é que ele não sabe muito bem se é a mulher certa, principalmente porque ela foi a primeira, o grande amor, e agora com uma autonomia de grana, sua vontade é curtir, conhecer outras mulheres, antes de decidir se ela realmente é a tal.
O trabalho no Ministério é tranquilo. Leandro não bate ponto, trabalha por pontuação, pelo número de empresas visitadas e autuadas num mês. Logo vem a rotina, o marasmo, a falta de motivação. Época de questinamentos, se ele não deveria ter aceito a oferta do amigo para ser corretor de imóveis de luxo no Leblon e São Conrado, ganhando mais, fazendo o que gosta. Agora é tarde.
Surge a possibilidade de entrar numa viagem do grupo móvel do Ministério do Trabalho. Consiste numa equipe de auditores, que junto com um procurador do ministério público sob a escolta da Polícia federal, dá flagrante em fazendas com trabalho escravo. Para Leandro aquilo soa aventura, mais do que qualquer outra coisa. Um misto de Armação Ilimitada com Robin Hood, a chance de sair daquele marasmo das visitas nas empresas da baixada fluminense. Ele aceita e se candidata a voluntário.
A primeira viagem é para Mato Grosso, onde as usinas de cana, em época de queima, recrutam hordas de famintos pelo nordeste e norte do país prometendo trabalho. Os trabalhadores chegam ao campo através do gato, homem que um dia já foi cortador de cana e subiu na vida. Ele faz o transporte dos homens, contrata e supervisiona o trabalho, sem que o fazendeiro arque com as responsabilidades pelas condições dos cortadores. Chega uma denúncia anônima ao Ministério de que em algumas usinas, o trabalho é degradante, e as condições de segurança, precárias. Leandro é chamado. Lá se vai o garoto de praia mergulhar no abismo social, cego como um cachorro com glaucoma.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Abertas as inscrições para “É Tudo Verdade”

Estão abertas as inscrições para o É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. A 14ª edição do festival, que acontecerá de 25 de março a 6 de abril em São Paulo e no Rio de Janeiro, recebe inscrições de filmes nacionais até o dia 4 de dezembro e de internacionais até o dia 7 de dezembro. Serão aceitas produções finalizadas a partir de junho de 2007 em filmes de 16mm e 35mm, vídeo Betacam (NTSC) e Dvcam.
Fonte: Tela Viva, 27/10, nota

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Modo de andar revela histórico de orgasmos da mulher, diz estudo

da Folha Online e Bangalô News

Um estudo realizado por pesquisadores da Escócia e da Bélgica indica que o modo de andar dá indicações sobre o histórico de orgasmos de uma mulher. A pesquisa, publicada na revista "Journal of Sexual Medicine", indica que especialistas em sexualidade podem fazer a análise desses orgasmos apenas ao ver as mulheres andando.
O estudo foi realizado pela University of the West of Scotland, em colaboração com especialistas da Bélgica.
De acordo com o blog especializado em ciência Scientificblogging.com, a pesquisa analisou 16 estudantes universitárias, que preencheram um questionário sobre sua vida sexual e foram filmadas à distância andando em locais públicos.
As fitas foram vistas por quatro especialistas, que não tinham visto o questionário das universitárias. No final, a pesquisa detectou que os especialistas conseguiam deduzir o orgasmo das mulheres apenas ao ver as imagens, com 80% de acerto. O estudo também indica que a soma de passos largos e rotação da vértebra facilitava o orgasmo das mulheres.
Entre as explicações para o fenômeno estão características anatômicas, a confiança que mulheres demonstram ao andar ou a saúde mental delas.
Para os autores, o estudo mostra indícios da ligação entre bloqueios musculares e a atividade sexual. Eles dizem que isso mostra a importância de tratamentos que envolvam movimentos e atividades musculares para tratar a disfunção sexual.
Já para o Dr. Wallace Large Umbrella, da Universidade do Congo, membro do conselho Long Cock Institute, mestrado em Biodança e Heinch, os bloqueios musculares são causados pela incompetência dos machos durante a cópula. Todas as alunas que fizeram intercâmbio na faculdade em que Dr Wallace leciona, voltaram com vigorosa postura corporal. O coreógrafo Ivaldo Bertazzo, que esteve no Congo a convite de Umbrella, acredita que os homens africanos sejam fundamentais para a manutenção da vida sexual das mulheres.

Homens detectam traição melhor do que mulheres, diz estudo

da Bangalô News


Um estudo realizado por pesquisadores norte-americanos sugere que homens detectam a traição com mais facilidade do que as mulheres. A equipe, da Virginia Commonwealth University, na Virgínia, afirma ainda que os homens são mais desconfiados da infidelidade, mesmo quando não estão sendo traídos.
O pesquisador Paul Andrews e uma equipe de especialistas entrevistaram 203 casais heterossexuais com questionários confidenciais. Eles perguntaram aos voluntários se eles já haviam sido infiéis e se suspeitavam ou sabiam que haviam sido traídos. Entre os homens, 29% admitiram já ter traído. Entre as mulheres, o índice foi de 18,5%.
O estudo, reproduzido pela revista científica "New Scientist", concluiu que, além de trair mais, os homens também são mais espertos para captar sinais de infidelidade.
Eles detectaram 75% dos casos de traição, enquanto as mulheres identificaram apenas 41%. Além disso, eles também apresentaram uma tendência maior de desconfiar das parceiras, mesmo quando elas não eram infiéis.
Para Paul Andrews, esse comportamento tem uma explicação evolutiva, já que, ao contrário das mulheres, os homens nunca podem ter 100% de certeza sobre a paternidade de seus filhos. "Quando a mulher é infiel, o homem pode perder a oportunidade de reproduzir, e acabar investindo seus recursos para criar uma prole de outro homem", diz o pesquisador.
Em entrevista à "New Scientist", David Buss, da Universidade do Texas, diz que o estudo contribui para a teoria de que os homens desenvolveram defesas para detectar a traição, "o que os leva a ser mais cautelosos ao superestimar a infidelidade de suas parceiras".
Já para Hadad Ulkmanien, indiano com mestrado em Técnicas de Pompoarismo pela Loads Cum University, quando a mulher detecta e escolhe o provedor, ela entra em hipnosis fidelis, sendo remota a possibilidade de traição. É exatamente nesta instância que o provedor sente que prendeu a fêmea, que a prole com ela está garantida, e passa a se aventurar com outras.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A Saga da Pétala de Ouro (primeira parte)


Corria o boato que na região de Serra Pelada o ouro voltou a aparecer. Passada aquela febre de mundos e fundos dos anos 1980, em que um formigueiro de 60 mil homens conseguiu extrair na unha 13 toneladas do metal ao ano, o lugar entrou em franca decadência, deixando `as moscas uma horda faminta de garimpeiros. Nas cidades fantasmas, os que ficaram sem ter como voltar pra casa passaram a viver de biscates, trambiques e algumas gramas de ouro achadas aqui acolá, o suficiente pra comprar óleo de cozinha, sabonete e, num momento de estravagância, nacos de charque. A cratera escavada encheu d’água, restou o silêncio melancólico, o céu dos urubus em círculo sobre algum boi morto atolado, as carcaças das bombas de sucção enferrujadas, fiação descascada, cobre retorcido, frascos e mais frascos de remédios amostra grátis, antibióticos, misturados na folhagem rasteira junto a palha de milho, espigas secas, galinhas depenadas, cachorros pêlo falho com a costela aparente, tudo ao som estridente das cigarras, que agarradas nas poucas castanheiras de uma floresta em pó, anunciam o fim das chuvas tropicais, sem se tocar que a exuberância verde se foi, restando o vazio ocre desenhado por aquele que se diz superior, sensível, polegar-opositor.

Eu morava em São Paulo, na labuta prazer grau zero de dois empregos, sem nenhuma perspectiva em vista. Meu bacharelado em Ciências Sociais nunca rendeu porras de nada. Me formei mais pela aflição de ter um canudo e ver alguma felicidade no rosto do meu pai. A cada aula um martírio, entrevistas e mais entrevistas, mandei meu curriculum para milhares de empresas, nada. O máximo que consegui foi passar por uma seleção e cair numa dinâmica de grupo. Catástrofe. Me levantei e fui embora quando a psicóloga do RH anunciou que o grupo deveria fazer um círculo e jogar escravos de jó. E assim fui, como a garrafa ao mar que morre na praia, levado, até por não me aprofundar na carreira (o que garantiria uma bela mamada na teta do Estado como professor ou bolsista), a ser barman durante a noite num night club ajeitado e durante a tarde, com o sono atrasado, administrava a academia de um conhecido meu, dono do cartório do bairro, vendo boy marombado. Ainda assim tinha forças para tirar um troco dando aulas de inglês, iniciantes e intermediários. Survival.

De início achei que fossem bicos temporários, mas a inépcia e crítica ácida aos trabalhos oferecidos fizeram-me perecer num patamar muito aquém das minhas faculdades. Parece que as classes mais abastadas conseguem fazer do pobre um eterno mergulhador na merda. Não existe a menor chance. Todas as possibilidades ficam na mão dos bacanas, dos filhos de doutor, da blindada teia de contatos que a elite monta para deixar os sem sobrenome fora da lista do banquete. O pobre, que não tem nenhum conhecido quente, advogado, médico, publicitário, e só conhece o dono do boteco com bilhar, para se infiltrar nessas, só com muita sorte, estudo e algum interesse de quem manda. Acredito que meu grande problema sempre foi pensar demais e agir de menos. Talvez tenha sido um erro fazer a faculdade e me interessar pelos livros, por literatura. Se fosse como os outros, que executam ordens sem grandes sonhos, resolvidos na alienação e mediocridade, a dor fosse menor. Infelizmente tive acesso aos estudos, meu pai foi grande leitor de clássicos, boas músicas, e apesar do dinheiro curto, conseguiu que eu frequentasse as aulas até o fim. Mas nada disso garantiu crescimento. Muito pelo contrário. Paralizou.

Sentado na praça do bairro, sete da noite, calor infernal, reconheci de longe um primo meu. As pombas abriram seu caminho no momento em que a catedral badalou a hora da missa, a brisa varreu folhas e desfez o jato de água do chafariz. Não recebia notícias dele há tempos, talvez dois anos, sabia apenas que tinha voltado do Pará, no tal do boato do ouro nas redondezas de Serra Pelada. Coisa que desprezei, como tudo que foge aos meus olhos, `as minhas metas. No banco da praça, olhando o convés das meninas, o movimento em volta do pipoqueiro, o primo me contou das novas. O ouro acabou em Serra Pelada? Sim. Mas no entorno, procurando bem, a chance era grande. As pepitas saiam limpas, inteiras da mistura de lama com raiz e se nesse meio tempo nenhum virado no capeta te metesse bala nas costas, dava pra tirar, no mês, a grana que se ganha em ano como escravo de bacana. As crianças brincavam na praça, meninas já risonhas aos meninos das bicicletas novas, reparei no primo de relógio novo, roupa de marca, moto 250 zerada, namorada princesa cheirosa. Por mais que simulasse calma, aquilo foi me dando uma azia, remoendo meu estômago. Ele sempre foi o cara pra quem eu ensinava as coisas da vida, gabando do meu intelecto acadêmico corrigia seu português e sua preguiçosa ausência de plural. Mas sempre grande companheiro de rua, farreamos muito, paguei muita cerveja como irmão mais velho, e perceber agora que o jogo se inverteu, ele a bola da vez, me causou forte sensação de fracasso, derrota naquilo que entendia ser. Esse moleque não podia. Muito menos ter mais grana. A minha certeza não dava margem pra erros tão grandes de trajetória. O tempo nem as circunstâncias podiam aprontar uma dessas.

Fui dormir com a angústia em forma de solda cuspindo fogo, um gavião real que fustiga o rim exposto na estrada. O sono profundo não vinha, um primo andando de moto nova pela cidade, reencontrando o pessoal, contar vantagem, acordava sucessivas vezes e o coração acelerado. Achava que era sonho, mas nas primeiras sinapses percebia o real. Meu primo conseguiu. Me deixou pra trás. Enquanto caminhava na toada burro de carga, sem grandes progressos, sem participar do banquete, ele foi adelante, ariscou e trouxe seu peixe grande na linhada fina. E se até então me convenci que levando um dia após o outro talvez a vida passasse mais depressa, na presença do primo a história foi outra. Senti o sangue nos olhos, vontade de crescer, fazer o meu, ganhar dinheiro. Posso lhes garantir que o dia seguinte ao encontro na praça foi o pior da minha vida. Chegar ao trabalho e receber ordens, carregar peso, executar tarefas inúteis, sabendo da mais-valia, grana no bolso do patrão, quase nada no meu causou uma perda irreparável. Com aquele salário miserável pelo resto da vida, talvez algumas bonificações de fim de ano, não tinha mais por onde respirar tranquilamente. Era tudo muito pior que ressaca de campary e anis sem gelo num bote, uma trepada sem camisinha num brega barato em pleno carnaval.

Encontrei o primo na praça dias depois determinado a pedir algumas dicas dos melhores locais de garimpo no Pará. Tudo muito discreto pra não parecer favor ou conselho. Queria grana rápida pra montar meu próprio negócio, mais do que isso, manter certa distância dele, da prosperidade, só teria coragem de voltar se minha condição fosse melhor, se o status de dono do pedaço voltasse a vigorar.

Passada a época das secas na Amazônia, embarquei num ônibus convencional para Marabá, Pará. Pedi demissão dos dois empregos alegando boas propostas de trabalho na companhia Vale do Rio Doce, Serra dos Carajá. Tudo mentira. Partiria para a saga do ouro em busca de uma alternativa rápida pra enriquecer sem ficar na mão de um bando de mercenários. Nem teria meu primo cutucando meus vespeiros com vara curta.

Já no ônibus, a realidade passou a dar pontapés na porta. Olhei por entre o vão das poltronas. Balançava muito nos buracos da estrada e meu campo de visão oscilava. Viajavam duas fileiras pra trás um grupo de cinco homens. Bebiam cachaça na garrafa pet verde em largas goladas e a cada parada, compravam cinco latas de cerveja cada um. Falavam alto e quanto mais a pinga subia, mais o celibato de meses sem uma conferida cobrava seu descarrego. Começaram a incomodar as moças, sem distinção, casadas ou não, gordas, velhas, com a missão cega da cópula. Posso dizer que as chances de pipocar bala no ônibus não foram poucas. Quando o marido de uma delas, que até então dormia com a cabeça no vidro acordou, o caldo só não engrossou porque ele se viu em desvantagem contra os cinco. Trocou de lugar com a mulher, sentando no corredor.

Chegada a minha vez de dar uma mijada naquela imundície, as latas de cerveja misturadas aos biscoitos de polvilho pisoteados, aproveitei para observar os caboclos com mais atenção. Um deles se adiantou oferecendo um gole da cachaça, a garrafa pet estalando com a pressão dos dedos, o sorriso sem os da frente, os olhos vermelhos lacrimejados, óculos escuros na testa, o rosto esturricado do sol da testa rabiscada, mais parecendo pescador de jangada no mar. Perguntei de onde vinha, pra onde vai. Contou-me que ele e alguns conhecidos saíram do Paraná há nove meses em busca de trabalho. A primeira parada foi em Mato Grosso. A família ficou pra trás, esperando sorte e trocados para o arroz e feijão. As geadas e chuvas no sul arruinaram suas plantações e se viram endividados com as terras arrendadas e os financiamentos do banco. A chance estava na soja, notícia que corre rápido. Mas em Mato Grosso encontraram talvez a pior das experiências reservadas aos cães, quem dirá aos humanos. Sobram vagas aos que se sujeitam por obrigação. O abismo. Eram catadores de tocos. Explico: A Floresta é posta a baixo e toda a madeira de lei retirada é vendida. Depois os tratores entram em duplas, ligados por correntes pesadas e arrastam, colocando tudo no chão. O fogo arde durante dias naqueles nacos moribundos de madeira de lei, arbustos, flores, ninhos de araras, filhotes de macacos, até que a floresta amanheça morta e negra, em brasa, num sol laranja e omisso, por conta da fumaça. Para que a máquina comece a preparar a terra das sementes, não pode sobrar nada que embole nas engrenagens e danifique o maquinário. Entram em ação os catadores de toco numa terra quente de brasa, a cara de fuligem, calor de 40 graus, fumaça, agachados sem qualquer tipo de instrumento de segurança para arrancar um a um todos os pequenos tocos de madeira, pedras, raízes que encontram pela frente. Imagine como um cara desses fica depois de um mês nesta nobre função? Vai se despindo até que dignidade nenhuma lhe reste. E então a baba branca no canto da boca dele não foi suficiente pra negar uma oferta. Nos olhos um do outro, sentindo sua dor, compartilhei de dois generosos goles da marvada. O destino dos cinco era o meu: garimpo. A saída desesperada para uma realidade que se armou num cerco bem feito de desgraça. Logo eu, universitário, leitor de Dostoievski, da Piauí, bilíngue, das mãos de poucos calos, perdido no Pará em busca de ouro. Que os deuses possam me ouvir. Ouro.

Cheguei em Marabá ao meio dia de uma terça feira de chuva forte. Alguns trechos de floresta me davam uma vaga noção do que um dia foi tudo aquilo. Do asfalto vapor, e o Tocantins, talvez o maior rio que já vi, siriricava gotas grossas da chuva de verão. O combinado seria ligar de um orelhão e esperar por um tal de Branco, no posto de gasolina da cidade. O garimpo ficava a duas horas dali se a estrada de barro estivesse boa, coisa rara nesta época do ano.

Branco chegou numa caminhonete cabine dupla com uns oito caboclos na carroceria. Ele no volante no ar-condicionado e um grisalho, de chapéu e camisa pólo vermelha de co-piloto. Joguei a mala no meio de uns galões de gasolina e me ajeitei como pude. Os caboclos me olhavam de bombordo, analisando meu tipo. Por mais simples que fossem, com certeza passaram o pente fino vendo que eu tive mais chances na vida. Talvez o tanto de sol que o couro tomou, a proporção cabeça tronco e membros, os dentes brancos, o olhar de alguma esperança. Depois de anos trabalhando por comida, o caboclo não pensa em mais nada. Trabalhar – comer - apagar. Se o dinheiro curto sobrasse para além dessa tríade, talvez ele tivesse tempo pra pensar em como é explorado, e criaria problemas ao empregador. Mantendo ele no limite da fome, fica mais fácil manipular, é a maneira mais cruel de domesticação. Fica nítido na expressão de rosto, no caminhar, no tom de voz.

Na chegada ao garimpo me impressionou a precariedade dos alojamentos, as condições absurdas da falta de segurança. Mas isso tudo é luxo e supérfluo quando o foco de todos está no ouro encontrado, independente da malária que se pegue, do risco que se tenha, da fome e saudade que se sinta. Saudade sim, de buceta, do carinho da mulher, dos filhos, da infância. Agora me lancei numa sobrevivência louca, Vietnã Malvinas, Congo Bagdá Angola, e por mais que tudo isso pareça loucura, quando lembro do meu primo com grana e dos meus empreguinhos bunda, a faculdade, bate um nervoso, pânico, e é aí que encontro a força motriz que faz seguir, se jogar naquela lama atrás de ouro. Um corte profundo na perna, febre, sede, diarréia, coisas corriqueiras. A condição sina qua é que do chão não passo.

Muito rapidamente entendi as leis do garimpo. O buraco onde se escava tem o tamanho de três piscinas olímpicas e cada doze metros quadrados são distribuídos entre grupos de dez garimpeiros. 60% do que é encontrado é dividido entre os dez, enquanto os 40% restantes fica pro tal do Branco e seu sócio. Na vendinha se consegue pinga, farinha, carne de porco, roupa e desodorante. Moeda é ouro. Tudo superfaturado pelo dono, Branco. Duas vezes por mês chega ao garimpo um ônibus escolar velho trazendo engradados de caninha, cigarros contrabandeados e meninas, geralmente menores, pra refrescar a mente do caboclo. Duas gramas de ouro por uma bimbada rápida no alojamento de taipa. E é bom se adiantar pra ser um dos primeiros porque a fila é grande.

No terceiro mês de garimpo, passaria reto pela minha mãe sem que ela me reconhecesse. Se chegasse em casa assim, minhas irmãs dariam queixa `a polícia. Um reflexo de espelho era tão raro que já projetava minha face pelo tato, lembranças, pela reação dos outros ao me observar. Minhas pernas cheias de inquilinos devendo condomínio. Bernes e picadas infeccionadas, arranhões. A tarefa de colocar uma calça e meter as botas já era em si, o grande feito do dia. O jeans subia espocando as feridas e a lama seca misturada cuidava de aumentar o estrago infeccionando ainda mais o que me restava de carne fresca. Perdi todos os pruridos e noções de higiene. Quando a coisa ficava preta, cachaça nas feridas. Andar cagado virou coisa corriqueira. Mesmo assim, ouro me colocava de pé todas as manhãs.

Foi numa quinta feira de muita chuva, em que poucos os homens se aventuravam a escavar lama diante do sério risco de soterramento, que acordei numa caganeira das bravas. Tinha certeza que fora a carne de porco dos dias em que a única geladeira a gás pifou, kaput. Pontadas, dores no abdomen, só podia ser. A mandioca é que não. Corri desesperado por um descampado atrás do alojamento, as calças arriadas, as perebas abertas, a chuva descendo pelas sobrancelhas, a respiração ofegante, quase nada me restava, fui despido de civilização na marra. Olhava para os lados, o céu, as costelas aceleradas e enquanto, no meio de um riacho, aliviava as entranhas do pesadelo numa posição nada grata, comecei a pensar na possível desistência. No garimpo não é o trabalho que liberta. A idéia de que a sorte aparece quando o trabalho duro encontra sua oportunidade parecia cada vez mais distante. Nos meus quatro meses de garimpo acumulei experiências interessantes ao meu curriculum como cientista social. Quem sabe alguma multinacional queira me contratar. Minha pós em malária, tentativas de ser currado e poucas gramas de ouro. Não aguentaria por muito tempo.

Finalizado o serviço, subi as calças cuidadosamente, evitando cada chupão de mosca. Ao tentar dar o primeiro passo percebi que estava preso na lama, as botas fizeram vácuo, e que quanto mais me movimentasse, mais elas afundariam. Por mais que me esforçasse em ir para frente ou para trás, o esforço era em vão. Então agachei para desamarrar a bota, sem enxergar nada na lama, e com cuidado fui desfazendo os lances de cadarço. Neste momento senti uma coisa raspando minhas costas e bunda, como se deslizasse. Imaginei um toco, um cipó, me dera fosse a bunda macia da nega velha, mas o movimento não me parecia ser morto ou vegetal. Em outra situação talvez fosse o caso de entrar em desespero, mas o tempo de garimpo serve pra vacinar o caboclo, tudo é possível, o grau de tolerância aumenta muito.
Continuei meu trabalho com as botas. A chuva prosseguia e se intensificava, arrastando ainda mais tocos de encontro aos meus joelhos. O barranco da margem, por onde a água corria ligeira, ia aos poucos cedendo, e cada vez mais abria minha distância com relação as margens. Também aumentava a profundidade do riacho com as botas afundando e o volume de água subindo. Mas uma vez agachei para livrar o pé da primeira bota, a lama no meio do cadarço dificultava o trabalho, comecei a engolir água, os tocos desciam e agora se chocavam contra meu braço, perna, baço. Intensifiquei o trabalho, não adiantava gritar aos outros, o barulho do gerador da bomba deixava todo mundo surdo. Mas uma vez senti como uma massa pesada passando pelas minhas costas, quase ao ponto de me desequilibrar, até que algo mais rápido que um mestre de capoeira laçou meus pés derrubou-me de bruços no riacho. Enquanto tentava escorar no fundo de lama, evitando que as mãos também afundassem como os pés, uma porção gorda de carne escura me abraçou as pernas e consegui ver rabo, um dorso, a cabeça da sucuri gigante. Filha da puta. Só me faltava essa. Sensação de morte. Eu era o tal do bezerro do National Geographic, preso pela sucuri. Enquanto meus braços permaneciam livres, esmurrava pra que ela soltasse as pernas, mas a força do bicho era tamanha que na pressão do seu dorso meu corpo se soltou da lama e fomos arrastados, embolando riacho abaixo. Pescoço, tronco, minha única meta naquele instante era não deixar que ela me desse o abraço mortal. Com os tocos e pedras que encontrava nas beiras do rio, socava a filha da puta, que de filha de puta não tinha nada. O puto ali era eu, que não tinha nada de estar ali cagando no riacho dela, atrapalhando a hora do jantar. Continuamos descendo cada vez mais rápido até que uma árvore deitada sobre a água me deu suporte e flutuação. Com a pedra afiada. Golpeei a sucuri na cabeça e na parte mais grossa e musculosa, até senti ela ceder e parar de comprimir. Arrastei metade do corpo pelo tronco da árvore, continuando com os golpes certeiros na cabeça da puta, até que ela perdeu a consciência e se enlaçou no tronco em espasmos, sem mais saber o que era o quê. Levantei com raiva, sem as calças, sem as botas, pernas sangrando das feridas, e com o corpo coberto de lama apanhei uma pedra ainda mais afiada. Atravessei a sucuri drenando toda a raiva que sentia dela, do garimpo, da situação até que a pedra encontrou o barro do outro lado e as tripas dela apareceram escorrendo pro lado. Bati mais vezes, respiração acelerada, a saliva grossa me escorrendo da boca até que vi o impossível, o inacreditável, a cena que imediatamente me trouxe de volta a máxima: No garimpo não é o trabalho que liberta, mas a sorte. No meio da barrigada da sucuri, uma pepita de aproximadamente um quilo de ouro, senão mais, saia do meio da tripa, toda babada, o organismo da cobra tratou de digerir o barro e deixou a pedra pura, um quilo de ouro. Naquele momento a chuva parou, só o barulho irritado do riacho, a cobra aberta, o sangue das feridas me encorrendo pelas pernas, inacreditável, um quilo de ouro. Mother fucker!! Takes four loads of cum!! O equivalente a 50 mil reais. Arranquei a camiseta fazendo um calção medieval, alojei a pedra no saco, na altura do períneo e voltei ao alojamento. Deveria deixar aquele lugar o mais rápido possível, antes que os outros ganhassem no meu olhar a sorte grande, coisa que qualquer ali conseguia fazer muito bem, no meio da merda, todo mundo percebe quando sopra a brisa.

Na manhã seguinte peguei meus trapos e voltei no mesmo ônibus que trouxe as meninas e os engradados de caninha. Até perguntaram o porquê da minha saída. De pronto respondi que ia voltar pra minha cidade, cuidar das feridas, que logo voltaria em busca de ouro. Como já tinha fama de boy, de alemão, acharam que era o fresco que não segurou. A história passou como verdadeira.

De volta a Marabá, a primeira coisa que fiz foi comprar uma roupa fiado. Deixei minha identidade com o vendedor da Vest’s e peguei uma bermuda dois número acima e regata cáqui. No centro da cidade, local em que as transações de ouro acontecem, naquela loucura de feira com camelô, dvd pirata, chamei um táxi e pedi que me esperasse na porta. O ouro era da melhor qualidade, pouca quantidade de paládio, puro, a sucuri tinha feito um belo trabalho, não fosse pelo abraço apertado, teria dado um desconto a ela.

Com o dinheiro dividido pelo corpo, entrei no mesmo táxi e mandei seguir até Belém, 300 km de Marabá. Se você fica muito tempo dando bandeira corre o boato, até mesmo pelo cara que comprou o ouro e te pegam numa esquina atrás da grana. O certo é sumir do mapa na mesma hora.

Cinema 26/10 - Bilhete na garrafa

ACONTECE:
Brasil assina novo acordo cinematográfico com Itália
Selton Mello ganha prêmio de melhor ator
Co-produções são sinais de prestígio do cinema brasileiro, diz "LA Times"
Gianecchini e Paola Oliveira estrelam filme rodado em motel
Minissérie “Maysa” pode ganhar versão para o cinema
Ator que estreou em “Última Parada 174” será Lula nos cinemas

NO AR:
"Última Parada 174" estréia em meio à comoção do caso Eloá
Comédia romântica lidera arrecadação de bilheterias no Brasi
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CONVERGÊNCIA DIGITAL:
Filme com Andréa Beltrão é destaque na Mostra de SP
"Ensaio sobre a Cegueira" é premiado na Espanha
Dia Internacional da Animação terá exibições simultâneas em 150 cidades
Em cartaz na Mostra de SP, “Mataram a irmã Dorothy” é convite à indignação
Filme sobre a Amazônia é destaque na Mostra de SP
Festival no Amazonas recebe Claude Lelouch
32ª Mostra de SP: Festival exibe filme filipino de oito horas

sábado, 25 de outubro de 2008

Onde estará o cavalo certo?

Pensou a terapeuta ao fim da sessão: A angústia passeia e não deixa os pensamentos dela em paz. Por mais que se atenha a uma conversa, um livro, nada fura o bloqueio de um fluxo de consciência permanente que cava, cava, cava cada vez mais fundo. A dor é proporcional a profundidade, o dente que dói o canal. Fato é que existe um embate. O momento em que toda a vontade de fazer alguma coisa passa. E tudo parece distante de uma solução. Ela não quer chão, onde se apoiar. Prefere ver onde a dor pode levar. Quanto mais profundo cava, a dor aumenta, está aí a chance da trajetória mudar, retorcer-se. O que a fez buscar a rota mais difícil na vida? Claro, ela buscou a mais fácil, sem grandes desafios, e acabou encontrando as maiores dificuldades pela frente.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Edital Rio de janeiro

Inscreva seu projeto até 13/11/2008 :
http://www.cultura.rj.gov.br/detalhe_noticia.asp?ident=594