sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aulas de Inglês - intensivão

Com nove anos já odiava as aulas de Inglês do Vera Cruz. Era um the book is on the table deveras maçante, onde os professores queriam saber quem realmente tinha absorvido aquelas frases prontas da forma mais cruel possível: prova oral. Na frente de todos os outros alunos. Claro que os que funcionavam naquela batida não erravam uma, mas pra filho de hippie chic com comuna, a dificuldade de gravar - Hi, what is your name? My name is Sarah. Hi Sarah! Do you know where is my classroom? I do'nt know, lets ask Dora. Puta que la madre, me tirava do sério ter que repetir aquilo tudo. Coisa de papagaio. Tanto é que já com aquela idade ficava olhando pela janela da classe pensando na melhor forma de fugir. (gostava de churros e de ler a revista Super Interessante na frente da escola)

Pois bem, aos trancos e barrancos aprendi um pouco de Inglês na vida escolar. Claro que erramos um tempo verbal, a pronúncia, mas dá pra vender cachorro quente em NYC e entender more cheddar please fácil.

Nos últimos tempos, agora já peludo, fiquei com vontade de ler em inglês. Ler alguns autores no original. Arrumei uma professora particular, por sinal muito bonita, que me disse pra procurar livros que me dessem prazer, que tornassem a aula mais agradável, e aí sim a absorção do conteúdo se daria com extrema facilidade. Que mulher!

Fui na nova Livraria Cultura da Av. Paulista, na parte de literatura estrangeira, e passei os olhos nos pocket books, clássicos, mas me interessei mesmo foi por poesia erótica. Abri numa das páginas:

ED SMITH (1957-2005)

POEM

I REACHED UP AND STARTED STROKING HIS SHAFT WITH MY HANDS
WET WITH MY SALIVA AND PUSSY JUICES GENTLE AT FIRST THEN WITH INCREASING VIGOR
FINALLY HE CAME LIKE AN EPILEPTIC FIREHOUSE PULSATING UP THROUGH MY ENTIRE BEING
HIS CUM LITERALLY SOAKED THE FLOOR BUT EVERY DROP MISSED ME
IT WAS THE BEST SAFE SEX I EVER HAD

(C.1986-1987)


É isso. Agora sim meu inglês vai deslanchar. Professora, o que quer dizer: Shaft?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

David Hockney

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Te Transformei em Lasagna















Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon pudesse ser sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. 

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um CD do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos; artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete peludo dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Em outras palavras: aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Mas na vida nem tudo acontece como gostaríamos. O céu pode estar azul, sem nuvens e a hora que você resolve pegar um bote e remar mar afora, uma frente fria aparece. O cinza sabota o azul, o vento gelado sopra com força, o bote pode virar, um cardume de tubarões aparece. Foi o que aconteceu. Achei que tivesse mais peso na relação, que fosse o mais amado…Estava enganado. Raquel acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia bem, muito bem: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato dela articular um raciocínio; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho, minhas escolhas. Eu era um bife de fígado mal passado, desses de boteco da Dutra, cebolas boiando na gordura. 

Verdade seja dita, nos quatro anos de namoro ela me viu avançar pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro CD que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Isso pra ela era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachú e fazer pão caseiro com linhaça. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou como elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que efetivamente não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando me viu largar um trampo numa produtora de som, que apareci em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou… 

No fundo no fundo eu tinha uma puta admiração por Raquel. Mulher corajosa. Fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem seu escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas. Eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira. Ela sempre reclama que eu compro coisas de segunda: macarrão, nescau, miojo, bolacha trackinas, enquanto ela forra a dispensa com mostarda Dijon, carpaccio, mussarela de búfala. Se eu ainda comesse o miojo, vá lá, mas adoro mostarda Dijon, sou capaz de traçar meio frasco na colher. Fora a sujeira, a bagunça. Raquel é metódica, dessas que organiza as calcinhas por cores, que é capaz de pensar em suspender a assinatura do jornal por cinco dias quando viajamos. Coisas que não passam pela minha cabeça. Minha estrutura é outra. Pra mim, casa arrumada é casa desabitada. Gosto de uma zona pra que todos vejam que ali mora alguém. Arrumação é coisa de showroom de apartamento em Moema.

Bom, fato é que minha lasagna virou tsunami. Naquela manhã, quando se sentiu rejeitada, Raquel me atravessou como furamos uma onda grande no mar de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, o cardume de atuns aproveitando a corrente, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força no banco de areia. Só que a onda, muitas vezes, pode te tragar e você embola durante minutos na espuma, sem saber pra que lado fica a superfície. Ela sabia das minhas limitações, mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, uma raiva que já vinha num crescente se transformou em desprezo inexorável. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído. Dali por diante virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançado ao ar, num despenhadeiro. O solo de calcário adubado com meus restos mortais. Quem sabe cresça um pé de couve.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o teto do carro preto refletindo os postes no meio do trânsito, o menino no sinal colocando balas no retrovisor, até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas caiam e me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia, punhal cada vez mais fundo, me obrigou a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. Ahhhhhh, sensação de alívio. Olhei pro copo, me servi, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão bem dadas, logo ela voltaria, o bambú com sino da porta a balançar, a chave do carro jogada na mesa e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou em caviar beluga, sereia, canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, prometo que vai ser diferente. Prometo.


Dez da noite. Completamente bêbado. Agora de cinco em cinco minutos deixava um recado no celular dela. Não atendia. Tocava por trinta segundos e caixa. Conseguia imaginar ela com o celular na mão piscando meu nome e voltar pra bolsa. 

Quando a angústia ultrapassou o limite do efeito vodka, quase apagado, resolvi sair pra procurá-la. Coloquei um gorro, cachecol, meias sem par. O frio era insuportável, talvez o noite mais fria do ano. O vento, a cada esquina, me cumprimentava com navalhas geladas, tirava o celular do bolso tentando falar e nada, caixa. Aquilo foi me deixando profundamente emputecido. Ela sabia, pela insistência, do meu estado e mesmo assim fazia o joguinho sujo. Com certeza ela queria que minha angústia chegasse num nível tal, que nunca mais eu aprontasse uma daquelas. Queria anular qualquer indício de lasagna dos meus devaneios na base do trauma, e o pior é que estava conseguindo. 

Andei duas horas a esmo por bares, ruas que ela costuma frequentar. Se via um cabelo parecido batia nas costas. Com o frio e as ladeiras do bairro, a bebedeira foi passando e recobrei a consciência. Sentia dores nas pernas, no baço, parecia que dez sacas de cimento pesavam no meu ombro. - Egoísta! Raquel é egoísta! Ao invés de se abrir comigo sobre o que a irritava, foi se fechando com o tempo, sem diálogo, sem deixar que eu participasse de suas angústias. Eu sempre disse tudo, deixei claro quem era, o que pensava, minhas ambições. Caralho! Como ela quer eu eu entenda suas coisas sem falar! Aí resolvi dar o troco. Apareci na casa da mãe dela, que sempre me adorou. Dona Elvira assistia o filme Beleza Americana quando toquei a campainha. Ela deu pausa na parte que Lester Burnham pede demissão, minha preferida. No instante que foi a cozinha fazer um café, passei a mão no telefone e dei o drible da vaca em Raquel. Não demorou muito pra ela ver no bina e atender, achando que fosse a mãe. Esperei que repetisse algumas vezes - Mãe! Mãe! É você? - Saboreando aquela voz rouca, sedoza, até me identificar. Não acreditou. Inventou uma desculpa pífia, que estava sem sinal, coisa que o valha, e que precisava de um tempo pra pensar na gente. Dona Elvira chegou com o café e me viu ali, na janela, o fio do telefone esticado no máximo, um olhar triste, baba branca no canto da boca. 

Acordei no dia seguinte sem saber onde estava. O cuco de Dona Elvira saltou pra fora do relógio, sete da manhã. Uma manta de crochê cobria meus pés, um travesseiro com fronha do Hello Kitty, talvez de Raquel pequenina, protegia meu pescoço. Dona Elvira não estava. Coloquei tudo no lugar, peguei uma fatia do bolo e fui. 

Cheguei em casa já preparado pro pior: O vazio. A garrafa de vodka, a tv ligada, a cozinha imunda. Mas quando entrei no banheiro e vi a calcinha amarela dela no boxe, suas revistas de design, os cotonetes da maquiagem, os pentelhos no sabonete., minha intuição, não sei por que, me disse que ela ia voltar. Ela vai voltar. Aquilo me alegrou sobremaneira. A possibilidade de ver, ter Raquel de novo, com outros olhos. Como se toda a paixão, estrangulada pelo convívio excessivo, tivesse se renovado com a briga da noite anterior.

Abri a geladeira. Meia cebola na parte dos ovos, limão espremido, garrafa d’água, vazio, vazio, lasagna de uma semana. Puxei o papel laminado pra ver o estado, o presunto já ressecado nas pontas, uma gelatina de gordura imobilzava a carne moída. Argh! A ressaca tinha baixado e a fome apertava. Apanhei aquela travessa da geladeira e conversei com ela por alguns segundos até decidir virar tudo no lixo. Esquecer do passado, a noite das angústia me urubuzando. Agora eu queria outra lasagna, fresca, saborosa, gorda de presunto e queijo, quentinha, borbulhando, escorregadia, como aquelas que fazíamos juntos, apaixonados, tomando vinho, fumando uma ponta, dançando colado sentindo um o calor do outro. 

Fui até a sala ligar o som e dei play no ipod de Raquel, sem saber exatamente em que música estava. De repente…Smooooooth Operatoor !!! Sade, faixa 3, Smooth Operator, a preferida de Raquel. Sem pensar nos vizinhos, no síndico, ou na esquizofrênica do terceiro andar, coloquei no máximo e Smooooooth Operatoor !!! Rodopiei na sala direção cozinha e comecei a preparar. Ingredientes do armário, forno, fogo alto, a lasagna borbulhava o queijo, a carne desprendia seu suco, logo ela gemeu anunciando o ponto. Coloquei um pedaço farto no prato. Sentei.. Um cheiro maravilhoso, meus olhos lacrimejavam, flashes da noite passada se dissolviam nas garfadas quente, a angústia desaparecia mais e mais. 

Neste exato instante escuto a porta, o bambú balançar, a chave na mesa. Dei mais uma colherada de olhos fechados, saboreando o som da sua bota no piso de madeira, o rasgar das correspondências inúteis…Era ela. Raquel. Sobrancelhas grossas, cabelo preso num coque, bata indiana meio aberta, sem sutiã, saboneteiras belas seja numa luz de farmácia seja `a luz de velas, unhas pintadas de vermelho tomate. A mulher mais linda do mundo. 

Limpando a boca na manga da camisa, atravessei a sala, a garrafa de vodka, a TV ligada no mute, e abracei Raquel com força. Algo valioso nos braços, a jóia perdida e recuperada; terra firme depois da tempestade em alto mar. Arrastei a barba por fazer no seu rosto de pêssego até encontrar a boca. Lábios macios, cheiro de tangerina, via os olhos desfocados, o medo e prazer de uma nova entrega. Minha mão correu bunda, peitos, costas pra sentir em braile que era realmente verdade, estava tudo ali, inteira pra mim, a barriguinha lisa, nectarina, a respiração indocile com o passeio chacal dos meus dedos famintos até que sua mão no caminho encontrou a minha, beijei, beijei, ela me olhando, entre um beijo e outro, se certificando da volta da paixão. Cabelo cheiroso, suguei seu pescoço como um neném faminto, caminhamos esbarrando nas coisas da sala, até o quarto, a cama. Smooooooth Operatoor !!!

quinta-feira, 27 de março de 2008

Cheiro de Avon - puteiro Tchelas


















Estava na outra linha quando Silas me ligou.

- Fala Silas, te ligo em 5, pode ser?

Discutia com Raquel sobre o fim do relacionamento. Não bastasse levar a cama, meus discos e todos os talheres, queria que eu entregasse as fotos, aquelas do ínicio, ela pelada na casinha da praia da Almada com um baseado na boca. Queria os negativos, que as fotos eram dela. Como o negócio era me livrar do pepino, disse que deixaria os envelopes na portaria. Claro que fiz um backup das fotos pra mim. O mais engraçado é que os dois gatos que ela ganhou da mãe quando nossa relação começou a encrespar continuam aqui, o melado e a mel fodendo meu sofá cama com as unhas, a área de serviço fedendo, minha roupa cheia de pêlo. Paciência.

Apesar de achar difícil a vida de solteiro naquela primeira semana free, o simples fato de saber que o problema maior fora resolvido já me dava um certo alívio. Raquel se aproximava dos 30 e queria um filho de qualquer maneira. Dizia que tomava pílula, mas era só acompanhar a cartela esquecida na gaveta junto com o gelol pra saber que não. Algum tempo atrás ela sempre pedia pra não gozar dentro. Mergulhada na crise dos 30 passou a tratar minha porra como ouro derretido, sem disperdiçar uma gota sequer. E verdade seja dita, eu não tinha planos de me amarrar pro resto dos meus dias com ela. Certamente Raquel queria me manter por perto, nada melhor do que engravidar.

Naquela noite eu precisava de alguém. Por pior que a relação fique, no casamento você garante pelo menos um mamas and the papas twice a week. Solteiro a fome aperta.

Silas me convenceu da idéia de que casamento enferruja o cabra, e a melhor maneira de pegar no tranco é descer ao inferno e abraçar o capeta. 

Sentamos num bar da Vila Madalena. A maioria das mulheres jovens, lindinhas, frenéticas no celular e cabelo. Mas não foi difícil perceber que o negócio delas, definitivamente, era outro. Minha barriga dobrava o cinto e marcava o umbigo. Quando veio o bolinho de arroz e o garçom tirou meu sexto chope, arrotei de boca fechada concluindo que aquelas gazelas queriam mesmo é ser pegas por um guepardo. O bugio aqui estava condenado a bater uma com DVD de banca. Silas até que se empolgou arrastando a cadeira pra mesa de um grupinho, mas com aquele cavanhaque ensebado emoldurando um nariz adunco cravejado de cravos espanados e preto no meio, as meninas no mínimo, evitavam olhar pra não ter ânsia. Fora o hálito. Silas fuma três maços de derby/dia e gosta de torresmo.

O relógio marcava duas da manhã quando chegamos no Tchelas, puteiro da rua Augusta. O neon falhava no T, o rosa da fachada contrastava com o céu carregado de nuvens banhadas do âmbar da cidade. Carros no sobe e desce, buzinas, moças seminuas debruçadas nas janelas de monzas, santanas, kadetts, carro de quem tem algum extra no bolso, o suficiente pra gastar numa fudeca e ainda ter o que comer. Silas pisou na porta do Tchelas como se estivesse no Kodak Theatre. Entrou já abraçando duas. Parecia feliz, como se naquele ambiente fosse o grande astro da noite, duas indicações, e que aquelas moças tivessem mesmo admiração por ele. Mas pra quem via de fora e conhecia o cara, tudo ficava muito claro: Silas foi deixado pela mulher, pegou Fátima aos gritos com um estudante nigeriano e tinha uma vida afetiva estraçalhada, não engatava nenhum relacionamento, sempre no simulacro com profissionais, esquecendo que pagava por aqueles afagos.

O lugar fedia a mijo, gelo seco e buça mal lavada. Uma mulher parecida com a cantora Joelma, da banda Calypso, dançava num palco de fundo roçando no cano enquanto alguns desesperados alcançavam com as mãos uma ponta de bunda ou peito. Um espelho velho, já fosco, percorria de ponta a ponta o ambiente. Quem tivesse vendo peitos e quisesse checar bundas, recorria ao espelho. 

Deixei Silas se achando Sean Penn e encostei no bar. Uma menina dos seus 19 anos veio por trás e massageou minhas costas, perguntou meu nome. Pedi uma cerveja. Ela até gostosinha, coxuda, bunduda, peitinhos. Dei mais um gole e fiquei olhando. Um biquíni branco com saia preta de renda por cima. A luz negra realçava o biquininho entrando na bunda. Cheiro ruim, Avon, Revlon, algum crème de quinta pra baixar o cabelo ondulado. Ela deve ter achado que eu apreciava, talvez pelo tempo de pouso do olhar, cada parte do seu corpo, mas a verdade é que eu construía em mente um possível paradeiro pra ela. Deve ser do oeste catarinense, Xanxerê, Chapecó, alguma prima ligou pra ela aqui de São Paulo dizendo que dançava num clube e descolava mais grana que cuidando das galinhas. Sentou no meu colo e deu pequenos solavancos que casavam com a batida da música. Continuou nos solavancos e me puxou pela nuca pra perto. Beijei seu pescoço e avancei pra boca, mas ela forçou contra, argumentando que não podia beijar clientes, que se fosse pra rolar alguma coisa, 70 reais, toalhas e subimos pro quarto. Pedi um whisky com flashpower e um keep cooler pra ela. 

No quarto, já pelados, tomamos um banhinho. Tentei sair do protocolo e puxar um papo menos pega estica e enfia. Mas ela era lisa como um lontra, não entrava em detalhes, nada de trânsito afetivo, queria mesmo é que eu gozasse o mais rápido possível pra fazer cushkiiiiiim no caixa. Meti meia bomba escorando o pau pela base. Camisinha, claro. Enquanto ela chafurdava a cara no lençol e fingia prazer, levantei a cabeça pra me ver em ação no espelho. Que situação. Como os filmes fazem a cabeça da gente. Quanta pornochanchada e sexytime arquivados no cerebelo me fazem acreditar que estar neste quarto é absolutamente normal, sendo que eu não sinto prazer de nenhuma espécie no ritual. E quanto mais pensava nessas e noutras coisas, a a cópula perdia força. Foi a brecha pra baterem na porta. O leão de chácara perguntando se era crédito ou débito. Sacou uma máquineta de visa electron e pediu meu cartão. Fui até a calça, amarrotada no chão, e tirei a carteira. Pelado, no corredor do puteiro, digitei a senha e peguei o comprovante. 

segunda-feira, 17 de março de 2008

Aqueles Peitos - primeiro tratamento

















     Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon fosse sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. Ração com cenoura, cabeça de galinha e mamão, muito mamão.

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um cd do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos, artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete me dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Aconteceu diferente. Achei que eu tivesse mais peso na balança, que fosse o mais amado, estava enganado. Ela acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia a razão: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato que ela articula um raciocínio, almeja as coisas; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho. Era uma trufa de recheio fungado esquecida na cristaleira. Nos quatro anos de namoro eu tinha avançado pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro cd que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Pra ela isso era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachu e fazer pão caseiro. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou com elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando ela me viu largar um trampo numa produtora de som, que eu cheguei em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou…

Mas verdade seja dita: tinha uma puta admiração por Raquel. Ela fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu imendar uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem um escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas, eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira.

Naquele olhar ela me atravessou como furamos uma onda grande de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força. Ela sabia das minhas limitações mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Mas quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, ela introjetou uma raiva que já vinha num processo e transformou em desprezo inexorável. Dali por diante eu virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançou ao ar, num despenhadeiro.
Foi um baque. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o carro preto no meio do trânsito até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas iam caindo e eu me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia era tanta que fui abrigado a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. E veio uma sensação de alívio. A angústia agora parecia um dente ciso anestesiado que empurrava os outros. Olhei pro copo, me servi de outra, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão doloridas, logo ela voltaria, o sino da porta a balançar, e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou numa sereia, um canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, eu prometo que vai ser diferente.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Na Calada da Noite
















A água do mar mais quente que o ar. Sobe uma névoa que se dissipa pelos pequenos barcos ancorados perto da praia até lamber os corredores de pedra e musgo das casas. A brisa úmida balança uma ceroula no varal, preenche de pequenas gotas folhas de uma flor violeta. Um velho de barba, todo encasacado, desce a ladeira puxando duas cabras. Passam pela frente de uma mercearia fechada. No lixo, restos de verdura, folhas de alcachofra, rabos de peixe. Sobe uma senhora gorda, meias de lã, vestido preto marcando a calcinha. O velho pára pra olhar. Uma das cabras alcança um maço de manjericão. O velho puxa. O sino no pescoço dela tilinta, berra. Estamos falando de Trieste, Itália, 1938.

Francesca era filha de Fritz, triestino rico, empresário construtor de estradas e pontes na Europa. Fiona, mãe de Francesca, usufruía dos luxos que o marido lhe proporcionava. E não pense que eram poucos: Braceletes cravejados, muitos quilates, bolsas e visons com raposas, viagens, estações de ski. Uma vida de condessa regada `a boa literatura, carteados e aos cuidados com os filhos. Não que ela nunca tivesse feito algo. Até tentou se dedicar ao piano, estudar música, mas Fritz foi terminantemente contra. Achava que tocar, dançar era coisa de prostituta.

Nada é de graça nessa vida. Fiona sempre soube que ele comprava seu afeto com grana. Há tempos dormiam em camas separadas. Eram vistos juntos em eventos sociais; mas em casa, mal se falavam. Talvez no jantar, com as crianças na mesa, Fritz elogiava um prato. Fora isso, como se um não existisse pro outro.
Ela pagava um preço alto. Deixou de ser o que sempre quis, pianista, pra se dedicar ao casamento. Constatou que talvez não fosse este o caminho. Pensava muito na separação.

Os primeiros quatro anos de casamento foram fantásticos. Paixão legítima, Fiona não enxergava uma vida ao lado de outro. Fritz definitivamente era o homem da vida dela. Mas o tempo foi eficaz e não deixou que as diferenças, ocultas no noivado, ficassem de fora no dia a dia. Foi os filhos crescerem pra coisa minguar. Problemas foram aparecendo. Fiona sempre se queixou do marido ser fechado. A sua necessidade de trocar angústias, dores, vontades, seja sobre filhos, relação, nunca foram correspondidas, sequer ouvidas. Fritz sempre se fechou dizendo que o problema era dela, que ele tinha coisas mais importantes a tratar no trabalho, que aliás, garantiam o queijo brie na mesa e a fronha de algoodão egípcio onde ela deitava a cabeça todas as noites.

Fiona abominava o embrutecimento do marido com todas as forças. Ele não se parecia em nada com aquele que ela disse sim no altar, inclusive fisicamente. Pra onde foi aquele menino alegre que gostava de ver as estrelas, caminhar na praia, se declarar. E quanto mais sozinha e distante do ideal que se perdeu, maior a raiva que sentia. Uma mágoa contida, amarga, que aparecia nas bolsas escuras sob os olhos, nas rugas desenhadas no rosto.

Sabemos que a vida nos reserva surpresas. Coisas que damos por certo e nos surpreendem com algo completamente diferente. Aos olhos de quem via e acompanhava o casal, impossível dizer que algo acontecia entre os dois. O relacionamento estava morto e sobrevivia única e exclusivamente por conta das aparências vigentes na época.

Mas era na calada da noite, quando o vento faz a curva e todos os gatos são pardos, que Fritz era visto com uma certa frequência pela governanta das crianças cruzando de meias o corredor do casarão. O chão de madeira estalava sob o tapete persa. Entreabria a porta do quarto de Fiona até que o feixe de luz do corredor alcançasse a cama. Observava ela dormindo, as pantufas, o jarro d’água, os óculos de leitura. Então, com muita cautela, se aproximava, descia as calças e entrava debaixo do edredom de plumas de ganso. Alguns segundos de silêncio, Fritz ficava paralizado, pensando a melhor forma de romper o constrangimento, cimentar a sensação de culpa e avançar. Fiona sabia exatamente o que ele vinha buscar e fingia dormir. Respiração profunda. Travava pernas e braços contra o corpo e esperava pela improvável desistência do chacal. De nada adiantava. Fritz sempre resolvia agir, desabotoava as duas camadas da camisola e arriava as calçolas dela. Fiona soltava grunhidos sufocados pelo travesseiro e balançava o quadril de um lado ao outro, como um bebê que desvia a boca da colherada de sopa quente, evitando a mira quase certeira do lobão depravado. Fritz ficava ainda mais instigado com a luta inútil e segurava com força as duas bandas de bunda da patroa até que finalmente, por cansaço, ela cedia. A governanta, no quarto abaixo deles, que sofria de insônia lendo um interminável Proust, escutava o lento ranger da cama acelerar, acelerar, a cama batia na parede como um motor velho de calhambeque `a diesel até que finalmente todo e qualquer movimento cessasse. No mais completo silêncio, a governanta sentia a respiração ofegante dos dois pelo ir e vir das molas da cama. Bastavam cinco minutos pra que Fritz se cansasse sobre Fiona. Vestia as calças e, como se nada tivesse acontecido, voltava pelo mesmo corredor estalando os tacos de madeira.

Naquela noite a governanta largou o Proust e apagou o abajur. No escuro, inspirada pelos dois, trançou as pernas pensando nos braços do açougueiro, nas pernas de um barqueiro de Gênova. Quando recobrou a consciência, pouco antes do torpor virar sono, se perguntou, perplexa, por que raios a patroa nunca trancou a porta por dentro. Pensou: No fundo, bem lá no fundo ela deve gostar.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Tá difícil













Não consigo parar de trabalhar, sem tempo pra nada, sem almoço, dormindo mal, aqui vcs podem ver como sofro.