sábado, 17 de janeiro de 2009

Mel, castanhas, damascos e figos.

Estes dias estava vendo um programa no Discovery Channel. A chamada dizia: Sexo Selvagem. Parei de zapear e puxei dois travesseiros.

A fêmea do albatroz escolhe os machos pela qualidade de suas patas. Quando o macho pousa, elas reparam se as patas tem um tom azulado, limpas, e então se aproximam. Começa  uma dança de bicos, como lutadores de esgrima, as asas se abrem e se fecham, até que o macho aproveita a brisa do mar, contrai a envergadura das asas e monta na fêmea num rala e rola chamado pelo narrador de "cópula de cloacas".

Aí o programa parte para um peixe de porte médio de tom bem avermelhado, que acha uma loca entre as pedras como ninho. O peixe fica ziguezaguendo loucamente, como um boy de gol filmado pela frente da boate, até chamar a atenção da fêmea, bem avermelhada, linda. O macho entra e sai da loca, beija os corais, solta bolhas, falando " Aí gata, tô morando neste apê nos jardins, vamos lá tomar um vinho" E ela nada, continua nadando, beija coral, passa entre as algas. Bom. De repente chega um polvo ( aliás comi muito polvo na Bahia este verão, vinagrete, moqueca) que se esbeira pelas pedras, muda de cor, avança tentáculos até encontrar a loca do vermelhão, aquele apê nos jardins, e decide que vai passar um tempo ali, querendo o vermelho ou não.

Mas o vermelhão tá na seca, precisa dar um bimbex, e não deixa barato. Avança sobre o polvo, mordiscadas nos tentáculos, na cabeçona, até que o polvo desiste, cospe a tinta preta, e ganha a imensidão de azul profundo.

O vermelho volta para a loca. A fêmea reconhece o ato de heroísmo, ele é mais forte que um polvo, e então sucumbe aos encantos do seu garanhão, entra na loca.

Toca o telefone. Abaixo o som da TV.

- Oi, tô aqui na preguiça...Não, valeu vou ficar por aqui, tomei umas ontem, comi pastel, vou ficar de retiro...Sim sim, pode passar... vem pra cá...vinho não, tem sakê...beleza...tô por aqui.

Bom, era ela. Não me ligava faz tempo. Será que agora que eu fiz um doce e estou na minha a coisa engata?

A campainha.

Ela num traje indiano, sandália de dedo com miçangas, lápis de olho kajal, os lábios sempre úmidos, uma voz de seda no móvel de madeira envernizada, brincos combinando com o brilho do cabelo, e um movimento da roupa no corpo que com pouco tempo já podia imaginar a forma dela toda em pêlo. 

Sem pensar, disse que ia tomar um banho rápido. Me espera na sala. Comecei a arrumar o quarto, acendi um par de velas, liguei o lava-lamp vermelho, me perfumei, abri o vinho, coloquei Sade, vesti aquela bermuda florida sem cueca, camisa de linho branca, fiz dez barras e 20 flexões escondidas na edícula e falei com o espelho: fêmea, seduzir uma fêmea, parece que finalmente aprendi. 

Procurando Ban-chá

Vamos armar uma apetitosa sopa de legumes com chá? 
Aquela que os comedores de pastel, cerveja e espeto de picanha odeiam?
Estes dias fui comer um pastel e comecei a reparar nas pessoas. Uma pele dos poros dilatados, gordurosos, um olhar pesado de tédio, a lateral da bunda escorrendo por sobre um jeans que já serviu, os óculos descendo pelo nariz porque escorrega na gordura da pele e um apetite monstro, infinito por aquelas delícias de frituras, queijos, carne, tudo com uma Brahma ou com o desentupidor universal por cima: coca-cola.
Fui pra casa pensando: "eu já sou baiano, tenho este biotipo que engorda e fica cheio, parecendo mexicano, minha mãe francesinha bem que podia ter me dado uns gens das zoropa pra encrementar meu quórum de balzacas telefonando. Não só isso. Os europeus parecem poder beber e comer sem engordar tanto, metabolismo rápido, inverno rigoroso, tudo regulado. Mas papai prevalesceu, minha gente, me deu um corpo de pêlos, uma preguiça boa de brisa, nunca vou ter aquela cara clean de banqueiro do suisse bank que lava o rosto com sabonete líquido da loccitane e passa creme noir contour du yeux da Clinique todos os dias. Então melhor se cuidar Joãozinho..."
Não vou entrar nessa de comer pastel não, vou partir pro ban-chá, vou ligar pra minha querida tia e tomar aquela sopita. Isto sim me dá prazer"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

No caminho da varanda

Passar muito tempo usando só uma pequena fração do cérebro, pode realmente afetar a mente do caboclo.  Todos aqueles dias naquelas ações repetitivas de tiques, coceiras, compromissos e angústias baratas atrofia nossa memória de tal maneira, que a hora que nos permitimos um encontro com a dor, que exige uma certa profundidade, a coisa desanda. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Crescer para onde?

Se numa cultura de bactérias você joga uma gota de sacarose, as bactérias consomem o máximo que podem do açúcar, sem nenhum tipo de controle. A hora que o açúcar acaba, elas morrem juntas. O homem já consome mais de uma Terra em recursos naturais para manter o seu desenvolvimento. Todo mundo quer crescer, o Lula diz em 4,5 % ao ano, promete instalar não sei quantas hidrelétricas para suprir a matriz energética brasileira, que não pode parar de crescer, crescer e crescer.

Me pergunto: Crescer para onde? Neste modelo bactéria X Açúcar, crescer significa manter a indústria a todo vapor, gerar empregos, consumir reservas até atingir a meta absoluta: o colapso geral. Porque com este modelo de desenvolvimento estamos realmente acelerados em direção a extinção da espécie. O meteoro somos nós, de dentro pra fora.

Não sou esquerdinha purista chato, nem reacionário, muito menos frequento a Assembléia de Deus, mas me preocupa a tal da índole humana que foi depurada ao longo dos séculos e deu provas concretas que o caminho é este: da auto-destruição. O dinheiro sempre esteve na mão de poucos e continua (sem culpas). Até porque são estes empresários que geram empregos. E da mesma forma que eles conseguem transformar idéias em produtos de sucesso e gerar muita grana e vagas de trabalho, faz parte da índole destes caras explorar, consumir e concentrar riqueza. E isto o cara vai levar até a morte. Ele só opera nesta frequência.

E aí, ou você entra no jogo para sobreviver, pensando que a vida é curta, ou é marginalizado, com grandes chances de passar a existência na merda. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

domingo, 28 de dezembro de 2008

Férias até dia 02/01/2009

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Automóveis?

Realmente não entendo quando os jornais dizem que o governo vai ajudar a indústria automobilística a sair do sufoco injetando bilhões. É mais ou menos com dizer: "O verão deste ano vai bater os 40 graus no Rio, e o governo continua injetando milhões na indústria de lã, incentivando o carioca a usar cachecol na praia". A meu ver a questão não é salvar uma Fiat, uma Volks. A questão é entender que o carro, para o fim que foi dado, pelo menos nas grandes metrópoles, não cumpre mais o seu papel.  Se a função é deslocar-se pra lá e pra cá numa velocidade incrivelmente maior a que alcançamos andando, já era, porque na hora do rush, é bem possível que a pé, você chegue antes em casa. Como continuar a incentivar uma indústria que já saturou? Que não faz mais sentido? Seis milhões de veículos em São Paulo. Parou! Travou! Colapso! Por que não usar toda esta grana para pensar numa maneira gradativa de remanejar os trabalhadores do setor? Usar todo este aço em metrô, plataformas, a borracha do pneu no asfalto. Achar com urgência alternativas para o transporte público? Colocar na cabeça que a era do automóvel, da maneira como se dá, acabou. Simplesmente porque o planeta não comporta mais. Bom, mas e o status? Que todo mundo quer ter o seu carrinho para tirar uma chinfra isto é fato. Mas acredito que mesmo o tempo tratará de enferrujar o desejo de se ter um. Basta olhar, numa avenida como a Av. Rebouças, na hora do rush, a cara de banana dos motoristas enquanto avançam 2,3 km por hora. Alguns fumam, falam ao celular, coçam o saco, mas a maioria encosta o braço na janela e olha pro teto, com cara de cu, pagando 60 parcelas de R$ 600,00 + impostos para ficar parado. Bela compra! Quitou seu apartamento?
Por mais que injetem grana, uma hora a população percebe que a coisa degringolou e precisa de mudança. Por mais preciso que os comerciais sejam na sua lavagem cerebral. Claro. Se a Globo fizer uma campanha nacional de uso de cachecol no verão, vai ter carioca achando lindo aquela coisa de lã enrolada no pescoço para entrar no mar de Ipanema. Caetano pode até fazer outra versão de Menino do rio. Mas logo todo mundo tira e troca pela canga, boné, fio dental. O mesmo acontece com o carro. Ele vai começar a ficar na garagem, as bicicletas vão sair, e ninguém mais vai querer ficar no frenesi de trocar por um zero KM todo ano. Já pensou se trocássemos o status do carro pelo culto ao corpo saudável. Que as mulheres olhassem não para um carrão, mas para o cara bem dormido, boa postura, bebendo seu suco de acerola no parque, sorriso lago, bicicleta ao lado. Grande mudança de paradigma. Não aconteceu com o cigarro? Fumar não era chique? A questão é como mudar. Milhões de trabalhadores do setor vão se foder? Vão. Talvez se eu fosse um deles não estaria escrevendo este texto. Mas o que adianta alguém dizer: Caminhe até o precipício e pule, eu pago suas contas até você chegar lá.   Mais ou menos o que acontece com os metalúrgicos do ABC. Eles querem seus postos a qualquer preço, mas produzindo cachecol para o verão carioca.
Sustentabilidade com responsabilidade socioambiental. Etanol. Dar de beber a uma frota com sede. Parada com o motor ligado. O que adianta foder com a Amazônia, avançar a fronteira agrícola produzindo biocombustível para fazer lã no verão. A gente só tira o cachecol quando o frio aperta. Use a mesma lógica na sua garagem.
A indústria de automóveis parace um grande ditador que perde a guerra. Manda as tropas avançarem até o último homem, e quando tudo está perdido, mete um balaço na cabeça.