quarta-feira, 23 de abril de 2008

The more I drink


Domingo de feriado, sol de abril, acordei cedo e desci pra praia,  sunga e camiseta florida. Por alguma razão me sentia bem. Talvez pela noite bem dormida, o cheiro do mar, da mata atlântica. Ou pelo simples fato dos problemas estarem longe, muy lejos. 
Gosto do jeito que o vento chega nas coisas. Nas árvores, nos coqueiros, na minha cara. Gosto do sol quente nas costas, do contato da areia entre os dedos do pé, do horizonte com as ilhas exigindo reflexão, da sede das ondas por terra firme, que estouram, estouram, como se quisessem caminar, caminando por la playa. Gosto dos livros que leio na praia, do tempo que tenho pra ler, da forma como absorvo as coisas e transformo, da companhia das páginas. A professora de Inglês, moça fantástica, continua me ensinando a trabalhar com a língua. A lição de casa, que trouxe comigo pro mar, agora leio nas pedras, no costão, 23° 26' 15" S longitude 45° 03' 45" W, onde posso ver quem anda, quem beija e toca, se doura. Abro a página:

Making love with you
Is like drinking sea water
The more I drink
The thirstier I become
Until nothing can slake my thirst
But to drink the entire sea


 
Vou dar um mergulho, dar minhas braçadas, voltar pra casa, comer um mamão papaia.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dedo no Gatilho (reload)

















Ganhei muito dinheiro nesta vida. Ahhhh, se ganhei. Ainda menino, 18, 19 anos uma notícia triste me deixou montado. Meu avô, barão de café, foi encontrado morto na piscina de casa. Assustei quando olhei meu saldo. 

Todo fim de tarde vovô fazia seus 500 de peito voltando costas, mas naquele dia as várias feijoadas cobraram seus joelhos de porco. Infarto fulminante. Quando vovó foi chamá-lo pra tomar uma sopa de mandioquinha e abriu a janela do jardim, a água da piscina já estava parada. Algumas folhas rastejavam na superfície, vovô submerso na parte funda, perto do filtro, pairava como uma água viva. Os vizinhos ouviram os gritos, mas era tarde demais. 

A família se abraçou no velório, óculos escuros, lenços calibrados de ranho, apareceu aquele primo abutre que nunca ninguém viu, querendo sua fatia do bolo. Foi o tempo do caixão baixar pra que as brigas começassem. Vovô, assim como Charles Chaplin, foi um dos poucos que se safou do crack de 1929. E por incrível que pareça, minha parte estava garantida no testamento. Ninguém tasca.

Com a grana que entrou, meu negócio era a jogatina. Gastar em cassino, poker, mulheres, champagne, putaria, pó, piada de preto, desdém alheio, depredação do patrimônio público, ostentação. O que você imaginar que se possa fazer. 

Dinheiro deixa a gente babaca. Aos 20 já tinha minha Mercedez conversível, três rolex e muita jóia pendurada nos meus vários troféus. Isso mesmo, comi mais da metade das menininhas de família do clube. Fazia questão de dar um brilhante, colar; tenho tesão nisso, gastar com mulher, suscitar o desejo atávico delas pelo provedor. A partir do momento que você entende que o que elas querem mesmo é ser exclusivas, ter o seu olhar, seu carinho, ainda que naqueles poucos momentos juntos, você levou. Se além disso você dá um cano no cinema, mas depois aparece com flores e põe ela pra dormir de tanto gozar, pode ter certeza: tá na mão. Como dizem por aí: Gato de barriga cheia não passeia. E na época de estiagem - coisa rara – pegava uma putinha de luxo bandeira dois e arrastava pra casa. Claro, ficava ligado se a piranha não me levava um perfume, escondia a carteira na gaveta, mas sempre deixava uma nota de US$ 100 no criado mudo, só pra testar a putinha. Elas sempre acham que são mais espertas que a gente. Te dou a periquita e voilá…Green Card, faço tudo que quiser. Não não, comigo não macarrão. Nunca foi assim. Nesse sentido sempre tive muita lucidez. Fico na fissura de comer, mas consigo manter o tênue fio da consciência. E nada da dormidinha depois. Acabou, tchau…Táxi. Algumas me acham um escroto; outras adoram.

Aos vinte e três já tinha quase que dobrado a herança que vovô deixou. Enquanto meus outros irmãos gastaram, abriram seus negócios e se deram mal – nenhum deles tinha tino, foram muito mimados por papai, perderam a noção de realidade -, eu já era tido como o grande Gatsby: cinco carros na garagem, duas motos, uma ilha em Angra.

Mas quem tem grana sempre quer mais e acha que tem de menos. Vira bola de neve. Se era dez, quando se tem cem é pouco. Um milhão, dez milhões, vinte milhões. Mixaria. O negócio é fazer bilhão pra comprimentar um Safra em evento fina flor ha ha ha ho ho ho e ele sacar, não pela roupa, nem pelo relógio, mas pelo olhar, que você bateu nas cifras dele. Por que aí você entra noutro patamar. Pode fazer absolutamente tudo que lhe der na telha. E os serviços pra quem tem grana são inimagináveis. No tempo que um trabalhador perde na fila do INSS, você pode pegar um jatinho até o sul da Bahia, toma banho de mar, dança lambada, almoça, tira uma siesta e volta antes da chuva do final da tarde. Isso é maravilhoso. É poder. Todas as ferramentas criadas pelo homem` a sua inteira disposição. 

Mesmo assim me achava peixe pequeno perto dos grandes que circulam no High Society. Geralmente um judeu do mercado financeiro, usineiros, empreiteiros. E sabia muito bem que eles só eram mais ricos por um motivo: Além de saber ganhar, sabem gastar. Na hora certa, com as pessoas apropriadas. E o dinheiro sempre volta em dobro. Quando você entra neste circuito e é aceito, pode apostar que sua conta não pára de engordar. Do contrário, se seu sobrenome vem de extratos inferiores, pode bater na porta quantas vezes quiser, com a melhor das intenções, que não vai rolar, não vai. Nêgo vai te dar canseira ou queima logo seu filme, te dá uma chance e passa a rasteira.

Tudo aquilo me incomodava. A patota dos cartolas mais ricos, a vida incerta no jogo; queria gozar de certa estabilidade, esta coisa de ganhar aqui perder acolá, investir na bolsa e ficar maluco vendo se acham mais petróleo, se o Chaves estatizou multi nacional, se a seca prejudicou a laranja na Califórnia. Porra. E a noite já não era tudo aquilo. Comecei a perceber, até muito tarde pro meu gosto, que comer mil mulheres é comer nenhuma. Deitar com carpaccio e acordar com uma pizza quarto queijos do lado, que não vai embora nunca, é uma merda. Queria uma mulher de verdade, dessas de filme com vento e sobretudo, que você conhece uma francesa no café e se apaixona. É isso, faltava uma das poucas coisas que a grana não te permite comprar e que me cortava por dentro. Um amor. Uma pessoa que você tem vontade de ligar e ouvir a voz. 


Mergulhado numa crise existencial sem precedentes, tarja preta com Blue Label, cueca, controle e olheiras, passava as noites em claro arquitetando a melhor forma de acabar com tudo aquilo. Hemingway, tiro de rifle na boca.Elvis, pó e icecream, Sócrates cicuta, ou fazer logo o superman e pular da cobertura? Estatelar no chão no último fade-out. Não tive coragem. Verdade é que sempre fui um cara alegre, que aprecia a vida, que não deve nem teme, sem religiões, credos, esta coisa de paraíso que não tá com nada. Aqui e agora. Visa Platinium no The Plaza com champagne e caviar beluga. Peitos e pérolas, Jacuzzi, Bahamas bermudas. 

Foi só eu decidir sair daquele caldo em Pipeline pra que as coisas começassem a mudar. Conheci um peixe grande que estava atrás de sócios pra abrir um cassino em Las Vegas. Cassino com Tutâncamon de 22 metros na porta principal, 100 cleópatras no atendimento, show com ninfas múmias meladas de mel e purpurina num grande espetáculo de luzes, fontes e fogos. Esquema da pesada. E o cara era rico mesmo, nada de esquentar grana, caixa dois, drible no leão. Pelo excel teríamos retorno do investimento em seis meses. Em cinco anos 1000%. Dessas coisas de limosine virar fusca, avião táxi, Iate prancha. De ninguém te segurar. Meus olhos brilharam. Mesmo querendo sair dessa, fato é que trabalharia no que realmente sei fazer. Não vai adiantar vender tudo agora e abrir um sebo, tocar trompete, pintar descalço. Minha meta eram cinco anos nessa. Cinco anos. Depois sim, velejar pelo Caribe de tererê no cabelo, produzir alguma banda de Rumba, ficar pelado no veleiro.

Foi justamente nesta época de mudanças, já morando em Miami, completamente enlouquecido pela construção do cassino, que conheci uma moça. Estava em Key West no iate de Jeff, sobrinho de Ronald Frump. Jeff queria botar uma grana no negócio e resolveu dar um jantar no barco recém-comprado de um empresário austríaco. A marina foi fechada pra receber os convivas, as lagostas chegavam vivas, antenadas, as meninas circulavam pelo convés com os canapés. 

Lembro que fumava um Cohiba série limitada enquanto ouvia Jeff falar em cifras e mais cifras, contas na Suiça. Foi quando Raymond, produtor da festa, um viadinho descolado que dava lá suas comidas numas gostosas entre um cu e outro, me apresentou uma das moças, Mila. Fiquei completamente enlouquecido. Foi como se a médico ligasse todos aqueles fios no meu cérebro e o gráfico no papel fosse lá em cima, entrasse em colapso. A menina era simplesmente um espetáculo. Tinha a leveza de uma pluma de ganso, textura de nectarina, hai kai da Playboy, o queijo de cabra com vinho branco. Melhor que todas que eu já vi. Era como se Rodin pegasse porra de um grego e misturasse com óvulo de Sueca fértil. Linda. Enquanto as outras tentavam parecer Pamela Anderson, tetas imensas numa praia de Malibu, ela zerava tudo num sorriso. 

Carioca, seis anos na América, loira da boca carnuda, sobrancelhas grossas, tinha lido muito mais do que eu. Fez bale clássico, jazz, mexia no excel. Que pernas. Anoitecia quando pedi que minha lancha viesse até o Iate de Jeff. Mila estava embarcando num bote com os outros da cozinha. Ofereci carona. Convidei pra jantar. Mas ela tinha outros compromissos. Pedi seu celular, e pra não ter erro de dela me dar o número errado, na hora agilizei dela ligar no meu iphone pra que a bina desse a certeza que a veria de novo. Desci no pier principal de Coconut Groove pensando nela.

Mila imediatamente foi escalada como minha assessora no Cassino. Comandava um staff de 99 subordinadas, não usava uniforme, tinha horário flexível. Nada burra, logo sacou meu interesse por ela pra se estabelecer. Mas como não é de hoje que conheço as mulheres, ou pelo menos, o ponto fraco da maioria delas, não dei o braço a torcer. Fui logo estabelecendo que o fato dela ter sido escolhida, não significava, em hipótese alguma, que ela teria liberdade total dentro do meu estabelecimento. Ela entendeu o recado. Maravilhoso o show egípcio, Tiaras de cobra naja, biquíni, paetês e purpurina. 

Não demorou muito pra acontecer. Saímos algumas vezes, levei-a nos melhores restaurantes, cobri de jóias, até que finalmente, já em alto mar, no Golfo do México, abri o fecho do seu sutiã. Espetáculo. Agora sim fiquei rico de verdade. Foi lavagem cerebral. Desconstruí toda aquela idéia de que mulher é interesseira e puta. Mila me fez enxergar.

Sempre tive minhas paranóias. Quando se instala, me consume. Penso que até gosto de mergulhar na coisa. E toda vez que resolvo uma, outra aparece no lugar. Não tem respiro, o vácuo é sempre preenchido pela próxima angústia da fila.

E se antes eram questões ligadas ao trabalho, ou mesmo em encontrar a mulher certa, agora martelava a aflição com relação a porra do HIV.

Dei minhas vaciladas, claro. Todo mundo dá. Não conheço ninguém que trepe só de camisinha. Todo mundo abre exceção. Aquelas meninas de família cheirosas, gostosas, sempre em dia com o gineco. Na hora você não pensa e passa a rola. Ou até pensa, mas sempre acaba se convencendo de que não vai rolar nada. Só depois se dá por si. Mas aí já é tarde, melou geral. 

Quando comecei a namorar Mila, tive o maior cuidado em colocar camisinha. Ela cobrou. Sabia que tinha comido outras sem, não queria correr o risco de se infectar. E verdade seja dita, não tinha total certeza se estava realmente clean e seria mortal pra mim saber que passei algo pra ela. Lembro que fiz o teste um ano atrás, mas de lá pra cá foram muitos os carnavais. E como em todo relacionamento, na quarta ou quinta vez a intimidade anulou qualquer tipo de precaução. Não tinha outra ali comigo, fiquei naquela do só um pouquinho, só la cabecita e continuei sem. Na hora não pensei em nada. Seu filho da puta.

No banheiro, me olhando no espelho, a angústia se multiplicou por dois. Se ela estivesse grávida e eu doente, mataria ela e meu filho. Imaginem como fiquei. Aquilo virou um monstro dentro de mim, consumindo tudo. E o pior, sem que ela soubesse. Claro, Mila estava completamente apaixonada por mim e não lhe passava pela cabeça que eu pudesse ter alguma coisa. Talvez antes, mas agora, no auge da paixão, simplesmente deletou. Então era uma questão minha que não conseguiria dividir nem com ela nem com ninguém. Manobrar sozinho um transatlântico no meio de icebergs, tempestade.

Chegava em casa com uma cara de cu, Mila perguntando o que era, e eu sempre jogava no trabalho, no estresse do Cassino. Ela me dava conselhos, aquele rostinho lindo tentando amenizar minha dor, e cada vez mais eu pensava: “Caralho, eu vou matar a única mulher que amei”. E Mila tinha um fogo no rabo danado. Só queria sem. Vinha pra cima com o maior tesão, chupava, virava, metia, lindinha, carinhosa, tesuda, sem saber da minha angústia. 
Toda noite aparecia com uns óleos de massagem, até um pau de borracha, mas aí intervi. Não me venha com esta de matar a preta na caçapa do meio. Giz no taco passo eu. 

Quando ela adormecia, ia pro computador. Abria no google pra pesquisar sobre HIV. Os primeiros sintomas: Tosse, manchas no corpo, diarréia. Depois de cagar ficava olhando minha merda, ficava na luz vendo alguma picada de inseto, se era sarcoma ou mesmo picada. Qualquer tosse e…fodeu, to fodido, matei morri fodi. Sou um bosta. Os sacos de cimento foram se acumulando no ombro até que não aguentei mais. Meu sócio me ligava desesperado cobrando trabalho e já não escutava. A maneira como via o mundo era diferente. Morte, urubús, leprosos, imaginava um vale sombrio com aidéticos, eles me recebendo, som de sonâmbulos sem orelha, dedo. Até que não suportei o piano e fiz o teste. Fiz o teste. Disse lá que não era viado, nunca me piquei, só tinha lutado uns Jiu Jitsu sem kimono, galo de briga no cachorro cru. 

O resultado sairia no dia seguinte, pela internet.

Nunca em toda minha vida passei por um momento tão difícil como aquele. 24 horas em que tudo pipocou na minha cabeça. A infância, minha mãe, meus brinquedos, Mila. Pra ajudar no resultado do teste, passei a mão no telefone e liguei pra todas, sem excessão, que tinha comido sem camisinha. Comecei pela Núbia, uma loira que me agarrou no carro, transamos no banheiro do Banco de Boston enquanto a gerente buscava meu extrato:

- Alô?
- Núbia?
- Isso.
- Mariano.
- Oooooooi, e aí sumido? Nunca mais me ligou…
- Pois é, viajando muito, trabalho.
- Lí no jornal que vc abriu um cassino.
- É, abri. Las Vegas, aquela loucura.
- E aí…me ligando assim no meio do dia? Alguma coisa?
- Não nada. Só liguei pra ver se você tava bem.
- Tô ótima, namorando, trabalhando.
- Bom…Bom, e de peso, engordou, emagreceu?
- Ha Ha Ha, Mariano, você enlouqueceu? Se eu emagreci…Que que é isso, pesquisa de mercado, do IBGE?
- Não, nada não. Gostava de você gordinha. E seu namorado, é aquele de sardas ainda?
- É sim, o Cássio.
E vem cá, as sardas são pequenas, não crescem? – Ahhh Mariano, depois a gente se fala, tô na correria. Tchau.


Bem, Núbia me pareceu bem, não perdeu peso, está namorando, as chances não são muitas. Se bem que a doença pode não ter se manifestado, ela contaminou o namorado, ela sempre gostou de dar o cu, e anal é tiro e queda pra pegar a coisa. 

Vou ligar pra Karem, aquela que eu mandei na mansão do Safra, quando ele viajou e pediu que eu cuidasse da papelada. Foi histórica, dentro do aquário salgado dele, gigante, uma parede, no meio dos peixes palhaços.

- Alô?
- Karem?
- É, quem é?
- Mariano.
- Quem?
- Mariano, da mercedez preta.
- Ah, oi amor, saudade. Uso aquele anel até hoje…
- Você tá bem?
- Tô ótima, voltei da praia semana passada, muito sol, balada…
- Que barulho é esse no fundo?
- Ah, tô no médico, dermatologista. 
- Dermatologista?
- É, apareceram umas manchas na minha pele lá na praia, alguns dizem que é fungo, resolvi dar uma olhada.
- Fungos!!! Que tipo de mancha são essas?
- Mariano?! Que que tem a ver? Manchinhas de pele de verão, nada grave, algum problema?
- Não, é que…
- Bom, chegou minha vez, a médica vai me atender, falamos depois, beijos…
- Karem, karem!!!! (desligou)

Caralho, que merda é essa. Só falta essa puta tá bichada e ter me passado alguma coisa. Voltei pro google pra ler sobre manchas mais encanado ainda. A Karem gostava de morder, chupar, pode ter rompido algum vaso, sangrado, só falta…

O negócio foi piorando. Lembrei da Miriam, uma alpimista social que comi no Iate do Eike Batista enquanto ele discutia com a Luma. Limpei na meia calça dela. Liguei pra Miriam, deu caixa. Deixei um recado “Oi Miriam, Mariano, me liga quando puder, beijo”.


Fiquei ali na pesquisa sobre sarcomas, nem vinte minutos meu celular tocou.

- Alô
- Mariano?
- Oi Miriam, pegou meu recado?
- Peguei, tava na rua numa puta chuva, acho que vou pegar uma gripe.
- Gripe? Mas com uma chuvinha só?
- Ah sei lá, tô sempre resfriada, tosse, uma merda, preciso comer mais fruta…
- Estas gripes demoram pra passar? Como é?
- Gripe, gripe, não sabe como é gripe? Dores pelo corpo, nariz escorrendo, é chato. Mas fala, que você quer?
- Então, um primo meu se acidentou e precisa de sangue. Lembrei que fizemos aquele curso de primeiros socorros juntos, que você é O+, achei que você podia doar. Você já fez doação?
- Ai que chato Mariano. Que primo foi, o Armandinho?
- Não não, você não conhece, é um primo distante, meio fodido de grana, sempre me liga pedindo, e agora essa.
- Olha, nunca doei sangue, nunca quis na verdade…
- Nunca? Mas por que? Alguma problema?
- Não não, medo de agulha, sei lá…
- Mas você já fez exame de sangue? Eles usam agulha.
- Ah Fiz pra ver meu colesterol, hormônio…
- Só? Colesterol, nenhum outro exame?
- Mariano? Você me larga, some e agora aparece fazendo este monte de pergunta, qual é meu? Você não é meu pai, cara! (cof cof cof)
- Que tosse é essa, Miriam? Você sente dor no peito?
- AHHHH Mariano, vai se foder, quando me comia não tava nem aí pra mim e agora fica aí se preocupando com a minha saúde, vai a merda…(desliga)

Caralho. Ela estava com cândida logo depois que transamos, me cocei cinco dias, a menstruação tinha acabado, mas tinha sangue ainda, um pouco, mandei sem dó, fodeu fodeu…

Eram onze horas da noite, o exame já estava disponível na internet. Era pegar a senha e abrir. Minha cabeça maquinava numa aceleração absurda, como se todos os caça níqueis, roletas, neons pipocassem no meu hipotálamo. A única chance de sobreviver era abrindo a porra do teste. Do contrário, ficaria maluco e morreria de qualquer jeito. Um medo da morte nefasto. 

Digitei os www’s, dei enter. Entrei no site do laboratório já sem sentir as pernas. Minhas mãos formigavam, meu saco murcho doía, boca seca. Vi a primeira página, consultas, contato, localização. Lá estava o link: exames online. Peguei o papel na carteira com os números. Digitei um a um, sempre imaginando o pior, e antes de dar enter, fui até o quarto ver Mila. Tudo bem, sono profundo. Voltei. Era a hora. No tempo de carregar a página, saberia se levava Mila pra cova comigo ou não. 

Os cachorros do vizinho latiam, o guarda da rua apitou. Acabei de digitar letras e números, sigilo absoluto, discrição aos clientes, procure uma das unidades mais próximas, a respiração disparou, o cursor do mouse estacionou em cima do ícone “entrar” e ali ficou. Num clique, agora um clique,. Um clique. Levantei, dei uma mijada curta, sentia as costas, o peito comprimido. Olhei pela janela. As estrelas, os prédios, nuvens iluminadas pela cidade. Pensei como a vida é bela…pra quem está vivo. Como gostaria de viver, e que fosse com Mila ao meu lado, não me leve agora, baixe a foice dona morte, volte pra neblina sozinha, não, não agora que encontrei, me dá mais alguns anos, vinte anos com ela, pelo menos.

Sentei, o cursor ainda no “entrar”, coloquei o dedo no mouse, preparado, gatilho, já não escutava os cachorros, roleta russa, não, Não pode ter bala nessa rodada,não,ahhhhhhhhhhjasjjasjajsajsasiedjufbbvwui
hhhhhhhjjqdfjoqwefqwiefwifwfwfkwofkwfkwefkwfefkwekfkwef apertei o mouse e antes que abrisse, minimizei a página. Ela deu loading no rodapé da página, sem abrir. Arrastei o cursor até a janela fechada, ofegante, não tinha mais como fugir, apertei e abriu:

HIV1/HIV2, ANTICORPOS, soro

Métodos: Quimioluminométrico
HIV1/HIV2 - envelope e core recombinantes


RESULTADO VALOR DE REFERêNCIA

NÃO REAGENTE (NEGATIVO) NÃO REAGENTE




Não acreditei. Sentia as pernas, os braços, era como se a guilhotina travasse no meio do caminho, massagear o pescoço, cabeças não rolaram, não fui degolado, nem Mila.

Desliguei o computador. Acendi a luz do banheiro e deixei a porta entreaberta, para poder vê-la, a silhueta, a boca, os olhos fechados de Mila. Senti o calor do seu corpo, um cheiro bom, de coisa viva, eu não a tinha matado. E se o tesão me deixou nos momentos de angústia, agora, voltava em dobro. Mila sentiu meu calor sem desodorante e virou na cama. Um dos peitinhos saltou pra fora da camisola.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O misterioso homem do chupão no pescoço


Saí de Caraíva por volta das cinco da tarde. O carro já cheio de areia no tapete, na altura do freio de mão, os bancos com marca de sal, fitinha do Bonfim no retrovisor. Depois de uma semana na Bahia, já estava com aquele bronzeado dourado, o ombro começando a descascar, pêlos do braço loiros, e um pouco gordo da quantidade de cerveja, que na praia, com as meninas querendo dançar forró, sempre se acaba tomando mais do que devia. 

Na estrada, descendo pela BR101 sentido Rio, vinha pensando no saldo da viagem. Comi a Camila na praia, sem camisinha, e a Kátia, que trabalhava na pousada, comecei sem mas logo em seguida ela pediu pra colocar. Foda! No final a camisinha estourou e gozei dentro. E o mais interessante é que nenhuma das duas se preocupou com as venéreas, hiv, hepatite. As duas mostraram alguma preocupação com gravidez, fora isso, viraram pro lado e dormiram. 

Apesar das marteladas com hipóteses mil de estar com alguma coisa, o prazer da viagem foi tamanho, que na minha cabeça era impossível acreditar que algo pudesse ter dado errado. Eu com aquela cor, tomando banho de mar, não poderia ter pego nada, muito menos elas, tão carinhosas.

Depois de oitocentos quilômetros rodados, passei por Paraty pra tomar um lanche e abastecer o carro. Resolvi ligar para um amigo meu que tem casa em Ubatuba e sondar se poderia pernoitar por lá e seguir viagem no dia seguinte. O celular chamou duas vezes – Claro! Venha sim, tem um pessoal aqui, uns amigos, balada!

De Paraty a Ubatuba levei umas três horas. Muito buraco, chuvas torrenciais, trânsito de caminhão. Embiquei no portão do Márcio umas nove da noite. Saí e toquei a campanhia, sentia o corpo todo dolorido, principalmente a região da lombar, das doze horas no volante. Márcio atendeu com uma lata de cerveja na mão e já puxou o fecho do portão pra que eu entrasse com o carro.

Entrei pelo caminho de pedras na grama e estacionei de frente pra varanda, o farol iluminou os convivas. Duas meninas na rede, som ligado, baseado na roda, Jorge Ben Jor no som, outros no sofá, amendoins, um entra e sai de gente com cerveja e cigarro, bermudas, cangas, pranchas de surf perto do chuveirão, vinho chileno no fim.

Desci do carro de regata, fedido, o CC a mil, barba presídio, tinha cagado no banheiro de um posto no Espírito Santo, não tinha papel, acabei viajando assim mesmo. Na rede, uma morena linda sentou e se balançou com a sandália raspando o chão. Pelo gordo da bunda dela no tecido da rede, senti que ela tinha todas as qualidade exigidas por Vinícios de Morais. Saboneteira delineada ao sorrir, pés pequeninos e uma pele linda, como se nunca tivesse morado um cravo, uma acne ali. Fui buscar cerveja. 

Voltei e sentei numa cadeira de palha meio furada, ao lado dela. De cara ela viu um chupão no meu pescoço e começou a rir, compulsivamente, talvez pela mistura de THC e álcool. Então chamou a amiga e mostrou, fizeram piadinhas entre si, mais risadas, fiquei na minha. Melhor do que aliança no dedo pra atrair solteira é um belo chupão como marca maior do meu status garanhão. A morena ficou naquele frenesi pra saber quem tinha dado o chupão, onde foi, como estava na Bahia, e eu na minha, contando o mínimo possível pra fazer mistério, o misterioso homem do chupão no pescoço. 

Duas latas depois já conversava com ela, o som das minhas palavras parecia surtir efeito, talvez a mística criada pelo chupão, um viajante que chega sozinho de carrro, da Bahia, barbudo, com aquele chupão roxo, já meio coagulado, disfarçado pelo moreno do sol, fosse algo realmente transformador. Em pouco tempo sabia seu nome: Marina, sobrenome húngaro, paulistana, estudou no Santa Cruz, faz FAU, quer trabalhar com o Paulo Mendes da Rocha e por aí vai. Continuei no conta gotas, revelando os fatos, inventando outros, de acordo com o grau de envolvimento dela pela história. E como foi divertido. Além de linda, era inteligente, bom gosto pra se vestir, uma canga vermelha, blusinha branca, brinco de argola, mexia no cabelo sem parar. A medida que a cerveja descia, sentia minha barriga inchada, aquilo me imcomodava, apalpava o pneu de banha já bem crescidinho sob a camisa, mas nada que em pé, prendendo a respiração, comprometesse o shape.

Algumas latas a mais, me deu vontade de mijar e resolvi ir até o mar dar um mergulho, ver as estrelas. Percebi que Marina ficou muito a fim de ir comigo, já bebinha, louca pra dar um beijo no meu chupão e sobrepor a marca. Mas acho que ela se sentiu encabulada, poderiam falar, as meninas fofocar, ela não se sentiu a vontade pra levantar comigo.

Andei pelo escuro, um caminho estreito por entre amendoeiras, um cheiro gostoso de mata atlântica, uma dama da noite perfumada, até que meus pés tocaram a areia e o barulho do mar se fez presente. Havia o resto de uma fogueira, a brisa do mar acendia a brasa, e então o fogo voltava a brilhar por uns instantes. Deixei a camisa ao lado do fogo, a chave do carro, e caminhei em direção ao mar, daquela massa indecifrável de água, onde as luzes das casas, do luar, não eram suficientes pra poder enxergar onde as ondas estouravam. Recebia pela frente, de sopetão, aquele gordo denso salgado da onda e era gostoso, água a 22 graus, os plânctons apareciam a medida que meus braço afundavam. Fiquei ali me refazendo da viagem, pensando nas coisas, no que seria a volta pra São Paulo, o trabalho. Aí pensei na Marina, que morena, mal sabe ela que vim da Bahia e acabei de comer duas sem camisinha, e o pior é que tenho certeza que se rolar algo entre a gente, vou comer sem, porque ela é espetacular, não vou aguentar na hora, vai ser foda, ela vai ter que segurar a onda e exigir uma protection, porque por mim, como mesmo, beijo ela inteira, chupo e durmo abraçado. Ai imaginei um pouco como seria nossa noite, se poderia rolar alguma coisa, e fui fazendo associação atrás de associação até que imaginei ela pegando na minha bunda e aí lembrei do banheiro do Espírito Santo, não rolou papel, e não seria nada romântico constatar que o principe não limpa o cu. Peguei um pouco de areia no fundo e junto com a água dei uma bela lavada nos óio. Agora sim, tudo estava nos trinques, nada poderia dar errado, pelo menos no quesito limpeza.

Mais alguns mergulhos, até com certo medo de tubarão, tinha a fogueira como referência. O mar podia até puxar um pouco, mas braçava de volta numa reta com o fogo. Foi ao olhar fixo na direção da fogueira que percebi uma silhueta se aproximando na areia. Uma canga, cabelos longos, puta que la madre, Marina.

Arrumei o pau na bermuda, aproveitei e dei mais uma limpada atrás, e sai da água. Ela mesmo. Braços cruzados do friozinho da noite, lata de cerveja na mão, a fogueira me ajudou a ver seus olhos verdes banhados do âmbar, bem fechados, bêbada, chapada, deve ter ficado ali com o pessoal, aquele assunto maçante de jovem imbecilizado, e os chupões cada vez mais presentes no seu pensamento, até que teve coragem de abandonar tudo aquilo e vir até mim.

Enxuguei o rosto na blusa e coloquei a chave no bolso. Ela ria, ria, enquanto jogava um pouco de areia nas brasas que se desprenderam do grupo. Pelo jeito que tragava o cigarro, ficou claro que tinha começado a fumar a pouco. Não sabia segurar a fumaça por muito tempo, a batida de cinza não era tão automática quanto um fumante veterano o faz. Mesmo assim a nicotina, correndo velozmente pelas artérias da moça, já fazia seu papel de apaziguar os anseios, as angústias da juventude. Tive vontade de pedir pra ela parar. Mas aí com certeza estaria dando um de chato. Eu ali não era o pai, nem a mãe, muito pelo contrário, meu desejo era fazer com ela o que os pais nem imaginam. 

Contei sobre a Bahia, sobre a praia, os passeios de barco, mas claro que o assunto em pauta, de maior interesse, era a história do chupão. Eu queria evitar falar no assunto, sabia que teria que inventar uma história se ela me apertasse pra contar, mas não teve jeito, ela queria de qualquer maneira saber quem era. Procurei mentir o mínimo possível, disse que vivi um romance, mas que não foi nada demais, uma noite e nada mais, que vinha de um namoro longo em SP, ainda estava meio envenenado pela história. Mas não adiantou muito não. Talvez ela não quisesse acreditar que foi tão simples assim pra não comprometer seu desejo latente por cafajestes. Se eu continuasse atenuando os fatos, por mais que ela soubesse que seria o correto, dentro das normas de uma moça de família, não soaria bem aos ouvidos imaginar que o chupão foi um mero acidente, sem grandes aventuras. 

A conversa rendeu boas risadas e por um instante achei que estivesse realmente demorando pra beijá-la. Ela começou a olhar na direção da casa, lembrando dos amigos na varanda, e isto com certeza era indício de um desinteresse crescente, caso não houvesse ação. E um cara com eu, medalhão de chupão, desbravador dos sete mares, não poderia fazer feio num momento daqueles. Pedi um gole da cerveja, o restinho quente, pra tirar um pouco do sal da boca. Enquanto ela falava sem parar, apoiei a latinha perto do fogo, limpei as mãos na bermuda molhada, e engatinhei um andar silencioso, quase imperceptível, até que consegui sentir o calor do corpo dela, seu cheiro, a respiração. A brisa, por um momento mudou de direção e trouxe o perfume da dama da noite, doce, muito gostoso. Então encontrei nos dedos a ponta do seu cabelo, na altura das costas, e coloquei a mão rente a camisa, e vim subindo, subindo, como um detector de metais, pelo calor, infravermelho, até o pescoço. Quando toquei sua nuca delicadamente, ela fechou os olhos e enclinou a cabeça 20º pra trás, como se quisesse o mesmo carinho pelo corpo todo. Da nuca subi pro cabelo já com a boca no seu ouvido, a proximidade dos corpos fazia resistência ao vento e produzia um leve assobio, conseguia ouvir o som da casa, algumas risadas, o mar, mas preferi abraçá-la com mais força pra que sua respiração fosse única, sem se confundir com outros ruídos que não me interessavam. Ela, o beijo, o mar. 

Meus lábios tocaram os seus, e ela tinha um cheiro de cerveja, cevada com damasco, gostoso, fresco, e sua boca, pequenina, cabia na minha, inteira, e nos beijamos, cada vez com mais fome, as mãos correndo até onde alcançavam, as pernas trançadas jogavam areia, o fogo se apagou e o escuro fez com que entendessemos que era hora de deitar ali mesmo, todos os sons se foram, o frio passou, e nada do que eu fazia no momento era artificial ou programado, eu realmente estava de olhos fechados, entregue, e de todas as mulheres que tinha beijado, ela era definitiva, inesperada, transformadora. 

Levantei sua blusa e chupei um peitinho lindo, depois desci a mão até encontrar um serrilhado de pêlos crespos, bem aparados, e então meus dedos tocaram onde não poderiam ter chegado. Quando encontrei uma umidade quente, que meus dedos deslizaram pra qualquer direção, algum instinto me atravessou de macaco, enlouqueci, e ai entrei naquele estado perigoso, aquele que eu disse que se entrasse acabaria dando besteira.

Tirei sua saia e minha bermuda, olhei um pouco no entorno, fração de lucidez, e então fui pra conseguir o que queria de qualquer maneira. Ela gemia e me empurrava com as pernas, parecia querer dizer algo e não conseguia, até que entre o estouro de uma onda e outra, pude ouvi-a falar – Não, sem…não…por favor não…

Eu estava completamente louco e fazia uma força fora do normal pra que ela cedesse. Chegava a esfregar a cabeça do pau no molhado, mas ela usava as pernas e me tirava da mira – Não, camisinha, não, não quero sem…

Quando vi que não teria outro jeito, olhei no fundo dos seus olhos e vi um desejo legítimo, mas responsável. Ela queria muito, muito transar comigo, e era muito legal, não ia fazer besteira. E naquele momento nem eu queria, baixou uma espécie de respeito visceral, de não conseguir fazer mal algum, e não daria sorte ao azar de forçar a barra e passar alguma coisa pra ela. 

Coloquei a bermuda e pedi alguns segundos. Sai correndo pela praia, atravessei a trilha, as amendoeiras, e todo sujo de areia apareci na casa. As pessoas perguntavam de Marina, onde estávamos e eu revirando meu carro não dei atenção nenhuma, abri porta luvas, carteira e peguei as duas camisinhas que tinha. Voltei pelo mesmo caminho, já abrindo a bermuda, o pau como uma bússula indicando a direção certa, e ela lá, minha Marina, esperando.

Coloquei a camisinha com cuidado, evitando a areia, forramos com uma canga e percebi que ela estava rindo, rindo de felicidade, vontade, a eminência de acontecer no lugar que ela queria, com quem escolheu. Deitamos comigo em cima e sem perder tempo, mergulhei num outro mar, muito melhor do que aquele ali atrás, um mar paradisíaco, do Caribe, cheio de corais coloridos, me sentia como uma água viva noturna que brilha no escuro em luzes pulsantes, pela coluna cervical, as pernas, a boca, até que saraivadas de um prazer lança perfume me fizeram gozar profundamente, e muito lentamente me refazer, sem perceber que éramos dois, mas um só.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Aulas de Inglês - intensivão

Com nove anos já odiava as aulas de Inglês do Vera Cruz. Era um the book is on the table deveras maçante, onde os professores queriam saber quem realmente tinha absorvido aquelas frases prontas da forma mais cruel possível: prova oral. Na frente de todos os outros alunos. Claro que os que funcionavam naquela batida não erravam uma, mas pra filho de hippie chic com comuna, a dificuldade de gravar - Hi, what is your name? My name is Sarah. Hi Sarah! Do you know where is my classroom? I do'nt know, lets ask Dora. Puta que la madre, me tirava do sério ter que repetir aquilo tudo. Coisa de papagaio. Tanto é que já com aquela idade ficava olhando pela janela da classe pensando na melhor forma de fugir. (gostava de churros e de ler a revista Super Interessante na frente da escola)

Pois bem, aos trancos e barrancos aprendi um pouco de Inglês na vida escolar. Claro que erramos um tempo verbal, a pronúncia, mas dá pra vender cachorro quente em NYC e entender more cheddar please fácil.

Nos últimos tempos, agora já peludo, fiquei com vontade de ler em inglês. Ler alguns autores no original. Arrumei uma professora particular, por sinal muito bonita, que me disse pra procurar livros que me dessem prazer, que tornassem a aula mais agradável, e aí sim a absorção do conteúdo se daria com extrema facilidade. Que mulher!

Fui na nova Livraria Cultura da Av. Paulista, na parte de literatura estrangeira, e passei os olhos nos pocket books, clássicos, mas me interessei mesmo foi por poesia erótica. Abri numa das páginas:

ED SMITH (1957-2005)

POEM

I REACHED UP AND STARTED STROKING HIS SHAFT WITH MY HANDS
WET WITH MY SALIVA AND PUSSY JUICES GENTLE AT FIRST THEN WITH INCREASING VIGOR
FINALLY HE CAME LIKE AN EPILEPTIC FIREHOUSE PULSATING UP THROUGH MY ENTIRE BEING
HIS CUM LITERALLY SOAKED THE FLOOR BUT EVERY DROP MISSED ME
IT WAS THE BEST SAFE SEX I EVER HAD

(C.1986-1987)


É isso. Agora sim meu inglês vai deslanchar. Professora, o que quer dizer: Shaft?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

David Hockney

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Te Transformei em Lasagna















Segunda de chuva fina, nenhuma possibilidade do azul. Acordei com o vizinho cortando a grama do jardim. Um zumbido ensurdecedor que me fez visualizar a grama em slow motion sendo decepada. Achei que aquele som de vespa e nylon pudesse ser sonho, mas não, era meu inconsciente azeitando o consciente na tentativa de fazer parecer um pesadelo. Tudo não passava da mais pura realidade. No sonho eu estava numa beirada de muro vendo o velho cortar a grama e imaginava inúmeras possibilidades de me vingar. Talvez com uma festa, música alta, mas ele chamaria a polícia. A solução, proporcional ao dano causado, seria juntar num saco a merda do meu cachorro durante uma semana e jogar, na calada da noite, no canteiro de flores dele, sobre as orquídeas, 12 kg de pasta mole, labrador chocolate, adulto. 

Ventilador de um lado pro outro, jornal pelo chão, marcas de vinho sobre um CD do Piazzola. Lembranças do meu domingo com Raquel. Faz tempo que a relação já não é mais a mesma. Agora damos uma manutenção básica banho maria com DVDs, risotto, revistas, amigos; artifícios que nos tire da obrigação da transa pra não se ver diante do inevitável: não vai mais ser como antes. Como se a pedra do isqueiro acabasse e ficássemos zap zap tentando fazer fogo. Ela não estava mais entre os pop ups de musas saborosas que saltam na minha cabeça. Ela de calcinha descalça no tapete peludo dava a mesma sensação de abrir uma geladeira e encontrar uma travessa gigante de lasagna que você já encarou por uma semana. Você quer e precisa sair atrás de outra coisa pra comer, um bife acebolado, tâmaras, sushi, alguma coisa, ainda que saiba que isso levaria a intermináveis discussões da relação. Ela sempre me pede sinceridade sem filtros, mas agora, se fosse realmente pra ser franco, sem firulas, o mundo viria abaixo. Em outras palavras: aqueles peitos não me dizem mais nada.

O negócio era esperar que ela acordasse pra sacar, por si só, que era hora de ir, sem que eu tivesse que pedir. Tchau lasagna.

Mas na vida nem tudo acontece como gostaríamos. O céu pode estar azul, sem nuvens e a hora que você resolve pegar um bote e remar mar afora, uma frente fria aparece. O cinza sabota o azul, o vento gelado sopra com força, o bote pode virar, um cardume de tubarões aparece. Foi o que aconteceu. Achei que tivesse mais peso na relação, que fosse o mais amado…Estava enganado. Raquel acordou com o mesmo caroço de abacate na traquéia. Não conseguia nem olhar pra minha cara. E a real é que ela tinha lá suas razões, eu sabia bem, muito bem: Se a minha era o efeito lasagna, não querer mais uns peitos, seu cheiro, ou mesmo o jeito barato dela articular um raciocínio; do lado dela tinha muito a ver com meu trabalho, minhas escolhas. Eu era um bife de fígado mal passado, desses de boteco da Dutra, cebolas boiando na gordura. 

Verdade seja dita, nos quatro anos de namoro ela me viu avançar pouco. Tocava nos mesmos bares, estava pra lançar um primeiro CD que nunca rolou, e quem me ligava eram os mesmos, aqueles que como eu, perderam o bonde, como dizem por ai, não vingaram. Isso pra ela era mortal. Cadê o provedor? Passar o resto da vida com um cara que sabe cinco reefs do Eric Clapton, que fazia bonito no tempo de escola tocando Djavan pra meia dúzia de fumetas no acampamento, mas na vida prática, não tinha nenhuma ambição a não ser uma casinha em Mauá pra pegar uma cachú e fazer pão caseiro com linhaça. Não. Não foi isso que a mãe dela ensinou como elementar. Ela queria ver, dia a dia, avanços, grana entrando, nada de economizar na água quente, nada de esquema macarrão barilla pra não ter que gastar no Almanara. Ela se apaixonou por um cara que efetivamente não existe. Que ela idealizou. Que pudesse ajudar a construir. Mas quando me viu largar um trampo numa produtora de som, que apareci em casa falando que não me venderia pra porcos publicitários, e que o Gerson chegou com o berimbau pra fazer um som, a viga trincou… 

No fundo no fundo eu tinha uma puta admiração por Raquel. Mulher corajosa. Fez arquitetura numa faculdade chumbrega, mas conseguiu uma pós em Barcelona, achou suas brechas, trabalhou com arquitetos conceituados e hoje tem seu escritório, faz uma grana por mês. Aliás, grana essa que paga a maior parte das nossas contas. Eu de vez em quando ponho uma gasolina no carro, compro pão, e no auge da performance, acerto o mês da tv a cabo. Orgulho do comprovante na geladeira. Ela sempre reclama que eu compro coisas de segunda: macarrão, nescau, miojo, bolacha trackinas, enquanto ela forra a dispensa com mostarda Dijon, carpaccio, mussarela de búfala. Se eu ainda comesse o miojo, vá lá, mas adoro mostarda Dijon, sou capaz de traçar meio frasco na colher. Fora a sujeira, a bagunça. Raquel é metódica, dessas que organiza as calcinhas por cores, que é capaz de pensar em suspender a assinatura do jornal por cinco dias quando viajamos. Coisas que não passam pela minha cabeça. Minha estrutura é outra. Pra mim, casa arrumada é casa desabitada. Gosto de uma zona pra que todos vejam que ali mora alguém. Arrumação é coisa de showroom de apartamento em Moema.

Bom, fato é que minha lasagna virou tsunami. Naquela manhã, quando se sentiu rejeitada, Raquel me atravessou como furamos uma onda grande no mar de olhos abertos vendo o cristalino da água, a espuma, o cardume de atuns aproveitando a corrente, até aparecer do outro lado e ver estourar com toda a força no banco de areia. Só que a onda, muitas vezes, pode te tragar e você embola durante minutos na espuma, sem saber pra que lado fica a superfície. Ela sabia das minhas limitações, mas conseguia abstrair porque tinha um afeto, um companheirismo a zelar. Quando viu que mais uma vez eu a transformei em lasagna sem a menor consideração pelas coisas que passamos juntos, uma raiva que já vinha num crescente se transformou em desprezo inexorável. O meu desprezo era de ordem puramente sexual. Não estava a fim da transa, de beijo ou falar coisas carinhosas. O dela era poderoso. Vinha da mistura de útero rejeitado com córtex traído. Dali por diante virei pó. Já era antes, mantido num frasco. Agora lançado ao ar, num despenhadeiro. O solo de calcário adubado com meus restos mortais. Quem sabe cresça um pé de couve.

Da janela do sexto andar pude vê-la sair da garagem do prédio. A seta do pisca, o teto do carro preto refletindo os postes no meio do trânsito, o menino no sinal colocando balas no retrovisor, até sumir no fim da rua. Minhas mãos começaram a suar. A cada segundo as fichas caiam e me sentia pior. Construí uma vida frágil, sem alicerces, na base da gambiarra, freelancer, e tinha perdido, naquela manhã, quem agarrava pra não me ver com a merda até o nariz. E sem ela, a merda subiu rapidinho.

Esperei por um telefonema durante todo o dia. Nada. O trânsito lá embaixo indicava o rush, 19h, e a minha angústia, punhal cada vez mais fundo, me obrigou a abrir uma garrafa de vodka. Comecei com um shot. Outro. Outro. Ahhhhhh, sensação de alívio. Olhei pro copo, me servi, sentei no sofá e preferi pensar que nada daquilo tinha realmente acontecido, que a vida não seria capaz de passar rasteiras tão bem dadas, logo ela voltaria, o bambú com sino da porta a balançar, a chave do carro jogada na mesa e veríamos um filme…Beijo, como eu quero beijá-la, a lasagna se transformou em caviar beluga, sereia, canto lindo, pele maravilhosa, os únicos peitos que existem no mundo. Raquel, prometo que vai ser diferente. Prometo.


Dez da noite. Completamente bêbado. Agora de cinco em cinco minutos deixava um recado no celular dela. Não atendia. Tocava por trinta segundos e caixa. Conseguia imaginar ela com o celular na mão piscando meu nome e voltar pra bolsa. 

Quando a angústia ultrapassou o limite do efeito vodka, quase apagado, resolvi sair pra procurá-la. Coloquei um gorro, cachecol, meias sem par. O frio era insuportável, talvez o noite mais fria do ano. O vento, a cada esquina, me cumprimentava com navalhas geladas, tirava o celular do bolso tentando falar e nada, caixa. Aquilo foi me deixando profundamente emputecido. Ela sabia, pela insistência, do meu estado e mesmo assim fazia o joguinho sujo. Com certeza ela queria que minha angústia chegasse num nível tal, que nunca mais eu aprontasse uma daquelas. Queria anular qualquer indício de lasagna dos meus devaneios na base do trauma, e o pior é que estava conseguindo. 

Andei duas horas a esmo por bares, ruas que ela costuma frequentar. Se via um cabelo parecido batia nas costas. Com o frio e as ladeiras do bairro, a bebedeira foi passando e recobrei a consciência. Sentia dores nas pernas, no baço, parecia que dez sacas de cimento pesavam no meu ombro. - Egoísta! Raquel é egoísta! Ao invés de se abrir comigo sobre o que a irritava, foi se fechando com o tempo, sem diálogo, sem deixar que eu participasse de suas angústias. Eu sempre disse tudo, deixei claro quem era, o que pensava, minhas ambições. Caralho! Como ela quer eu eu entenda suas coisas sem falar! Aí resolvi dar o troco. Apareci na casa da mãe dela, que sempre me adorou. Dona Elvira assistia o filme Beleza Americana quando toquei a campainha. Ela deu pausa na parte que Lester Burnham pede demissão, minha preferida. No instante que foi a cozinha fazer um café, passei a mão no telefone e dei o drible da vaca em Raquel. Não demorou muito pra ela ver no bina e atender, achando que fosse a mãe. Esperei que repetisse algumas vezes - Mãe! Mãe! É você? - Saboreando aquela voz rouca, sedoza, até me identificar. Não acreditou. Inventou uma desculpa pífia, que estava sem sinal, coisa que o valha, e que precisava de um tempo pra pensar na gente. Dona Elvira chegou com o café e me viu ali, na janela, o fio do telefone esticado no máximo, um olhar triste, baba branca no canto da boca. 

Acordei no dia seguinte sem saber onde estava. O cuco de Dona Elvira saltou pra fora do relógio, sete da manhã. Uma manta de crochê cobria meus pés, um travesseiro com fronha do Hello Kitty, talvez de Raquel pequenina, protegia meu pescoço. Dona Elvira não estava. Coloquei tudo no lugar, peguei uma fatia do bolo e fui. 

Cheguei em casa já preparado pro pior: O vazio. A garrafa de vodka, a tv ligada, a cozinha imunda. Mas quando entrei no banheiro e vi a calcinha amarela dela no boxe, suas revistas de design, os cotonetes da maquiagem, os pentelhos no sabonete., minha intuição, não sei por que, me disse que ela ia voltar. Ela vai voltar. Aquilo me alegrou sobremaneira. A possibilidade de ver, ter Raquel de novo, com outros olhos. Como se toda a paixão, estrangulada pelo convívio excessivo, tivesse se renovado com a briga da noite anterior.

Abri a geladeira. Meia cebola na parte dos ovos, limão espremido, garrafa d’água, vazio, vazio, lasagna de uma semana. Puxei o papel laminado pra ver o estado, o presunto já ressecado nas pontas, uma gelatina de gordura imobilzava a carne moída. Argh! A ressaca tinha baixado e a fome apertava. Apanhei aquela travessa da geladeira e conversei com ela por alguns segundos até decidir virar tudo no lixo. Esquecer do passado, a noite das angústia me urubuzando. Agora eu queria outra lasagna, fresca, saborosa, gorda de presunto e queijo, quentinha, borbulhando, escorregadia, como aquelas que fazíamos juntos, apaixonados, tomando vinho, fumando uma ponta, dançando colado sentindo um o calor do outro. 

Fui até a sala ligar o som e dei play no ipod de Raquel, sem saber exatamente em que música estava. De repente…Smooooooth Operatoor !!! Sade, faixa 3, Smooth Operator, a preferida de Raquel. Sem pensar nos vizinhos, no síndico, ou na esquizofrênica do terceiro andar, coloquei no máximo e Smooooooth Operatoor !!! Rodopiei na sala direção cozinha e comecei a preparar. Ingredientes do armário, forno, fogo alto, a lasagna borbulhava o queijo, a carne desprendia seu suco, logo ela gemeu anunciando o ponto. Coloquei um pedaço farto no prato. Sentei.. Um cheiro maravilhoso, meus olhos lacrimejavam, flashes da noite passada se dissolviam nas garfadas quente, a angústia desaparecia mais e mais. 

Neste exato instante escuto a porta, o bambú balançar, a chave na mesa. Dei mais uma colherada de olhos fechados, saboreando o som da sua bota no piso de madeira, o rasgar das correspondências inúteis…Era ela. Raquel. Sobrancelhas grossas, cabelo preso num coque, bata indiana meio aberta, sem sutiã, saboneteiras belas seja numa luz de farmácia seja `a luz de velas, unhas pintadas de vermelho tomate. A mulher mais linda do mundo. 

Limpando a boca na manga da camisa, atravessei a sala, a garrafa de vodka, a TV ligada no mute, e abracei Raquel com força. Algo valioso nos braços, a jóia perdida e recuperada; terra firme depois da tempestade em alto mar. Arrastei a barba por fazer no seu rosto de pêssego até encontrar a boca. Lábios macios, cheiro de tangerina, via os olhos desfocados, o medo e prazer de uma nova entrega. Minha mão correu bunda, peitos, costas pra sentir em braile que era realmente verdade, estava tudo ali, inteira pra mim, a barriguinha lisa, nectarina, a respiração indocile com o passeio chacal dos meus dedos famintos até que sua mão no caminho encontrou a minha, beijei, beijei, ela me olhando, entre um beijo e outro, se certificando da volta da paixão. Cabelo cheiroso, suguei seu pescoço como um neném faminto, caminhamos esbarrando nas coisas da sala, até o quarto, a cama. Smooooooth Operatoor !!!

quinta-feira, 27 de março de 2008

Cheiro de Avon - puteiro Tchelas


















Estava na outra linha quando Silas me ligou.

- Fala Silas, te ligo em 5, pode ser?

Discutia com Raquel sobre o fim do relacionamento. Não bastasse levar a cama, meus discos e todos os talheres, queria que eu entregasse as fotos, aquelas do ínicio, ela pelada na casinha da praia da Almada com um baseado na boca. Queria os negativos, que as fotos eram dela. Como o negócio era me livrar do pepino, disse que deixaria os envelopes na portaria. Claro que fiz um backup das fotos pra mim. O mais engraçado é que os dois gatos que ela ganhou da mãe quando nossa relação começou a encrespar continuam aqui, o melado e a mel fodendo meu sofá cama com as unhas, a área de serviço fedendo, minha roupa cheia de pêlo. Paciência.

Apesar de achar difícil a vida de solteiro naquela primeira semana free, o simples fato de saber que o problema maior fora resolvido já me dava um certo alívio. Raquel se aproximava dos 30 e queria um filho de qualquer maneira. Dizia que tomava pílula, mas era só acompanhar a cartela esquecida na gaveta junto com o gelol pra saber que não. Algum tempo atrás ela sempre pedia pra não gozar dentro. Mergulhada na crise dos 30 passou a tratar minha porra como ouro derretido, sem disperdiçar uma gota sequer. E verdade seja dita, eu não tinha planos de me amarrar pro resto dos meus dias com ela. Certamente Raquel queria me manter por perto, nada melhor do que engravidar.

Naquela noite eu precisava de alguém. Por pior que a relação fique, no casamento você garante pelo menos um mamas and the papas twice a week. Solteiro a fome aperta.

Silas me convenceu da idéia de que casamento enferruja o cabra, e a melhor maneira de pegar no tranco é descer ao inferno e abraçar o capeta. 

Sentamos num bar da Vila Madalena. A maioria das mulheres jovens, lindinhas, frenéticas no celular e cabelo. Mas não foi difícil perceber que o negócio delas, definitivamente, era outro. Minha barriga dobrava o cinto e marcava o umbigo. Quando veio o bolinho de arroz e o garçom tirou meu sexto chope, arrotei de boca fechada concluindo que aquelas gazelas queriam mesmo é ser pegas por um guepardo. O bugio aqui estava condenado a bater uma com DVD de banca. Silas até que se empolgou arrastando a cadeira pra mesa de um grupinho, mas com aquele cavanhaque ensebado emoldurando um nariz adunco cravejado de cravos espanados e preto no meio, as meninas no mínimo, evitavam olhar pra não ter ânsia. Fora o hálito. Silas fuma três maços de derby/dia e gosta de torresmo.

O relógio marcava duas da manhã quando chegamos no Tchelas, puteiro da rua Augusta. O neon falhava no T, o rosa da fachada contrastava com o céu carregado de nuvens banhadas do âmbar da cidade. Carros no sobe e desce, buzinas, moças seminuas debruçadas nas janelas de monzas, santanas, kadetts, carro de quem tem algum extra no bolso, o suficiente pra gastar numa fudeca e ainda ter o que comer. Silas pisou na porta do Tchelas como se estivesse no Kodak Theatre. Entrou já abraçando duas. Parecia feliz, como se naquele ambiente fosse o grande astro da noite, duas indicações, e que aquelas moças tivessem mesmo admiração por ele. Mas pra quem via de fora e conhecia o cara, tudo ficava muito claro: Silas foi deixado pela mulher, pegou Fátima aos gritos com um estudante nigeriano e tinha uma vida afetiva estraçalhada, não engatava nenhum relacionamento, sempre no simulacro com profissionais, esquecendo que pagava por aqueles afagos.

O lugar fedia a mijo, gelo seco e buça mal lavada. Uma mulher parecida com a cantora Joelma, da banda Calypso, dançava num palco de fundo roçando no cano enquanto alguns desesperados alcançavam com as mãos uma ponta de bunda ou peito. Um espelho velho, já fosco, percorria de ponta a ponta o ambiente. Quem tivesse vendo peitos e quisesse checar bundas, recorria ao espelho. 

Deixei Silas se achando Sean Penn e encostei no bar. Uma menina dos seus 19 anos veio por trás e massageou minhas costas, perguntou meu nome. Pedi uma cerveja. Ela até gostosinha, coxuda, bunduda, peitinhos. Dei mais um gole e fiquei olhando. Um biquíni branco com saia preta de renda por cima. A luz negra realçava o biquininho entrando na bunda. Cheiro ruim, Avon, Revlon, algum crème de quinta pra baixar o cabelo ondulado. Ela deve ter achado que eu apreciava, talvez pelo tempo de pouso do olhar, cada parte do seu corpo, mas a verdade é que eu construía em mente um possível paradeiro pra ela. Deve ser do oeste catarinense, Xanxerê, Chapecó, alguma prima ligou pra ela aqui de São Paulo dizendo que dançava num clube e descolava mais grana que cuidando das galinhas. Sentou no meu colo e deu pequenos solavancos que casavam com a batida da música. Continuou nos solavancos e me puxou pela nuca pra perto. Beijei seu pescoço e avancei pra boca, mas ela forçou contra, argumentando que não podia beijar clientes, que se fosse pra rolar alguma coisa, 70 reais, toalhas e subimos pro quarto. Pedi um whisky com flashpower e um keep cooler pra ela. 

No quarto, já pelados, tomamos um banhinho. Tentei sair do protocolo e puxar um papo menos pega estica e enfia. Mas ela era lisa como um lontra, não entrava em detalhes, nada de trânsito afetivo, queria mesmo é que eu gozasse o mais rápido possível pra fazer cushkiiiiiim no caixa. Meti meia bomba escorando o pau pela base. Camisinha, claro. Enquanto ela chafurdava a cara no lençol e fingia prazer, levantei a cabeça pra me ver em ação no espelho. Que situação. Como os filmes fazem a cabeça da gente. Quanta pornochanchada e sexytime arquivados no cerebelo me fazem acreditar que estar neste quarto é absolutamente normal, sendo que eu não sinto prazer de nenhuma espécie no ritual. E quanto mais pensava nessas e noutras coisas, a a cópula perdia força. Foi a brecha pra baterem na porta. O leão de chácara perguntando se era crédito ou débito. Sacou uma máquineta de visa electron e pediu meu cartão. Fui até a calça, amarrotada no chão, e tirei a carteira. Pelado, no corredor do puteiro, digitei a senha e peguei o comprovante.