segunda-feira, 16 de junho de 2008

Por um beijo na boca








Ela decidiu não arriscar mais. Depois que terminou o último namoro sério, entrou numa maré de azar braba. Só conheceu bárbaros. Nenhum deles respeitou o seu pulo de cabeça na relação, todos, de uma maneira ou outra, pisaram na bola. 

Um deles passou a não atender o celular, e quando, sem querer atendia, pedia pra ligar dalí a 10. Chamava chamava até dar caixa. O outro disse que ainda gostava da Ex e que estava confuso,. E por aí vai. Só ferroada das braba. Aquilo fez tão mal, mas tão mal a ela, que resolveu se fechar por um tempo e não acreditar em homem nenhum deste mundo.

Passados seis meses focada no trabalho, arrumando o que fazer pra não pensar num cara, o mundo que vinha lentamente ruindo, finalmente veio abaixo. Era um 11 de junho e por mais que ela fosse metida a intelectual descolada “li Sartre escuto Stan Getz”, saber que dia seguinte casais comemorariam o namorados, abateu a menina. Seis meses sozinha e a tática do endurecimento com os homens não funcionava. Pelo contrário, a maneira de falar afetada pelos traumas e carência a distanciava ainda mais deles.

Pois bem. Fato é que Lúcia percebeu que não tinha muito como fugir do inevitável: apertar o play, ou como dizem, a tecla foda-se e aprender a jogar. Vestiu sua calça de cavalo curto, cabresto de virilha, pintou os olhos, burifou perfume na calcinha, e foi, noite do dia 11 pro 12, atrás de um possível bárbaro, na esperança de encontrar um que não fosse. Tudo por um beijo na boca.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Dans on Ile


















Por mas que tentasse se esconder numa capa de chuva prata, nos óculos de armaduras grossas, nas fivelas mal posicionadas no cabelo ondulado, ela não passava, não mesmo, desapercebido.

Unhas bem tratadas sem esmalte, sorriso no limite da graça, nunca excessos, os homens achavam, sem procurar muito, seus vacilos de sensualidade, ainda que na maneira de suas mãos escolherem maçãs no supermercado. Homens loucos, afrouxando gravatas. 

Enquanto as outras lutavam por olhares e cantadas numa calça jeans enfiada, decote safado, ela, sem mostrar nada, dans on ile, sofria.

Por mais que não quisesse, os homens sempre olhavam ela como o prato do dia.


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Minha Husky

Dela no barco, pouco me lembro. Proa popa popa proa e mal a via. Só tinha olhos para a vela cheia de vento, casco que corta água, horizonte, braço salgado, pé no acrílico branco. Dela mesmo, quase nada. 
Passar quatro dias em alto mar transforma um homem. O marinheiro vira marujo coiote fácil. Só água e horizonte deixa qualquer um maluco por terra firme e mulher. É inexplicável, mas deixa. E no terceiro pro quarto dia, logo pela manhã, ela que não era nada perto daquele horizonte, daquele mar e céu de azul profundo, passou a ser tudo. Uma xota, uma bunda que engolia toda a beleza do lugar, dos lugares. E era a mesma xota do primeiro, do segundo dia. Então porque no quarto a mesma xota virou A xota?
Chegamos à ilha, já próximos da costa do Panamá. Nunca tinha visto um lugar tão bonito. Azul turquesa, coqueiros e areia branca, tudo como manda o figurino. Era hora de abandonar navio e capitão, daqui os outros podem seguir viagem, fico por aqui. Não só eu, a finlandesa também. Que finlandesa? A Xota. Ficamos a ver navio, a ver veleiro sumir na quina de coral da praia.
A ilha é habitada pelos índios da tribo Matapalpa. Esperava aquela recepção de filmes, colar de búzios, coco e abacaxi na madeira e três indiazinhas pra brincar de macunaíma na rede. Nada. Índio quer pescar, índio quer caçar, índio faz artesanato, mas gosta mesmo é de din din, money, bufunfa, mais que espelho, mais que machadinha, é money in cash, igual a qualquer um, qualquer lugar. 
A finlandesa e eu ficamos numa oca grande, com muita gente, muita fumaça, galinha e cachorro. A finlandesa na rede do lado, balança aquela bunda no casulo, só o volume das ancas no balouço que espanta fumaraça de fogão no chão. Na minha rede, fechada as duas bandas, mexia no pau, no pau pensando nela. Se no barco bateu uma vontade de leve, em terra firme, no meio dos índios, numa ilha perdida no Caribe, eleve esta vontade ao cubo.
Não podia mais vê-la tomar sol, comer peixe frito e lamber os dedos, brincar com as crianças se agachando acocorada, beber água, raspar as axilas, mexer no cabelo, coçar o braço. Qualquer que fosse a ação da gringa e eu virava coiote de perder o prumo.
Eu até que tentei me segurar batendo minha punheta na rede, a noite, com a tribo toda dormindo na escuridão dos bichos, no longe do mar. Mas na bronha não resolvi, acordava com a casquinha seca no umbigo, a mancha amarelada na rede e na do lado aquele volume gostoso dormindo. Voltava tudo, voltava coiote.
De tão coiote, se antes eu mal falava com ela, se no barco só rolava um good morning e beautiful sunset, encostei na rede dela pra conversar. Ela lendo um livro, lendo A Montanha Mágica. Fechou o catatau na página do dia e sorriu sem desnudar os dentes, puxou a costura da blusa que lhe apertava o peito. Convidei pra pegar uma praia, ver se os índios já tinham voltado do mar com os peixes do dia. Topou. Guardou o Thomas numa bolsa de viagem, pegou seu chapéu trançado, dois hashis pra fazer coque e uma sandália de dedo. 
A caminho da praia pouco falava. E nem precisava. O lugar é de uma beleza tão grande que os olhos se perdem nas cores das flores, nos cantos dos pássaros, no vento na árvore, no lagarto verde que rasteja mato seco, no papagaio mordiscando fruta, no caranguejo que escapole pro buraco. Melhor que qualquer Guggeiheim, Loivre, Metropolitan, só obra de arte de primeira. 
Quando o caminho estreito de areia por entre a vegetação rasteira deu espaço só pra areia, o marzão deu às caras. Vento gostoso, barulho de mar e vontade de correr um pouco. Uns tiros de cem metros rasos, só pela liberdade de correr. Ela nem se abalou pela minha felicidade de latino pelo mar, pelo espaço livre, pé no chão. Continuou com aquele sorriso selado, olhos fixos em pontos distantes, mãos acertando o biquíni na altura dos pêlos depilados. Como se fosse uma governanta austríaca levando o filho bastardo do patrão pra ver o mar. Sem saco pra cuidar de filho dos outros. E o bastardo corria, enfiava o pé nas algas secas do entre marés, penteava o cabelo com os ventos, rabiscava areia com graveto, fechava os olhos. E a governanta lá, gelada como um viking por entre Icebergs.
Mas aos poucos foi caindo por água abaixo toda a minha crendice de que os nórdicos são frios e insensíveis. Ela estava ali parada, mas em puro deleite. O simples fato de sentir um vento tropical, de ver um mar com aquela cor, um sol que não se esvai nunca, já era motivo para paralisá-la, tirar a gringa de órbita. O que eu tinha como trivial, carne de vaca, de ter o calor, o mar, o verão sempre a disposição, para ela era um banquete, uma ceia que ela nunca teve na Finlândia. Então fui deixando de correr, de chutar areia, de fazer toda a macacada para observá-la. Ela caminhou com os braços pra trás, chapéu na mão, olhos semicerrados e sentou num tronco gordo que a maré alta cuspiu do mar. Tronco cheio de craca, madeira da boa, madeira que pode passar anos à deriva, se é que não passou. Continuou a olhar pro mar, às vezes pro sol, parava no sol de olhos fechados, voltava pro mar. Que mulher!
Sem conversar, sentei no que restou de tronco. Ela não se mexia, não deixava sua contemplação pra nada, eu ali era o chato da pipoca que atrapalhava seu filme preferido. E se ela não esboçava uma olhadela sequer, fui eu quem passei a vê-la de perto, cada vez mais perto. Percebia no seu rosto as cicatrizes do frio cortante lá das riba de cima. Um pé de galinha em leque, o contorno da boca ressecada, e os olhos azuis com diafragma f22 pra evitar o sol. Todos os fios de cabelo loiros, das sobrancelhas à penugem da orelha tudo loiro, amarelo trigo, muito longe do meu cabelo ruim de mameluco. Um corpo que não tinha a fartura volátil de um quadril carnaval mulata, via uma pele nívea com cara de bem durável, uma bunda que não sucumbe ao declínio, peitos que se mantém quindim, bunda que dá pra ver de luz acesa por longas décadas. Tudo com aquela penugem de pêssego. 
E se não fosse o zumbido constante do vento nos ouvidos, estaríamos num silêncio sepulcral já que ela não pronunciava uma única palavra. Melhor! Não só não dizia nada como gostava deste não dizer, simplesmente gostava de ver e ouvir o que não é som urbanóide. E apesar dela não pedir pelo meu silêncio, a sua quietude tragava minha agitação, como se aos poucos eu fosse adestrado, um labrador que sabe onde mijar, onde deitar, a hora de parar de latir, de pedir carinho. Ela conseguia tudo isto sem dizer, sem olhar e eu entendia muito bem.
Mas se até então me comportava bem, de uma hora pra outra o sangue latino subiu, os tambores tocaram, as maracas sacolejaram e a pica me fez tripé. Não só o corpo era escultural como sua áurea transcendental. Ela tinha me cercado por todos os lados, era uma mulher de verdade, longe das poucas e loucas que tive na vida. Tal descoberta me pôs maluco a tal ponto que, como um cavalo selvagem que derruba cela e cowboy e rompe a cerca aos galopes e relinchadas, avancei no seu cangote sem dó, lavando de língua o que via pela frente. Ela, sem fazer escândalos, sem se debater e gritar como as histéricas deste nosso mundo, simplesmente pediu calma, disse nãos e nãos e nãos e procurou me acalmar, afastar-se da minha boca louca. Então, já que tinha começado, tentei de novo, avancei. Ela, um pouco mais ríspida, desta vez apertou meu braço com força, apertou justo o braço da mão que buscava suas coxas, o filé do meio das coxas. E se olhar azul antes pairava sobre o infinito do horizonte, agora me olhava como uma SS na triagem da fila do gás.
Esperei alguns minutos antes de voltar a atacar. Desta vez a arma era outra: a convenceria a dar por exaustão, no argumento; famigerado xaveco:

- Olha, eu juro que não te entendo. Nós dois aqui nesta ilha num fim de mundo e você não dá uma brecha...eu...eu...eu juro que não te entendo.

Silêncio Vento

- HÁ HÁ HÁ Você é um cara engraçado. Enquanto a gente estava no barco naqueles quatro dias de viagem, você mal olhava pra mim, não dava bola nenhuma. Agora que eu sou a única mulher do barco você resolve querer me comer. Isto é típico dos latinos! Só porque tá com uma mulher na praia tem que comer por comer. Eu não vou cair na sua, Ah não vou mesmo.
- Mas qual o problema em querer te comer. Qual o problema, me fala?
- O problema é justamente este, você SÓ quer me comer, mais nada, só comer e pular fora....Típico dos latinos.
- Porra! Não é nenhuma aberração querer comer alguém numa praia paradisíaca, querer gozar. Tem coisa melhor do que trepar...E tem mais, você vai gozar, eu vou gozar, os dois vão gozar, na praia, na noite estrelada, que mais você quer, não tô entendendo. 
- Pois é. Você não entende porque é latino, os latinos são machistas, acham que qualquer uma tem que dar. Eu vi muito bem como é que funciona. Quando eu fui pra Martinica, era só eu querer dançar que o negão já achava que eu queria dar. Se você quisesse mesmo ficar comigo, eu teria percebido algum interesse ainda no barco, não agora que você não tem opção, que não pode comer uma índia senão arruma briga, e encontra a amiga de bordo como única chance de dar uma. Não vem não, sem chance.
- Quer dizer que você prefere passar vinte dias sozinha do que trepando?
- Exato.
- Quer dizer que você vai viajar todo o Caribe e voltar pra Finlândia sem dar?
- Você continua sem entender. EU NÃO QUERO DAR PRA VOCÊ, PRA VOCÊ, DÁ PRA ENTENDER? É DIFÍCIL?
- Deixa pra lá.


O mais pavoroso de tudo é que aquele negar irredutível elevava meu tesão ao grau máximo. Passei os dias seguintes sem pensar em mais nada, sem escutar quem fosse, sem sentir a água do mar, o sol, os ouriços no pé. Era inacreditável. Como iria contar aos amigos uma história louca destas. Era inconcebível, vexatório, não podia com aquilo mesmo me remoendo com seu argumento de classe: “ Se não antes; porque agora?”. Aquela mulher era realmente incrível.
E pra piorar, ela queria ser minha amiga. E ser amigo de quem você quer comer é a pior tortura que pode existir. Pode arrancar minhas unhas de alicate, choque elétrico, ameaçar os filhos, agora, esfregar xoxota na cara e não dar, não dar e querer abraço, carinho, chamando de miguinho, de fofo, isto é humilhação da boa. 
Amiguinha acordava nova, saia da rede, Thomas Mann quase no fim, chapéu, arrastava a sandalha de dedo até minha rede. Então fazia um carinho no cabelo, soltava um good morning e me convidava pra dar um mergulho, andar na praia. Pedia pra que eu levantasse rápido, me puxando e eu fingindo que não, que na rede estava bom, que já ia, tudo pra disfarçar um pinto já de pé. 
Quando finalmente o bimbo me dava um sossego, levantava e corria pra praia. Ela já na água entre os corais. Pra ver um peixe, uma concha no fundo, mergulhava embicando a bunda. Então ela me via de longe, ficava de pé no coral e acenava, chamava. Eu entrava n’água devagar, pisando com cuidado, os peixes coloridos beliscando os dedos do pé, até que eu chegava na sereia. A sereia me olhava, dava o tradicional riso sem desnudar os dentes e me passava sua máscara de mergulho. Feliz da vida apontava uma estrela do mar, uma antena de lagosta e lá se ia o coiote com cara de tacho. Mas esta parte até que era bem boa. Ela de pé na piscina natural, água pela cintura, e eu de máscara mandando lagosta, estrela do mar pras picas, gostava mesmo é de fitar sua bunda lá de baixo. Segurava numa ponta de coral pra não boiar e me perdia naquela vista de bunda, de xoxota no biquíni, de pulinhos na areia. Perplexo como é bom mulher pelada, nem me lembrava de subir pra pegar ar, aguentava o máximo, o máximo, até explodir lá pra cima. E pra melhorar ainda mais, ela começou a nadar peito. Nadar peito! Existe algo mais fantástico do que ver, de máscara, uma mulher nadar peito embaixo d’água? Golfinho nadando é bonito? Tartaruga marinha respirando é uma graça? Ballet de arraia é fantástico? O que dizer então do nadar peito de uma moça, pernas que se desencontram, chutam e deslocam água, e nos dão o mais belo ângulo do planeta, a bissetriz calculada, o esporão no cérebro, a ventosa babada, a concha viva que sorri na lycra, o triângulo das bermudas que hipnotiza e fulminaria Vasco da gama na primeira das travessias. Nadar peito! Peito! Aprendeu na piscina aquecida de Oslo, onde passou parte da infância. A professora gritava do seu craw desgrenhado, do seu borboleta catastrófico, mas no nado peito ela se encontrava, gostava daquele deslizar de cabeça, de pescoço ganso mergulhando, as pernas que voam pelo ar denso. A professora elogiava. Então, voltando ao nosso nado peito aqui, lá estava eu atrás da gringa. Uma água cristalina, 10, 20, 30 metros de visibilidade e a gringa na frente no peito. Eu também nadava um peito, só que bem mais lento. Bem mais lento pra ficar sempre pra trás. E se deixado pra trás, significa poder vê-la por trás. E que bunda. Carne que fica mais bonita ainda debaixo d’água, carne que engole biquíni a cada pernada e me fazia engolir água. Era como se meu olhar tivesse um Bresson instalado. Só pegava os melhores instantâneos, as melhores fotos, espocadas de flash, nada poderia com aquelas cenas, nada me tiraria dali, nem um tubarão de recife nadando pelo meu flanco esquerdo desfiaria minha atenção. O nado peito, momento sublime, flashes potencializando ainda mais minha loucura.
De volta à areia, ela largou o equipamento de mergulho melado na areia e se preparou para me dar mais um presente: alongamento. Isto mesmo, deitar, abrir espacate, fazer ponte, tudo naquele biquíni, com a brisa do fim de tarde secando o sal no pescoço, deixando seus pêlos ainda mais louros, salgados, enquanto o volume da minha sunga parecia ter um quilo de sal grosso. 
Enquanto a observava, sentia o resto de sol me lambendo as costas e a textura da mão numa maciez incrível. Unhas saudáveis, como se o banho de mar às renovassem. Procurava entender se ela tinha consciência do que aquela ginástica toda causava no cumpadre aqui. Se ela desconfiou que o meu nado peito débil tinha um propósito. Enfim, queria saber se tudo aquilo era uma grande provocação pra me deixar louco, ou se, assim como seu olhar contemplativo ao mar, ao céu, ou seus argumentos certeiros, ela não estava nem aí pra mim e fazia do seu corpo o que bem entendesse, sem dar margem à minha loucurada de coiote. Mas do que isto. Passei a perguntar aos deuses se as mulheres tem, com exatidão, idéia de como uma xoxota afeta o macho. Mas a melhor resposta que encontrei foi que para isto, basta imaginar se nós, homens, temos idéia de como um bimbo ou coxa peluda afeta as mulheres. Temos, mais é muito superficial, fica no âmbito do observável, do que foi aprendido nos longos anos do jogo de sedução. Lembro que nos meus dezoito pra dezenove anos, época em que eu andava muito de bicicleta, minha professora de Inglês disse que eu tinha umas pernas bonitas, que era sacanagem eu chegar à sua aula com aquelas bermudas, deixando as coxas peludas às vistas. Lembro que na mesma noite, depois de voltar da aula, fiquei olhando para aquelas coxas peludas, magras, joelho cheio das manchas das quedas de skate e não conseguia entender o que faz da coxa de um homem gostosa. Talvez fosse cedo para entender, não sei, talvez hoje, poderia detectar com maior exatidão quais são meus pontos fortes neste jogo de sedução das carnes, mas ainda assim sei que a minha dimensão do que tenho de tesudo é muito pouco perto da profunda reação instintiva das fêmeas. Sendo assim, ela não poderia entender como eu me sinto vendo um nadar peito ou um alongamento na praia. Nem ela nem nenhuma outra, coisa de macho, coisa nossa.
De volta à oca, índios no fritar de peixe, cachorros mordendo o pêlo atrás de pulgas como uma máquina de costura trabalhando em tecido grosso, a generosidade do ciscar da galinha com seus pintos, o mesmo que o meu gostaria de receber da gringa. E, impressionante, eu não conseguia avançar na conquista. A gringa não estava blefando, não fazia jogo. Geralmente as mulheres, independentemente de querer ou não, gostam de um assédio, de algum macho obstinado por perto. Ela não. Soltava as sandálias no chão, enchia a rede com fartura de bunda e abria o Thomas Mann na maior. Quando parava era pra dar um gole d’água e descascar uma laranja. Chupava, deixava casca e bagaço organizados num cantinho e voltava à leitura. 
Foi aí que percebi o colapso. Eu não tinha mais forças pra agir, não via por onde; estava contaminado de tal forma que da minha rede, mal podia piscar, mal podia focar, um olhar pobre de acuidade, boca aberta e língua cutucando canino torto, vontade de esfoliar lama na cara, de ser arrastado no chão, dar um jeito de me livrar da total submissão.
Sem avisar os da oca, deixei minha rede. Ela me viu levantar e por dois segundos deixou sua página aberta sem olhos. Fiz com os dedos um vou andar, ela coçou o cabelo com a ponta das unhas e mergulhou de volta ao livro. 
Na praia, entrei num processo de regeneração, de drenagem linfática. Precisava estar sozinho e revisitar todos os meus aposentos palacianos, peneirar o que me restou de racional, fugir do pólen daquela flor que o vento levava a toda parte. Levantava a mão na altura dos olhos e via os dedos tremerem, fechava os olhos e vinha um nadar peito, pegava um siri morto na areia e brincava com suas garras já em decomposição. Brincava com as pinças, fazia o bicho parecer vivo com brincadeiras de criança, encontrava em qualquer coisa uma forçação de barra pra transformar logo aquela fêmea em pó. E quando o torrão de açúcar começava a se dissolver, algo no campo de visão me soterrava na areia até o pescoço. Fosse o tronco que ela havia sentado a meditar, fosse os desenhos na areia de sua sessão de alongamento, fosse o vento. Sobrou andar pra longe. 


quarta-feira, 23 de abril de 2008

The more I drink


Domingo de feriado, sol de abril, acordei cedo e desci pra praia,  sunga e camiseta florida. Por alguma razão me sentia bem. Talvez pela noite bem dormida, o cheiro do mar, da mata atlântica. Ou pelo simples fato dos problemas estarem longe, muy lejos. 
Gosto do jeito que o vento chega nas coisas. Nas árvores, nos coqueiros, na minha cara. Gosto do sol quente nas costas, do contato da areia entre os dedos do pé, do horizonte com as ilhas exigindo reflexão, da sede das ondas por terra firme, que estouram, estouram, como se quisessem caminar, caminando por la playa. Gosto dos livros que leio na praia, do tempo que tenho pra ler, da forma como absorvo as coisas e transformo, da companhia das páginas. A professora de Inglês, moça fantástica, continua me ensinando a trabalhar com a língua. A lição de casa, que trouxe comigo pro mar, agora leio nas pedras, no costão, 23° 26' 15" S longitude 45° 03' 45" W, onde posso ver quem anda, quem beija e toca, se doura. Abro a página:

Making love with you
Is like drinking sea water
The more I drink
The thirstier I become
Until nothing can slake my thirst
But to drink the entire sea


 
Vou dar um mergulho, dar minhas braçadas, voltar pra casa, comer um mamão papaia.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dedo no Gatilho (reload)

















Ganhei muito dinheiro nesta vida. Ahhhh, se ganhei. Ainda menino, 18, 19 anos uma notícia triste me deixou montado. Meu avô, barão de café, foi encontrado morto na piscina de casa. Assustei quando olhei meu saldo. 

Todo fim de tarde vovô fazia seus 500 de peito voltando costas, mas naquele dia as várias feijoadas cobraram seus joelhos de porco. Infarto fulminante. Quando vovó foi chamá-lo pra tomar uma sopa de mandioquinha e abriu a janela do jardim, a água da piscina já estava parada. Algumas folhas rastejavam na superfície, vovô submerso na parte funda, perto do filtro, pairava como uma água viva. Os vizinhos ouviram os gritos, mas era tarde demais. 

A família se abraçou no velório, óculos escuros, lenços calibrados de ranho, apareceu aquele primo abutre que nunca ninguém viu, querendo sua fatia do bolo. Foi o tempo do caixão baixar pra que as brigas começassem. Vovô, assim como Charles Chaplin, foi um dos poucos que se safou do crack de 1929. E por incrível que pareça, minha parte estava garantida no testamento. Ninguém tasca.

Com a grana que entrou, meu negócio era a jogatina. Gastar em cassino, poker, mulheres, champagne, putaria, pó, piada de preto, desdém alheio, depredação do patrimônio público, ostentação. O que você imaginar que se possa fazer. 

Dinheiro deixa a gente babaca. Aos 20 já tinha minha Mercedez conversível, três rolex e muita jóia pendurada nos meus vários troféus. Isso mesmo, comi mais da metade das menininhas de família do clube. Fazia questão de dar um brilhante, colar; tenho tesão nisso, gastar com mulher, suscitar o desejo atávico delas pelo provedor. A partir do momento que você entende que o que elas querem mesmo é ser exclusivas, ter o seu olhar, seu carinho, ainda que naqueles poucos momentos juntos, você levou. Se além disso você dá um cano no cinema, mas depois aparece com flores e põe ela pra dormir de tanto gozar, pode ter certeza: tá na mão. Como dizem por aí: Gato de barriga cheia não passeia. E na época de estiagem - coisa rara – pegava uma putinha de luxo bandeira dois e arrastava pra casa. Claro, ficava ligado se a piranha não me levava um perfume, escondia a carteira na gaveta, mas sempre deixava uma nota de US$ 100 no criado mudo, só pra testar a putinha. Elas sempre acham que são mais espertas que a gente. Te dou a periquita e voilá…Green Card, faço tudo que quiser. Não não, comigo não macarrão. Nunca foi assim. Nesse sentido sempre tive muita lucidez. Fico na fissura de comer, mas consigo manter o tênue fio da consciência. E nada da dormidinha depois. Acabou, tchau…Táxi. Algumas me acham um escroto; outras adoram.

Aos vinte e três já tinha quase que dobrado a herança que vovô deixou. Enquanto meus outros irmãos gastaram, abriram seus negócios e se deram mal – nenhum deles tinha tino, foram muito mimados por papai, perderam a noção de realidade -, eu já era tido como o grande Gatsby: cinco carros na garagem, duas motos, uma ilha em Angra.

Mas quem tem grana sempre quer mais e acha que tem de menos. Vira bola de neve. Se era dez, quando se tem cem é pouco. Um milhão, dez milhões, vinte milhões. Mixaria. O negócio é fazer bilhão pra comprimentar um Safra em evento fina flor ha ha ha ho ho ho e ele sacar, não pela roupa, nem pelo relógio, mas pelo olhar, que você bateu nas cifras dele. Por que aí você entra noutro patamar. Pode fazer absolutamente tudo que lhe der na telha. E os serviços pra quem tem grana são inimagináveis. No tempo que um trabalhador perde na fila do INSS, você pode pegar um jatinho até o sul da Bahia, toma banho de mar, dança lambada, almoça, tira uma siesta e volta antes da chuva do final da tarde. Isso é maravilhoso. É poder. Todas as ferramentas criadas pelo homem` a sua inteira disposição. 

Mesmo assim me achava peixe pequeno perto dos grandes que circulam no High Society. Geralmente um judeu do mercado financeiro, usineiros, empreiteiros. E sabia muito bem que eles só eram mais ricos por um motivo: Além de saber ganhar, sabem gastar. Na hora certa, com as pessoas apropriadas. E o dinheiro sempre volta em dobro. Quando você entra neste circuito e é aceito, pode apostar que sua conta não pára de engordar. Do contrário, se seu sobrenome vem de extratos inferiores, pode bater na porta quantas vezes quiser, com a melhor das intenções, que não vai rolar, não vai. Nêgo vai te dar canseira ou queima logo seu filme, te dá uma chance e passa a rasteira.

Tudo aquilo me incomodava. A patota dos cartolas mais ricos, a vida incerta no jogo; queria gozar de certa estabilidade, esta coisa de ganhar aqui perder acolá, investir na bolsa e ficar maluco vendo se acham mais petróleo, se o Chaves estatizou multi nacional, se a seca prejudicou a laranja na Califórnia. Porra. E a noite já não era tudo aquilo. Comecei a perceber, até muito tarde pro meu gosto, que comer mil mulheres é comer nenhuma. Deitar com carpaccio e acordar com uma pizza quarto queijos do lado, que não vai embora nunca, é uma merda. Queria uma mulher de verdade, dessas de filme com vento e sobretudo, que você conhece uma francesa no café e se apaixona. É isso, faltava uma das poucas coisas que a grana não te permite comprar e que me cortava por dentro. Um amor. Uma pessoa que você tem vontade de ligar e ouvir a voz. 


Mergulhado numa crise existencial sem precedentes, tarja preta com Blue Label, cueca, controle e olheiras, passava as noites em claro arquitetando a melhor forma de acabar com tudo aquilo. Hemingway, tiro de rifle na boca.Elvis, pó e icecream, Sócrates cicuta, ou fazer logo o superman e pular da cobertura? Estatelar no chão no último fade-out. Não tive coragem. Verdade é que sempre fui um cara alegre, que aprecia a vida, que não deve nem teme, sem religiões, credos, esta coisa de paraíso que não tá com nada. Aqui e agora. Visa Platinium no The Plaza com champagne e caviar beluga. Peitos e pérolas, Jacuzzi, Bahamas bermudas. 

Foi só eu decidir sair daquele caldo em Pipeline pra que as coisas começassem a mudar. Conheci um peixe grande que estava atrás de sócios pra abrir um cassino em Las Vegas. Cassino com Tutâncamon de 22 metros na porta principal, 100 cleópatras no atendimento, show com ninfas múmias meladas de mel e purpurina num grande espetáculo de luzes, fontes e fogos. Esquema da pesada. E o cara era rico mesmo, nada de esquentar grana, caixa dois, drible no leão. Pelo excel teríamos retorno do investimento em seis meses. Em cinco anos 1000%. Dessas coisas de limosine virar fusca, avião táxi, Iate prancha. De ninguém te segurar. Meus olhos brilharam. Mesmo querendo sair dessa, fato é que trabalharia no que realmente sei fazer. Não vai adiantar vender tudo agora e abrir um sebo, tocar trompete, pintar descalço. Minha meta eram cinco anos nessa. Cinco anos. Depois sim, velejar pelo Caribe de tererê no cabelo, produzir alguma banda de Rumba, ficar pelado no veleiro.

Foi justamente nesta época de mudanças, já morando em Miami, completamente enlouquecido pela construção do cassino, que conheci uma moça. Estava em Key West no iate de Jeff, sobrinho de Ronald Frump. Jeff queria botar uma grana no negócio e resolveu dar um jantar no barco recém-comprado de um empresário austríaco. A marina foi fechada pra receber os convivas, as lagostas chegavam vivas, antenadas, as meninas circulavam pelo convés com os canapés. 

Lembro que fumava um Cohiba série limitada enquanto ouvia Jeff falar em cifras e mais cifras, contas na Suiça. Foi quando Raymond, produtor da festa, um viadinho descolado que dava lá suas comidas numas gostosas entre um cu e outro, me apresentou uma das moças, Mila. Fiquei completamente enlouquecido. Foi como se a médico ligasse todos aqueles fios no meu cérebro e o gráfico no papel fosse lá em cima, entrasse em colapso. A menina era simplesmente um espetáculo. Tinha a leveza de uma pluma de ganso, textura de nectarina, hai kai da Playboy, o queijo de cabra com vinho branco. Melhor que todas que eu já vi. Era como se Rodin pegasse porra de um grego e misturasse com óvulo de Sueca fértil. Linda. Enquanto as outras tentavam parecer Pamela Anderson, tetas imensas numa praia de Malibu, ela zerava tudo num sorriso. 

Carioca, seis anos na América, loira da boca carnuda, sobrancelhas grossas, tinha lido muito mais do que eu. Fez bale clássico, jazz, mexia no excel. Que pernas. Anoitecia quando pedi que minha lancha viesse até o Iate de Jeff. Mila estava embarcando num bote com os outros da cozinha. Ofereci carona. Convidei pra jantar. Mas ela tinha outros compromissos. Pedi seu celular, e pra não ter erro de dela me dar o número errado, na hora agilizei dela ligar no meu iphone pra que a bina desse a certeza que a veria de novo. Desci no pier principal de Coconut Groove pensando nela.

Mila imediatamente foi escalada como minha assessora no Cassino. Comandava um staff de 99 subordinadas, não usava uniforme, tinha horário flexível. Nada burra, logo sacou meu interesse por ela pra se estabelecer. Mas como não é de hoje que conheço as mulheres, ou pelo menos, o ponto fraco da maioria delas, não dei o braço a torcer. Fui logo estabelecendo que o fato dela ter sido escolhida, não significava, em hipótese alguma, que ela teria liberdade total dentro do meu estabelecimento. Ela entendeu o recado. Maravilhoso o show egípcio, Tiaras de cobra naja, biquíni, paetês e purpurina. 

Não demorou muito pra acontecer. Saímos algumas vezes, levei-a nos melhores restaurantes, cobri de jóias, até que finalmente, já em alto mar, no Golfo do México, abri o fecho do seu sutiã. Espetáculo. Agora sim fiquei rico de verdade. Foi lavagem cerebral. Desconstruí toda aquela idéia de que mulher é interesseira e puta. Mila me fez enxergar.

Sempre tive minhas paranóias. Quando se instala, me consume. Penso que até gosto de mergulhar na coisa. E toda vez que resolvo uma, outra aparece no lugar. Não tem respiro, o vácuo é sempre preenchido pela próxima angústia da fila.

E se antes eram questões ligadas ao trabalho, ou mesmo em encontrar a mulher certa, agora martelava a aflição com relação a porra do HIV.

Dei minhas vaciladas, claro. Todo mundo dá. Não conheço ninguém que trepe só de camisinha. Todo mundo abre exceção. Aquelas meninas de família cheirosas, gostosas, sempre em dia com o gineco. Na hora você não pensa e passa a rola. Ou até pensa, mas sempre acaba se convencendo de que não vai rolar nada. Só depois se dá por si. Mas aí já é tarde, melou geral. 

Quando comecei a namorar Mila, tive o maior cuidado em colocar camisinha. Ela cobrou. Sabia que tinha comido outras sem, não queria correr o risco de se infectar. E verdade seja dita, não tinha total certeza se estava realmente clean e seria mortal pra mim saber que passei algo pra ela. Lembro que fiz o teste um ano atrás, mas de lá pra cá foram muitos os carnavais. E como em todo relacionamento, na quarta ou quinta vez a intimidade anulou qualquer tipo de precaução. Não tinha outra ali comigo, fiquei naquela do só um pouquinho, só la cabecita e continuei sem. Na hora não pensei em nada. Seu filho da puta.

No banheiro, me olhando no espelho, a angústia se multiplicou por dois. Se ela estivesse grávida e eu doente, mataria ela e meu filho. Imaginem como fiquei. Aquilo virou um monstro dentro de mim, consumindo tudo. E o pior, sem que ela soubesse. Claro, Mila estava completamente apaixonada por mim e não lhe passava pela cabeça que eu pudesse ter alguma coisa. Talvez antes, mas agora, no auge da paixão, simplesmente deletou. Então era uma questão minha que não conseguiria dividir nem com ela nem com ninguém. Manobrar sozinho um transatlântico no meio de icebergs, tempestade.

Chegava em casa com uma cara de cu, Mila perguntando o que era, e eu sempre jogava no trabalho, no estresse do Cassino. Ela me dava conselhos, aquele rostinho lindo tentando amenizar minha dor, e cada vez mais eu pensava: “Caralho, eu vou matar a única mulher que amei”. E Mila tinha um fogo no rabo danado. Só queria sem. Vinha pra cima com o maior tesão, chupava, virava, metia, lindinha, carinhosa, tesuda, sem saber da minha angústia. 
Toda noite aparecia com uns óleos de massagem, até um pau de borracha, mas aí intervi. Não me venha com esta de matar a preta na caçapa do meio. Giz no taco passo eu. 

Quando ela adormecia, ia pro computador. Abria no google pra pesquisar sobre HIV. Os primeiros sintomas: Tosse, manchas no corpo, diarréia. Depois de cagar ficava olhando minha merda, ficava na luz vendo alguma picada de inseto, se era sarcoma ou mesmo picada. Qualquer tosse e…fodeu, to fodido, matei morri fodi. Sou um bosta. Os sacos de cimento foram se acumulando no ombro até que não aguentei mais. Meu sócio me ligava desesperado cobrando trabalho e já não escutava. A maneira como via o mundo era diferente. Morte, urubús, leprosos, imaginava um vale sombrio com aidéticos, eles me recebendo, som de sonâmbulos sem orelha, dedo. Até que não suportei o piano e fiz o teste. Fiz o teste. Disse lá que não era viado, nunca me piquei, só tinha lutado uns Jiu Jitsu sem kimono, galo de briga no cachorro cru. 

O resultado sairia no dia seguinte, pela internet.

Nunca em toda minha vida passei por um momento tão difícil como aquele. 24 horas em que tudo pipocou na minha cabeça. A infância, minha mãe, meus brinquedos, Mila. Pra ajudar no resultado do teste, passei a mão no telefone e liguei pra todas, sem excessão, que tinha comido sem camisinha. Comecei pela Núbia, uma loira que me agarrou no carro, transamos no banheiro do Banco de Boston enquanto a gerente buscava meu extrato:

- Alô?
- Núbia?
- Isso.
- Mariano.
- Oooooooi, e aí sumido? Nunca mais me ligou…
- Pois é, viajando muito, trabalho.
- Lí no jornal que vc abriu um cassino.
- É, abri. Las Vegas, aquela loucura.
- E aí…me ligando assim no meio do dia? Alguma coisa?
- Não nada. Só liguei pra ver se você tava bem.
- Tô ótima, namorando, trabalhando.
- Bom…Bom, e de peso, engordou, emagreceu?
- Ha Ha Ha, Mariano, você enlouqueceu? Se eu emagreci…Que que é isso, pesquisa de mercado, do IBGE?
- Não, nada não. Gostava de você gordinha. E seu namorado, é aquele de sardas ainda?
- É sim, o Cássio.
E vem cá, as sardas são pequenas, não crescem? – Ahhh Mariano, depois a gente se fala, tô na correria. Tchau.


Bem, Núbia me pareceu bem, não perdeu peso, está namorando, as chances não são muitas. Se bem que a doença pode não ter se manifestado, ela contaminou o namorado, ela sempre gostou de dar o cu, e anal é tiro e queda pra pegar a coisa. 

Vou ligar pra Karem, aquela que eu mandei na mansão do Safra, quando ele viajou e pediu que eu cuidasse da papelada. Foi histórica, dentro do aquário salgado dele, gigante, uma parede, no meio dos peixes palhaços.

- Alô?
- Karem?
- É, quem é?
- Mariano.
- Quem?
- Mariano, da mercedez preta.
- Ah, oi amor, saudade. Uso aquele anel até hoje…
- Você tá bem?
- Tô ótima, voltei da praia semana passada, muito sol, balada…
- Que barulho é esse no fundo?
- Ah, tô no médico, dermatologista. 
- Dermatologista?
- É, apareceram umas manchas na minha pele lá na praia, alguns dizem que é fungo, resolvi dar uma olhada.
- Fungos!!! Que tipo de mancha são essas?
- Mariano?! Que que tem a ver? Manchinhas de pele de verão, nada grave, algum problema?
- Não, é que…
- Bom, chegou minha vez, a médica vai me atender, falamos depois, beijos…
- Karem, karem!!!! (desligou)

Caralho, que merda é essa. Só falta essa puta tá bichada e ter me passado alguma coisa. Voltei pro google pra ler sobre manchas mais encanado ainda. A Karem gostava de morder, chupar, pode ter rompido algum vaso, sangrado, só falta…

O negócio foi piorando. Lembrei da Miriam, uma alpimista social que comi no Iate do Eike Batista enquanto ele discutia com a Luma. Limpei na meia calça dela. Liguei pra Miriam, deu caixa. Deixei um recado “Oi Miriam, Mariano, me liga quando puder, beijo”.


Fiquei ali na pesquisa sobre sarcomas, nem vinte minutos meu celular tocou.

- Alô
- Mariano?
- Oi Miriam, pegou meu recado?
- Peguei, tava na rua numa puta chuva, acho que vou pegar uma gripe.
- Gripe? Mas com uma chuvinha só?
- Ah sei lá, tô sempre resfriada, tosse, uma merda, preciso comer mais fruta…
- Estas gripes demoram pra passar? Como é?
- Gripe, gripe, não sabe como é gripe? Dores pelo corpo, nariz escorrendo, é chato. Mas fala, que você quer?
- Então, um primo meu se acidentou e precisa de sangue. Lembrei que fizemos aquele curso de primeiros socorros juntos, que você é O+, achei que você podia doar. Você já fez doação?
- Ai que chato Mariano. Que primo foi, o Armandinho?
- Não não, você não conhece, é um primo distante, meio fodido de grana, sempre me liga pedindo, e agora essa.
- Olha, nunca doei sangue, nunca quis na verdade…
- Nunca? Mas por que? Alguma problema?
- Não não, medo de agulha, sei lá…
- Mas você já fez exame de sangue? Eles usam agulha.
- Ah Fiz pra ver meu colesterol, hormônio…
- Só? Colesterol, nenhum outro exame?
- Mariano? Você me larga, some e agora aparece fazendo este monte de pergunta, qual é meu? Você não é meu pai, cara! (cof cof cof)
- Que tosse é essa, Miriam? Você sente dor no peito?
- AHHHH Mariano, vai se foder, quando me comia não tava nem aí pra mim e agora fica aí se preocupando com a minha saúde, vai a merda…(desliga)

Caralho. Ela estava com cândida logo depois que transamos, me cocei cinco dias, a menstruação tinha acabado, mas tinha sangue ainda, um pouco, mandei sem dó, fodeu fodeu…

Eram onze horas da noite, o exame já estava disponível na internet. Era pegar a senha e abrir. Minha cabeça maquinava numa aceleração absurda, como se todos os caça níqueis, roletas, neons pipocassem no meu hipotálamo. A única chance de sobreviver era abrindo a porra do teste. Do contrário, ficaria maluco e morreria de qualquer jeito. Um medo da morte nefasto. 

Digitei os www’s, dei enter. Entrei no site do laboratório já sem sentir as pernas. Minhas mãos formigavam, meu saco murcho doía, boca seca. Vi a primeira página, consultas, contato, localização. Lá estava o link: exames online. Peguei o papel na carteira com os números. Digitei um a um, sempre imaginando o pior, e antes de dar enter, fui até o quarto ver Mila. Tudo bem, sono profundo. Voltei. Era a hora. No tempo de carregar a página, saberia se levava Mila pra cova comigo ou não. 

Os cachorros do vizinho latiam, o guarda da rua apitou. Acabei de digitar letras e números, sigilo absoluto, discrição aos clientes, procure uma das unidades mais próximas, a respiração disparou, o cursor do mouse estacionou em cima do ícone “entrar” e ali ficou. Num clique, agora um clique,. Um clique. Levantei, dei uma mijada curta, sentia as costas, o peito comprimido. Olhei pela janela. As estrelas, os prédios, nuvens iluminadas pela cidade. Pensei como a vida é bela…pra quem está vivo. Como gostaria de viver, e que fosse com Mila ao meu lado, não me leve agora, baixe a foice dona morte, volte pra neblina sozinha, não, não agora que encontrei, me dá mais alguns anos, vinte anos com ela, pelo menos.

Sentei, o cursor ainda no “entrar”, coloquei o dedo no mouse, preparado, gatilho, já não escutava os cachorros, roleta russa, não, Não pode ter bala nessa rodada,não,ahhhhhhhhhhjasjjasjajsajsasiedjufbbvwui
hhhhhhhjjqdfjoqwefqwiefwifwfwfkwofkwfkwefkwfefkwekfkwef apertei o mouse e antes que abrisse, minimizei a página. Ela deu loading no rodapé da página, sem abrir. Arrastei o cursor até a janela fechada, ofegante, não tinha mais como fugir, apertei e abriu:

HIV1/HIV2, ANTICORPOS, soro

Métodos: Quimioluminométrico
HIV1/HIV2 - envelope e core recombinantes


RESULTADO VALOR DE REFERêNCIA

NÃO REAGENTE (NEGATIVO) NÃO REAGENTE




Não acreditei. Sentia as pernas, os braços, era como se a guilhotina travasse no meio do caminho, massagear o pescoço, cabeças não rolaram, não fui degolado, nem Mila.

Desliguei o computador. Acendi a luz do banheiro e deixei a porta entreaberta, para poder vê-la, a silhueta, a boca, os olhos fechados de Mila. Senti o calor do seu corpo, um cheiro bom, de coisa viva, eu não a tinha matado. E se o tesão me deixou nos momentos de angústia, agora, voltava em dobro. Mila sentiu meu calor sem desodorante e virou na cama. Um dos peitinhos saltou pra fora da camisola.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O misterioso homem do chupão no pescoço


Saí de Caraíva por volta das cinco da tarde. O carro já cheio de areia no tapete, na altura do freio de mão, os bancos com marca de sal, fitinha do Bonfim no retrovisor. Depois de uma semana na Bahia, já estava com aquele bronzeado dourado, o ombro começando a descascar, pêlos do braço loiros, e um pouco gordo da quantidade de cerveja, que na praia, com as meninas querendo dançar forró, sempre se acaba tomando mais do que devia. 

Na estrada, descendo pela BR101 sentido Rio, vinha pensando no saldo da viagem. Comi a Camila na praia, sem camisinha, e a Kátia, que trabalhava na pousada, comecei sem mas logo em seguida ela pediu pra colocar. Foda! No final a camisinha estourou e gozei dentro. E o mais interessante é que nenhuma das duas se preocupou com as venéreas, hiv, hepatite. As duas mostraram alguma preocupação com gravidez, fora isso, viraram pro lado e dormiram. 

Apesar das marteladas com hipóteses mil de estar com alguma coisa, o prazer da viagem foi tamanho, que na minha cabeça era impossível acreditar que algo pudesse ter dado errado. Eu com aquela cor, tomando banho de mar, não poderia ter pego nada, muito menos elas, tão carinhosas.

Depois de oitocentos quilômetros rodados, passei por Paraty pra tomar um lanche e abastecer o carro. Resolvi ligar para um amigo meu que tem casa em Ubatuba e sondar se poderia pernoitar por lá e seguir viagem no dia seguinte. O celular chamou duas vezes – Claro! Venha sim, tem um pessoal aqui, uns amigos, balada!

De Paraty a Ubatuba levei umas três horas. Muito buraco, chuvas torrenciais, trânsito de caminhão. Embiquei no portão do Márcio umas nove da noite. Saí e toquei a campanhia, sentia o corpo todo dolorido, principalmente a região da lombar, das doze horas no volante. Márcio atendeu com uma lata de cerveja na mão e já puxou o fecho do portão pra que eu entrasse com o carro.

Entrei pelo caminho de pedras na grama e estacionei de frente pra varanda, o farol iluminou os convivas. Duas meninas na rede, som ligado, baseado na roda, Jorge Ben Jor no som, outros no sofá, amendoins, um entra e sai de gente com cerveja e cigarro, bermudas, cangas, pranchas de surf perto do chuveirão, vinho chileno no fim.

Desci do carro de regata, fedido, o CC a mil, barba presídio, tinha cagado no banheiro de um posto no Espírito Santo, não tinha papel, acabei viajando assim mesmo. Na rede, uma morena linda sentou e se balançou com a sandália raspando o chão. Pelo gordo da bunda dela no tecido da rede, senti que ela tinha todas as qualidade exigidas por Vinícios de Morais. Saboneteira delineada ao sorrir, pés pequeninos e uma pele linda, como se nunca tivesse morado um cravo, uma acne ali. Fui buscar cerveja. 

Voltei e sentei numa cadeira de palha meio furada, ao lado dela. De cara ela viu um chupão no meu pescoço e começou a rir, compulsivamente, talvez pela mistura de THC e álcool. Então chamou a amiga e mostrou, fizeram piadinhas entre si, mais risadas, fiquei na minha. Melhor do que aliança no dedo pra atrair solteira é um belo chupão como marca maior do meu status garanhão. A morena ficou naquele frenesi pra saber quem tinha dado o chupão, onde foi, como estava na Bahia, e eu na minha, contando o mínimo possível pra fazer mistério, o misterioso homem do chupão no pescoço. 

Duas latas depois já conversava com ela, o som das minhas palavras parecia surtir efeito, talvez a mística criada pelo chupão, um viajante que chega sozinho de carrro, da Bahia, barbudo, com aquele chupão roxo, já meio coagulado, disfarçado pelo moreno do sol, fosse algo realmente transformador. Em pouco tempo sabia seu nome: Marina, sobrenome húngaro, paulistana, estudou no Santa Cruz, faz FAU, quer trabalhar com o Paulo Mendes da Rocha e por aí vai. Continuei no conta gotas, revelando os fatos, inventando outros, de acordo com o grau de envolvimento dela pela história. E como foi divertido. Além de linda, era inteligente, bom gosto pra se vestir, uma canga vermelha, blusinha branca, brinco de argola, mexia no cabelo sem parar. A medida que a cerveja descia, sentia minha barriga inchada, aquilo me imcomodava, apalpava o pneu de banha já bem crescidinho sob a camisa, mas nada que em pé, prendendo a respiração, comprometesse o shape.

Algumas latas a mais, me deu vontade de mijar e resolvi ir até o mar dar um mergulho, ver as estrelas. Percebi que Marina ficou muito a fim de ir comigo, já bebinha, louca pra dar um beijo no meu chupão e sobrepor a marca. Mas acho que ela se sentiu encabulada, poderiam falar, as meninas fofocar, ela não se sentiu a vontade pra levantar comigo.

Andei pelo escuro, um caminho estreito por entre amendoeiras, um cheiro gostoso de mata atlântica, uma dama da noite perfumada, até que meus pés tocaram a areia e o barulho do mar se fez presente. Havia o resto de uma fogueira, a brisa do mar acendia a brasa, e então o fogo voltava a brilhar por uns instantes. Deixei a camisa ao lado do fogo, a chave do carro, e caminhei em direção ao mar, daquela massa indecifrável de água, onde as luzes das casas, do luar, não eram suficientes pra poder enxergar onde as ondas estouravam. Recebia pela frente, de sopetão, aquele gordo denso salgado da onda e era gostoso, água a 22 graus, os plânctons apareciam a medida que meus braço afundavam. Fiquei ali me refazendo da viagem, pensando nas coisas, no que seria a volta pra São Paulo, o trabalho. Aí pensei na Marina, que morena, mal sabe ela que vim da Bahia e acabei de comer duas sem camisinha, e o pior é que tenho certeza que se rolar algo entre a gente, vou comer sem, porque ela é espetacular, não vou aguentar na hora, vai ser foda, ela vai ter que segurar a onda e exigir uma protection, porque por mim, como mesmo, beijo ela inteira, chupo e durmo abraçado. Ai imaginei um pouco como seria nossa noite, se poderia rolar alguma coisa, e fui fazendo associação atrás de associação até que imaginei ela pegando na minha bunda e aí lembrei do banheiro do Espírito Santo, não rolou papel, e não seria nada romântico constatar que o principe não limpa o cu. Peguei um pouco de areia no fundo e junto com a água dei uma bela lavada nos óio. Agora sim, tudo estava nos trinques, nada poderia dar errado, pelo menos no quesito limpeza.

Mais alguns mergulhos, até com certo medo de tubarão, tinha a fogueira como referência. O mar podia até puxar um pouco, mas braçava de volta numa reta com o fogo. Foi ao olhar fixo na direção da fogueira que percebi uma silhueta se aproximando na areia. Uma canga, cabelos longos, puta que la madre, Marina.

Arrumei o pau na bermuda, aproveitei e dei mais uma limpada atrás, e sai da água. Ela mesmo. Braços cruzados do friozinho da noite, lata de cerveja na mão, a fogueira me ajudou a ver seus olhos verdes banhados do âmbar, bem fechados, bêbada, chapada, deve ter ficado ali com o pessoal, aquele assunto maçante de jovem imbecilizado, e os chupões cada vez mais presentes no seu pensamento, até que teve coragem de abandonar tudo aquilo e vir até mim.

Enxuguei o rosto na blusa e coloquei a chave no bolso. Ela ria, ria, enquanto jogava um pouco de areia nas brasas que se desprenderam do grupo. Pelo jeito que tragava o cigarro, ficou claro que tinha começado a fumar a pouco. Não sabia segurar a fumaça por muito tempo, a batida de cinza não era tão automática quanto um fumante veterano o faz. Mesmo assim a nicotina, correndo velozmente pelas artérias da moça, já fazia seu papel de apaziguar os anseios, as angústias da juventude. Tive vontade de pedir pra ela parar. Mas aí com certeza estaria dando um de chato. Eu ali não era o pai, nem a mãe, muito pelo contrário, meu desejo era fazer com ela o que os pais nem imaginam. 

Contei sobre a Bahia, sobre a praia, os passeios de barco, mas claro que o assunto em pauta, de maior interesse, era a história do chupão. Eu queria evitar falar no assunto, sabia que teria que inventar uma história se ela me apertasse pra contar, mas não teve jeito, ela queria de qualquer maneira saber quem era. Procurei mentir o mínimo possível, disse que vivi um romance, mas que não foi nada demais, uma noite e nada mais, que vinha de um namoro longo em SP, ainda estava meio envenenado pela história. Mas não adiantou muito não. Talvez ela não quisesse acreditar que foi tão simples assim pra não comprometer seu desejo latente por cafajestes. Se eu continuasse atenuando os fatos, por mais que ela soubesse que seria o correto, dentro das normas de uma moça de família, não soaria bem aos ouvidos imaginar que o chupão foi um mero acidente, sem grandes aventuras. 

A conversa rendeu boas risadas e por um instante achei que estivesse realmente demorando pra beijá-la. Ela começou a olhar na direção da casa, lembrando dos amigos na varanda, e isto com certeza era indício de um desinteresse crescente, caso não houvesse ação. E um cara com eu, medalhão de chupão, desbravador dos sete mares, não poderia fazer feio num momento daqueles. Pedi um gole da cerveja, o restinho quente, pra tirar um pouco do sal da boca. Enquanto ela falava sem parar, apoiei a latinha perto do fogo, limpei as mãos na bermuda molhada, e engatinhei um andar silencioso, quase imperceptível, até que consegui sentir o calor do corpo dela, seu cheiro, a respiração. A brisa, por um momento mudou de direção e trouxe o perfume da dama da noite, doce, muito gostoso. Então encontrei nos dedos a ponta do seu cabelo, na altura das costas, e coloquei a mão rente a camisa, e vim subindo, subindo, como um detector de metais, pelo calor, infravermelho, até o pescoço. Quando toquei sua nuca delicadamente, ela fechou os olhos e enclinou a cabeça 20º pra trás, como se quisesse o mesmo carinho pelo corpo todo. Da nuca subi pro cabelo já com a boca no seu ouvido, a proximidade dos corpos fazia resistência ao vento e produzia um leve assobio, conseguia ouvir o som da casa, algumas risadas, o mar, mas preferi abraçá-la com mais força pra que sua respiração fosse única, sem se confundir com outros ruídos que não me interessavam. Ela, o beijo, o mar. 

Meus lábios tocaram os seus, e ela tinha um cheiro de cerveja, cevada com damasco, gostoso, fresco, e sua boca, pequenina, cabia na minha, inteira, e nos beijamos, cada vez com mais fome, as mãos correndo até onde alcançavam, as pernas trançadas jogavam areia, o fogo se apagou e o escuro fez com que entendessemos que era hora de deitar ali mesmo, todos os sons se foram, o frio passou, e nada do que eu fazia no momento era artificial ou programado, eu realmente estava de olhos fechados, entregue, e de todas as mulheres que tinha beijado, ela era definitiva, inesperada, transformadora. 

Levantei sua blusa e chupei um peitinho lindo, depois desci a mão até encontrar um serrilhado de pêlos crespos, bem aparados, e então meus dedos tocaram onde não poderiam ter chegado. Quando encontrei uma umidade quente, que meus dedos deslizaram pra qualquer direção, algum instinto me atravessou de macaco, enlouqueci, e ai entrei naquele estado perigoso, aquele que eu disse que se entrasse acabaria dando besteira.

Tirei sua saia e minha bermuda, olhei um pouco no entorno, fração de lucidez, e então fui pra conseguir o que queria de qualquer maneira. Ela gemia e me empurrava com as pernas, parecia querer dizer algo e não conseguia, até que entre o estouro de uma onda e outra, pude ouvi-a falar – Não, sem…não…por favor não…

Eu estava completamente louco e fazia uma força fora do normal pra que ela cedesse. Chegava a esfregar a cabeça do pau no molhado, mas ela usava as pernas e me tirava da mira – Não, camisinha, não, não quero sem…

Quando vi que não teria outro jeito, olhei no fundo dos seus olhos e vi um desejo legítimo, mas responsável. Ela queria muito, muito transar comigo, e era muito legal, não ia fazer besteira. E naquele momento nem eu queria, baixou uma espécie de respeito visceral, de não conseguir fazer mal algum, e não daria sorte ao azar de forçar a barra e passar alguma coisa pra ela. 

Coloquei a bermuda e pedi alguns segundos. Sai correndo pela praia, atravessei a trilha, as amendoeiras, e todo sujo de areia apareci na casa. As pessoas perguntavam de Marina, onde estávamos e eu revirando meu carro não dei atenção nenhuma, abri porta luvas, carteira e peguei as duas camisinhas que tinha. Voltei pelo mesmo caminho, já abrindo a bermuda, o pau como uma bússula indicando a direção certa, e ela lá, minha Marina, esperando.

Coloquei a camisinha com cuidado, evitando a areia, forramos com uma canga e percebi que ela estava rindo, rindo de felicidade, vontade, a eminência de acontecer no lugar que ela queria, com quem escolheu. Deitamos comigo em cima e sem perder tempo, mergulhei num outro mar, muito melhor do que aquele ali atrás, um mar paradisíaco, do Caribe, cheio de corais coloridos, me sentia como uma água viva noturna que brilha no escuro em luzes pulsantes, pela coluna cervical, as pernas, a boca, até que saraivadas de um prazer lança perfume me fizeram gozar profundamente, e muito lentamente me refazer, sem perceber que éramos dois, mas um só.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aulas de Inglês - intensivão

Com nove anos já odiava as aulas de Inglês do Vera Cruz. Era um the book is on the table deveras maçante, onde os professores queriam saber quem realmente tinha absorvido aquelas frases prontas da forma mais cruel possível: prova oral. Na frente de todos os outros alunos. Claro que os que funcionavam naquela batida não erravam uma, mas pra filho de hippie chic com comuna, a dificuldade de gravar - Hi, what is your name? My name is Sarah. Hi Sarah! Do you know where is my classroom? I do'nt know, lets ask Dora. Puta que la madre, me tirava do sério ter que repetir aquilo tudo. Coisa de papagaio. Tanto é que já com aquela idade ficava olhando pela janela da classe pensando na melhor forma de fugir. (gostava de churros e de ler a revista Super Interessante na frente da escola)

Pois bem, aos trancos e barrancos aprendi um pouco de Inglês na vida escolar. Claro que erramos um tempo verbal, a pronúncia, mas dá pra vender cachorro quente em NYC e entender more cheddar please fácil.

Nos últimos tempos, agora já peludo, fiquei com vontade de ler em inglês. Ler alguns autores no original. Arrumei uma professora particular, por sinal muito bonita, que me disse pra procurar livros que me dessem prazer, que tornassem a aula mais agradável, e aí sim a absorção do conteúdo se daria com extrema facilidade. Que mulher!

Fui na nova Livraria Cultura da Av. Paulista, na parte de literatura estrangeira, e passei os olhos nos pocket books, clássicos, mas me interessei mesmo foi por poesia erótica. Abri numa das páginas:

ED SMITH (1957-2005)

POEM

I REACHED UP AND STARTED STROKING HIS SHAFT WITH MY HANDS
WET WITH MY SALIVA AND PUSSY JUICES GENTLE AT FIRST THEN WITH INCREASING VIGOR
FINALLY HE CAME LIKE AN EPILEPTIC FIREHOUSE PULSATING UP THROUGH MY ENTIRE BEING
HIS CUM LITERALLY SOAKED THE FLOOR BUT EVERY DROP MISSED ME
IT WAS THE BEST SAFE SEX I EVER HAD

(C.1986-1987)


É isso. Agora sim meu inglês vai deslanchar. Professora, o que quer dizer: Shaft?